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Ônibus

/ˈo.ni.bus/

Do latim omnibus: para todos, na placa de Nantes

Carro de passageiros a cavalo diante de uma chapelaria em Nantes

O carro de Baudry na praça de Nantes

▼

O Houaiss define assim: “ônibus: veículo de grande porte para transporte coletivo de passageiros”. A definição descreve o carro e esquece a palavra: ônibus é uma terminação de gramática latina, pendurada numa loja de chapéus da França, que um passageiro leu e levou pra casa.

A cena é de 1826, em Nantes, cidade portuária no oeste francês. Stanislas Baudry, um ex-oficial do exército que tinha montado uma casa de banhos quentes no bairro de Richebourg, longe do centro, precisava levar clientes até lá.

A solução foi um carro grande, puxado a cavalo, que saía da praça do Commerce, no centro, e seguia um trajeto fixo até os banhos. Qualquer pessoa subia, pagava uma tarifa baixa e descia onde quisesse.

Baudry logo percebeu um detalhe nas contas. Muita gente pagava a passagem e descia antes dos banhos, em pontos do caminho. O carro tinha virado transporte da cidade, e o negócio dos banhos ficou em segundo plano.

O ponto de partida, na praça, ficava diante da loja de um chapeleiro chamado Omnès. Acima da porta, a tabuleta trazia um trocadilho com o sobrenome: Omnes Omnibus, latim pra “todos para todos”, ou “Omnès para todos”.

Os passageiros começaram a chamar o carro pela palavra da placa. Diziam que iam pegar o omnibus, e Baudry adotou o nome pro serviço. Um sobrenome bretão e uma piada de lojista, escrita em latim de escola, deram nome a um veículo que roda hoje em quase todos os países.

Hoje o brasileiro fala ônibus várias vezes por dia sem perceber que repete uma forma de declinação latina, o pedaço final que dizia para quem algo era destinado.

Pra entender por que essa terminação servia tão bem a um carro de passageiros, é preciso abrir a gramática latina.

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I  A Raiz

Uma palavra para quem

Em latim, omnis significa “todo” ou “cada”. O plural é omnes, “todos”. Da mesma raiz vêm onisciente (quem sabe tudo), onipotente (quem pode tudo) e ônibus.

O latim marca a função da palavra na frase pela terminação, e não pela ordem, como faz o português. Esse sistema se chama declinação (a troca de final conforme o papel na frase).

Omnibus é o dativo plural de omnis. O dativo é o caso que indica a quem algo se destina, o que o português resolve com a preposição “para”. Omnibus, então, quer dizer “para todos”, numa palavra só.

A terminação -ibus aparecia em frases de brasão e de lema, do tipo amicis omnibus (para todos os amigos), e o estudante francês a decorava nas aulas de latim.

O trocadilho do chapeleiro

O lojista de Nantes juntou as duas formas: Omnes, que soava igual ao sobrenome Omnès, e omnibus, “para todos”. A placa dizia, ao mesmo tempo, que a loja era do Omnès e que atendia a qualquer cliente.

Lema em latim na porta de comércio era moda na França da época. Dava ar de gente instruída a uma loja de bairro, e o latim ainda era a língua da escola secundária.

Uma terminação de gramática, escrita na placa de uma loja, batizou o carro de passageiros.

Pro carro de Baudry, a palavra cabia sob medida. O serviço não pedia reserva, não escolhia passageiro e cobrava o mesmo de todos. Até então, andar de carro pela cidade dependia de alugar uma carruagem inteira, com cocheiro, pra uma pessoa ou uma família.

A ideia de um carro aberto a qualquer um já tinha sido testada. Em março de 1662, em Paris, o filósofo e matemático Blaise Pascal lançou, com o duque de Roannez, os carrosses à cinq sols (carruagens de cinco soldos), linhas fixas com preço baixo.

O projeto de Pascal durou poucos anos. Uma ordem real proibiu soldados, lacaios e trabalhadores braçais de subir nos carros, a tarifa subiu, e a clientela sumiu. Faltava o público que dava sentido ao serviço: todos.

Baudry recuperou a ideia mais de 160 anos depois, e dessa vez ela veio com nome. O sobrenome Omnès guardou na palavra, sem ninguém pedir, a regra que Pascal tinha perdido: o carro é para todos.

 
 

II  A Viagem

De Nantes a Londres

O sucesso em Nantes levou Baudry a Paris. Em 1828, ele fundou com sócios a Entreprise Générale des Omnibus (Empresa Geral dos Ônibus), com linhas fixas pelos bulevares e carros pintados de cores diferentes.

Os parisienses lotaram os carros nos primeiros meses. Logo apareceram empresas concorrentes, cada uma com nome próprio: as Dames Blanches (Damas Brancas), as Favorites (Favoritas), as Écossaises (Escocesas). Todas vendiam o mesmo serviço, e o povo chamava todas de omnibus.

Baudry não colheu o resultado. O preço da forragem dos cavalos subiu, a concorrência cortou a margem, e ele morreu em Paris em 1830, endividado. A empresa seguiu nas mãos dos sócios e, nas décadas seguintes, absorveu as rivais. Os carros de dois andares, com bancos no teto, viraram parte da paisagem de Paris, e a palavra ficou maior que o fundador.

O carro atravessa o canal

Em Londres, o construtor de carruagens George Shillibeer tinha trabalhado em Paris e visto os omnibus nas ruas. Em julho de 1829, ele pôs pra rodar um carro de três cavalos entre Paddington e o Bank, o bairro dos bancos.

Na lateral do carro, Shillibeer pintou a palavra francesa, sem tradução. Os londrinos não sabiam latim de escola francesa, mas aprenderam o nome pelo uso, como os passageiros de Nantes.

O inglês fez com a palavra o que costuma fazer com o que fica longo: cortou. Ainda na década de 1830, os jornais de Londres já registram a forma curta bus, o pedaço final de omnibus.

O inglês guardou o final da palavra latina e jogou fora a raiz.

O corte é estranho pra quem conhece latim. Bus não significa nada sozinho: é só a sobra da terminação do dativo plural. A parte que dizia “todo”, omni-, foi a que caiu.

A chegada ao Brasil

O português recebeu a palavra pelo francês, que era a língua de prestígio da elite brasileira no século 19. A capital do Império ganhou carros de passageiros puxados a burro em 1838, e o nome veio junto, com grafia francesa: omnibus.

A ortografia brasileira depois ajustou a palavra ao português. O acento circunflexo marca a sílaba tônica, ô, e a grafia ônibus se fixou nos dicionários do século 20.

Portugal seguiu outro caminho. Lá, o carro de passageiros com motor se chama autocarro, palavra formada no próprio português. Ônibus sobrevive em Lisboa só em contextos antigos ou técnicos. O brasileiro que pede um autocarro no Rio é olhado com estranheza, e o português que procura o ônibus em Lisboa também: a mesma máquina ganhou dois nomes nos dois lados do Atlântico.

 

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III  O Que Fica

O final que virou palavra

O destino mais curioso de omnibus está no corte que o inglês fez. A sobra bus passou a funcionar como palavra independente, e depois como peça pra formar outras.

Primeiro veio o autobus, no francês e em várias línguas da Europa, pra distinguir o carro a motor do puxado a cavalo. Depois o trolleybus, o ônibus elétrico ligado a fios, que o português chamou de trólebus.

Vieram ainda o micro-ônibus e o minibus, pros carros menores, e o aerobus, o nome que alguns fabricantes deram a aviões de passageiros. Em todos esses casos, o pedaço que significa “para todos” passou a significar “veículo coletivo”.

Na informática a sobra foi mais longe. Barramento, o caminho por onde os dados viajam dentro do computador, se diz bus em inglês: uma via por onde passa qualquer informação, como o carro de Baudry levava qualquer passageiro.

Um plural que não varia

No português, a origem deixou uma marca na gramática. Ônibus não muda no plural: um ônibus, dois ônibus. A palavra já chegou com final de plural latino, e o português não acrescentou outro.

O mesmo vale pra lápis, vírus e pires, que terminam em -s na sílaba átona e ficam iguais nos dois números. Ônibus entrou nesse grupo sem esforço. Quem escreve “os ônibus” acerta a concordância por instinto, e repete, sem saber, a regra de um dativo plural ensinado nas escolas de Roma.

O sentido de “para todos” também sobreviveu fora dos transportes. No inglês, omnibus bill é a lei que junta vários temas num projeto só, e omnibus edition é o volume que reúne vários livros de um autor.

O carro levava qualquer passageiro, e a palavra passou a carregar qualquer conteúdo.

Ônibus deixou três camadas no português de hoje:

1. O veículo, o carro coletivo das cidades e das estradas.

2. A gramática, um plural latino que o português mantém sem variação.

3. A peça de montar, o bus que forma micro-ônibus e trólebus.

A primeira camada é a do ponto de parada. A segunda aparece na concordância, quando alguém escreve os ônibus sem mexer na palavra. A terceira é a herança da tesoura inglesa.

O Houaiss acerta ao chamar ônibus de veículo para transporte coletivo. O que o verbete deixa de fora é a placa de um chapeleiro de Nantes que, por causa de um sobrenome, escreveu em latim o princípio do serviço: para todos.

Qual palavra do seu dia a dia você acha que também nasceu de uma piada de loja?

 
 
 
 
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A1829
B1662
C1826
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