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Níquel

/ˈni.kew/

Do alemão Kupfernickel: o cobre do duende

Mineiros com lamparina diante de veia de minério cor de cobre

O minério com cara de cobre e nome de duende

▼

O Houaiss abre o verbete assim: “níquel: elemento químico de número atômico 28”. A definição acerta a tabela periódica e cala a parte que deu nome ao metal: um palavrão de mineiro, dito contra uma pedra que enganava.

A pedra aparecia nas minas dos Montes Metálicos, a serra entre a Saxônia e a Boêmia onde a Alemanha cavava prata desde a Idade Média. Era um minério avermelhado, da cor do cobre, pesado e brilhante quando partido.

Quem achava a veia comemorava. Cobre valia dinheiro, e uma veia daquela cor parecia promessa de salário garantido por meses. O capataz anotava o achado, os carregadores enchiam os cestos e o minério subia pelo poço até a superfície.

A pedra ia pro forno, e o forno não devolvia cobre nenhum. Devolvia uma escória esverdeada, inútil, e uma fumaça branca que fazia mal a quem estava perto da fornalha.

Os mineiros tinham uma explicação pronta. Nas galerias fundas moravam espíritos, e alguns deles adoravam pregar peça em quem cavava. Escondiam ferramentas, apagavam lamparinas, enfeitiçavam o minério bom.

Um desses espíritos tinha nome popular: Nickel, um duende travesso, apelido que também servia de xingamento pra gente trapaceira. O minério que fingia ser cobre ganhou o nome do culpado: Kupfernickel, o cobre do Nickel, o cobre do diabinho.

A palavra circulou por mais de um século como insulto técnico. Era o nome que se dava à pedra que fazia perder tempo, carvão e paciência.

Em 1751, o químico sueco Axel Fredrik Cronstedt pegou esse minério e mostrou que ele escondia um metal até então desconhecido. Não era cobre estragado, nem cobre enfeitiçado. Era outro elemento.

Cronstedt podia ter escolhido um nome grego, latino, solene. Escolheu o duende. Toda moeda de níquel no seu bolso carrega até hoje o apelido de um espírito de mina saxão.

Pra entender a escolha, é preciso descer à galeria e conhecer o Nickel de perto.

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I  A Raiz

O duende das galerias

Nickel, no alemão popular dos séculos 16 e 17, era uma forma curta de Nikolaus, o nome Nicolau. Como acontece com nomes muito comuns, o diminutivo virou rótulo pra um tipo de gente: o sujeito esperto, enganador, de pouca confiança.

Do rótulo humano, o nome passou aos seres do folclore. Nas regiões mineiras da Saxônia, Nickel designava um duende, um espírito pequeno e malicioso que vivia debaixo da terra e se divertia atrapalhando o trabalho dos homens.

O inglês tem um parente direto dessa figura: Old Nick, o velho Nick, apelido popular do diabo. A trilha é a mesma, do nome de batismo ao trapaceiro, e do trapaceiro ao ser que mora no escuro.

A família dos espíritos da mina

O Nickel não trabalhava sozinho. A mesma mitologia das minas tinha o Kobold, outro duende subterrâneo, também acusado de estragar o minério. Georgius Agricola, médico e estudioso de mineração alemão, descreveu esses espíritos num tratado latino sobre os seres subterrâneos, De animantibus subterraneis (Dos seres que vivem debaixo da terra), publicado em 1549.

Agricola não zombava dos mineiros. Registrou as crenças com seriedade, como parte do ofício, ao lado das técnicas de escavação e de fundição que descreveria depois em De re metallica (Sobre os metais), de 1556.

O mineiro dava nome de duende à pedra que o enganava: o xingamento era a primeira classificação química da casa.

O Kupfernickel tinha motivo pra enganar. A química moderna sabe o que ele é: nicolita, um arsenieto de níquel (mistura de níquel com arsênio, o veneno). A cor acobreada vem do próprio mineral, e o arsênio explica o resto.

No forno, o arsênio sai em vapor tóxico, com cheiro de alho, e adoece quem respira perto. O níquel que sobra não se comporta como cobre nos métodos de fundição daquela época, e o mineiro ficava com a escória na mão.

Pra quem não conhecia elementos químicos, a sequência só tinha uma leitura possível. A pedra tinha cara de cobre, cheirava mal, fazia mal e não rendia nada. Alguém estava pregando peça, e esse alguém morava na mina.

O nome guardava a acusação inteira em duas partes. Kupfer era o cobre prometido. Nickel era o culpado pelo sumiço dele.

Os mineiros também desenvolveram defesas práticas. Aprenderam a reconhecer a pedra pelo peso, pela cor rosada e pelo cheiro no fogo, e passaram a separá-la antes de gastar carvão com ela. O apelido funcionava como aviso: quem ouvia Kupfernickel sabia que aquela veia não pagava o turno.

 
 

II  A Viagem

Do forno sueco à tabela

O nome atravessou o Báltico com o minério. Na Suécia do século 18, país de minas de ferro e de cobre, os químicos estudavam as pedras com balança e fornalha, e o Kupfernickel chegava aos laboratórios com o apelido alemão colado.

Axel Fredrik Cronstedt era mineralogista e trabalhava para o Departamento de Minas da Suécia. Em 1751, analisou um minério vindo de uma mina de cobalto em Los, na província de Hälsingland, e separou dele um metal branco, duro, atraído pelo ímã.

O teste do ímã era decisivo. Cobre não é atraído pelo ímã. O metal de Cronstedt era, e também dava sais verdes quando dissolvido, diferentes dos sais azulados do cobre.

O nome que ficou

Cronstedt publicou o resultado nas atas da Academia Real de Ciências da Suécia, primeiro em 1751 e com mais detalhes em 1754. Foi nesse segundo texto que ele propôs chamar o novo metal de nickel, encurtando o Kupfernickel dos mineiros.

A decisão tirou do nome a metade enganosa. O cobre saiu, o duende ficou. O metal novo ganhou o nome do espírito que, segundo os mineiros, escondia o cobre que valia dinheiro.

Cronstedt cortou o cobre e guardou o duende: o nome do erro virou o nome do acerto.

Nem todo químico aceitou o achado de primeira. Muitos achavam que o níquel era só uma liga de cobre, ferro, cobalto e arsênio, uma mistura teimosa e não um elemento.

A dúvida acabou com Torbern Bergman, outro químico sueco, que em 1775 obteve níquel mais puro e confirmou as conclusões de Cronstedt. A partir daí, o nickel entrou de vez nas listas de elementos da química europeia.

O vizinho de prateleira seguiu caminho parecido. O Kobold, o outro duende das minas, deu nome ao cobalto, isolado em 1735 pelo também sueco Georg Brandt. Dois metais da mesma geração da química sueca levam até hoje nome de espírito de mina alemão.

O português recebeu a palavra pela química internacional, provavelmente pelo francês nickel, e ajustou a forma à sua pronúncia: níquel, com acento e com o l final.

O caminho exato da entrada no português não está documentado em detalhe. Os dicionários etimológicos registram a origem alemã e a passagem pelo vocabulário científico europeu, mas não apontam o primeiro texto em português a usar a forma níquel. O que se sabe é o ponto de partida: a galeria saxã e o duende.

 

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III  O Que Fica

A moeda no bolso

Fora do laboratório, o níquel encontrou sua função mais visível no dinheiro. Duro, resistente à ferrugem e barato perto da prata, era o metal ideal pra moeda miúda que passa de mão em mão o dia inteiro.

Os Estados Unidos adotaram em 1866 a moeda de 5 centavos feita de cobre com níquel. O povo passou a chamá-la pelo metal, nickel, e o apelido virou nome oficioso da moeda até hoje.

Na Europa, a Bélgica saiu na frente e cunhou em 1860 moedas miúdas de cuproníquel, e outros países seguiram na segunda metade do século 19. O metal que os mineiros jogavam fora passou a circular nas feiras e nos bondes.

No Brasil, o Império cunhou moedas de cuproníquel (liga de cobre e níquel) a partir de 1871. O metal entrou no vocabulário do troco: níquel passou a significar moeda de pouco valor, e daí qualquer quantia mínima de dinheiro.

O que a palavra carrega hoje

Ainda se ouve no Brasil a expressão “não tenho um níquel”, pra dizer que a pessoa está sem dinheiro nenhum. A frase usa o metal do troco como medida do quase nada.

O século 20 ainda deu ao níquel um papel escondido. Misturado ao ferro e ao cromo, ele forma o aço inoxidável das panelas, das pias e dos talheres. Hoje boa parte do níquel extraído no mundo termina nessas ligas, longe de qualquer moeda.

A indústria deu outro uso à palavra. Niquelar é revestir uma peça com uma camada fina de níquel, pra que brilhe e não enferruje. Torneira niquelada, para-choque niquelado, bicicleta niquelada: o verbo nasceu da oficina.

O duende que roubava o cobre acabou estampado na moeda, o metal mais contado do bolso.

Níquel deixou três sentidos no português:

1. Níquel elemento, o metal de número atômico 28 isolado por Cronstedt em 1751.

2. Níquel moeda, o troco miúdo e, por extensão, qualquer quantia mínima de dinheiro.

3. Níquel acabamento, a camada brilhante que dá nome ao verbo niquelar.

O Houaiss acerta no número atômico. O que o verbete curto deixa de fora é o insulto de origem: o nome oficial de um elemento químico é o xingamento que mineiros saxões gritavam contra uma pedra que não dava cobre.

Se você tivesse que batizar com um apelido o objeto que mais engana você no dia a dia, que nome daria a ele?

 
 
 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, qual foi o teste que convenceu Cronstedt de que seu metal não era cobre?

AEle formava sal azul ao ser dissolvido em ácido, como o cobre
BEra atraído pelo ímã, algo que o cobre nunca é
CSoltava fumaça branca de cheiro forte ao ser fundido
DTinha o mesmo brilho avermelhado do cobre

Resultado da última edição: 60% acertaram.

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