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Símbolo

/ˈsĩ.bu.lu/

Do grego symbolon, o caco partido ao meio: a borda que encaixava provava quem chegava

Duas metades de um caco de cerâmica partido sobre a mesa

A borda que só a outra metade completa

▼

O Dicionário Houaiss resume o verbete assim: "símbolo: aquilo que representa ou substitui outro objeto, ideia ou ser". A definição serve para a bandeira, a cruz e o sinal de mais, e falha na origem, porque o primeiro símbolo não representava nada. Era um pedaço de barro quebrado, e valia justamente pela parte que faltava nele.

Na Grécia antiga, dois homens que firmavam um acordo de hospitalidade pegavam um objeto pequeno, um osso, uma moeda, uma tabuinha ou um caco de cerâmica, e o partiam em dois. Cada um guardava uma metade.

A quebra nunca saía igual duas vezes. A borda de cada pedaço tinha lascas, dentes e curvas que nenhum artesão conseguiria copiar. Só a metade original se encaixava na outra sem deixar fresta.

Anos depois, o filho de um deles podia bater à porta do filho do outro, numa cidade distante, sem carta, sem testemunha e sem rosto conhecido. Mostrava a metade. O dono da casa buscava a sua, juntava as duas, e a borda respondia sozinha.

Se encaixasse, o estranho virava hóspede: ganhava mesa, cama e proteção, como mandava a lei grega da hospitalidade, a xenia. Se não encaixasse, era um impostor.

A palavra que nomeava a prova vem daí. Em grego, symbolon é o objeto que se junta, e a etimologia guarda a ação inteira: o caco só cumpria a função quando alguém o colocava ao lado do outro.

O sentido moderno parece o oposto. Hoje chamamos de símbolo o sinal que fica no lugar de algo ausente: a pomba no lugar da paz, o coração no lugar do amor. O grego chamava de symbolon a metade que exigia a outra presente, na mesa, na mão de quem chegava.

Entre o caco e a bandeira, a palavra passou por tribunais atenienses, por um diálogo de Platão, pela Igreja de Roma e pelos laboratórios de química. Em cada parada, perdeu um pedaço do sentido antigo e ganhou outro.

Para entender como uma peça de barro quebrada virou o nome de tudo que representa alguma ideia, é preciso começar pelo verbo grego que deu origem a ela.

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I  A Raiz

O verbo que junta

Symbolon vem do verbo symballein, formado por syn (junto, com) e ballein (lançar, atirar). Ao pé da letra, symballein é lançar junto, pôr uma peça ao lado da outra.

O verbo tinha usos largos no grego clássico. Servia para dois rios que se encontram, para dois exércitos que se chocam, para duas pessoas que se cruzam na estrada e para quem compara uma informação com outra até tirar uma conclusão.

O substantivo symbolon guardou o sentido do encontro. Designava qualquer sinal de reconhecimento feito para ser conferido contra o seu par: a metade do caco, o anel com marca, a senha combinada.

Os romanos copiaram a prática e lhe deram nome latino, tessera hospitalis (a tábua de hospitalidade). Na comédia Poenulus (O Pequeno Cartaginês), escrita por Plauto por volta de 190 a.C., o velho Hanão chega a uma cidade grega levando uma tessera e procura a família do antigo anfitrião. O encaixe das peças confirma o parentesco.

O symbolon não guardava informação nenhuma. Toda a prova estava na fratura, e a fratura não se falsificava.

Atenas levou o objeto para a burocracia. Segundo a Constituição dos Atenienses, texto atribuído a Aristóteles e escrito no século IV a.C., os cidadãos sorteados para julgar no tribunal recebiam um symbolon na entrada e o trocavam pela diária ao fim da sessão. A ficha provava que aquele homem tinha de fato servido.

O mesmo nome cobria os tratados entre cidades. Symbola eram os acordos que garantiam a um comerciante de Atenas o direito de processar alguém em outra pólis. Cada cidade guardava a sua parte do compromisso.

A língua grega também criou o par oposto. Ao lado de symballein, lançar junto, existia diaballein, lançar através, separar, caluniar. Dele saiu diabolos, o que separa e acusa, raiz de diabo em português.

Quando os gregos falavam em símbolo, portanto, pensavam numa peça que une duas partes. O diabo, na mesma língua, era o que divide.

 
 

II  A Viagem

Da mesa de Platão à oração da Igreja

Por volta de 385 a.C., Platão escreveu O Banquete, um diálogo em que convidados de um jantar fazem discursos sobre o amor. Na vez do comediógrafo Aristófanes, o symbolon ganha o uso mais famoso da história.

Aristófanes conta que os primeiros humanos eram redondos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos. Zeus, irritado com a ousadia deles, mandou cortar cada um ao meio. Desde então, cada metade anda pelo mundo procurando a outra.

"Cada um de nós é, portanto, o símbolo de um ser humano, porque foi cortado como os linguados, de um em dois." Platão, O Banquete, c. 385 a.C.

A imagem só funciona porque o leitor grego conhecia o caco partido. O amor, para Aristófanes, era o encaixe de duas bordas que nenhuma outra peça completaria.

O cristianismo deu à palavra o salto seguinte. No latim da Igreja, symbolum passou a nomear o resumo da fé recitado no batismo, a oração que começa com "Creio em Deus Pai".

Por volta de 404, o padre Rufino de Aquileia escreveu um comentário sobre o Credo e explicou o nome: o symbolum funcionava como a senha dos soldados, que separava o companheiro do inimigo. Quem sabia recitar as palavras era reconhecido como da casa.

O texto ficou conhecido como Symbolum Apostolorum, o Símbolo dos Apóstolos. Em 325, o Concílio de Niceia tinha fixado outra fórmula, o Símbolo Niceno, rezado até hoje em missas católicas e ortodoxas.

Nos primeiros séculos, o Credo era ensinado de boca aos que iam ser batizados, e não se escrevia. Rufino conta que os apóstolos o guardaram na memória para que nenhum infiel pudesse copiá-lo de um papel e se passar por fiel.

Nesse ponto, a palavra já tinha trocado o objeto pela frase. A metade de barro virou um texto decorado, mas a função continuava a mesma: provar a identidade de quem chegava.

O português recebeu símbolo pelo latim, e o primeiro uso foi religioso. Nos textos antigos da língua, o símbolo era o Credo. O sentido de imagem que representa uma ideia veio depois, com os poetas e os tratados de arte.

 

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III  O Que Fica

A metade que ficou na mão

A mudança mais longa aconteceu fora da Igreja. A partir do Renascimento, símbolo passou a significar qualquer figura que aponta para algo maior do que ela: a balança da justiça, a âncora da esperança, a caveira da vida curta.

No século XIX, a palavra virou escola. Em 18 de setembro de 1886, o poeta Jean Moréas publicou no jornal parisiense Le Figaro o Manifesto do Simbolismo. Os simbolistas queriam sugerir em vez de descrever, e no Brasil o movimento teve Cruz e Sousa, que lançou Broquéis em 1893.

A ciência fez o caminho inverso: quis um símbolo sem nenhuma sugestão. Em 1591, o matemático francês François Viète passou a usar letras para quantidades desconhecidas, abrindo a álgebra moderna.

Em 1813, o químico sueco Jöns Jacob Berzelius propôs que cada elemento fosse escrito pela inicial do nome latino. O ferro virou Fe, de ferrum, e o ouro virou Au, de aurum. A tabela periódica inteira ainda segue a regra dele.

O símbolo químico é o oposto do caco grego: não depende de nada que o complete, e qualquer pessoa pode copiá-lo.

A ideia antiga, porém, sobreviveu em outro lugar. Na Inglaterra medieval, contratos eram escritos duas vezes no mesmo pergaminho, e a folha era cortada ao meio numa linha ondulada. Cada parte levava uma via. Em caso de disputa, as bordas tinham que encaixar.

O documento ganhou o nome de indenture, do latim indentare (dentear), por causa do corte em dentes. A palavra continua no inglês jurídico.

O Tesouro inglês usava o mesmo princípio em varas de madeira, as tallies. Cada dívida era marcada com entalhes numa vara, que depois se partia ao comprido: o credor ficava com uma parte e o devedor com a outra. O sistema durou até 1826.

Em 16 de outubro de 1834, funcionários queimaram as varas acumuladas numa fornalha do Palácio de Westminster. O fogo saiu do controle e destruiu quase todo o prédio do Parlamento.

Em 1855, o escritor Charles Dickens contou o episódio num discurso sobre a reforma da administração pública. Usou as varas como exemplo de rotina mantida por séculos depois de perder a razão de existir, até virar combustível do próprio incêndio.

Quem quiser procurar o sentido antigo nas palavras de hoje pode seguir três passos.

1. Olhe o prefixo. Palavras com sim- e sin- (simpatia, síntese, sinfonia) carregam o grego syn, junto, e quase sempre descrevem duas partes que se encontram.

2. Procure o par oposto. Se existe uma palavra que junta, costuma existir outra que separa, como símbolo e diabo.

3. Confira a etimologia no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2001, que registra no fim do verbete a língua de origem e a data do primeiro registro em português.

Responda este email contando que objeto você guarda porque a outra metade está com alguém.

"Qual sinal você ainda usa para reconhecer quem é da sua casa?"

 
 
 
 
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Quiz da edição

Na Grécia antiga, como o filho de um dos homens que firmaram o acordo provava quem era ao bater à porta de outra cidade?

AApresentava uma carta de recomendação assinada pelo pai
BMostrava a metade do caco, que só encaixava na metade guardada pelo dono
CTrazia uma testemunha que garantia o parentesco
DEra reconhecido pelo rosto, porque o dono já o conhecia

Resultado da última edição: 2 de 5 acertaram.

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