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Nhenhenhém
/ɲe.ɲe.ˈɲẽj/
Do tupi. Nhe'eng, falar, repetido três vezes: a palavra da reclamação nasceu imitando o som de gente conversando sem parar
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Escola de missão às margens do rio Negro
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"Nhenhenhém: conversa fiada, falatório monótono e enfadonho" (Houaiss). A entrada acerta a irritação de quem ouve e apaga a gramática que produziu a palavra. Antes de virar queixa, o termo era um verbo comum de trabalho e de reza: nhe'eng, que em tupi antigo significa falar, e também voz e língua.
A forma que o português guardou não inventou nada. Ela pega a sílaba do verbo e a repete três vezes, que é o recurso mais antigo do tupi para dizer que a ação se estende, se arrasta ou volta sempre ao mesmo ponto. Repetição de sílaba, em tupi, funciona como advérbio: diz quanto tempo a ação dura e com que insistência.
O resultado é uma palavra que imita o que descreve. Quem fala nhenhenhém está reproduzindo, com a própria boca, o som de duas pessoas conversando sem chegar a lugar nenhum, e faz com o tupi o mesmo tipo de brincadeira sonora que o português faz em zunzum e em blá-blá-blá.
A raiz não parou na piada. Nhe'eng batizou também nheengatu, nome da língua geral que serviu de idioma comum na Amazônia por quase três séculos, falada por indígenas de dezenas de povos, por colonos portugueses, por missionários e por comerciantes de rio. O mesmo verbo nomeia a língua franca de uma região inteira e a implicância de quem reclama demais.
Existe ainda a ponta desagradável do parentesco. Os cronistas portugueses usaram nheengaíba, formado com aíba, ruim, para nomear os povos do Marajó cuja fala eles não entendiam, e o nome pegou como classificação oficial no século dezessete. A mesma raiz que servia para elogiar uma língua servia, com outro sufixo, para desqualificar outra, e a escolha do sufixo dependia de quem escrevia o documento.
Vale começar pelo verbo antes de qualquer uma dessas rotas, porque a maneira como o tupi montava as palavras explica por que a terceira sílaba está ali.
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I A Raiz
O verbo que aprendeu a se repetir
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A raiz é nhe'eng, verbo do tupi antigo que reúne num só termo falar, voz, som articulado e língua. O falante da costa brasileira usava a mesma palavra para dizer o ato de falar e o idioma em que falava, e essa dupla função é o que permite à raiz virar nome de língua depois.
Quem registrou o verbo por escrito foi o missionário José de Anchieta, que chegou à capitania de São Vicente em 1553 e passou décadas fazendo catequese em tupi. Em 1595, a tipografia de Antônio de Mariz, em Coimbra, imprimiu a gramática que ele escreveu para ensinar a língua a padres recém-chegados.
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A arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil.
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José de Anchieta, título da obra impressa em Coimbra, 1595
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Anchieta escreveu um manual de trabalho, não um estudo de linguística, e é por isso que a obra serve tão bem: ela guarda o tupi como ele era falado no litoral antes de dois séculos de mistura.
Da mesma raiz sai abanheenga, formado por abá, gente ou homem, mais nhe'eng: a fala da gente, o nome que os próprios falantes davam ao idioma deles. A construção mostra o padrão do tupi, que prefere juntar peças pequenas a criar termo novo do zero.
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O tupi monta palavra como quem encaixa peça: cada pedaço traz um sentido inteiro e nenhum se perde no caminho.
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E a repetição de sílaba tem função definida nessa montagem. O tupi antigo dobra a última sílaba do verbo para indicar ação que se repete ou se prolonga, recurso que os gramáticos chamam de reduplicação, ou seja, a duplicação de um pedaço da palavra para mudar o sentido dela. Onde o português precisa de advérbio, o tupi estica a própria palavra.
Nhenhenhém aplica a regra no grau mais alto. Não dobra a sílaba uma vez, dobra duas, e o triplo diz o que nenhum advérbio diria com a mesma economia: fala que começou, continuou e ainda não terminou. O falante escuta a duração antes de entender o significado.
A palavra chegou ao português brasileiro por via popular, na boca de quem convivia com falantes de língua geral, e não pelo caminho erudito dos dicionários. Termo que entra por essa porta costuma perder o sentido neutro e ficar só com a carga emocional, e foi o que aconteceu: sobrou a impaciência, sumiu o verbo.
O verbo, no entanto, seguiu vivo do outro lado do país, subindo rio acima com missão jesuíta, tropa de resgate e canoa de comércio, até virar nome de uma língua que o Estado português adotou por conveniência.
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II A Viagem
Quando falar virou a língua geral do rio
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O nome dessa língua é nheengatu, formado por nhe'eng mais katu, que em tupi quer dizer bom: a língua boa, a fala que funciona. Ela nasceu do tupinambá levado pelos jesuítas para a Amazônia no século dezessete e foi se ajustando ao contato com dezenas de idiomas locais até virar código comum de toda a bacia.
O funcionamento era prático. Numa região onde cada rio abrigava povos de famílias linguísticas diferentes, o nheengatu resolvia o comércio, a catequese e a ordem de serviço do colonizador com um único vocabulário, e os portugueses do Grão-Pará aprendiam essa língua antes de qualquer outra.
A força dela aparece no tamanho do domínio. Até meados do século dezoito, o nheengatu era a língua do cotidiano em Belém e nas vilas do interior, e o português ficava restrito a documento oficial, a tribunal e a carta para Lisboa.
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Os moradores dessas terras falam a língua dos índios, e o português quase só se usa por escrito.
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Relato de missionário no Grão-Pará, século XVIII
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A virada veio por decisão de governo. Em 1757, o Diretório dos Índios, redigido por Francisco Xavier de Mendonça Furtado e depois estendido a todo o Brasil pelo gabinete do Marquês de Pombal, proibiu o uso da língua geral e obrigou o ensino em português nas povoações indígenas.
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Nenhuma nação impôs seu idioma sem impor junto a sua administração; a língua entra pela escola e pelo cartório.
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A proibição não matou o nheengatu de imediato. Ele continuou como língua de casa e de rio por mais de um século, e reapareceu como idioma de mobilização na Cabanagem, a revolta popular que tomou Belém entre 1835 e 1840 e espalhou combate por toda a província do Pará.
A repressão à revolta reduziu drasticamente a população que sustentava a língua, e a migração nordestina do ciclo da borracha, a partir da década de 1870, encheu a Amazônia de falantes de português. O nheengatu recuou para os afluentes do alto rio Negro, onde permanece até hoje.
Enquanto a língua encolhia no mapa, a palavra derivada dela seguia caminho oposto no português. Nhenhenhém se espalhou pelo país inteiro sem nenhuma ligação consciente com a Amazônia, e o dicionário etimológico registra o parentesco em uma linha curta.
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nhenhenhém: do tupi nhe'eng, falar, com reduplicação; conversa fiada, lamúria.
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Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982
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A entrada de Cunha guarda as duas pontas na mesma frase, o verbo e a lamúria, e mostra que a queda de prestígio aconteceu no português, nunca no tupi: para quem falava a língua geral, nhe'eng nunca significou implicância.
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