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Sicário

/siˈka.ɾju/

Do latim sica: o punhal curvo que cabia na dobra da toga deu nome a quem o usava

Punhal romano de lâmina curva sobre a lã de uma toga

Roma, século 1 a.C.: a sica cabia na toga

▼

O Dicionário Houaiss resume o verbete assim: “sicário: indivíduo pago para matar; assassino contratado”. A definição acerta o serviço e esquece a ferramenta. Em Roma, o sicário era antes de tudo um homem armado de sica, e a palavra guardava a arma no próprio som.

A sica era um punhal de lâmina curva, de um palmo e pouco, mais estreito que a espada do legionário. Os romanos a ligavam aos trácios e aos ilírios, povos dos Bálcãs, e a viam nas arenas na mão do gladiador chamado trácio (thraex), que lutava com ela e um escudo pequeno.

Fora da arena, a curva tinha outra serventia. Uma lâmina assim encaixava junto ao corpo, por baixo das voltas de lã da toga, e não marcava o tecido. Quem andava com ela pelo Fórum não parecia armado.

A cidade de Roma proibia armas dentro do pomério (o limite sagrado da cidade). A regra valia para o soldado e para o cidadão comum. A sica escondida burlava a proibição sem ninguém perceber.

Daí nasceu sicarius: o que anda com a sica. O sufixo -arius, o mesmo de operário e de vigário, nomeava quem lida com algum objeto ou ofício. O sicário tinha por ofício o punhal.

No século 1 a.C., a palavra já circulava nos tribunais. As brigas de rua entre bandos políticos, as cobranças de dívida e as heranças disputadas enchiam Roma de homens dispostos a usar a lâmina por um pagamento.

O rumor chegou ao topo. Lúcio Cornélio Sula, que governou Roma como ditador entre 82 e 79 a.C., resolveu dar ao crime um tribunal permanente, e batizou a lei pelo homem do punhal.

A palavra assassino ainda levaria mais de mil anos para entrar nas línguas da Europa. Até lá, o nome de quem matava sob encomenda era este, nascido de uma arma que cabia na roupa.

Para entender como uma lâmina virou categoria do direito, é preciso abrir a lei que Sula assinou.

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I  A Raiz

A lei que levou o punhal ao tribunal

Em 81 a.C., Sula aprovou a Lex Cornelia de sicariis et veneficis (Lei Cornélia sobre sicários e envenenadores). Foi a primeira lei romana a tratar o homicídio como crime público, julgado por um tribunal fixo, com júri de senadores.

Antes dela, quase todo homicídio se resolvia entre famílias. O parente da vítima acusava, e a punição dependia de quem tinha mais força para cobrar. A lei de Sula tirou o caso das mãos da família e o entregou à cidade.

O texto não punia só quem matava. Punia quem andava armado com intenção de matar ou de roubar, quem preparava veneno, quem incendiava casas e quem dava falso testemunho para mandar um inocente à condenação.

A pena era o exílio. Os romanos chamavam a sentença de interdição da água e do fogo (aquae et ignis interdictio): o condenado perdia a cidadania e ninguém podia lhe dar abrigo dentro do território romano.

Sula batizou a lei pela arma, e assim fez da sica o símbolo jurídico de toda morte encomendada.

O primeiro grande processo sob essa lei veio no ano seguinte. Em 80 a.C., Sexto Róscio, um proprietário de terras da cidade de Améria, foi acusado de matar o próprio pai. Um jovem advogado de 26 anos, Marco Túlio Cícero, aceitou defendê-lo.

O discurso de Cícero, Pro Sexto Roscio Amerino (Em defesa de Sexto Róscio de Améria), mostra que os sicários eram gente conhecida. Cícero acusa os parentes da vítima e um protegido de Sula de terem contratado os homens que mataram o velho Róscio numa rua de Roma, à noite.

Róscio foi absolvido. Cícero, depois, contou que preferiu passar uma temporada fora de Roma, longe do ditador cujo protegido ele tinha exposto.

Com o tempo, a palavra perdeu a ligação com a lâmina curva. Um século depois, o professor de retórica Quintiliano registrou a mudança na Institutio Oratoria (Formação do Orador), escrita por volta de 95 d.C.: “chamam-se sicários todos os que cometeram homicídio, com qualquer arma que seja”.

A lei de Sula atravessou o Império. Seiscentos anos mais tarde, os juristas do imperador Justiniano a copiaram no Digesto, a grande compilação do direito romano de 533 d.C., com um título inteiro dedicado a ela.

 
 

II  A Viagem

A faca no meio da multidão de Jerusalém

A palavra saiu de Roma pelo mesmo caminho das legiões. No século 1 d.C., com a Judeia sob governo romano, os próprios judeus passaram a usar o termo latino, escrito em grego como sikárioi, para um grupo que matava dentro da cidade santa.

Quem conta a história é Flávio Josefo, judeu nascido em Jerusalém em 37 d.C., comandante na revolta contra Roma e, depois de preso, historiador a serviço dos imperadores. O relato está no livro 2 de A Guerra dos Judeus, escrito por volta de 75 d.C.

Segundo Josefo, o grupo surgiu na década de 50, no governo do procurador Antônio Félix. A primeira vítima foi o sumo sacerdote Jônatas, filho de Anás, atacado em plena cidade.

O método era o da sica romana levado ao extremo. Os sicários escolhiam os dias de festa, quando milhares de peregrinos lotavam Jerusalém, e se misturavam ao povo com punhais pequenos escondidos sob a roupa.

O golpe vinha da multidão, e quem golpeava voltava a ser parte dela antes que alguém visse a lâmina.

Josefo descreve a cena seguinte com espanto. Depois do ataque, os próprios autores se juntavam aos que lamentavam a vítima, e por esse disfarce nunca eram apanhados. O medo, escreve ele, era pior que o crime: cada um esperava a morte a qualquer hora e desconfiava até dos amigos.

O alvo eram os judeus que colaboravam com Roma, sacerdotes e ricos que os rebeldes viam como traidores. Para Josefo, que acabou do lado romano, os sicários eram bandidos; para eles mesmos, eram combatentes.

A palavra aparece também no Novo Testamento. Nos Atos dos Apóstolos, capítulo 21, um comandante romano prende Paulo em Jerusalém e pergunta se ele é o egípcio que levou ao deserto 4.000 homens dos sicários.

O último capítulo do grupo foi a fortaleza de Massada, junto ao mar Morto. Josefo diz que os sicários, comandados por Eleazar ben Yair, resistiram ali até 73 ou 74 d.C., e que, cercados pela legião, os 960 defensores preferiram tirar a própria vida a cair nas mãos de Roma.

Os arqueólogos que escavaram Massada nos anos 1960, sob a direção de Yigael Yadin, encontraram restos que confirmam o cerco. O número de 960 continua sendo só de Josefo: nenhuma escavação conseguiu contá-los.

 

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III  O Que Fica

Do latim de Cícero às ruas de Medellín

O português recebeu sicário pelo latim dos letrados, como palavra de livro. Por séculos, ela ficou nos sermões, nas traduções da Bíblia e nos romances históricos, sempre com cheiro de antiguidade.

O espanhol fez o caminho inverso. Na Colômbia dos anos 1980, sicario virou a palavra corrente para os jovens pagos pelos cartéis de drogas para matar em moto, nas ruas de Medellín, na época de Pablo Escobar.

O jornalista colombiano Alonso Salazar registrou esses rapazes no livro No nacimos pa' semilla (Não nascemos para semente), de 1990, feito de depoimentos dos próprios sicarios. O título repete uma frase deles: não esperavam viver o bastante para ter filhos.

A palavra que Sula pôs na lei voltou às ruas dois mil anos depois, com o mesmo serviço e outra arma.

Da Colômbia, o termo se espalhou pelo noticiário do México, da América Central e do Brasil. O filme Sicario, de 2015, dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, levou a palavra às salas de cinema de língua inglesa sem tradução.

Fica uma pergunta aberta no próprio Novo Testamento. Alguns estudiosos propuseram que Iscariotes, o sobrenome de Judas, viria de sicarius. A maioria dos especialistas prefere outra leitura, do hebraico ish Qeriyot (homem de Queriote, uma aldeia da Judeia). A questão segue sem prova: nenhum texto antigo explica o apelido.

O português de hoje ainda usa sicário com o sentido de Roma. Nos jornais brasileiros, a palavra aparece quando o crime tem mandante: o atirador contratado numa disputa de terra, o pistoleiro pago numa briga de herança. Quem atira por raiva ou por roubo não ganha o nome.

O que a palavra conserva, desde a toga, é a ideia de que o crime tem dono e tem pagador. O sicário age para outro, e a lei de Sula já punia os dois: quem segurava o punhal e quem pagava por ele.

Quem quiser ver a sica por trás da palavra pode seguir três passos.

1. Procure sicário num dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e confira a ligação com sica.

2. Busque imagens do gladiador trácio e repare na lâmina curva que ele leva na mão.

3. Na próxima notícia que usar sicário, note se ela fala de quem atacou ou de quem pagou: a palavra latina sempre apontou para os dois.

Responda este email contando em que notícia ou livro você encontrou a palavra sicário pela primeira vez.

“Que outra palavra do português guarda, escondida, a arma ou a ferramenta que lhe deu origem?”

 
 
 
 

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BTrabalhos forçados nas minas
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