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Rico

/ˈʁi.ku/

Do gótico reiks: chefe, poderoso, rei

Coroa votiva de ouro visigoda num museu de Toledo

Coroa de ouro dos reis visigodos de Toledo

▼

“Rico: que possui muitos bens, dinheiro, fortuna” (Houaiss). A definição descreve o uso de hoje e erra a origem. Quando a palavra entrou na Península Ibérica, ela não falava de bens nem de moedas: falava de mando.

O caminho começa com os visigodos, um povo germânico que atravessou os Pireneus no século 5. Em 507, depois de perder a batalha de Vouillé para os francos, eles trocaram Toulouse por Toledo e passaram a governar quase toda a península a partir dali.

Os visigodos falavam gótico, uma língua germânica hoje extinta. No gótico, reiks queria dizer chefe, governante, o homem que manda. O adjetivo da mesma raiz descrevia quem tinha poder sobre os outros.

O reino durou dois séculos. Em 711, o último rei visigodo, Rodrigo, perdeu a batalha de Guadalete para as tropas muçulmanas vindas do norte da África, e o reino de Toledo caiu em poucos anos. A língua gótica sumiu com ele.

Do reino ficaram as coroas votivas de ouro encontradas em 1858 em Guarrazar, perto de Toledo, com o nome do rei Recesvinto pendurado em letras de ouro. O nome dele também traz a raiz do mando.

Algumas palavras ficaram. Os visigodos eram minoria e adotaram o latim falado pela população local, mas deixaram nele um punhado de termos ligados à guerra, à roupa e ao poder. Rico é um deles.

Nos documentos dos reinos cristãos que nasceram depois, rico aparece colado a quem mandava. Os ricos-homens de Portugal e de Castela eram a alta nobreza: senhores com terra, vassalos e o direito de levantar estandarte na guerra. O título dizia poderoso.

O dinheiro entrou na palavra pela porta do poder. Quem mandava tinha terra, gado e ouro, e com o tempo os falantes passaram a chamar de rico quem tinha os bens, mesmo sem mandar em ninguém.

Pra ver de onde vinha o reiks dos godos, é preciso recuar mais, até uma raiz que o gótico dividia com o latim dos romanos.

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I  A Raiz

O chefe antes da moeda

O reiks gótico vem de uma forma do germânico comum, a língua-mãe reconstruída de onde saíram o gótico, o alemão, o inglês e as línguas escandinavas. Os linguistas a escrevem rīks, forma reconstruída, sem registro escrito.

Essa raiz germânica tem parentes fora da família. O latim tinha rex, rei, e regere, dirigir, governar. O sânscrito da Índia antiga tinha rājan, também rei, a mesma palavra que chegou ao português como rajá.

As três formas descem de uma raiz do indo-europeu, a língua reconstruída que está na base do latim, do grego, do sânscrito e do germânico. A raiz carregava a ideia de linha reta, de traçar o rumo. Mandar era pôr as coisas em linha.

O rico e o rei são primos: a mesma raiz deu a um a coroa e ao outro, séculos depois, a conta bancária.

O caminho até o germânico tem um desvio. A vogal i de rīks não bate com a vogal e do latim rex, e a explicação mais aceita passa pelos celtas. Em gaulês, a língua da Gália antes dos romanos, rei se dizia rīx, com i.

Os nomes dos chefes gauleses guardam a forma. Vercingetórix, o chefe que enfrentou Júlio César em 52 antes de Cristo, tem rīx no fim do nome. Na leitura mais comum, o nome quer dizer rei dos grandes guerreiros.

Os povos germânicos viviam vizinhos dos celtas e tomaram deles a palavra do chefe, já com o i. Do lado germânico, a raiz virou substantivo e adjetivo, e se espalhou por todas as línguas da família.

O mesmo empréstimo explica uma coincidência de mapas. Onde houve chefes celtas e depois chefes germânicos, da Gália ao Reno, a palavra do mando passou de um povo ao outro sem tradução, como passa hoje um termo técnico entre países vizinhos.

O catalão Joan Corominas registrou o percurso no Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, publicado entre 1980 e 1991: o rico do castelhano e do português vem do gótico reiks, com o sentido antigo de poderoso. A linha é aceita pelos dicionários etimológicos das duas línguas.

O português recebeu a palavra pela mesma porta do castelhano. Rico entrou no latim falado da península ainda no tempo dos visigodos e atravessou a formação do galego-português sem mudar de forma. Os primeiros textos medievais já a escrevem como hoje.

O italiano e o francês têm a mesma palavra pelo mesmo motivo: ricco e riche vieram dos francos e dos lombardos, outros povos germânicos que governaram partes do antigo Império Romano. Nas três línguas, o empréstimo veio de cima, da boca de quem mandava.

 
 

II  A Viagem

Dos reis godos aos ricos-homens

O gótico deixou mais rastro nos nomes de gente do que no vocabulário. Os reis visigodos usavam nomes compostos, e reiks aparecia no fim de muitos deles, como um título preso ao nome.

Alarico, o rei que saqueou Roma em 410, era Alareiks, rei de todos. Teodorico, nome de vários reis godos, era Þiudareiks, rei do povo. Eurico, que reinou em Toulouse no século 5, também traz a raiz.

O último rei de Toledo carregava o mesmo final. Rodrigo vem de Hroþireiks, formado por hroþ, fama, glória, e reiks, chefe. O nome quer dizer chefe famoso, e sobreviveu à queda do reino que ele perdeu.

Depois de 711, os reinos cristãos do norte da península, Astúrias, Leão, Castela e mais tarde Portugal, guardaram os nomes godos como marca de linhagem. Rodrigo, Henrique e Frederico seguiram em uso nas famílias nobres e depois nas comuns.

Cada Rodrigo da chamada da escola carrega no nome um título visigodo de chefe.

Henrique veio por outro ramo germânico, o franco: Heimirich, chefe da casa. Frederico é chefe da paz. Ricardo junta rīk, poderoso, e hard, forte. O português tem dezenas de nomes com o rico escondido no meio ou no fim.

Enquanto isso, o adjetivo seguia o caminho do poder. Os ricos-homens das cortes de Portugal e de Castela, nos séculos 12 e 13, ficavam logo abaixo do rei. O título vinha da terra herdada e do número de cavaleiros que o senhor podia pôr em campo.

Ser rico-homem pedia fortuna, e a fortuna acabou ocupando a palavra. Num mundo em que o poder vinha da terra e do ouro, o senhor poderoso e o senhor endinheirado eram quase sempre a mesma pessoa. O sentido de bens foi crescendo até empurrar o de mando pra fora.

As cantigas e as crônicas medievais mostram a passagem pela metade. Num mesmo texto, rico pode descrever o senhor com cavaleiros e o mercador com mercadoria, e o leitor de hoje precisa do contexto pra saber qual dos dois sentidos está em jogo.

No fim da Idade Média, rico já descrevia o comerciante de Lisboa com moedas no cofre e nenhum vassalo. O sentido de poder sobreviveu em usos laterais, como terra rica e comida rica, em que a palavra ainda quer dizer abundante, forte, cheio de recursos.

 

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III  O Que Fica

Um império e um adjetivo

A raiz seguiu viva nas outras línguas germânicas, e em cada uma tomou um rumo diferente. O alemão guardou os dois sentidos lado a lado, em duas palavras.

Reich, em alemão, quer dizer reino, império, o território sob um mando. É a palavra do Heiliges Römisches Reich, o Sacro Império Romano-Germânico. Reich, como adjetivo, quer dizer rico, cheio de dinheiro. Um alemão diz as duas formas no mesmo dia sem pensar na raiz comum.

O inglês fez o mesmo caminho do português. No inglês antigo, rīce queria dizer poderoso, e o substantivo da mesma raiz nomeava o reino. O sentido de dinheiro ganhou espaço depois, e rich hoje fala só de bens.

No inglês, o reino de Deus da Bíblia em inglês antigo era Godes rīce. O tradutor usava a mesma palavra que hoje descreve um milionário.

O inglês ainda guarda o reino escondido numa palavra composta: bishopric, a diocese, o território sob o mando de um bispo. O final ric é o mesmo reiks dos godos, com o sentido antigo intacto.

Em alemão, a mesma raiz ainda nomeia o império e o dinheiro; o português ficou só com o dinheiro.

O português guardou as duas pontas do caminho em três grupos de palavras:

1. Rei, régio, reger e regime, que vêm do latim rex e regere, pelo lado romano da raiz.

2. Rajá, que veio do sânscrito rājan pelo contato português com a Índia, no século 16.

3. Rico, Rodrigo, Henrique e Ricardo, que chegaram pelo lado germânico.

As três famílias se separaram há milhares de anos e voltaram a morar na mesma língua. Rei e rico estão a poucas páginas de distância no dicionário e a uma raiz de distância na história.

O sentido de poder também deixou rastro em riqueza, que nos textos medievais podia nomear o poder de um senhor e não só o cofre dele. E enriquecer, no português antigo, chegava a querer dizer tornar-se poderoso.

O Houaiss pode ganhar uma linha de origem mais larga. Antes de nomear quem tem muitos bens, rico nomeava quem mandava, e a fortuna era consequência do mando.

Quando alguém chama um Rodrigo de rico, junta na mesma frase o título de chefe que os godos levaram pra Toledo e o sentido que a palavra ganhou depois.

Na sua família, quantos nomes carregam um chefe germânico escondido no fim?

 
 
 
 
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AOs francos derrotaram os visigodos na batalha de Vouillé e tomaram Toulouse
BO rei Rodrigo perdeu a batalha de Guadalete para tropas muçulmanas e o reino de Toledo caiu em poucos anos
CArqueólogos encontraram as coroas votivas de ouro em Guarrazar
DO rei Recesvinto mandou gravar seu nome em letras de ouro

Resultado da última edição: 86% acertaram.

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