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Museu

/mu.ˈzew/

Do grego. Mouseîon era o lugar consagrado às Musas, e o de Alexandria pagava salário a pesquisador sem expor uma peça a ninguém

Etimologia de Museu

Passeio coberto e refeitório do Mouseîon

▼

Em Alexandria, por volta de 290 a.C., funcionava dentro do bairro do palácio real um prédio com refeitório comum, passeio coberto para caminhar, sala de leitura e um grupo de homens que recebiam dinheiro do tesouro do rei para estudar. Ptolomeu I Sóter, general macedônio que ficou com o Egito quando o império de Alexandre se partiu entre os seus oficiais, bancava a despesa inteira. O prédio se chamava Mouseîon. Nenhum visitante entrava para ver nada, porque ali não havia uma peça exposta.

O nome soa familiar e engana. Mouseîon, em grego, quer dizer lugar consagrado às Musas, as nove divindades que presidiam a poesia cantada, a dança, a história e a astronomia. Um mouseîon era um recinto sagrado, e o de Alexandria funcionava como instituição religiosa de verdade, com sacerdote nomeado pelo próprio rei. Os estudiosos viviam ali como um colégio de sacerdotes a serviço das Musas, com comida, alojamento e isenção de imposto.

O que o leitor de hoje imagina ao ouvir a palavra, vitrine, etiqueta, bilheteria e fila, não estava naquele prédio. Os rolos de papiro ficavam guardados na Biblioteca, ao lado, e o acesso dependia de convite do palácio. O Conselho Internacional de Museus, na definição aprovada em 2022, descreve museu como instituição permanente que pesquisa, coleciona, conserva e expõe ao público. Das quatro tarefas, o Mouseîon cumpria uma com folga e ignorava a última por completo.

Museu passou quase dois mil anos nomeando lugar de estudo, de retiro erudito, de gabinete particular. O sentido de coleção aberta a quem quiser entrar só se firma em 1683, quando a Universidade de Oxford abre o Ashmolean, e o intervalo entre uma ideia e outra guarda um monte na Beócia, um filósofo exilado e um colecionador inglês que cobrava entrada por cabeça.

Antes do prédio de Alexandria existe a mãe das nove Musas, uma palavra grega que também batizou a música e um discípulo de Aristóteles que vendeu ao faraó a ideia de pagar gente para pensar.

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I  A Raiz

As nove filhas da Memória

Hesíodo, poeta grego que escreveu a Teogonia por volta do século VIII a.C., registrou a genealogia que fixou o número e a função das Musas. Elas são nove, nascidas na Piéria, e a mãe delas é Mnemósine, a personificação da Memória. O detalhe da mãe explica o resto da história da palavra: uma instituição das Musas nasce comprometida com guardar, não com criar do nada.

Na Piéria, Mnemósine as gerou, unida ao pai Zeus, nove filhas de coração concorde.

Hesíodo, Teogonia, século VIII a.C.

O grego formava nomes de lugar sagrado com o sufixo eîon, que marca o recinto do deus, como em Asklepieîon, o santuário de Asclépio onde o doente dormia à espera de cura. Mouseîon, pela mesma fórmula, quer dizer recinto das Musas. E mousikḗ, adjetivo que significa a arte das Musas, nomeava o pacote inteiro de verso, melodia e dança que hoje o português partiu em duas palavras, música e poesia.

Os primeiros mouseîa eram santuários de mato e pedra, sem teto de biblioteca. O mais famoso ficava no monte Hélicon, na Beócia, num vale com fonte e bosque, e a cidade vizinha de Téspias organizava ali um festival com concurso de poetas e músicos, chamado Museia. O prêmio era uma coroa e a inscrição do nome numa lápide de pedra.

A ponte entre o santuário e a escola foi construída em Atenas. A Academia de Platão mantinha um pequeno recinto das Musas no terreno, e o Liceu de Aristóteles fez o mesmo, com uma diferença prática: no Liceu, o recinto guardava mapas, manuscritos e espécimes coletados por alunos, e as refeições em comum serviam de método de trabalho.

As Musas não davam inspiração. Davam memória, que era o bem mais caro num mundo onde tudo precisava ser decorado ou copiado à mão.

Teofrasto, sucessor de Aristóteles na direção do Liceu, deixou o terreno e os livros em testamento aos colegas, com instrução de manter o recinto sagrado funcionando. Um aluno dele, o ateniense Demétrio de Falero, governou Atenas por dez anos, caiu, fugiu e chegou a Alexandria por volta de 297 a.C. Foi ele quem apresentou a Ptolomeu I Sóter o modelo do Liceu, ampliado ao tamanho do orçamento de um reino inteiro.

 
 

II  A Viagem

Do santuário do rei ao gabinete de maravilhas

Estrabão, geógrafo grego que visitou Alexandria e escreveu a Geografia por volta do ano 20 d.C., deixou a única descrição detalhada do prédio que sobreviveu. Ele lista três peças de arquitetura: o perípato, passeio coberto onde se caminhava conversando, a exedra, sala de bancos curvos para a aula, e o sissítio, o grande refeitório onde os estudiosos comiam juntos todo dia.

O Mouseîon faz parte do palácio, tem um passeio, uma sala de bancos e uma casa grande onde fica o refeitório comum dos homens de letras. Esse grupo tem bens em comum e um sacerdote encarregado do Mouseîon, antes indicado pelos reis.

Estrabão, Geografia, livro XVII, por volta de 20 d.C.

Ptolomeu II Filadelfo herdou a máquina do pai e aumentou o orçamento. Passaram pela folha de pagamento nomes que o mundo ainda usa: Euclides organizou a geometria nos Elementos, Eratóstenes calculou a circunferência da Terra medindo sombras em duas cidades do Egito, Calímaco montou o catálogo dos rolos da Biblioteca em cento e vinte volumes. Nenhum deles dava aula pública nem recebia visita de curioso, porque a função era pesquisar e escrever.

A queda veio pelo caixa. Em 145 a.C., Ptolomeu VIII expulsou de Alexandria os intelectuais que apoiaram o lado perdedor de uma briga de sucessão, e os salários deixaram de ser garantidos. A instituição ainda aparece em registros romanos, com privilégios concedidos a membros, mas o prédio some da documentação por volta do século III d.C. Arqueólogo nenhum localizou até hoje as ruínas do Mouseîon: a área do antigo bairro real está sob o mar e sob a cidade moderna, e sem escavação não se sabe sequer onde exatamente ficava.

A palavra sobreviveu ao prédio dentro do latim. Museum, para o romano culto, passou a nomear o cômodo de estudo, o retiro no campo onde se lia e escrevia longe da cidade. Foi nesse sentido, de gabinete erudito, que a Renascença italiana pegou o termo de volta.

O italiano Paolo Giovio, bispo e historiador, chamou de Museo a villa que construiu na margem do lago de Como por volta de 1537, com uma galeria montada para abrigar mais de quatrocentos retratos de homens ilustres que ele colecionava. A coleção entrava em catálogo, os retratos ganhavam legenda escrita, e amigos visitavam mediante convite. O nome antigo voltou colado a um acervo pela primeira vez.

O século XVI encheu a Europa desses gabinetes particulares, chamados na Alemanha de Wunderkammer, o quarto das maravilhas, onde chifre de narval, moeda romana, tatu empalhado e relógio mecânico dividiam a mesma prateleira. Faltava a peça final: abrir a porta para quem não fosse amigo do dono.

Quem abriu foi Oxford. Elias Ashmole, advogado e colecionador inglês, doou à universidade em 1677 o acervo que herdara dos jardineiros John Tradescant, pai e filho, com plantas, armas, moedas e objetos trazidos das Américas. A universidade ergueu um prédio próprio na Broad Street e inaugurou o Ashmolean Museum em 1683, com entrada cobrada por pessoa e aberta a qualquer visitante que pagasse a taxa. O sentido moderno da palavra tem endereço e ano.

 

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III  O Que Fica

O parentesco que ninguém percebe

Museu e música saíram da mesma raiz e seguem vizinhas sem que o falante note. Uma nomeia o recinto das Musas, a outra nomeia a arte das Musas, e as duas chegaram ao português pelo latim, com o museu entrando tarde, já no século XIX, pela via culta dos dicionários e dos decretos.

No Brasil a instituição chegou por ato de governo. Dom João VI criou por decreto o Museu Real do Rio de Janeiro em 6 de junho de 1818, com um acervo inicial modesto de minerais, animais empalhados e peças indígenas, instalado no Campo de Santana. A casa virou Museu Nacional em 1822, mudou para a Quinta da Boa Vista em 1892 e guardou por dois séculos o acervo que o incêndio de setembro de 2018 destruiu em grande parte.

Uma coleção sem visitante é um depósito. Um visitante sem coleção é um passeio. A palavra museu só passou a significar o que significa hoje quando alguém juntou os dois.

O português usa a palavra em três registros que convivem sem atrito. O primeiro é o literal, prédio com acervo, bilheteria e curador. O segundo é o adjetivo depreciativo, peça de museu, dito de aparelho velho ou de sujeito fora de época. O terceiro é o irônico do trabalho, museu de novidades, aplicado a qualquer arquivo que ninguém abre há anos.

O critério de leitura que a etimologia entrega desmonta o segundo registro. Museu não nomeia coisa velha, nomeia lugar de memória organizada, e memória organizada é exatamente o oposto de entulho guardado por inércia. Mnemósine gerou as nove filhas porque um povo sem escrita precisava de um método para não perder o que sabia.

Entre o prédio de Ptolomeu e a bilheteria de Oxford correram dezenove séculos, e a palavra atravessou todos eles nomeando coisas diferentes: santuário, colégio de sábios, quarto de estudo, galeria de retratos, armário de curiosidades, instituição pública. O fio que amarra a lista é a tarefa de guardar contra o esquecimento, que é o ofício das filhas da Memória.

"Quantas vezes você já chamou de museu um lugar onde não entrou?"

 
 
 
 

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Segundo o texto, o que causou a queda do Mouseîon de Alexandria em 145 a.C.?

AUm incêndio destruiu o refeitório comum e a sala de leitura
BPtolomeu VIII expulsou os intelectuais que haviam apoiado o lado perdedor de uma disputa de sucessão
COs romanos fecharam a instituição ao conquistar o Egito
DO sacerdote nomeado pelo rei foi acusado de desviar o salário dos pesquisadores

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