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A ciência também levou a palavra. Em 1758, o naturalista sueco Carl Linnaeus classificou um grande morcego asiático comedor de frutas como Vespertilio vampyrus (morcego vampiro), por causa da aparência, sem relação com sangue.
Os morcegos que de fato se alimentam de sangue vivem nas Américas, do México à Argentina. O mais comum, Desmodus rotundus (o morcego-vampiro comum), foi descrito em 1810 pelo naturalista francês Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, e o nome popular inverteu a lógica: o morcego herdou o nome da lenda europeia.
No Brasil, Desmodus rotundus ataca sobretudo gado e transmite raiva aos rebanhos, e o Ministério da Agricultura mantém um programa nacional de controle da raiva dos herbívoros.
A literatura deu ao vampiro a cara de hoje. Em 1819, o médico inglês John Polidori publicou o conto O Vampiro, com um aristocrata frio e sedutor chamado Lorde Ruthven, desenhado a partir do poeta Lorde Byron, de quem Polidori era médico particular.
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O camponês de Kisiljevo pedia os sapatos; o vampiro dos livros pede convite para entrar no salão.
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Em 1897, o irlandês Bram Stoker publicou Drácula, e o conde da Transilvânia fixou o resto: a capa, o caixão, a aversão ao alho e a viagem de navio. Stoker montou o cenário com guias de viagem da Europa central e trocou a Sérvia pela Transilvânia, então parte do Império Austro-Húngaro.
O sentido figurado firmou-se no século 19. Karl Marx, em O Capital, de 1867, escreveu: “O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, só se anima sugando trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.” A comparação de Voltaire virou argumento de economia política.
O português guardou os dois usos. Vampiro nomeia a criatura da lenda, o morcego hematófago (que se alimenta de sangue) e a pessoa que explora os outros, e o verbo vampirizar ainda serve para quem suga energia ou dinheiro alheio.
Kisiljevo existe até hoje, no município de Veliko Gradište, no leste da Sérvia, perto do rio Danúbio. A aldeia de Petar Blagojević é pequena e rural, e o cemitério onde Frombald assistiu à exumação não tem placa que marque a cova.
Quem quiser refazer a viagem da palavra pode seguir três passos.
1. Procure o caso de Petar Blagojević nas reproduções do relatório de Frombald, publicadas em coletâneas sobre o folclore sérvio. É o registro que levou a palavra a Viena.
2. Compare vampiro, upiór e ubyr num dicionário etimológico, como o de Max Vasmer. As três formas mostram as hipóteses ainda abertas sobre a raiz.
3. Releia o trecho de O Capital, de 1867, citado acima e repare como o sentido figurado já supõe que o leitor conhece a lenda dos Bálcãs.
Responda este email contando qual foi o primeiro vampiro que você viu num filme ou num livro.
“Na sua família, alguém ainda chama de vampiro quem vive do dinheiro alheio?”
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