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Vodca

/ˈvɔdʒkɐ/

Do russo voda, água: a aguinha das farmácias polonesas virou a bebida da mesa

Frascos de boticário com destilado transparente e ervas secas

Vodca: a aguinha da botica polonesa

▼

O Houaiss define vodca como “aguardente de origem russa, obtida pela destilação de cereais”. A definição serve para o rótulo da garrafa e deixa de fora o que a palavra carrega dentro dela: vodca quer dizer aguinha.

Em russo, água se diz voda. O final -ka, colado a um substantivo, faz o papel do nosso -inho: reka (rio) vira rechka (riozinho), e voda vira vodka. A bebida de 40 graus servida no inverno de Moscou atende, ao pé da letra, por um apelido carinhoso da água da torneira.

O apelido não nasceu em Moscou nem na mesa. O registro escrito mais antigo da forma aparece na Polônia, em 1405, nos papéis do tribunal de Sandomierz, cidade às margens do rio Vístula. Ali, wódka (a mesma aguinha, na grafia polonesa) designava um líquido de botica, não de festa.

Por mais de cem anos, os poloneses usaram a palavra para tinturas de ervas, loções para a pele e remédios de estômago. Para o destilado de beber, tinham outro termo, gorzałka (de gorzeć, arder), a bebida que queima a garganta.

A troca de um sentido pelo outro levou séculos. Envolveu boticários, mosteiros, um monopólio real de tavernas e uma briga entre dois países sobre quem inventou a bebida. Nenhum documento achado até hoje encerra essa briga.

O português recebeu a palavra já pronta, pela porta do russo, e precisou trocar uma letra para acomodá-la. Antes de chegar aqui, porém, ela teve de atravessar a fronteira entre o frasco do remédio e o copo da taverna, e mudar de dono no caminho.

A primeira parada dessa viagem fica milhares de anos antes de Sandomierz, numa raiz que o russo divide com o inglês, o grego e o latim.

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I  A Raiz

A água por trás do apelido

A resposta de ontem

Onde está hoje a pedra do Código de Hamurábi?

Está no Museu do Louvre, em Paris. A estela de basalto foi levada da Babilônia para Susa, no atual Irã, como espólio de guerra pelo rei elamita Shutruk-Nakhunte, perto de 1158 a.C., e foi achada ali pela expedição francesa de Jacques de Morgan no inverno de 1901 para 1902.

Voda descende de uma raiz indo-europeia reconstruída pelos linguistas como *wed- (molhado, água), falada nas estepes entre o mar Negro e o mar Cáspio há uns seis mil anos. Nenhum texto dessa língua sobreviveu; ela é deduzida pela comparação das línguas filhas.

As filhas são muitas. Do mesmo tronco vêm water, do inglês, e Wasser, do alemão. Vem o grego hýdor (água), que deu hidrogênio, hidratar e hidráulica. Vem o latim unda (onda), que o português guardou em onda, ondular e inundar.

O dicionário etimológico do russo escrito pelo alemão Max Vasmer, publicado entre 1950 e 1958, liga vodka a voda sem rodeio. O sufixo -ka é dos mais comuns das línguas eslavas: forma diminutivos e também transforma palavras em nomes de objetos e de produtos.

Resta saber por que alguém chamaria de aguinha um líquido que queima a boca. A resposta está na farmácia medieval, e ela vale para toda a Europa, não só para os eslavos.

Os alquimistas e médicos do século 13 chamavam o líquido destilado de aqua vitae (água da vida, em latim). Atribui-se ao médico catalão Arnaldo de Vilanova, que ensinou em Montpellier, a fama do destilado como remédio capaz de prolongar a vida e espantar a velhice.

Toda a Europa chamou o destilado de água; os eslavos só acrescentaram o carinho.

O vocabulário dos boticários seguiu a mesma lógica. Água de rosas, água de canela, água de alecrim: qualquer extrato tirado no alambique era uma água. Uma wódka polonesa do século 15 era, nessa linha, uma pequena água de ervas, medida às colheres.

A ideia de bebida forte como remédio é bem mais antiga que o alambique. A Bíblia já a receitava para quem sofre:

“Dai bebida forte ao que está prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de espírito.” (Provérbios 31:6, Bíblia, tradução de João Ferreira de Almeida, 1681)

O versículo fala de vinho e de cerveja, pois a destilação ainda não existia em Israel. Mas a receita coincide com a dos boticários de Cracóvia aplicariam mais de dois mil anos depois: álcool para aliviar a dor, dado em dose pequena e por quem entendia de doença.

O polonês, aliás, guardou também a forma latina. Okowita, palavra antiga para aguardente forte, é a aqua vitae dos médicos pronunciada por bocas polonesas, com as vogais gastas pelo uso.

 
 

II  A Viagem

Do boticário à taverna do czar

Em 1534, o naturalista Stefan Falimirz publicou em Cracóvia o herbário O ziołach i o mocy ich (Sobre as ervas e a força delas). O livro traz dezenas de receitas de wódki, plural de wódka, cada uma indicada para um mal: digestão, febre, cansaço, pele.

Ali a palavra já aparece fixa, com sentido técnico. A wódka de Falimirz não se bebia no jantar. Tomava-se em gotas ou passava-se no corpo, do mesmo jeito que hoje se usa um xarope ou um álcool canforado.

Em 1496, o rei Jan Olbracht deu à nobreza polonesa o direito de destilar e vender aguardente nas próprias terras. Os alambiques saíram das boticas e dos mosteiros e foram para as fazendas, onde sobrava centeio.

O destilado de beber, mais barato e mais forte, seguiu chamado de gorzałka por muito tempo. A aguinha de farmácia e a bebida que queima conviveram lado a lado, como hoje convivem o álcool de farmácia e a cachaça.

A palavra entrou na farmácia como diminutivo e saiu da taverna como imposto.

Na Rússia, a bebida chegou com outro rótulo. Os documentos de Moscou chamavam o destilado de khlebnoe vino (vinho de pão, porque vinha do cereal) ou goryachee vino (vinho ardente). A palavra vodka circulava, mas presa às tinturas aromáticas, as vodki com ervas e frutas.

Na década de 1550, o czar Ivan IV, o Terrível, espalhou pelo país o kabak (a taverna do Estado), onde só a Coroa podia vender bebida. O monopólio rendeu tanto que o imposto sobre o destilado sustentou o tesouro russo por séculos, e a palavra oficial continuou sendo vinho.

A aguinha só foi parar no papel do império bem depois, quando os destiladores já usavam o termo havia gerações e a lei teve de alcançá-los.

Em 1977, a viagem da palavra virou caso de Estado. A Polônia questionou o direito soviético de vender vodca no exterior como bebida russa de origem. Para a defesa, o historiador da culinária William Pokhlebkin escreveu um longo estudo sobre a história da bebida, publicado em livro em 1991.

Conta-se que uma corte internacional deu razão aos soviéticos em 1982. Pesquisadores que foram atrás da sentença não acharam registro dela, e a dúvida continua aberta pela falta de papel: a vitória russa pode ter sido só uma boa história contada por um dos lados.

 

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III  O Que Fica

Uma letra trocada no português

A palavra entrou no português pelo francês e pelo inglês, que escreviam vodka, no século 19. Os escritores brasileiros a usaram assim por décadas, com k, até que a ortografia oficial fechou a porta.

O Formulário Ortográfico de 1943, adotado no Brasil, tirou o k do alfabeto. Palavra estrangeira que quisesse ficar teria de se vestir de português, e vodka ganhou um c no lugar do k: vodca.

O Acordo Ortográfico de 1990, em vigor no Brasil desde 2009, devolveu o k ao alfabeto. A grafia aportuguesada, porém, ficou: o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra vodca, e o rótulo das garrafas segue com vodka.

O português já tinha a sua própria água que arde. Aguardente junta água e ardente na mesma palavra, e repete o raciocínio do gorzałka polonês: o destilado batizado pelo fogo que deixa na boca.

A vodca diz água pelo carinho; a aguardente diz água pelo fogo.

Quase todas as línguas da Europa fizeram o mesmo caminho. Uísque vem do gaélico uisce beatha (água da vida). O francês diz eau-de-vie (água da vida). O escandinavo diz akvavit, a aqua vitae com sotaque do norte.

A marca que levou a vodca para o resto do mundo também carrega uma troca de letra. Pyotr Smirnov fundou uma destilaria em Moscou no século 19. Depois da Revolução de 1917, o filho Vladimir fugiu do país e, em Paris, passou a assinar Smirnoff, à francesa.

Vladimir vendeu os direitos americanos da marca em 1933 a Rudolph Kunett, outro emigrado russo. A garrafa vendida nos Estados Unidos a partir dali saiu com a grafia de Paris, e foi essa que correu o planeta.

No Brasil, a aguinha ganhou ainda um parente inventado. Caipiroska, a caipirinha feita com vodca, imita o som do russo com o final -oska, que nenhum russo usa: um diminutivo de mentira colado num diminutivo de verdade.

Quem quiser sentir a água dentro da palavra pode seguir três passos.

1. Diga voda e depois vodka devagar, e repare no -ka que transforma água em aguinha.

2. Leia o rótulo de uma aguardente e de uma vodca lado a lado: as duas falam de água, uma pelo fogo e outra pelo carinho.

3. Procure água de rosas numa farmácia de manipulação: o produto guarda o sentido de água que a wódka tinha em 1405.

A palavra começou numa raiz de seis mil anos, virou aguinha de boticário na Polônia e chegou ao copo sem perder o disfarce de água. Na Rússia, porém, ela demorou a ganhar papel oficial, presa ao vinho de pão das leis do czar.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que ano um decreto do governo russo escreveu a palavra vodca pela primeira vez?

 
 
 
 
Quiz da edição

Onde apareceu o registro escrito mais antigo da palavra vodca, em 1405?

ANos papéis do tribunal de Sandomierz, na Polônia
BNum decreto da corte de Moscou
CNo herbário de Stefan Falimirz, em Cracóvia
DNos registros de uma taverna do czar Ivan IV

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