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Pororoca
/po.ɾo.ˈʁɔ.kɐ/
Do tupi. Poro'rog, estrondar, deu nome à onda da maré que sobe os rios do baixo Amazonas e se anuncia pelo barulho
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A onda da maré subindo o rio amazônico
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"Pororoca: encontro das águas de um rio com as da maré oceânica, que produz forte estrondo e ondas de grande altura" (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001). A entrada descreve o fenômeno com exatidão e deixa passar batido o detalhe que explica o nome: o estrondo citado no fim da definição não é uma consequência da onda, é a razão pela qual ela se chama assim. Em tupi, poro'rog quer dizer estrondar, e os povos do baixo Amazonas batizaram a parede de água pelo som que ela manda na frente.
A ordem dos acontecimentos explica a escolha. Quem está na margem escuta primeiro um estouro grave, contínuo, que sobe pelo leito do rio e cresce por vários minutos antes de qualquer coisa aparecer na curva. A onda chega depois do anúncio dela, e quem conhece o rio sabe calcular, pelo tempo que o barulho leva para encorpar, quantos minutos ainda restam para tirar a canoa da água e subir a barranca.
Um nome de fenômeno costuma descrever a forma, a cor ou o tamanho do que se vê. Maremoto fala do mar que se move, cachoeira fala da queda, enchente fala do volume. Pororoca abriu caminho por outro sentido e fixou em palavra aquilo que o corpo percebe primeiro, de olhos fechados, a quilômetros do ponto onde a água vai passar.
A forma da palavra guarda o barulho na própria construção. O tupi repetia sílabas para indicar ação continuada, e pororoca traz uma repetição embutida que soa como o estouro se prolongando: a palavra não descreve o som, ela imita o som e o estica.
A peça mínima dessa construção é um verbo curto de três letras, e vale começar por ele, porque o mesmo verbo produziu outra palavra que o brasileiro repete toda vez que senta no cinema.
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I A Raiz
O verbo que imita o estouro
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A base é poc, verbo do tupi antigo que significa estourar, arrebentar, romper com barulho. Os missionários que descreveram a língua no século dezesseis registraram o termo entre os verbos de ação instantânea, aqueles que nomeiam um movimento curto e único, com começo e fim no mesmo instante.
De poc saiu a palavra que ninguém associa a rio nenhum. Pipoca vem de pi, que quer dizer pele, casca, mais poca, a forma nominal de estourar: literalmente, pele que estoura. O milho ganhou nome pelo mesmo critério da onda amazônica, pelo estouro, não pela aparência nem pelo sabor.
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pororoca: o estrondo, o grande barulho; a onda impetuosa da maré nas fozes dos rios.
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Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional, 1901
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Teodoro Sampaio era engenheiro e passou a vida catalogando topônimos indígenas do Brasil, e a entrada dele coloca o estrondo antes da onda, na ordem em que os dois chegam a quem espera na margem.
A forma poroc, ampliada, carrega a ideia de estrondar de modo repetido, sustentado, aquilo que se ouve como uma sequência de arrebentações e não como um estalo único. A duplicação da sílaba ro dentro da palavra é o recurso gramatical que o tupi usava para transformar um gesto pontual em ação prolongada.
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A palavra não conta o que a onda faz. Ela reproduz, em quatro sílabas, o tempo que o estouro leva para atravessar o rio inteiro.
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O procedimento aparece em outras palavras da mesma família linguística que o português do Brasil incorporou sem perceber a costura interna. Mirim, açu, guaçu e ybyra circulam em nomes de bairro, de rio e de bicho, e cada um deles descreve uma qualidade percebida, tamanho, altura, cor, nunca uma classificação abstrata.
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pororoca: do tupi poro'roka, estrondo.
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Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982
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A entrada de Antônio Geraldo da Cunha é curta e resolve a origem numa linha, sem entrar na disputa sobre qual das duas leituras possíveis da raiz veio primeiro, uma questão que continua aberta entre os tupinólogos e que reaparece no fim desta edição.
O critério que produziu a palavra revela o modo de nomear de quem vivia ali. O fenômeno recebeu nome pela informação que salva a canoa: o barulho que dá tempo de sair da água. Descrever a altura da onda não ajudaria ninguém, porque quem consegue medir a altura já está perto demais para escapar dela.
Esse nome, carregado no idioma de quem morava na margem, chegou ao português pela boca dos práticos de navegação e pelos cadernos dos viajantes europeus que desciam o rio, e foi na página escrita que ele virou termo técnico.
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II A Viagem
Como o estrondo entrou no papel
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O francês Charles Marie de La Condamine desceu o Amazonas em 1743, no fim da expedição que a Academia de Ciências de Paris mandou medir o formato da Terra, e publicou o relato dois anos depois em Paris com o título Relation abrégée d'un voyage fait dans l'intérieur de l'Amérique méridionale, ou seja, relato resumido de uma viagem pelo interior da América meridional. O texto descreve a onda da maré subindo contra a correnteza e registra o nome usado pelos moradores.
O relato europeu chegou com vocabulário próprio para o mesmo evento. O inglês chama o fenômeno de tidal bore, expressão que se traduz por onda de maré, e o francês usa mascaret, termo antigo do estuário do rio Gironde. Nenhum dos dois menciona som: os dois nomeiam o movimento da água.
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mascaret e bore descrevem uma maré que sobe. Pororoca descreve uma maré que avisa.
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O português brasileiro adotou a palavra indígena e aposentou qualquer alternativa. Os dicionários portugueses do século dezenove já traziam a entrada como termo do Brasil, com a marcação de origem tupi, e o termo passou a circular em manual de navegação, em relatório de província e em livro escolar sem tradução nem explicação.
A geografia do fenômeno explica a concentração do vocábulo numa faixa estreita do país. A onda se forma onde a maré oceânica entra num rio de foz rasa e larga, encontra a correnteza de frente e é empurrada leito acima em forma de degrau de água, e as marés mais altas do ano, nos períodos próximos aos equinócios de março e de setembro, produzem as passagens mais fortes.
No Brasil, os pontos clássicos ficam no baixo Amazonas e no litoral vizinho: o canal do Norte, na foz do Amazonas, o rio Araguari, no Amapá, o rio Guamá e o rio Capim, no Pará, e o rio Mearim, no Maranhão, onde a onda sobe pela baía de São Marcos.
A palavra logo escapou do rio e virou nome de outras coisas barulhentas ou embaralhadas. Pescador do litoral do Rio de Janeiro chama de pororoca o encontro de correntes marítimas de temperaturas diferentes, que forma uma faixa de água agitada e visível da praia, sem nenhuma maré subindo rio acima.
E no português falado o termo virou sinônimo de confusão generalizada. Dizer que uma reunião virou pororoca significa dizer que tudo se misturou de uma vez e ninguém consegue mais separar o que era de cada lado, uso figurado que nasceu da imagem das águas doce e salgada revolvidas juntas.
Nenhum desses sentidos apagou o original. O nome continua colado ao fenômeno do baixo Amazonas, e é lá que ele sustenta hoje um campeonato, um calendário de turismo e um registro esportivo que cabe em minutos.
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