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ED 199
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Quitanda

/kiˈtɐ̃.dɐ/

Do quimbundo kitanda: feira ao ar livre

Cestos e tabuleiros de fruta numa feira ao ar livre de Luanda

Tabuleiros numa feira ao ar livre de Luanda

▼

O Houaiss define quitanda como “pequena loja onde se vendem frutas, legumes e ovos”. A definição acerta a loja de hoje e esconde o tamanho que a palavra já teve. Em Luanda, onde ela nasceu, quitanda era uma feira inteira, montada a céu aberto.

A palavra vem do quimbundo, a língua banta dos ambundos, povo da região de Luanda e do interior de Angola. Em quimbundo, kitanda nomeava a feira: o terreiro onde se comprava e vendia ao ar livre, com a mercadoria no chão ou em esteiras.

Os portugueses fundaram Luanda em 1576, com Paulo Dias de Novais. A cidade cresceu em volta do porto, e as kitandas abasteciam o povoado com farinha de mandioca, peixe seco, fruta e óleo de palma.

Quem vendia eram sobretudo mulheres. O português falado em Angola chamou essas vendedoras de quitandeiras, e a palavra atravessou o Atlântico junto com elas.

A travessia teve preço. Durante três séculos, Luanda foi um dos maiores portos de embarque de africanos escravizados rumo ao Brasil, e o Rio de Janeiro recebeu boa parte deles. Com as pessoas vieram as línguas, e com as línguas vieram as palavras do comércio de todo dia.

No Rio colonial, a quitanda mudou de escala. A feira angolana virou a mulher com o tabuleiro na cabeça, andando pelas ruas com fruta, doce e verdura, ou sentada numa esquina com a banca armada no chão.

Essa mulher tinha nome na cidade: quitandeira. Muitas eram escravizadas e trabalhavam no ganho, um arranjo em que o senhor mandava a mulher vender na rua e cobrava dela uma quantia fixa por dia. O que sobrasse ficava com ela.

Algumas juntaram o bastante pra comprar a alforria (a carta de liberdade). Nessas mãos, a quitanda foi também uma poupança.

Pra entender como uma língua angolana deu ao Brasil a palavra do comércio miúdo, é preciso começar pela gramática do quimbundo.

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I  A Raiz

O prefixo da feira

O quimbundo pertence à família banta, um conjunto de centenas de línguas faladas da Nigéria ao sul da África. Uma marca da família é o sistema de classes: cada substantivo leva um prefixo que diz a que grupo ele pertence.

Kitanda traz o prefixo ki-, de uma dessas classes, colado ao radical tanda. O português ouviu a sílaba inteira e escreveu como sabia: qui. A mesma adaptação aparece em quilombo, do quimbundo kilombo, o acampamento e depois a povoação de fugidos.

O radical guardava a ideia de espalhar, estender no chão. A feira angolana era literalmente uma mercadoria estendida: esteiras, cestos e cabaças abertos sobre a terra batida, sem balcão nem telhado.

Parte dos dicionaristas registra também um segundo sentido para kitanda: o estrado ou o tabuleiro onde se expõe o que se vende. A feira e o móvel da feira tinham o mesmo nome, e o português herdou os dois.

A quitanda começou como um chão coberto de mercadoria e acabou como uma porta de loja.

Os portugueses aprenderam o quimbundo cedo, por necessidade de comércio e de catequese. Em 1697, o jesuíta Pedro Dias publicou em Lisboa a Arte da Língua de Angola, a primeira gramática do quimbundo, escrita pra padres que iam trabalhar no Brasil com escravizados vindos de Luanda.

O livro mirava a Bahia. O quimbundo já era, no fim do século 17, uma língua falada em plantações e cidades brasileiras, e a Igreja precisava dela pra confessar e batizar.

Nesse ambiente de duas línguas, as palavras do mercado passaram primeiro. Quem compra e vende precisa nomear o lugar, a mercadoria e a pessoa, e o nome que a vendedora usa costuma ser o nome que fica.

A linguista Yeda Pessoa de Castro, em Falares Africanos na Bahia, de 2001, mostrou que as línguas bantas, com o quimbundo à frente, deram ao português do Brasil a maior parte das palavras de origem africana do dia a dia. Quitanda entra nessa camada antiga, junto com caçula, moleque, cafuné e marimbondo.

O sambista e pesquisador Nei Lopes registrou o percurso no Novo Dicionário Banto do Brasil, de 2003: quitanda vem do quimbundo kitanda, feira, mercado. Quitandeira, a vendedora, nasceu da mesma raiz com o sufixo português -eira, o mesmo de lavadeira e costureira.

O português de Portugal conhece a palavra, mas usa pouco. Ela é sobretudo uma palavra do português de Angola e do Brasil, as duas pontas da rota que a trouxe.

 
 

II  A Viagem

O tabuleiro na cabeça

No Rio de Janeiro do século 18, a quitandeira era parte da paisagem. Ela levava a mercadoria num tabuleiro equilibrado na cabeça e vendia de porta em porta, ou armava a banca num largo, perto das igrejas e do cais.

O pintor francês Jean-Baptiste Debret, que viveu no Rio entre 1816 e 1831, desenhou essas vendedoras dezenas de vezes. As gravuras saíram em Paris no livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado entre 1834 e 1839, e são hoje a imagem mais conhecida do comércio de rua da cidade.

Nas pranchas de Debret, as quitandeiras vendem angu, frutas, aves, doces e flores. Algumas usam panos da costa (tecidos listrados trazidos da África), e muitas carregam uma criança presa às costas enquanto trabalham.

O sistema do ganho deixava a quitandeira circular sozinha pela cidade, privilégio raro pra uma pessoa escravizada. Ela negociava preço, escolhia ponto, fazia freguesia. A rua dava a ela uma margem de manobra que a casa do senhor não dava.

A quitandeira escravizada vendia a mercadoria do dia e, com o troco, ia comprando a própria liberdade.

Essa liberdade incomodava. Em Minas Gerais, no século 18, as autoridades baixaram ordens contra as negras de tabuleiro que subiam às lavras de ouro. O historiador Luciano Figueiredo, em O Avesso da Memória, de 1993, reuniu as queixas: elas eram acusadas de levar ouro escondido, de vender cachaça aos mineiros e de passar recados pros quilombos.

As ordens se repetiram por décadas, sinal de que não funcionavam. Os mineiros precisavam de comida, e quem levava a comida até a lavra era a quitandeira.

No Rio, a Câmara tentou disciplinar o comércio de rua com posturas municipais, regras sobre onde vender, a que horas e com licença. As quitandeiras mudavam de rua, pagavam a licença ou ignoravam a regra, conforme o fiscal da vez.

No século 19 a palavra deu outro passo. Com a cidade crescendo, a banca de chão virou porta: pequenas lojas de frutas, legumes, ovos e galinhas passaram a se chamar quitandas. Muitas ficaram nas mãos de imigrantes portugueses, donos também dos armazéns de secos e molhados.

O dono da loja passou a ser chamado de quitandeiro, no masculino, e a palavra ganhou freguês fixo, caderneta de fiado e entrega em casa feita por um menino de bicicleta.

A quitandeira perdeu o nome pro estabelecimento. A palavra que nomeava a feira de Luanda, e depois a mulher do tabuleiro, passou a nomear um balcão com teto, e é esse balcão que o Houaiss descreve.

 

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III  O Que Fica

Da feira à vendinha

O encolhimento da quitanda acompanha o encolhimento do comércio miúdo. No século 20, a feira livre, o supermercado e o sacolão foram ocupando o lugar da loja de bairro, e quitanda passou a soar como palavra de avó.

Ela sobrevive em placas antigas e em nomes de lugar. O Palácio Quitandinha, em Petrópolis, inaugurado em 1944 como hotel-cassino, tirou o nome da região onde foi erguido, a Quitandinha, batizada pelas vendas que ficavam no caminho da serra.

Em Minas Gerais, a palavra tomou um rumo próprio. Quitanda, ali, nomeia os quitutes de forno feitos em casa: biscoito de polvilho, broa de fubá, rosca, bolo e pão de queijo. É o conteúdo do antigo tabuleiro, e não mais o tabuleiro.

Em Minas, quitanda não se compra na esquina: se assa no forno e se serve no café da tarde.

Os livros de receita de Minas trazem capítulos inteiros de quitandas, e as cidades do interior do estado fazem festivais dedicados a elas, com concurso de biscoito e mesa farta de broa.

O sentido mineiro guarda a memória da quitandeira das lavras. O que ela vendia nos caminhos do ouro virou categoria de comida, com receita passada de mãe pra filha.

Em Angola, a kitanda continua grande. Até 2010, Luanda tinha o mercado do Roque Santeiro, uma feira a céu aberto sobre um morro perto do porto, considerada uma das maiores da África. O governo fechou o mercado naquele ano e transferiu os vendedores pra outra área da cidade.

O nome do mercado veio do Brasil. Roque Santeiro era a novela da TV Globo exibida em Angola nos anos 1980, e os vendedores batizaram a feira com o título dela. A palavra foi pra Luanda numa direção e voltou na outra, trazendo a televisão junto.

Nas ruas de Luanda, a vendedora de hoje se chama zungueira, do quimbundo kuzunga, andar em volta. Ela carrega a bacia na cabeça, como a quitandeira do Rio de Debret.

A quitanda deixou três heranças no português do Brasil:

1. Quitanda, a vendinha de frutas e verduras, no sentido do dicionário.

2. Quitanda mineira, o biscoito e a broa do café da tarde.

3. Quitandeira, a palavra que guarda a mulher do tabuleiro e o ganho que ela juntava.

O Houaiss pode ganhar uma linha de origem mais larga. Antes de nomear a loja da esquina, quitanda nomeava uma feira angolana inteira, e depois a mulher que levou essa feira na cabeça pelas ruas do Rio.

Na sua cidade, a palavra quitanda ainda está numa placa, num biscoito ou só na memória?

 
 
 
 
Quiz da edição

Em 1697, quem publicou em Lisboa a primeira gramática do quimbundo, destinada a padres que iam catequizar escravizados vindos de Luanda?

AJean-Baptiste Debret
BNei Lopes
CPedro Dias
DLuciano Figueiredo

Resultado da última edição: 40% acertaram.

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