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Sinistro
/siˈnis.tɾu/
Do latim. De sinister, o lado esquerdo, a região do céu onde o áugure romano lia o sinal favorável
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O lituus curvo sobre a pedra do auguráculo
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A batida foi no estacionamento do mercado, a dez por hora. O retrovisor do lado do carona ficou pendurado por um fio, a lanterna traseira rachou e ninguém se machucou. Em casa, o motorista abre o aplicativo da seguradora e encontra o botão que resolve o caso: avisar sinistro.
Nada na cena é sinistro no sentido corrente da palavra. Não há vulto, não há presságio, não há trilha de filme de terror. Há um retrovisor pendurado, um formulário com campos de data, hora, placa e endereço, e um prazo curto para avisar a seguradora.
Mesmo assim a seguradora usa o termo, e usa com precisão jurídica. Na linguagem do contrato, sinistro é o evento previsto na apólice que aciona a obrigação de indenizar. Sem sinistro não existe pagamento, e a palavra vale igual para o retrovisor de plástico e para o incêndio de um galpão inteiro.
No português da rua a palavra anda em outra direção. Sinistro é o corredor mal iluminado, o sujeito de olhar torto, a risada que aparece na hora errada, a casa vazia que range no andar de cima. Um adjetivo de arrepio que na boca do carioca ainda deu meia-volta e virou elogio.
Nenhum dos dois sentidos estava no começo. Em latim, sinister não descreve maldade, não descreve acidente e não descreve ameaça. Descreve posição: é o lado esquerdo, o oposto de dexter, o direito. Uma palavra de coordenada, tão neutra quanto acima e abaixo.
Entre a coordenada e o arrepio existe uma profissão, um bando de pássaros e um pedaço de céu recortado com um cajado. O sentido mudou porque, durante séculos, Roma tomou decisões de Estado olhando para cima e anotando de que lado a ave tinha passado.
A Raiz começa no alto da cidadela, antes do nascer do sol, com o áugure de costas para o norte e o cajado erguido contra o horizonte.
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I A Raiz
O cajado que recortava o céu de Roma
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Antes de uma eleição, de uma lei ou da partida de um exército, Roma consultava o céu. O encarregado era o áugure, sacerdote de cadeira vitalícia, e o instrumento era o lituus, um bastão de madeira sem nós, de ponta curva como um gancho.
Com o lituus no ar, o áugure traçava um retângulo imaginário sobre o horizonte. O espaço recortado se chamava templum, e a palavra ainda não significava prédio nenhum. Significava o pedaço de céu delimitado para a observação.
Dentro do templum, o que contava era a região por onde o sinal aparecia. O áugure se posicionava de frente para o sul. Com o sul à frente, o leste, o lado do sol que nasce, ficava à sua mão esquerda.
Daí sai a regra que soa invertida para nós. Em Roma, o sinal vindo da esquerda era o sinal bom. Sinistra avis, ave à esquerda, era licença para tocar o plano adiante.
O nome da prática guarda o pássaro por dentro. Auspício vem de auspicium, contração de avis, ave, e specere, olhar. E os romanos separavam as aves em duas categorias de serviço.
As oscines davam o sinal pelo canto: o corvo, a gralha, a coruja. As alites davam pelo voo: a águia, o abutre, o falcão. Altura, direção e lado da passagem entravam no relatório do sacerdote como dado técnico.
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Sinister não era uma opinião sobre o pássaro. Era a anotação de onde ele apareceu, no sistema de coordenadas de um sacerdote virado para o sul.
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Havia também o método portátil, o que ia junto na campanha militar: as galinhas sagradas. O pulário abria a gaiola e jogava grãos. Se a ave comia com apetite e deixava cair pedaço do bico, o comando podia atacar.
Em 249 a.C., diante de Drépano, o cônsul Públio Cláudio Pulcro soube pelo pulário que as galinhas se recusavam a comer. Mandou jogá-las ao mar com uma frase que Roma nunca esqueceu: que bebam, já que não querem comer.
A frota saiu desfeita do combate, com quase toda a esquadra perdida para os cartagineses. De volta a Roma, o cônsul foi processado e multado. A acusação não era a derrota. Era o desprezo ao auspício.
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A nós parecem melhores os sinais da esquerda; aos gregos e aos bárbaros, os da direita.
Cícero, Da Adivinhação, 44 a.C.
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A frase de Cícero explica a bagunça que veio depois. O adivinho grego se colocava voltado para o norte, e com o norte à frente o leste caía do lado direito. O mesmo pássaro, no mesmo ponto do céu, era bom sinal para um povo e mau sinal para o outro.
A literatura latina se formou na escola grega e importou o esquema junto com a métrica. Poetas romanos passaram a usar sinister no sentido helênico, de sinal adverso, enquanto o ritual oficial continuava tratando a esquerda como o lado bom.
Duas gramáticas dentro da mesma palavra terminam sempre do mesmo jeito. Venceu a que servia para reclamar do destino, e sinister foi ficando com o sentido de torto e ameaçador.
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II A Viagem
Por que o português foi buscar esquerda no basco
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Com a fama estragada, sinister virou palavra desconfortável de dizer. A superstição tem efeito prático sobre o vocabulário: quem teme o que o termo evoca começa a trocar o termo.
O latim já vinha trocando havia tempo. Laevus e scaevus, os dois nomes antigos do lado esquerdo, tinham escorregado para o sentido de desajeitado e de mau agouro, e sinister entrou como substituto neutro antes de pegar a mesma doença.
Na Península Ibérica a solução foi radical: abandonar o latim no meio do caminho. O português, o espanhol e o catalão foram buscar o nome do lado esquerdo fora da família inteira, no basco ezker.
Dali saíram esquerda, izquierda e esquerra, três irmãs vindas de uma língua que não é indo-europeia, plantadas no meio de vocabulários latinos. É um dos raríssimos empréstimos bascos que a Península inteira aceitou sem discutir.
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Português, espanhol e catalão preferiram importar uma palavra estrangeira a continuar dizendo, todo dia, um termo que soava a mau agouro.
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O italiano seguiu o caminho oposto e ficou com o latim na mão. Sinistra é lado esquerdo no italiano corrente, e sinistro, como substantivo, é exatamente o acidente coberto pela apólice, do mesmo jeito que no Brasil.
O francês guardou duas versões da mesma raiz. A popular, senestre, sobreviveu quase só na heráldica, onde nomeia o lado esquerdo do escudo visto por quem o carrega. A erudita, sinistre, entrou pela pena dos letrados já com o sentido moral de funesto.
A virada decisiva, porém, foi comercial. No francês dos séculos XVI e XVII, sinistre deixou de ser apenas adjetivo e virou substantivo: le sinistre, o dano, o estrago concreto sofrido por um bem.
O vocabulário do mar precisava exatamente de um nome assim. Seguro marítimo é contrato antigo, e o negócio depende de nomear com precisão o evento que obriga o segurador a abrir a bolsa: naufrágio, encalhe, incêndio a bordo, avaria da carga.
O termo entrou no direito comercial francês e viajou com ele. Portugal e Brasil montaram o vocabulário de seguros lendo códigos e tratados franceses, e o sinistre chegou traduzido como sinistro, palavra técnica, sem nenhuma carga de arrepio.
O Código Comercial brasileiro de 1850 dedicou um título inteiro ao seguro marítimo, com dezenas de artigos sobre risco, avaria e prova do dano. O vocabulário fixado ali é o mesmo da apólice de automóvel de hoje, com o navio trocado por um hatch de garagem.
A palavra completou a rota inteira: coordenada de sacerdote, mau presságio de poeta, adjetivo moral de letrado francês, substantivo de negócio de navio e, por fim, cláusula de contrato brasileiro.
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