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No século 20, a palavra desceu do campo para as periferias. Nos anos 1980, movimentos de moradia de São Paulo passaram a construir casas em mutirão: famílias sem teto erguiam juntas os conjuntos habitacionais, nos fins de semana, com material pago pelo poder público.
A gestão de Luiza Erundina na prefeitura paulistana, entre 1989 e 1992, transformou a prática em programa oficial, com mutirões autogeridos por associações de moradores. A regra antiga reapareceu com outra roupa: cada família cumpria horas de obra na casa de todos, e só depois recebia a chave da sua.
O mutirão urbano conservava a troca. O mutirão de campanha, que se espalhou nas décadas seguintes, foi deixando a troca de lado. Em 2008, o Conselho Nacional de Justiça criou os mutirões carcerários, forças-tarefa de juízes para revisar processos de presos em todo o país.
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Na campanha de uma tarde, ninguém deve nada a ninguém; no motyrõ, a dívida era o que mantinha a vizinhança unida.
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Depois vieram os mutirões de vacinação, de cirurgias de catarata, de renegociação de dívidas, de limpeza de praia. Em todos, o sentido de esforço coletivo concentrado ficou. O que saiu foi o compromisso de devolver: quem participa não espera ser ajudado de volta, e quem é atendido não fica devendo.
Em 2025, a palavra voltou ao lugar onde o puxirum nunca saiu de uso. A presidência brasileira da COP30, a conferência do clima da ONU realizada em Belém, chamou os países a um mutirão global contra a crise climática, nas cartas assinadas pelo diplomata André Corrêa do Lago. A palavra apareceu traduzida e explicada em documentos em inglês, francês e espanhol.
A escolha tinha lógica etimológica. Num acordo climático, cada país corta emissões esperando que os outros cortem também, e a falha de um quebra a confiança dos demais. É a mecânica do motyrõ, com chaminés no lugar de roças.
Os dicionários registram a mudança de sentido sem marcar a perda. A acepção de trabalho rural com retribuição convive com a de campanha pública, e o leitor de hoje encontra as duas na mesma página sem aviso de que uma nasceu da outra.
Quem quiser reconhecer a palavra antiga dentro da nova pode reparar em três sinais.
1. Há troca: quem recebe a ajuda fica comprometido a ajudar quem veio.
2. Há anfitrião: alguém oferece a comida e responde pelo dia de trabalho.
3. Há repetição: o grupo se reúne de novo, em outra roça, para outra família.
A palavra saiu do litoral tupi, ganhou o sotaque dos sítios paulistas, desceu o rio como puxirum e chegou às conferências da ONU. Na roça caipira, a variante do convite invertido tinha regra própria, fogos de madrugada e um rótulo que soa como ofensa.
Fica a pergunta · até amanhã Como os caipiras chamavam o mutirão feito de surpresa, sem o dono da roça saber? |
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