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Tabu

/taˈbu/

Do tonganês tapu, o sagrado que não se toca: a Europa guardou só a proibição

Cerca de folhas de palmeira fincada numa praia de Tonga

O sagrado que ninguém podia tocar

▼

O Dicionário Houaiss abre o verbete assim: “tabu: proibição imposta por costume ou tradição”. A definição serve para o sexo na mesa de jantar, para o salário entre colegas e para a política no almoço de domingo, e falha na origem, porque o primeiro tabu registrado na Europa não proibia nada por vergonha. Proibia por excesso de sagrado.

Entre abril e julho de 1777, o capitão inglês James Cook passou quase três meses nas ilhas de Tonga, no Pacífico Sul, durante a terceira viagem que fazia ao redor do mundo. Os tonganeses receberam a expedição com festas, lutas e banquetes, e os ingleses trocaram ferro e pregos por porcos e inhames.

Num desses encontros, um grupo de tonganeses se recusou a sentar e a comer diante dele. Cook estranhou a recusa e quis saber o motivo. A resposta veio numa palavra só, que ele escreveu no diário como taboo.

Cook anotou que a palavra tinha sentido muito amplo e que, em geral, indicava algo proibido. Era um resumo honesto de quem só enxergava o efeito. Os tonganeses chamavam de tapu aquilo que estava separado do uso comum por pertencer aos deuses ou aos chefes, e a proibição vinha como consequência.

O termo cobria o corpo do rei, a cabeça de qualquer pessoa, um peixe guardado para a festa da colheita e um trecho de praia fechado para a pesca. Tocar no que era tapu não ofendia uma regra de etiqueta. Contaminava quem tocava.

Os marinheiros gostaram da palavra e a levaram para a Europa. Ela se espalhou como taboo em Londres e como tabou em Paris, e ao entrar no português já tinha deixado o sagrado no Pacífico, guardando só a placa de proibido.

Para entender a metade que se perdeu, é preciso começar pela língua em que tapu nasceu, séculos antes de qualquer navio inglês aparecer no horizonte.

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I  A Raiz

A cerca em volta do sagrado

Tapu pertence à família das línguas polinésias, faladas num triângulo de ilhas que vai do Havaí à Nova Zelândia e à Ilha de Páscoa. A forma aparece quase idêntica em toda a região: tapu em Tonga, em Samoa e entre os maoris da Nova Zelândia, kapu no Havaí.

Os linguistas reconstroem uma forma antiga, também tapu, falada pelos ancestrais desses povos antes de se espalharem pelo oceano. A semelhança indica que o conceito viajou nas canoas, junto com as mudas de inhame e os porcos.

Uma etimologia proposta, e discutida até hoje, divide a palavra em ta (marcar) e pu (intensamente). Tapu seria o que está marcado com força, separado do resto. Nem todos os especialistas aceitam a divisão, mas ela descreve bem o uso que Cook presenciou.

O par oposto era noa, o comum, o livre de restrição. Uma comida noa podia ir à boca de qualquer um. A mesma comida, oferecida a um chefe, virava tapu e saía do alcance dos outros.

Por trás do sistema estava o mana (a força sagrada), que os polinésios atribuíam aos deuses e aos chefes de linhagem nobre. Quanto mais mana uma pessoa tinha, mais tapu era o corpo dela. Em várias ilhas, até a sombra de um chefe podia transmitir a força a quem pisasse nela.

Nenhum deles quis sentar nem comer nada. Quando mostrei surpresa, disseram que estavam todos taboo, palavra de sentido muito amplo, mas que em geral significa que algo é proibido. James Cook, diário da terceira viagem, 1777.

Em Tonga, o chefe supremo tinha o título de Tuʻi Tonga e descendia dos deuses, segundo a tradição local. Em 1777, o título estava com Fatafehi Paulaho, que recebeu Cook em pessoa. Os ingleses viram súditos tocarem os pés dele e depois evitarem levar a mão à boca até lavá-la, porque a mão que encostava no rei ficava carregada.

Quebrar um tapu não rendia multa nem prisão. Rendia doença, azar ou desgraça, e o castigo vinha dos próprios deuses, ou de quem falava em nome deles.

Por esse desenho, o proibido era o efeito e o sagrado era a causa. A palavra nomeava a força, e a proibição servia de cerca para proteger as pessoas comuns do contato com ela.

Tapu nunca quis dizer proibido. Quis dizer carregado de sagrado, e o proibido era a cerca em volta.

 
 

II  A Viagem

Do diário de Cook ao livro de Freud

O diário de Cook saiu impresso em Londres em 1784, com o título A Voyage to the Pacific Ocean (Uma viagem ao oceano Pacífico). A obra vendeu rápido e espalhou taboo entre leitores que nunca pisariam em Tonga.

O próprio Cook não voltou à Inglaterra. Foi atingido em fevereiro de 1779 num confronto com havaianos na baía de Kealakekua, ainda durante a viagem, e coube aos oficiais levar os papéis dele para casa.

No Havaí, a palavra se dizia kapu, e o sistema era mais rígido. Homens e mulheres comiam em lugares separados, e alimentos como a carne de porco, a banana e o coco eram vedados às mulheres. Quem violava o kapu podia pagar com a própria vida.

O kapu caiu por decisão de dentro. Em novembro de 1819, o rei Liholiho, Kamehameha II, sentou-se para comer com as mulheres da corte, incentivado pela rainha regente Kaʻahumanu. O gesto ficou conhecido como ʻai noa (comer livre) e derrubou a antiga ordem religiosa das ilhas em poucos meses.

Na Europa, a palavra seguia outro caminho. Os viajantes a usavam para qualquer interdição exótica que encontravam, e a fala inglesa a adotou para o que não se devia fazer em sociedade, sem deus nenhum por trás.

A Europa aprendeu tabu pelo efeito e esqueceu a causa.

Os antropólogos tentaram recuperar a causa. Em 1889, o escocês William Robertson Smith, em Lectures on the Religion of the Semites (Lições sobre a religião dos semitas), comparou o tapu polinésio às regras de pureza da Bíblia hebraica. Em 1890, o também escocês James George Frazer reuniu exemplos do mundo inteiro em O Ramo de Ouro.

Em 1913, o médico austríaco Sigmund Freud publicou Totem e Tabu. Ali, ele apontou o que os dicionários europeus tinham apagado: a palavra polinésia servia ao mesmo tempo para o sagrado e para o impuro, e o tabu despertava respeito e medo juntos.

Freud chamou essa mistura de ambivalência, o sentimento duplo diante de um mesmo objeto. Para ele, a proibição existia justamente porque havia desejo de tocar no que era proibido.

Ao português, tabu chegou pelo francês tabou e pelo inglês taboo, já com o sentido europeu. O Houaiss registra a acepção polinésia, de sagrado, como a de origem, e lista em seguida as acepções de proibição social, que dominaram o uso.

 

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III  O Que Fica

As palavras que ninguém diz

O sentido polinésio sobreviveu melhor num canto da gramática. Os linguistas chamam de tabu linguístico a palavra que uma comunidade evita pronunciar por medo, respeito ou pudor, e que acaba trocada por outra.

O caso mais antigo conhecido é o do urso. O latim tinha ursus e o grego tinha arktos, ambos herdeiros da mesma raiz indo-europeia. Os povos germânicos abandonaram a raiz e passaram a chamar o animal de “o marrom”, origem do inglês bear e do alemão Bär.

O russo fez parecido: medved, o urso em russo, quer dizer comedor de mel. A explicação mais aceita entre os linguistas aponta a crença de que dizer a palavra verdadeira chamava o bicho para perto.

O português guarda a mesma prática no diabo. A fala popular o chama de tinhoso, capeta, cão, sujo e canhoto, e a lista de apelidos cresceu porque pronunciar a palavra direta dava azar. Para a doença grave, muita família ainda diz “aquela doença”, sem nomear.

O tabu linguístico é o resto do tapu polinésio: a palavra carregada demais para se dizer à toa.

Nesses casos, o motivo da evitação volta ao Pacífico. A palavra é calada pela força que se atribui a ela, como o corpo do chefe tonganês, e a troca por um apelido funciona como a cerca de antes.

O tabu da mesa de jantar, o de falar de dinheiro ou de sexo diante dos sogros, perdeu essa força. Quem quebra a regra passa vergonha, e ninguém espera adoecer por ter tocado no assunto.

Na Nova Zelândia, o sentido antigo segue no dia a dia. Os maoris ainda declaram rāhui (interdição temporária ligada ao tapu) sobre um trecho de praia ou de rio onde alguém se afogou, e a pesca fica suspensa até uma cerimônia devolver o lugar ao estado noa.

Quem quiser separar os dois tabus numa conversa pode seguir três passos.

1. Pergunte de onde vem a proibição. Se a resposta for vergonha ou etiqueta, o tabu é o europeu. Se for medo de força ou de contágio, é o polinésio.

2. Repare nos apelidos. Quando uma palavra acumula muitos substitutos, como diabo, quase sempre houve tabu em volta dela.

3. Confira o verbete tabu no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2001, que separa a acepção polinésia das acepções modernas e indica a língua pela qual a palavra entrou.

Responda este email contando qual palavra a sua família evitava dizer dentro de casa.

“Qual assunto da sua mesa ainda é tabu, e por qual motivo?”

 
 
 
 
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Em novembro de 1819, o que o rei havaiano Liholiho fez para derrubar o sistema de kapu?

AAboliu o kapu por decreto escrito, sem cerimônia
BProibiu os sacerdotes de citar os deuses antigos
CSentou se para comer com as mulheres da corte, incentivado pela rainha regente Kaʻahumanu
DAssinou um tratado com os ingleses abrindo os portos do Havaí

Resultado da última edição: 6 de 7 acertaram.

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