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Vampiro

/vɐ̃ˈpi.ɾu/

Do sérvio vampir: a palavra saiu de um relatório militar de 1725 e chegou aos jornais de Viena

Cova aberta num cemitério de aldeia sérvia do século 18, com um relatório lacrado

Kisiljevo, 1725: a cova aberta diante do oficial

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O Dicionário Houaiss define assim: “vampiro: segundo a crença popular, morto que sai da sepultura à noite para sugar o sangue dos vivos”. A definição acerta a lenda e cala a data. A crença é velha, e a palavra, na Europa ocidental, tem certidão de nascimento: um papel oficial assinado em 1725.

Kisiljevo era uma aldeia sérvia na fronteira que a Áustria tinha tomado dos otomanos em 1718. Ali morreu, naquele ano, um camponês chamado Petar Blagojević.

Nas semanas seguintes, nove moradores adoeceram e morreram em oito dias. Antes do fim, cada um contou que Petar tinha aparecido de noite, se deitado sobre ele e apertado o pescoço. A viúva disse que o marido voltou para casa pedindo os sapatos.

Os camponeses procuraram o oficial austríaco do distrito, um provisor (funcionário que administrava a região em nome de Viena) chamado Frombald. Queriam abrir a cova. Se a autoridade negasse, avisaram, abandonariam a aldeia inteira.

Frombald foi até o cemitério com o padre local. O relatório que ele mandou depois descreve o corpo sem cheiro de podre, a pele nova por baixo da velha, cabelo e unhas crescidos e sangue fresco na boca.

Os aldeões cravaram uma estaca de madeira no peito do cadáver e queimaram o que sobrou. Frombald registrou tudo e pediu, no próprio texto, que não o culpassem: tinha cedido ao medo do povo.

Para nomear o morto, o oficial usou a palavra que ouviu dos camponeses, vampyri. O relatório foi impresso no Wienerisches Diarium, o jornal oficial de Viena, em julho daquele ano, e a palavra começou a circular por leitores que nunca tinham pisado nos Bálcãs.

Os médicos de hoje explicam o que Frombald viu. Gases inflam o corpo, a pele de cima se solta, a gengiva recua e faz unha e cabelo parecerem maiores, e um líquido escuro sobe dos pulmões até a boca. Era decomposição comum, lida com o medo de quem a via pela primeira vez.

Faltava saber de onde os camponeses tinham tirado a palavra. A resposta está no eslavo antigo, séculos antes da aldeia.

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I  A Raiz

Um padre de Novgorod chamado Upir

A forma sérvia vampir tem parentes em quase toda a família eslava: upir no ucraniano antigo, upiór no polonês, vapir no búlgaro. Os linguistas reconstroem uma raiz comum, *ǫpyrь (forma deduzida, sem registro escrito), que teria circulado no eslavo comum antes do ano 1000.

O registro mais antigo dessa família não é uma lenda. É um apelido. Em 1047, um padre de Novgorod, no norte da atual Rússia, copiou um livro de profecias e assinou no final como Upir Likhyi, algo como “o vampiro malvado” ou “o vampiro manco”, conforme a tradução.

Ninguém sabe por que um clérigo aceitaria esse apelido. Os estudiosos tratam o caso como sinal de que a palavra já existia na língua falada, sem ainda nomear o morto que bebe sangue, ou nomeando uma figura que assustava menos.

A palavra que o Ocidente achou bárbara já assinava um manuscrito cristão sete séculos antes de Kisiljevo.

A origem da raiz eslava continua em disputa, e os dicionários etimológicos registram pelo menos três hipóteses.

A primeira liga *ǫpyrь a um verbo eslavo de voar ou de bater asas, o que aproximaria o vampiro de uma criatura alada. A segunda o liga a um verbo de beber, com um prefixo de negação, e faria do vampiro “o que não bebe” ou “o que bebe errado”.

A terceira hipótese busca a palavra fora do eslavo. No tártaro, língua turca falada no Volga, ubyr quer dizer bruxa ou espírito que se alimenta dos vivos. Os povos turcos e eslavos conviveram por séculos na planície russa, e a troca de palavras entre eles é bem documentada.

Nenhuma das três hipóteses venceu. O linguista Max Vasmer, no Dicionário Etimológico da Língua Russa, publicado entre 1950 e 1958, registra a palavra e declara a origem obscura.

O som também mudou no caminho. O ǫ nasal do eslavo antigo virou u no russo e no ucraniano, e na Sérvia e na Bulgária ganhou a forma am ou em, com o m nasal que o tempo guardou. Daí sai o vam de vampir.

O v inicial aparece em vários dialetos dos Bálcãs como apoio diante de vogal, recurso comum nas línguas eslavas do sul. Quando Frombald escreveu vampyri, apenas transcreveu o som sérvio em letras alemãs, com y no lugar do i.

A crença por trás da palavra também tinha regras próprias nos Bálcãs. O morto que voltava era quem tinha morrido sem os ritos da Igreja, quem fora excomungado ou quem tivera um animal pulando sobre o caixão no velório.

 
 

II  A Viagem

De Viena a Paris em vinte anos

Em 1725, o caso de Kisiljevo foi notícia curta. A palavra só virou assunto europeu sete anos depois, com outra aldeia sérvia, Medveđa.

Ali um ex-soldado chamado Arnold Paole (Arnaut Pavle, em sérvio) tinha morrido por volta de 1727, depois de cair de uma carroça de feno. Em vida, contava que um vampiro o atacara na Grécia e que ele se curou comendo terra da cova do agressor.

Em 1731, novas mortes em Medveđa levaram o Exército austríaco a mandar um cirurgião militar, Johann Flückinger. Em janeiro de 1732, ele e outros oficiais exumaram dezessete corpos, e o laudo saiu com o título latino Visum et Repertum (Visto e Constatado).

O texto de Flückinger foi reimpresso em Nuremberg, em Leipzig, em Paris e em Londres no mesmo ano. Universidades alemãs abriram debates sobre o tema, e dezenas de tratados saíram em latim e em alemão até 1735.

O vampiro entrou na Europa pela burocracia: dois relatórios carimbados fizeram o serviço que nenhuma lenda tinha feito.

O francês adotou vampire nesse período, e o inglês registrou vampyre em 1732, na imprensa de Londres que reproduziu o laudo de Medveđa. O português recebeu vampiro pelo francês, que era a língua da ciência e das gazetas lidas em Lisboa no século 18.

Em 1746, o monge beneditino Augustin Calmet publicou em Paris uma dissertação sobre aparições de anjos, demônios e espíritos, com metade das páginas dedicada aos vampiros da Hungria e da Morávia. O livro teve várias edições e espalhou os casos sérvios por toda a Europa católica.

Calmet não chegou a uma conclusão firme. Recolheu os testemunhos, apontou contradições e deixou o julgamento ao leitor, o que bastou para os céticos o acusarem de dar crédito à superstição.

A resposta oficial veio de Viena. A imperatriz Maria Teresa mandou seu médico pessoal, o holandês Gerard van Swieten, investigar casos de exumação na Morávia. O relatório dele tratou tudo como decomposição mal compreendida, e em 1755 a imperatriz proibiu que padres e aldeões abrissem covas por conta própria.

Voltaire entrou na briga com ironia. Nas Questões sobre a Enciclopédia, de 1772, escreveu que os verdadeiros sugadores de sangue moravam nos palácios e nos escritórios de Paris e Londres, e não nos cemitérios.

Com Voltaire, a palavra ganhou o segundo sentido que o português ainda usa: o explorador que vive do trabalho ou do dinheiro dos outros.

 

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III  O Que Fica

O morcego, o lorde e o capital

A ciência também levou a palavra. Em 1758, o naturalista sueco Carl Linnaeus classificou um grande morcego asiático comedor de frutas como Vespertilio vampyrus (morcego vampiro), por causa da aparência, sem relação com sangue.

Os morcegos que de fato se alimentam de sangue vivem nas Américas, do México à Argentina. O mais comum, Desmodus rotundus (o morcego-vampiro comum), foi descrito em 1810 pelo naturalista francês Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, e o nome popular inverteu a lógica: o morcego herdou o nome da lenda europeia.

No Brasil, Desmodus rotundus ataca sobretudo gado e transmite raiva aos rebanhos, e o Ministério da Agricultura mantém um programa nacional de controle da raiva dos herbívoros.

A literatura deu ao vampiro a cara de hoje. Em 1819, o médico inglês John Polidori publicou o conto O Vampiro, com um aristocrata frio e sedutor chamado Lorde Ruthven, desenhado a partir do poeta Lorde Byron, de quem Polidori era médico particular.

O camponês de Kisiljevo pedia os sapatos; o vampiro dos livros pede convite para entrar no salão.

Em 1897, o irlandês Bram Stoker publicou Drácula, e o conde da Transilvânia fixou o resto: a capa, o caixão, a aversão ao alho e a viagem de navio. Stoker montou o cenário com guias de viagem da Europa central e trocou a Sérvia pela Transilvânia, então parte do Império Austro-Húngaro.

O sentido figurado firmou-se no século 19. Karl Marx, em O Capital, de 1867, escreveu: “O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, só se anima sugando trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.” A comparação de Voltaire virou argumento de economia política.

O português guardou os dois usos. Vampiro nomeia a criatura da lenda, o morcego hematófago (que se alimenta de sangue) e a pessoa que explora os outros, e o verbo vampirizar ainda serve para quem suga energia ou dinheiro alheio.

Kisiljevo existe até hoje, no município de Veliko Gradište, no leste da Sérvia, perto do rio Danúbio. A aldeia de Petar Blagojević é pequena e rural, e o cemitério onde Frombald assistiu à exumação não tem placa que marque a cova.

Quem quiser refazer a viagem da palavra pode seguir três passos.

1. Procure o caso de Petar Blagojević nas reproduções do relatório de Frombald, publicadas em coletâneas sobre o folclore sérvio. É o registro que levou a palavra a Viena.

2. Compare vampiro, upiór e ubyr num dicionário etimológico, como o de Max Vasmer. As três formas mostram as hipóteses ainda abertas sobre a raiz.

3. Releia o trecho de O Capital, de 1867, citado acima e repare como o sentido figurado já supõe que o leitor conhece a lenda dos Bálcãs.

Responda este email contando qual foi o primeiro vampiro que você viu num filme ou num livro.

“Na sua família, alguém ainda chama de vampiro quem vive do dinheiro alheio?”

 
 
 
 
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