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Quando os tratados passaram a ser garantidos por papel, por tropas na fronteira e por embaixadas permanentes, o refém perdeu a função diplomática. A palavra ficou sem contrato e foi parar do outro lado da lei, na boca de quem toma pessoas à força.
A virada ganhou registro jurídico. A Quarta Convenção de Genebra, de 1949, proíbe no artigo 34 a tomada de reféns em guerra. O que um rei medieval oferecia de livre vontade passou a ser crime contra civis.
O século XX encheu o noticiário com o sentido novo. Em 1979, estudantes iranianos invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e mantiveram 52 americanos como reféns por 444 dias. O grupo não garantia tratado nenhum e fazia uma exigência: a entrega do xá deposto, que se tratava de um câncer em Nova York.
Seis anos antes, um assalto a banco em Estocolmo, na Suécia, tinha deixado quatro funcionários presos no cofre por seis dias. Alguns deles passaram a defender os assaltantes, e o psiquiatra sueco Nils Bejerot, que assessorava a polícia, deu nome ao fenômeno: síndrome de Estocolmo.
Os dois episódios fixaram o refém moderno como alguém sem escolha. Na Ibéria medieval, a família decidia quem ia, negociava as condições da estadia e contava os dias até a volta. No cofre de Estocolmo e na embaixada de Teerã, ninguém foi consultado, e o fim do cativeiro dependia de negociação entre governos e polícia.
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A palavra atravessou oito séculos e trocou de papel: o refém saiu da mesa do rei e entrou no cofre do banco.
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O sentido antigo, porém, não sumiu. Ele sobrevive no uso figurado, quando alguém diz que está refém da dívida, do chefe ou do trânsito. Nessas frases, refém volta a ser o que prende uma pessoa a uma obrigação, e o credor é a dívida, o emprego ou a cidade.
Também sobrevive no árabe. Bancos islâmicos da Malásia e do Golfo Pérsico oferecem crédito com o nome de rahn: o cliente deixa ouro em depósito e recebe dinheiro em troca, sem cobrança de juros, que a lei religiosa proíbe. A palavra do versículo 283 segue fazendo o mesmo serviço de catorze séculos atrás.
Quem quiser rastrear o penhor escondido em outras palavras pode seguir três passos.
1. Procure a ideia de garantia. Fiança, caução e penhor nomeiam o que fica retido até alguém cumprir a palavra dada.
2. Olhe o artigo árabe. Palavras que entraram pela Ibéria muçulmana costumam trazer al- ou a- no começo, como almoxarife e armazém.
3. Confira a origem no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2001, que registra a etimologia no fim de cada verbete e aponta quando a palavra chegou pelo árabe.
Responda este email contando de quem ou de quê você já se sentiu refém.
"Se você tivesse que deixar uma garantia para cumprir a promessa mais importante da sua vida, o que entregaria?"
O piloto automático perdeu mais uma.
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