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Placebo
/plaˈse.bu/
Do latim. De placebo, eu agradarei, o verso de salmo que um coro pago cantava no velório alheio
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A antífona aberta no atril das vésperas dos defuntos
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Para 21.728 voluntários do maior ensaio clínico de 2020, a agulha não tinha vacina nenhuma. Levava soro fisiológico, água com sal a 0,9%, a mesma solução que corre em qualquer soro de hospital. Eles marcaram hora, levantaram a manga, tomaram duas doses com três semanas de intervalo e foram para casa sem saber o que tinham recebido.
O estudo publicado no fim daquele ano dividiu 43.448 pessoas em duas metades quase idênticas. Uma recebeu o imunizante, a outra recebeu a água salgada. O número de 95% de eficácia que saiu em todas as manchetes só existe por causa da segunda metade: eficácia é comparação, e alguém precisa segurar o lado vazio da conta.
O nome do lado vazio é placebo. A palavra está em bula, em manchete de ensaio clínico, em conversa de consultório e em piada de escritório, sempre com o mesmo sentido técnico: a substância sem princípio ativo que serve de régua para medir o efeito da outra.
No uso corrente ela virou sinônimo de consolo vazio. Dizer que uma medida é placebo é dizer que serve para acalmar quem espera, sem tocar no problema. A frase costuma sair com desprezo, e o desprezo tem quinhentos anos de idade.
Nada no som sugere farmácia. Placebo não é grego de medicina, não é nome de composto, não é sigla de protocolo. É latim de igreja, e é um verbo conjugado: primeira pessoa do singular do futuro de placēre, agradar. Placebo quer dizer eu agradarei.
Um verbo na primeira pessoa precisa de alguém falando. E quem falava não era o médico, nem o paciente, nem o fabricante do comprimido. Era um coro contratado, dentro de uma igreja, com um caixão à frente e a família do defunto pagando a conta.
A Raiz volta ao versículo em que a promessa aparece, à tradução que a colocou lá e ao ofício que a repetia à beira do caixão.
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I A Raiz
Jerônimo, o salmo e o coro pago
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O verso está no Salmo 114, versículo 9, na conta da Vulgata, o mesmo que a numeração hebraica chama de Salmo 116. Em latim: Placebo Domino in regione vivorum. Agradarei ao Senhor na terra dos vivos.
A promessa entrou ali por um desvio de tradução. O original hebraico traz um verbo de movimento, andar, caminhar: andarei diante do Senhor na terra dos vivos. A Septuaginta grega verteu o trecho por euarestḗsō, serei agradável, e a versão latina que a liturgia adotou seguiu o grego.
Jerônimo percebeu a diferença e deixou as duas versões prontas. No saltério que ele traduziu direto do hebraico, o versículo diz ambulabo coram Domino, andarei diante do Senhor. No saltério galicano, feito a partir do grego, diz placebo Domino. A igreja cantou o segundo por mil anos.
A liturgia batizava cada ofício pela primeira palavra cantada. As vésperas do Ofício dos Defuntos abriam com a antífona Placebo Domino, e o serviço inteiro ficou conhecido como Placebo. As matinas seguintes começavam com Dirige, Domine, e o inglês tirou dali dirge, canto fúnebre.
Cantar placebo, na boca de um clérigo do século XIII, era rezar as vésperas dos defuntos. A expressão não carregava ironia nenhuma. Era agenda de trabalho.
O ofício tinha economia própria. A família encomendava o canto, pagava o coro e distribuía pão, moedas e comida aos presentes. Testamento de gente com posses reservava soma fixa para o número de vozes que deveriam cantar no velório.
O pagamento atraía figurante. Carpideiras profissionais, clérigos sem paróquia e pobres da vizinhança apareciam em enterro de desconhecido, cantavam o versículo com o resto e ficavam para a esmola e para a refeição.
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Quem cantava placebo no velório alheio não estava ali pelo defunto. Estava pela moeda e pelo pão. A promessa de agradar era feita a Deus e cobrada da família.
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Da cena saiu o apelido. Placebo virou nome do sujeito que diz o que agrada para tirar proveito, e o francês antigo já tinha a expressão pronta: chanter placebo, cantar placebo, adular.
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Os bajuladores são os capelães do diabo, que cantam sempre Placebo.
Geoffrey Chaucer, Os Contos da Cantuária, por volta de 1390
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Chaucer levou a piada adiante e deu o nome a um personagem. No Conto do Mercador, o velho cavaleiro Januário reúne os irmãos para opinar sobre o casamento com uma moça de vinte anos. Justino aponta o desastre. Placebo elogia a ideia do começo ao fim e diz que nunca contrariou um senhor na vida.
Por quatro séculos a palavra ficou nesse cargo, entre o púlpito e a sátira, sem nenhuma relação com doença.
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II A Viagem
Do bajulador ao dicionário de 1811
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A mudança de endereço aparece primeiro em dicionário, e sem alarde. George Motherby, na segunda edição do A New Medical Dictionary, de 1785, registra placebo como um método ou remédio comum. A entrada é curta e quase distraída, mas a palavra já está no vocabulário dos médicos ingleses.
Vinte e seis anos depois a definição fica completa. Robert Hooper, no Quincy's Lexicon-Medicum de 1811, escreve a frase que a medicina repetiria pelos dois séculos seguintes.
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Epíteto dado a qualquer remédio adaptado mais para agradar do que para beneficiar o doente.
Robert Hooper, Quincy's Lexicon-Medicum, 1811
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O salmo tinha virado receita. Nos dois endereços a palavra descreve a mesma operação: entregar alguma coisa que agrada a quem espera, sem prometer que a entrega resolve.
A prática é mais velha que a definição, e tem registro de sala de aula. William Cullen, professor de medicina em Edimburgo, usou o termo nas lições clínicas de 1772 ao falar de um paciente a quem receitou pó de mostarda numa dose que sabia inerte. Anotou que não confiava no remédio, mas que era preciso dar alguma coisa ao doente.
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Entre o coro do velório e a prescrição do professor de Edimburgo, o sentido não mudou de lugar. Alguém entrega o que agrada, e o efeito vem da entrega, não do conteúdo.
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O primeiro teste desenhado para separar as duas coisas é de 1799, e nasceu de uma briga com um vendedor. Elisha Perkins, médico de Connecticut, patenteou em 1796 duas hastes de liga metálica, os tratores, que passadas sobre a pele por alguns minutos aliviariam dor, inflamação e reumatismo. O aparelho vendia caro nos Estados Unidos e na Inglaterra.
John Haygarth, médico em Bath, mandou fazer cópias das hastes em madeira pintada de modo a parecer metal. Em janeiro de 1799 aplicou as falsas em cinco pacientes com reumatismo. Quatro relataram alívio imediato. No dia seguinte, com os tratores verdadeiros, o resultado foi o mesmo.
Haygarth publicou o experimento em 1800, com um título que entrega a tese: Of the Imagination, as a Cause and as a Cure of Disorders of the Body. Da imaginação, como causa e como cura das desordens do corpo.
O método demorou a virar rotina. Em 1863, o americano Austin Flint acompanhou treze pacientes com febre reumática tratados apenas com uma tintura de quássia bem diluída, que ele chamou de remédio placebo, e comparou a evolução deles com a dos doentes que recebiam o tratamento agressivo da época.
A expressão efeito placebo aparece impressa em 1920, num artigo da revista médica The Lancet. Em 1955, o anestesista Henry Beecher publicou na JAMA um levantamento chamado O Poderoso Placebo, com a conta que ficou famosa: cerca de um terço dos pacientes melhorava com o comprimido inerte.
A lei fechou a porta em 1962. Depois do desastre da talidomida, a emenda Kefauver-Harris passou a exigir do fabricante americano prova de eficácia, e não apenas de segurança. Provar eficácia obriga a comparar, e comparar obriga a existir um grupo tomando o que agrada.
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