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O encolhimento da quitanda acompanha o encolhimento do comércio miúdo. No século 20, a feira livre, o supermercado e o sacolão foram ocupando o lugar da loja de bairro, e quitanda passou a soar como palavra de avó.
Ela sobrevive em placas antigas e em nomes de lugar. O Palácio Quitandinha, em Petrópolis, inaugurado em 1944 como hotel-cassino, tirou o nome da região onde foi erguido, a Quitandinha, batizada pelas vendas que ficavam no caminho da serra.
Em Minas Gerais, a palavra tomou um rumo próprio. Quitanda, ali, nomeia os quitutes de forno feitos em casa: biscoito de polvilho, broa de fubá, rosca, bolo e pão de queijo. É o conteúdo do antigo tabuleiro, e não mais o tabuleiro.
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Em Minas, quitanda não se compra na esquina: se assa no forno e se serve no café da tarde.
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Os livros de receita de Minas trazem capítulos inteiros de quitandas, e as cidades do interior do estado fazem festivais dedicados a elas, com concurso de biscoito e mesa farta de broa.
O sentido mineiro guarda a memória da quitandeira das lavras. O que ela vendia nos caminhos do ouro virou categoria de comida, com receita passada de mãe pra filha.
Em Angola, a kitanda continua grande. Até 2010, Luanda tinha o mercado do Roque Santeiro, uma feira a céu aberto sobre um morro perto do porto, considerada uma das maiores da África. O governo fechou o mercado naquele ano e transferiu os vendedores pra outra área da cidade.
O nome do mercado veio do Brasil. Roque Santeiro era a novela da TV Globo exibida em Angola nos anos 1980, e os vendedores batizaram a feira com o título dela. A palavra foi pra Luanda numa direção e voltou na outra, trazendo a televisão junto.
Nas ruas de Luanda, a vendedora de hoje se chama zungueira, do quimbundo kuzunga, andar em volta. Ela carrega a bacia na cabeça, como a quitandeira do Rio de Debret.
A quitanda deixou três heranças no português do Brasil:
1. Quitanda, a vendinha de frutas e verduras, no sentido do dicionário.
2. Quitanda mineira, o biscoito e a broa do café da tarde.
3. Quitandeira, a palavra que guarda a mulher do tabuleiro e o ganho que ela juntava.
O Houaiss pode ganhar uma linha de origem mais larga. Antes de nomear a loja da esquina, quitanda nomeava uma feira angolana inteira, e depois a mulher que levou essa feira na cabeça pelas ruas do Rio.
Na sua cidade, a palavra quitanda ainda está numa placa, num biscoito ou só na memória?
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