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Origem
/o.ˈɾi.ʒẽj̃/
Do latim. Origo vem de oriri, nascer e levantar-se, o verbo que também batizou o oriente, o lado do céu onde o dia começa
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Sevilha, 630: a primeira luz na escrivaninha
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Um verbo latino servia para tudo que sobe do chão ou da linha do horizonte: oriri, levantar-se, vir a existir. O romano usava esse verbo para a semente que rompe a terra, para a criança que chega ao mundo, para o boato que começa a correr na praça e para o sol que aparece na borda do campo. Era um verbo de movimento para cima, não de passado.
Do particípio presente dele, oriens, aquele que está subindo, o latim tirou o nome do lado do céu onde o dia começa. O oriente é o ponto em que o sol sobe, e nada mais. Do mesmo tronco, com o sufixo go, que em latim forma substantivos de ação como vertigo, o ato de girar, nasceu origo, genitivo originis, a palavra que o português recebeu quase intacta.
A família toda ainda circula no seu vocabulário sem parecer parente. Original é o que está no ponto de nascimento. Originário é quem sobe de certo lugar. Aborígene traduz a expressão latina ab origine, desde o começo. Oriundo é o particípio de futuro oriundus, aquele que há de nascer de. Oriental descreve quem está do lado do nascer do sol. E orientar, que hoje significa dar direção a alguém, guarda um gesto físico que a segunda parte desta edição vai desmontar.
O que essa raiz não carrega é a ideia de velharia. Origem não nomeia o que é antigo, nomeia o ponto em que alguma coisa começa a subir. A diferença muda o modo de ler a palavra: quando alguém fala da origem de um conflito, de uma família ou de uma doença, está apontando para um instante de nascimento, não para uma data remota no calendário.
Antes do dicionário existe um censor romano que escreveu a primeira história em prosa latina e a batizou de Origines, um gramático que passou a vida tentando explicar por que cada palavra soava daquele jeito, e um bispo da Espanha visigótica que resolveu guardar o saber do mundo antigo num livro só.
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I A Raiz
O verbo que o sol conjugava
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Marco Terêncio Varrão, erudito romano que escreveu De lingua Latina por volta de 43 a.C., foi o primeiro a tratar a origem das palavras como assunto de investigação, e não de curiosidade de sobremesa. Ele dedicou vinte e cinco livros ao latim, dos quais sobreviveram seis, e passou boa parte deles caçando o ponto em que cada termo havia nascido.
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A antiguidade deturpa poucas palavras e faz desaparecer muitas.
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Marco Terêncio Varrão, De lingua Latina, livro V, por volta de 43 a.C.
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O verbo oriri pertencia a uma classe estranha, a dos depoentes, verbos de forma passiva e sentido ativo. Quem nascia não era nascido por ninguém: subia sozinho. O particípio passado dele, ortus, virou substantivo técnico e chegou à astronomia portuguesa. Orto é o nascimento de um astro na linha do horizonte, e o par contrário dele é ocaso, o desaparecimento atrás dela. Almanaque de agricultor e tábua de navegação usaram os dois termos por séculos.
Com prefixo, oriri mudava de humor. Exoriri era irromper, brotar com força. Aboriri, formado com ab, que indica afastamento, significava deixar de nascer, e é dele que vêm abortar e aborto, palavras que descrevem uma subida interrompida antes de chegar ao ar.
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Origem não é o passado de uma coisa. É o instante em que ela deixou de não existir.
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O substantivo origo entrou cedo em dois campos onde precisão importava: o do sangue e o do território. Ele servia para declarar de onde um homem vinha, informação que valia direitos concretos em Roma. E foi como título de livro que a palavra ganhou dimensão pública.
Marco Pórcio Catão, o Censor, político romano conhecido pelo ataque implacável ao luxo grego, começou por volta de 168 a.C. uma obra em sete livros chamada Origines. Era a primeira história escrita em prosa latina, e não em grego, como faziam os romanos cultos da geração anterior. Catão contava a fundação de Roma e a das cidades italianas, cada uma com sua origo, o momento em que aquele povo havia subido ao mundo.
A obra inteira se perdeu. O que existe hoje são trechos citados por gramáticos posteriores, uns cem fragmentos curtos preservados em autores como Aulo Gélio e Nônio Marcelo. O primeiro livro latino a colocar a palavra origem no título desapareceu, e ninguém sabe em que século sumiu a última cópia: os manuscritos de Catão já eram raros na Idade Média e nenhum chegou às bibliotecas modernas.
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II A Viagem
Por que o mapa virou para o lado do sol
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No direito romano, origo era termo de cartório. A palavra nomeava a cidade à qual uma pessoa pertencia por nascimento do pai, coisa diferente de domicilium, o lugar onde ela morava de fato. Um homem nascido de pai de Pompeia e residente em Roma tinha origem numa cidade e domicílio na outra, e devia encargos municipais, os munera, às duas.
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Torna alguém cidadão de um município o nascimento, a alforria ou a adoção.
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Ulpiano, citado no Digesto, livro 50, compilado em 533
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A regra atravessou o império inteiro e deixou marca no vocabulário administrativo europeu. Certidão de origem, comprovante de origem e denominação de origem descendem, em linha reta, desse uso jurídico que separava o berço do endereço.
Enquanto isso, oriens seguia carreira própria. A igreja cristã dos primeiros séculos adotou o costume de rezar voltada para o nascente, e as basílicas passaram a ser construídas com o altar no lado do sol que sobe. Essa operação de virar um prédio para o leste ganhou um verbo no latim medieval, orientare, que significava literalmente colocar na direção do oriente.
Os cartógrafos medievais fizeram o mesmo com o papel. O mapa de Hereford, desenhado em pergaminho por volta de 1300 e guardado até hoje na catedral inglesa de mesmo nome, coloca o leste no topo, com o paraíso terrestre lá em cima e Jerusalém no centro. Norte no topo é convenção posterior, firmada pela cartografia náutica europeia dos séculos XV e XVI. Quem abria um mapa naquele tempo precisava orientá-lo, ou seja, girar a folha até o oriente ficar para cima.
O gesto sumiu e o verbo ficou. Orientar alguém, orientação profissional, orientador de tese e orientar uma antena vêm todos daquela manobra de colocar o leste no lugar certo. O contrário também sobreviveu: desorientado é quem perdeu de vista o lado por onde o sol nasce.
A palavra origem entrou no português pela via culta, copiada do latim escrito e não trazida pela boca do povo, com registro em textos do século XV. O sinal de que ela veio pela escrita está na forma: uma palavra de transmissão popular teria sofrido desgaste, perdido sílaba, mudado consoante, como aconteceu com o latim oculum, que virou olho. Origo chegou quase do jeito que saiu.
Aborígene teve destino mais movimentado. Os romanos chamavam de Aborigines o povo lendário que ocupava o Lácio antes da chegada de Eneias, segundo a versão que Tito Lívio registrou na Ab Urbe Condita, por volta de 27 a.C. O termo dormiu séculos nos livros e acordou em 1789, quando colonos britânicos passaram a usá-lo para os povos que já viviam na Austrália.
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