In partnership with

A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 161

75% escolheram Mandarim. Sai em 27/09.

Origem

/o.ˈɾi.ʒẽj̃/

Do latim. Origo vem de oriri, nascer e levantar-se, o verbo que também batizou o oriente, o lado do céu onde o dia começa

Escritório de copista visigótico em Sevilha ao amanhecer, com pergaminho e lamparina

Sevilha, 630: a primeira luz na escrivaninha

▼

Um verbo latino servia para tudo que sobe do chão ou da linha do horizonte: oriri, levantar-se, vir a existir. O romano usava esse verbo para a semente que rompe a terra, para a criança que chega ao mundo, para o boato que começa a correr na praça e para o sol que aparece na borda do campo. Era um verbo de movimento para cima, não de passado.

Do particípio presente dele, oriens, aquele que está subindo, o latim tirou o nome do lado do céu onde o dia começa. O oriente é o ponto em que o sol sobe, e nada mais. Do mesmo tronco, com o sufixo go, que em latim forma substantivos de ação como vertigo, o ato de girar, nasceu origo, genitivo originis, a palavra que o português recebeu quase intacta.

A família toda ainda circula no seu vocabulário sem parecer parente. Original é o que está no ponto de nascimento. Originário é quem sobe de certo lugar. Aborígene traduz a expressão latina ab origine, desde o começo. Oriundo é o particípio de futuro oriundus, aquele que há de nascer de. Oriental descreve quem está do lado do nascer do sol. E orientar, que hoje significa dar direção a alguém, guarda um gesto físico que a segunda parte desta edição vai desmontar.

O que essa raiz não carrega é a ideia de velharia. Origem não nomeia o que é antigo, nomeia o ponto em que alguma coisa começa a subir. A diferença muda o modo de ler a palavra: quando alguém fala da origem de um conflito, de uma família ou de uma doença, está apontando para um instante de nascimento, não para uma data remota no calendário.

Antes do dicionário existe um censor romano que escreveu a primeira história em prosa latina e a batizou de Origines, um gramático que passou a vida tentando explicar por que cada palavra soava daquele jeito, e um bispo da Espanha visigótica que resolveu guardar o saber do mundo antigo num livro só.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Raiz

O verbo que o sol conjugava

Marco Terêncio Varrão, erudito romano que escreveu De lingua Latina por volta de 43 a.C., foi o primeiro a tratar a origem das palavras como assunto de investigação, e não de curiosidade de sobremesa. Ele dedicou vinte e cinco livros ao latim, dos quais sobreviveram seis, e passou boa parte deles caçando o ponto em que cada termo havia nascido.

A antiguidade deturpa poucas palavras e faz desaparecer muitas.

Marco Terêncio Varrão, De lingua Latina, livro V, por volta de 43 a.C.

O verbo oriri pertencia a uma classe estranha, a dos depoentes, verbos de forma passiva e sentido ativo. Quem nascia não era nascido por ninguém: subia sozinho. O particípio passado dele, ortus, virou substantivo técnico e chegou à astronomia portuguesa. Orto é o nascimento de um astro na linha do horizonte, e o par contrário dele é ocaso, o desaparecimento atrás dela. Almanaque de agricultor e tábua de navegação usaram os dois termos por séculos.

Com prefixo, oriri mudava de humor. Exoriri era irromper, brotar com força. Aboriri, formado com ab, que indica afastamento, significava deixar de nascer, e é dele que vêm abortar e aborto, palavras que descrevem uma subida interrompida antes de chegar ao ar.

Origem não é o passado de uma coisa. É o instante em que ela deixou de não existir.

O substantivo origo entrou cedo em dois campos onde precisão importava: o do sangue e o do território. Ele servia para declarar de onde um homem vinha, informação que valia direitos concretos em Roma. E foi como título de livro que a palavra ganhou dimensão pública.

Marco Pórcio Catão, o Censor, político romano conhecido pelo ataque implacável ao luxo grego, começou por volta de 168 a.C. uma obra em sete livros chamada Origines. Era a primeira história escrita em prosa latina, e não em grego, como faziam os romanos cultos da geração anterior. Catão contava a fundação de Roma e a das cidades italianas, cada uma com sua origo, o momento em que aquele povo havia subido ao mundo.

A obra inteira se perdeu. O que existe hoje são trechos citados por gramáticos posteriores, uns cem fragmentos curtos preservados em autores como Aulo Gélio e Nônio Marcelo. O primeiro livro latino a colocar a palavra origem no título desapareceu, e ninguém sabe em que século sumiu a última cópia: os manuscritos de Catão já eram raros na Idade Média e nenhum chegou às bibliotecas modernas.

 
 

II  A Viagem

Por que o mapa virou para o lado do sol

No direito romano, origo era termo de cartório. A palavra nomeava a cidade à qual uma pessoa pertencia por nascimento do pai, coisa diferente de domicilium, o lugar onde ela morava de fato. Um homem nascido de pai de Pompeia e residente em Roma tinha origem numa cidade e domicílio na outra, e devia encargos municipais, os munera, às duas.

Torna alguém cidadão de um município o nascimento, a alforria ou a adoção.

Ulpiano, citado no Digesto, livro 50, compilado em 533

A regra atravessou o império inteiro e deixou marca no vocabulário administrativo europeu. Certidão de origem, comprovante de origem e denominação de origem descendem, em linha reta, desse uso jurídico que separava o berço do endereço.

Enquanto isso, oriens seguia carreira própria. A igreja cristã dos primeiros séculos adotou o costume de rezar voltada para o nascente, e as basílicas passaram a ser construídas com o altar no lado do sol que sobe. Essa operação de virar um prédio para o leste ganhou um verbo no latim medieval, orientare, que significava literalmente colocar na direção do oriente.

Os cartógrafos medievais fizeram o mesmo com o papel. O mapa de Hereford, desenhado em pergaminho por volta de 1300 e guardado até hoje na catedral inglesa de mesmo nome, coloca o leste no topo, com o paraíso terrestre lá em cima e Jerusalém no centro. Norte no topo é convenção posterior, firmada pela cartografia náutica europeia dos séculos XV e XVI. Quem abria um mapa naquele tempo precisava orientá-lo, ou seja, girar a folha até o oriente ficar para cima.

O gesto sumiu e o verbo ficou. Orientar alguém, orientação profissional, orientador de tese e orientar uma antena vêm todos daquela manobra de colocar o leste no lugar certo. O contrário também sobreviveu: desorientado é quem perdeu de vista o lado por onde o sol nasce.

A palavra origem entrou no português pela via culta, copiada do latim escrito e não trazida pela boca do povo, com registro em textos do século XV. O sinal de que ela veio pela escrita está na forma: uma palavra de transmissão popular teria sofrido desgaste, perdido sílaba, mudado consoante, como aconteceu com o latim oculum, que virou olho. Origo chegou quase do jeito que saiu.

Aborígene teve destino mais movimentado. Os romanos chamavam de Aborigines o povo lendário que ocupava o Lácio antes da chegada de Eneias, segundo a versão que Tito Lívio registrou na Ab Urbe Condita, por volta de 27 a.C. O termo dormiu séculos nos livros e acordou em 1789, quando colonos britânicos passaram a usá-lo para os povos que já viviam na Austrália.

 

Quem banca a edição de hoje

Every headline satisfies an opinion. Except ours.

Remember when the news was about what happened, not how to feel about it? 1440's Daily Digest is bringing that back. Every morning, they sift through 100+ sources to deliver a concise, unbiased briefing — no pundits, no paywalls, no politics. Just the facts, all in five minutes. For free.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Fica

A casa onde as palavras foram guardadas

Isidoro de Sevilha, bispo da cidade na Espanha visigótica e morto em 636, passou os últimos anos da vida montando um livro que resolvesse um problema prático: o saber do mundo antigo estava espalhado em obras que iam desaparecendo, e quase ninguém conseguia mais ler grego no ocidente. A resposta dele foi juntar tudo num volume só, organizado por assunto.

O livro se chama Etymologiae, ficou pronto por volta de 630 e cobre vinte áreas em vinte livros: gramática, retórica, matemática, medicina, direito, teologia, línguas, cidades, animais, pedras, metais, agricultura, guerra, navios, roupas, comida e móveis. Isidoro morreu antes de terminar a revisão, e foi Bráulio, bispo de Saragoça e amigo dele, quem dividiu o texto em livros e o colocou em circulação.

O método do autor explica o título. Isidoro acreditava que a origem do nome revelava a natureza da coisa nomeada, e por isso abria quase todo verbete explicando de onde vinha a palavra.

Se não souberes o nome, o conhecimento das coisas se perde.

Isidoro de Sevilha, Etymologiae, livro I, por volta de 630

Boa parte dessas explicações está errada, e o motivo é técnico. Isidoro trabalhava por semelhança de som, sem nenhum instrumento para comparar línguas entre si. Ele afirma que sol se chama assim porque brilha sozinho, solus, quando a palavra na verdade vem de uma raiz herdada que aparece no grego hélios e no sânscrito sūryah. O método comparativo, capaz de medir parentesco entre idiomas por correspondência regular de sons, só apareceu em 1816, com o alemão Franz Bopp.

Errado no detalhe, o livro acertou na função. A Europa copiou as Etymologiae durante mil anos: o paleógrafo alemão Bernhard Bischoff, em levantamento publicado em 1961, catalogou quase mil manuscritos medievais da obra, número que poucos textos não bíblicos alcançam. A primeira edição impressa saiu em Augsburgo, em 1472, menos de vinte anos depois da Bíblia de Gutenberg. Por séculos, quem quisesse saber por que uma coisa tinha aquele nome consultava Isidoro.

Esta newsletter faz o que aquele bispo fazia, com uma diferença de método que muda tudo. Hoje existe dicionário etimológico construído sobre dois séculos de comparação entre línguas, existe corpus datado, existe registro de primeira ocorrência. A curiosidade é a mesma, a ferramenta é outra, e o resultado é que a explicação pode ser conferida em vez de acreditada.

Toda palavra que você leu aqui subiu de algum lugar, num momento que alguém conseguiu datar. Responda este email contando qual palavra você descobriu por aqui primeiro, aquela que fez você olhar diferente para uma coisa banal do dia.

"Qual palavra você usa todo dia sem nunca ter perguntado de onde ela subiu?"

 
 
 
 
Casa da Mãe Joana. Oito origens, uma por dia, no ebook e no app. Quero o ebook + app.

Quero o ebook + app →

 
Quiz da edição

Em que ano, aproximadamente, Catão começou a escrever a obra Origines?

A43 a.C.
B533
C168 a.C.
D1300

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

📜📜📜📜📜  ótima 📜📜📜📜  boa 📜📜📜  ok 📜📜  ruim 📜  péssima
 
 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

What’s the secret to staying ahead of the curve in the world of AI? Information. 

Luckily, you can join 2,000,000+ early adopters reading The Rundown AI — the free newsletter that makes you smarter on AI with just a 5-minute read per day.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
Recomendação de Newsletter
Fábula do Dia

Fábula do Dia

A história resumida e a moral que fica, prontas pra ler em voz alta, em cinco minutos. No seu email todo dia às 19:19.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Indique essa newsletter para um amigo

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
Edição de Colecionador do mês
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook Casa da Mãe Joana
ebook Casa da Mãe Joana

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
🗳️ Vote na pauta de setembro, a mais votada vira edição
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
Amanhã nesta news

ED 163 · amanhã às 12:12

Quitanda

Quitanda vem do quimbundo kitanda, a feira ao ar livre de Luanda; no Rio colonial as quitandeiras vendiam nas…

 

Toda palavra e um fossil. Ad fontes.

A ORIGEM DAS PALAVRAS

Você fala 30 mil palavras por dia e não sabe de onde veio nenhuma

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos