In partnership with

A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 170
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

Esta pauta venceu a urna de 25/09.

Refém

/ʁe.ˈfẽj/

Do árabe rahn, o penhor: a pessoa entregue como garantia de um acordo

Tratado medieval selado com lacre vermelho e anel de ouro

O refém, a garantia viva de um tratado

▼

O Dicionário Houaiss define refém como a "pessoa que fica em poder de outrem como garantia". A definição guarda a palavra certa, garantia, e o noticiário apagou o resto: hoje o refém aparece como vítima de assalto a banco, de sequestro ou de invasão armada, e quase nunca como parte de um acordo.

Durante séculos, na Península Ibérica, refém era um posto de confiança. Um rei que assinava uma trégua com o vizinho entregava um filho, um sobrinho ou um nobre da corte, e essa pessoa passava a viver no palácio do outro lado enquanto o tratado valesse.

Comia na mesa do anfitrião, aprendia a língua dele e às vezes casava na corte que a hospedava. Ninguém a arrastava de madrugada. Ela seguia escoltada, com roupas, criados e cavalos, porque a presença dela era a assinatura viva do acordo.

Se a trégua fosse cumprida, voltava para casa. Se fosse quebrada, a vida dela ficava nas mãos de quem tinha sido traído, e a ameaça era justamente o que fazia os dois lados cumprirem o que tinham jurado.

A palavra que nomeava essa pessoa chegou ao português pelo árabe falado em al-Andalus (o nome árabe da Ibéria muçulmana). Ela vem do vocabulário do crédito: alguém deixa algo valioso nas mãos de outro até a dívida ser paga. Na Ibéria medieval, esse algo valioso podia ser um anel, um pedaço de terra ou o filho de um rei.

A distância entre o penhor e o sequestro mede oito séculos. O refém deixou de ser escolhido pelos próprios parentes e passou a ser tomado à força por quem não tem tratado nenhum para cumprir. A palavra ficou, e o acordo sumiu de dentro dela.

Para entender como uma pessoa virou garantia de empréstimo, é preciso abrir um contrato árabe do século VII e olhar a palavra que dava nome ao objeto deixado em depósito.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Raiz

O penhor que fica na mão do outro

Refém vem do árabe rahn (penhor, garantia). No árabe, o sentido mora nas consoantes r, h e n, que carregam a ideia de reter e de prender alguma peça até que uma promessa se cumpra. Rahn é o objeto retido e também o contrato que o retém.

O uso aparece no Alcorão, compilado no século VII. A surata Al-Baqara (A Vaca), no versículo 283, orienta quem faz negócio em viagem e não encontra escriba para registrar a dívida: nesse caso, que haja "penhor entregue em mão", rihān maqbūḍa na forma original (penhores recebidos). O credor fica com a peça, e a peça fala pelo devedor ausente.

O direito islâmico transformou o versículo em regra. No contrato de rahn, o bem empenhado fica sob a guarda do credor, que não pode tratá-lo como dono. Paga a dívida, o bem volta inteiro. Não paga, o credor tem direito de se cobrar com ele.

Refém nasceu como palavra de contrato: é o que fica retido até alguém cumprir o que prometeu.

Os árabes que atravessaram o estreito de Gibraltar em 711 levaram esse vocabulário para a Península Ibérica. Ali, o penhor passou a ter rosto humano: nos acordos entre emirados muçulmanos e reinos cristãos, a garantia mais forte que um governante podia oferecer era uma pessoa do próprio sangue.

O castelhano ficou com rehén, e o português antigo escrevia também arrefém, com um a- inicial que depois caiu. O h aspirado do árabe, que o ouvido latino não sabia reproduzir, virou f na boca portuguesa. Refém guarda, no meio, o som de uma garganta árabe adaptado ao português.

O latim já tinha palavra para o mesmo papel. Era obses (a pessoa dada em garantia), e Júlio César, nos Comentários sobre a Guerra da Gália, escritos nos anos 50 a.C., exige obsides das tribos gaulesas em dezenas de passagens: cada povo derrotado mandava filhos de chefes ao acampamento romano.

A Ibéria herdou as duas tradições e escolheu a árabe. Nas cortes onde os tratados eram negociados com emires, a palavra do credor venceu a palavra do legionário, e obses desapareceu da fala comum sem deixar descendente em português.

 
 

II  A Viagem

Filhos de rei em casa alheia

O refém da Antiguidade e da Idade Média era um hóspede com prazo. Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, passou cerca de três anos como refém em Tebas, na Grécia, ainda adolescente, na década de 360 a.C. Morou na casa de um general tebano e observou de perto o exército de Epaminondas, o comandante que tinha derrotado Esparta.

Voltou para a Macedônia sabendo o que os tebanos sabiam. Anos depois, já rei, reorganizou a infantaria macedônica com lições aprendidas no cativeiro dourado, e o filho dele usou esse exército para chegar à Índia. O acordo que devia proteger Tebas acabou armando o futuro inimigo.

Na Ibéria, a prática foi posta em lei. As Siete Partidas, o código organizado pelo rei Afonso X de Castela no século XIII, trazem normas sobre os reféns: quem pode entregá-los, quem os guarda e o dever de tratá-los com honra enquanto o acordo durar. O refém tinha direitos porque fazia parte de um contrato, e a lei o separava do prisioneiro de guerra.

O inglês guardou esse lado hospitaleiro na própria palavra. Hostage (refém, em inglês) vem do francês antigo ostage, ligado a oste, o anfitrião que recebe alguém em casa. O mesmo tronco deu hóspede e hospedagem em português: nas línguas do norte, o refém era, antes de tudo, alguém hospedado.

Em Tebas ou em Toledo, o refém dormia sob o teto do outro lado: a casa do anfitrião era a cláusula do tratado.

Nem todo refém voltou. Em 1442, o príncipe da Valáquia Vlad II entregou os filhos Vlad e Radu ao sultão otomano Murad II como garantia de lealdade. Vlad, que a história chamaria de Vlad, o Empalador, voltou para governar e combater os turcos. Radu ficou, cresceu na corte do sultão e lutou do lado otomano contra o próprio irmão.

O caso mostra o risco que o acordo embutia. A pessoa entregue como penhor podia mudar de lado, e a garantia virava ativo de quem a recebia. Por isso os reis escolhiam com cuidado quem mandar: um filho querido pesava mais na balança, e também doía mais perder.

A troca de reféns entre Estados foi rareando na Europa a partir do século XVIII. O Tratado de Aix-la-Chapelle, de 1748, costuma ser apontado como um dos últimos a prevê-la: dois nobres britânicos ficaram em Paris até a Inglaterra devolver a ilha de Cape Breton, no Canadá, à França.

 

Quem banca a edição de hoje

Join 29,000+ Marketers at the Email Conference Everyone Talks About

What do Molly Ringwald, Dan Levy, Amy Porterfield & a world record have in common? They'll all be at GURU Conference 2026. 100% Free. 100% Virtual.

If you're obsessed with marketing like we're obsessed with marketing, GURU is the must-attend conference of the year. We'll be covering all things email marketing: B2B, B2C, newsletters, deliverability, email design, AI & more.

You can expect to walk away with new email strategies, the very latest digital trends, and how to step up your email performance. But don't worry, we also like to have fun. This year's theme is rom-com, so there will be DJs, meet-cutes, and a cutest pet contest. (Start prepping your dog's headshot now.)

Don't miss out. Join us Nov 12th & 13th for the largest virtual & free email marketing conference, powered by Constant Contact.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Fica

Da corte do rei ao cofre do banco

Quando os tratados passaram a ser garantidos por papel, por tropas na fronteira e por embaixadas permanentes, o refém perdeu a função diplomática. A palavra ficou sem contrato e foi parar do outro lado da lei, na boca de quem toma pessoas à força.

A virada ganhou registro jurídico. A Quarta Convenção de Genebra, de 1949, proíbe no artigo 34 a tomada de reféns em guerra. O que um rei medieval oferecia de livre vontade passou a ser crime contra civis.

O século XX encheu o noticiário com o sentido novo. Em 1979, estudantes iranianos invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e mantiveram 52 americanos como reféns por 444 dias. O grupo não garantia tratado nenhum e fazia uma exigência: a entrega do xá deposto, que se tratava de um câncer em Nova York.

Seis anos antes, um assalto a banco em Estocolmo, na Suécia, tinha deixado quatro funcionários presos no cofre por seis dias. Alguns deles passaram a defender os assaltantes, e o psiquiatra sueco Nils Bejerot, que assessorava a polícia, deu nome ao fenômeno: síndrome de Estocolmo.

Os dois episódios fixaram o refém moderno como alguém sem escolha. Na Ibéria medieval, a família decidia quem ia, negociava as condições da estadia e contava os dias até a volta. No cofre de Estocolmo e na embaixada de Teerã, ninguém foi consultado, e o fim do cativeiro dependia de negociação entre governos e polícia.

A palavra atravessou oito séculos e trocou de papel: o refém saiu da mesa do rei e entrou no cofre do banco.

O sentido antigo, porém, não sumiu. Ele sobrevive no uso figurado, quando alguém diz que está refém da dívida, do chefe ou do trânsito. Nessas frases, refém volta a ser o que prende uma pessoa a uma obrigação, e o credor é a dívida, o emprego ou a cidade.

Também sobrevive no árabe. Bancos islâmicos da Malásia e do Golfo Pérsico oferecem crédito com o nome de rahn: o cliente deixa ouro em depósito e recebe dinheiro em troca, sem cobrança de juros, que a lei religiosa proíbe. A palavra do versículo 283 segue fazendo o mesmo serviço de catorze séculos atrás.

Quem quiser rastrear o penhor escondido em outras palavras pode seguir três passos.

1. Procure a ideia de garantia. Fiança, caução e penhor nomeiam o que fica retido até alguém cumprir a palavra dada.

2. Olhe o artigo árabe. Palavras que entraram pela Ibéria muçulmana costumam trazer al- ou a- no começo, como almoxarife e armazém.

3. Confira a origem no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2001, que registra a etimologia no fim de cada verbete e aponta quando a palavra chegou pelo árabe.

Responda este email contando de quem ou de quê você já se sentiu refém.

"Se você tivesse que deixar uma garantia para cumprir a promessa mais importante da sua vida, o que entregaria?"

O piloto automático perdeu mais uma.

 
 
 
 
Casa da Mãe Joana: oito origens, uma por dia: A rua e a malandragem, A igreja, O mar e a navegação, A guerra e o quartel, O comércio e a moeda, A justiça e a cadeia, O campo e o gado, A casa e a cozinha. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantos dias os 52 americanos ficaram como reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã, a partir de 1979?

A52 dias
B365 dias
C444 dias
D100 dias

Resultado da última edição: 4 de 5 acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

📜📜📜📜📜  ótima 📜📜📜📜  boa 📜📜📜  ok 📜📜  ruim 📜  péssima
 
Escolha a edição de quinta

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A mais votada sai na quinta, 08/10.

Voto aberto até 02/10, 15h30

A Charque →
B Crise →
C Jubileu →
D Iglu →
 
 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

What’s the secret to staying ahead of the curve in the world of AI? Information. 

Luckily, you can join 2,000,000+ early adopters reading The Rundown AI — the free newsletter that makes you smarter on AI with just a 5-minute read per day.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
Recomendação de Newsletter
Brasil Documentado

Brasil Documentado

Um acontecimento datado da história do Brasil, com lugar, contexto e desfecho, em cinco minutos. No seu email todo dia às 20:20.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

liga do tema · ouro em 7 dias

1Leitor #1473 · Versículo+277
2Carmen · Arte+208
3Leitor #8412 · Versículo+203

Ver os 30 e a sua posição →

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}

{{vip_linha | }}

 
Amanhã nesta news

ED 171 · amanhã às 12:12

A canja que nasceu sem galinha, em Goa

Do malaiala kanji, a água do arroz: comida de doente na Índia antes de virar sinônimo de fácil

 

Toda palavra e um fossil. Ad fontes.

A ORIGEM DAS PALAVRAS

Você fala 30 mil palavras por dia e não sabe de onde veio nenhuma

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos