|
O árabe monta boa parte do vocabulário sobre raízes de três consoantes, e cada raiz carrega uma ideia. A raiz de tarifa junta o ’ayn (um som de garganta que o português não tem) com r e f. A ideia é saber, reconhecer.
O verbo simples é ’arafa, “ele soube” ou “ele reconheceu”. Quando o árabe dobra a consoante do miolo, o verbo ganha sentido de causa: ’arrafa quer dizer “fez saber”, “informou”, “apresentou”.
Desse segundo verbo nasce o substantivo ta’rīf, o ato de fazer saber. Conforme a frase, ele se traduz por notificação, apresentação ou definição. Quando alguém apresenta uma pessoa a outra em árabe, faz um ta’rīf; quando o dicionário explica uma palavra, também.
A mesma raiz deu outras palavras de uso diário. Ma’rifa é o conhecimento. ’Urf é o costume, aquilo que a comunidade inteira conhece e aceita sem precisar escrever.
O aviso do mercado
No comércio, fazer saber tinha um objeto evidente: o preço. A forma ta’rīfa, com a terminação feminina, acabou nomeando a lista que informava quanto se pagava por mercadoria, por serviço ou por imposto. O árabe moderno ainda usa a palavra pra tabela de preços.
O mercado das cidades árabes tinha fiscal próprio, o muhtasib (o encarregado de vigiar pesos, medidas e preços). O cargo atravessou pra Península Ibérica, e o português guardou a palavra: almotacé, o funcionário municipal que aferia balanças e fixava preços nas vilas portuguesas.
Pra quem comprava, o aviso era proteção. Preço anunciado antes do negócio é preço que o vendedor não pode inventar na hora, conforme a cara do freguês.
|
Antes de ser preço, tarifa era o ato de avisar.
|
A partícula da definição
A raiz chega até a gramática. Os gramáticos árabes chamam o artigo al- de adāt at-ta’rīf, a partícula da definição. É ela que transforma kitāb, “um livro”, em al-kitāb, “o livro”, aquele que você já conhece.
Um substantivo com artigo, em árabe, é um substantivo dado a conhecer. A tabela de preços e o artigo definido saem do mesmo verbo e prestam o mesmo serviço: tiram uma informação do escuro e põem diante de quem precisa dela.
Até a definição do Priberam, citada no começo, seria chamada em árabe de ta’rīf. O verbete que explica tarifa faz, sem saber, o trabalho que a palavra fazia no mercado.
|
|
Os mercadores de Veneza e de Gênova negociavam havia séculos em portos de língua árabe, como Alexandria, no Egito, e Túnis, no norte da África. Compravam pimenta, algodão e açúcar, pagavam taxas e voltavam pra casa com mercadoria e vocabulário.
O italiano dos portos absorveu esse vocabulário em quantidade. Dogana, a alfândega, vem de dīwān (registro, repartição). Magazzino, o depósito, vem de makhāzin (depósitos). Arsenale, o estaleiro de Veneza, vem de dār as-sinā’a (casa da fabricação).
Tariffa entrou no mesmo lote, vinda de ta’rīfa. O caminho exato tem uma lacuna que os documentos não preenchem. Os dicionários concordam na origem árabe e na passagem pelo italiano; alguns incluem uma escala no turco otomano, em que a palavra virou tarife. Qual porto ouviu a palavra antes, nenhum registro conhecido responde.
No italiano do século 16, tariffa já servia pra qualquer tabela de números prontos: lista de preços, livro de taxas, quadro de cálculos feitos.
O dicionarista John Florio, que ensinava italiano em Londres, registrou esse uso em A Worlde of Wordes (Um Mundo de Palavras), de 1598: tariffa era “arithmetike or casting of accounts”, a aritmética, o lançamento de cálculos.
O inglês já tinha usado a palavra em 1591, num manual militar. The Arte of Warre (A Arte da Guerra), de William Garrard, publicado por Robert Hitchcock, chamava de tariffas as tabelas pra dispor soldados em formação. Em 1592, numa carta, o diplomata Henry Wotton usou tariffa pros impostos das cidades do grão-duque da Toscana.
O português recebeu a palavra por essa porta italiana, segundo o Priberam, e cortou um dos efes. Outras palavras árabes do comércio chegaram por duas portas e ficaram em dobro. Armazém veio direto do árabe da Península, com o artigo grudado (al-makhzan, o depósito); magazine, a loja grande, fez a volta longa pelo italiano magazzino e pelo francês magasin (loja).
A cidade do estreito
Tarifa, a cidade, fica na província de Cádiz. Ela deve o batismo a Tarif ibn Malik (Tarif, filho de Malik), comandante berbere a serviço do governador árabe Musa ibn Nusayr, que em julho de 710 cruzou o estreito num ataque de reconhecimento. Os árabes chamaram o lugar de Jazīrat Tarīf, a ilha de Tarif.
No ano seguinte, outro comandante, Tariq ibn Ziyad, cruzou com o exército inteiro e batizou o rochedo vizinho: Gibraltar vem de Jabal Tāriq, o monte de Tariq.
Em letras latinas, Tarif e ta’rīf parecem a mesma palavra com um apóstrofo a mais. Em árabe, diferem em duas letras. Tarif começa pelo tá enfático, um t pronunciado com a língua recuada. Ta’rīf começa pelo tá comum e leva no miolo o ’ayn, o som de garganta da raiz de saber.
|
A cidade e a palavra se parecem no alfabeto latino e se separam no árabe.
|
O nome Tarif pertence a outra família, a do tá enfático com r e f, que também dá taraf, “ponta” ou “borda”. A coincidência é curiosa pra uma cidade na ponta da Europa, mas não liga o comandante ao aviso.
Os dicionários de referência dos dois países ibéricos ignoram a cidade. O Diccionario de la lengua española (Dicionário da Língua Espanhola), da Real Academia Española, deriva tarifa do árabe falado na Península, ta’rīfa, e este do árabe clássico ta’rīf, “definição”. O Priberam aponta o italiano. Nenhum dos dois põe Tarifa no verbete.
|