|
O destino mais curioso de omnibus está no corte que o inglês fez. A sobra bus passou a funcionar como palavra independente, e depois como peça pra formar outras.
Primeiro veio o autobus, no francês e em várias línguas da Europa, pra distinguir o carro a motor do puxado a cavalo. Depois o trolleybus, o ônibus elétrico ligado a fios, que o português chamou de trólebus.
Vieram ainda o micro-ônibus e o minibus, pros carros menores, e o aerobus, o nome que alguns fabricantes deram a aviões de passageiros. Em todos esses casos, o pedaço que significa “para todos” passou a significar “veículo coletivo”.
Na informática a sobra foi mais longe. Barramento, o caminho por onde os dados viajam dentro do computador, se diz bus em inglês: uma via por onde passa qualquer informação, como o carro de Baudry levava qualquer passageiro.
Um plural que não varia
No português, a origem deixou uma marca na gramática. Ônibus não muda no plural: um ônibus, dois ônibus. A palavra já chegou com final de plural latino, e o português não acrescentou outro.
O mesmo vale pra lápis, vírus e pires, que terminam em -s na sílaba átona e ficam iguais nos dois números. Ônibus entrou nesse grupo sem esforço. Quem escreve “os ônibus” acerta a concordância por instinto, e repete, sem saber, a regra de um dativo plural ensinado nas escolas de Roma.
O sentido de “para todos” também sobreviveu fora dos transportes. No inglês, omnibus bill é a lei que junta vários temas num projeto só, e omnibus edition é o volume que reúne vários livros de um autor.
|
O carro levava qualquer passageiro, e a palavra passou a carregar qualquer conteúdo.
|
Ônibus deixou três camadas no português de hoje:
1. O veículo, o carro coletivo das cidades e das estradas.
2. A gramática, um plural latino que o português mantém sem variação.
3. A peça de montar, o bus que forma micro-ônibus e trólebus.
A primeira camada é a do ponto de parada. A segunda aparece na concordância, quando alguém escreve os ônibus sem mexer na palavra. A terceira é a herança da tesoura inglesa.
O Houaiss acerta ao chamar ônibus de veículo para transporte coletivo. O que o verbete deixa de fora é a placa de um chapeleiro de Nantes que, por causa de um sobrenome, escreveu em latim o princípio do serviço: para todos.
Qual palavra do seu dia a dia você acha que também nasceu de uma piada de loja?
|