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Tarifa

/taˈɾi.fɐ/

Do árabe ta’rīf: o aviso de preço, pelos portos da Itália

Mercador árabe afixa aviso de preços num porto medieval

O aviso de preços num porto do Mediterrâneo

▼

O Priberam define assim, no sentido do comércio: “tabela de preços cobrados”. A definição descreve o papel pregado na parede e esquece o gesto que veio antes dele. Em árabe, ta’rīf era o ato de fazer saber, e só depois a palavra nomeou a lista.

Uma tabela de preços só funciona quando alguém consegue ler. O preço guardado na gaveta do comerciante não ajuda quem compra; ajuda o preço dito, escrito e mostrado antes do negócio. A palavra árabe guardava essa ordem: primeiro avisar, depois cobrar.

Muita gente que já ouviu falar da origem de tarifa ouviu outra versão. Ela começa no sul da Espanha, na cidade de Tarifa, a ponta da Europa continental, de onde se enxergam as montanhas do Marrocos em dia claro.

Os mouros que guardavam o estreito, conta a lenda, cobravam pedágio de todo navio que passava entre o Atlântico e o Mediterrâneo. A lista das cobranças teria herdado o batismo da cidade, e de lá a palavra teria corrido os portos da Europa.

A versão aparece em guias de viagem e em listas de curiosidades, e tem tudo pra pegar: um porto estratégico, navios obrigados a passar, as mesmas seis letras no alfabeto latino. Falta só uma prova. Em árabe, a cidade e a palavra se escrevem de outro jeito e saem de famílias que não se cruzam.

A rota documentada passa longe do estreito. A palavra saiu dos mercados de língua árabe, ganhou forma nos cais de Veneza e de Gênova e chegou ao português pelo italiano tariffa, escrito com dois efes.

No caminho, ela mudou de sentido pelo menos três vezes. Foi aviso, foi tabela de cálculos, foi imposto, e hoje é o que você paga pra subir num ônibus ou acender a luz de casa.

Pra entender como um aviso virou preço, é preciso abrir o verbo árabe que dava a conhecer.

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I  A Raiz

Saber, avisar, cobrar

O árabe monta boa parte do vocabulário sobre raízes de três consoantes, e cada raiz carrega uma ideia. A raiz de tarifa junta o ’ayn (um som de garganta que o português não tem) com r e f. A ideia é saber, reconhecer.

O verbo simples é ’arafa, “ele soube” ou “ele reconheceu”. Quando o árabe dobra a consoante do miolo, o verbo ganha sentido de causa: ’arrafa quer dizer “fez saber”, “informou”, “apresentou”.

Desse segundo verbo nasce o substantivo ta’rīf, o ato de fazer saber. Conforme a frase, ele se traduz por notificação, apresentação ou definição. Quando alguém apresenta uma pessoa a outra em árabe, faz um ta’rīf; quando o dicionário explica uma palavra, também.

A mesma raiz deu outras palavras de uso diário. Ma’rifa é o conhecimento. ’Urf é o costume, aquilo que a comunidade inteira conhece e aceita sem precisar escrever.

O aviso do mercado

No comércio, fazer saber tinha um objeto evidente: o preço. A forma ta’rīfa, com a terminação feminina, acabou nomeando a lista que informava quanto se pagava por mercadoria, por serviço ou por imposto. O árabe moderno ainda usa a palavra pra tabela de preços.

O mercado das cidades árabes tinha fiscal próprio, o muhtasib (o encarregado de vigiar pesos, medidas e preços). O cargo atravessou pra Península Ibérica, e o português guardou a palavra: almotacé, o funcionário municipal que aferia balanças e fixava preços nas vilas portuguesas.

Pra quem comprava, o aviso era proteção. Preço anunciado antes do negócio é preço que o vendedor não pode inventar na hora, conforme a cara do freguês.

Antes de ser preço, tarifa era o ato de avisar.

A partícula da definição

A raiz chega até a gramática. Os gramáticos árabes chamam o artigo al- de adāt at-ta’rīf, a partícula da definição. É ela que transforma kitāb, “um livro”, em al-kitāb, “o livro”, aquele que você já conhece.

Um substantivo com artigo, em árabe, é um substantivo dado a conhecer. A tabela de preços e o artigo definido saem do mesmo verbo e prestam o mesmo serviço: tiram uma informação do escuro e põem diante de quem precisa dela.

Até a definição do Priberam, citada no começo, seria chamada em árabe de ta’rīf. O verbete que explica tarifa faz, sem saber, o trabalho que a palavra fazia no mercado.

 
 

II  A Viagem

Pelos cais da Itália

Os mercadores de Veneza e de Gênova negociavam havia séculos em portos de língua árabe, como Alexandria, no Egito, e Túnis, no norte da África. Compravam pimenta, algodão e açúcar, pagavam taxas e voltavam pra casa com mercadoria e vocabulário.

O italiano dos portos absorveu esse vocabulário em quantidade. Dogana, a alfândega, vem de dīwān (registro, repartição). Magazzino, o depósito, vem de makhāzin (depósitos). Arsenale, o estaleiro de Veneza, vem de dār as-sinā’a (casa da fabricação).

Tariffa entrou no mesmo lote, vinda de ta’rīfa. O caminho exato tem uma lacuna que os documentos não preenchem. Os dicionários concordam na origem árabe e na passagem pelo italiano; alguns incluem uma escala no turco otomano, em que a palavra virou tarife. Qual porto ouviu a palavra antes, nenhum registro conhecido responde.

No italiano do século 16, tariffa já servia pra qualquer tabela de números prontos: lista de preços, livro de taxas, quadro de cálculos feitos.

O dicionarista John Florio, que ensinava italiano em Londres, registrou esse uso em A Worlde of Wordes (Um Mundo de Palavras), de 1598: tariffa era “arithmetike or casting of accounts”, a aritmética, o lançamento de cálculos.

O inglês já tinha usado a palavra em 1591, num manual militar. The Arte of Warre (A Arte da Guerra), de William Garrard, publicado por Robert Hitchcock, chamava de tariffas as tabelas pra dispor soldados em formação. Em 1592, numa carta, o diplomata Henry Wotton usou tariffa pros impostos das cidades do grão-duque da Toscana.

O português recebeu a palavra por essa porta italiana, segundo o Priberam, e cortou um dos efes. Outras palavras árabes do comércio chegaram por duas portas e ficaram em dobro. Armazém veio direto do árabe da Península, com o artigo grudado (al-makhzan, o depósito); magazine, a loja grande, fez a volta longa pelo italiano magazzino e pelo francês magasin (loja).

A cidade do estreito

Tarifa, a cidade, fica na província de Cádiz. Ela deve o batismo a Tarif ibn Malik (Tarif, filho de Malik), comandante berbere a serviço do governador árabe Musa ibn Nusayr, que em julho de 710 cruzou o estreito num ataque de reconhecimento. Os árabes chamaram o lugar de Jazīrat Tarīf, a ilha de Tarif.

No ano seguinte, outro comandante, Tariq ibn Ziyad, cruzou com o exército inteiro e batizou o rochedo vizinho: Gibraltar vem de Jabal Tāriq, o monte de Tariq.

Em letras latinas, Tarif e ta’rīf parecem a mesma palavra com um apóstrofo a mais. Em árabe, diferem em duas letras. Tarif começa pelo tá enfático, um t pronunciado com a língua recuada. Ta’rīf começa pelo tá comum e leva no miolo o ’ayn, o som de garganta da raiz de saber.

A cidade e a palavra se parecem no alfabeto latino e se separam no árabe.

O nome Tarif pertence a outra família, a do tá enfático com r e f, que também dá taraf, “ponta” ou “borda”. A coincidência é curiosa pra uma cidade na ponta da Europa, mas não liga o comandante ao aviso.

Os dicionários de referência dos dois países ibéricos ignoram a cidade. O Diccionario de la lengua española (Dicionário da Língua Espanhola), da Real Academia Española, deriva tarifa do árabe falado na Península, ta’rīfa, e este do árabe clássico ta’rīf, “definição”. O Priberam aponta o italiano. Nenhum dos dois põe Tarifa no verbete.

 

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III  O Que Fica

O preço anunciado

No português do Brasil, tarifa ocupou um território próprio: o preço de serviço público. Tarifa de ônibus, de energia, de água, de pedágio, tarifa bancária. Ninguém fala em tarifa do pão ou da camisa; pra mercadoria de loja, a palavra é preço.

A diferença tem peso de lei. Em 1969, o Supremo Tribunal Federal registrou na Súmula 545 (um enunciado que orienta os julgamentos seguintes) que preço de serviço público e taxa não se confundem. A taxa é tributo, criada por lei e obrigatória. A tarifa é preço, cobrado pela empresa que presta o serviço, dentro das regras do poder público.

O sentido árabe de fazer saber sobreviveu nesse território. Tarifa de serviço público costuma valer só depois de publicada: o reajuste sai em resolução da agência que regula o setor ou em decreto da prefeitura, com data marcada.

As cores da fatura

Desde 2015, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) usa as bandeiras tarifárias, um aviso em cores impresso na fatura de energia. Verde indica custo normal de geração. Amarela e vermelha avisam que a energia do mês está mais cara, em geral porque falta chuva nos reservatórios e as usinas térmicas entram em operação.

A bandeira na fatura de energia repete o gesto do mercado árabe: avisa antes de cobrar.

O aviso também pesa quando traz aumento. Em junho de 2013, a tarifa de ônibus de São Paulo subiu de R$ 3,00 pra R$ 3,20, e o reajuste deu partida a uma onda de protestos que se espalhou pelo país. O lema dos cartazes, “não é só por 20 centavos”, pôs a palavra tarifa nas ruas.

O português ainda inventou o aumentativo. Tarifaço, com o sufixo -aço de golaço e ricaço, nomeia o reajuste grande que chega todo junto, em vários serviços ou em muitos produtos num dia só.

No comércio comum, quem herdou o ta’rīf foi a lei. A Lei 10.962, de 2004, trata das “formas de afixação de preços de produtos e serviços para o consumidor”: o preço precisa estar à vista, na etiqueta, na prateleira ou no leitor de código de barras ao alcance do cliente.

Três heranças do verbo árabe seguem na palavra:

1. O aviso: tarifa é preço publicado, que o cliente pode conferir antes de pagar.

2. A tabela: o sentido italiano de lista de valores, vivo em tarifário e no verbo tarifar.

3. O serviço: no Brasil, tarifa é o preço do que se usa e não se leva pra casa, como transporte, energia e água.

A definição do Priberam acerta no objeto, a tabela de preços cobrados, e deixa o verbo de fora. Em árabe, antes de cobrar, o mercador fazia saber. A cidade de Tarifa recebeu o batismo de um comandante berbere; a palavra tarifa recebeu o seu de um aviso de mercado.

Qual tarifa você paga todo mês sem nunca ter visto a tabela?

 
 
 
 
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Qual livro de 1598 registrou a palavra italiana tariffa com o sentido de aritmética e lançamento de cálculos?

AThe Arte of Warre, de William Garrard
BA Worlde of Wordes, de John Florio
CUma carta do diplomata Henry Wotton
DO dicionário Priberam

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