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67% escolheram Alfândega. Sai em 25/09.
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Museu
/mu.ˈzew/
Do grego. Mouseîon era o lugar consagrado às Musas, e o de Alexandria pagava salário a pesquisador sem expor uma peça a ninguém
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Passeio coberto e refeitório do Mouseîon
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Em Alexandria, por volta de 290 a.C., funcionava dentro do bairro do palácio real um prédio com refeitório comum, passeio coberto para caminhar, sala de leitura e um grupo de homens que recebiam dinheiro do tesouro do rei para estudar. Ptolomeu I Sóter, general macedônio que ficou com o Egito quando o império de Alexandre se partiu entre os seus oficiais, bancava a despesa inteira. O prédio se chamava Mouseîon. Nenhum visitante entrava para ver nada, porque ali não havia uma peça exposta.
O nome soa familiar e engana. Mouseîon, em grego, quer dizer lugar consagrado às Musas, as nove divindades que presidiam a poesia cantada, a dança, a história e a astronomia. Um mouseîon era um recinto sagrado, e o de Alexandria funcionava como instituição religiosa de verdade, com sacerdote nomeado pelo próprio rei. Os estudiosos viviam ali como um colégio de sacerdotes a serviço das Musas, com comida, alojamento e isenção de imposto.
O que o leitor de hoje imagina ao ouvir a palavra, vitrine, etiqueta, bilheteria e fila, não estava naquele prédio. Os rolos de papiro ficavam guardados na Biblioteca, ao lado, e o acesso dependia de convite do palácio. O Conselho Internacional de Museus, na definição aprovada em 2022, descreve museu como instituição permanente que pesquisa, coleciona, conserva e expõe ao público. Das quatro tarefas, o Mouseîon cumpria uma com folga e ignorava a última por completo.
Museu passou quase dois mil anos nomeando lugar de estudo, de retiro erudito, de gabinete particular. O sentido de coleção aberta a quem quiser entrar só se firma em 1683, quando a Universidade de Oxford abre o Ashmolean, e o intervalo entre uma ideia e outra guarda um monte na Beócia, um filósofo exilado e um colecionador inglês que cobrava entrada por cabeça.
Antes do prédio de Alexandria existe a mãe das nove Musas, uma palavra grega que também batizou a música e um discípulo de Aristóteles que vendeu ao faraó a ideia de pagar gente para pensar.
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I A Raiz
As nove filhas da Memória
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Hesíodo, poeta grego que escreveu a Teogonia por volta do século VIII a.C., registrou a genealogia que fixou o número e a função das Musas. Elas são nove, nascidas na Piéria, e a mãe delas é Mnemósine, a personificação da Memória. O detalhe da mãe explica o resto da história da palavra: uma instituição das Musas nasce comprometida com guardar, não com criar do nada.
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Na Piéria, Mnemósine as gerou, unida ao pai Zeus, nove filhas de coração concorde.
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Hesíodo, Teogonia, século VIII a.C.
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O grego formava nomes de lugar sagrado com o sufixo eîon, que marca o recinto do deus, como em Asklepieîon, o santuário de Asclépio onde o doente dormia à espera de cura. Mouseîon, pela mesma fórmula, quer dizer recinto das Musas. E mousikḗ, adjetivo que significa a arte das Musas, nomeava o pacote inteiro de verso, melodia e dança que hoje o português partiu em duas palavras, música e poesia.
Os primeiros mouseîa eram santuários de mato e pedra, sem teto de biblioteca. O mais famoso ficava no monte Hélicon, na Beócia, num vale com fonte e bosque, e a cidade vizinha de Téspias organizava ali um festival com concurso de poetas e músicos, chamado Museia. O prêmio era uma coroa e a inscrição do nome numa lápide de pedra.
A ponte entre o santuário e a escola foi construída em Atenas. A Academia de Platão mantinha um pequeno recinto das Musas no terreno, e o Liceu de Aristóteles fez o mesmo, com uma diferença prática: no Liceu, o recinto guardava mapas, manuscritos e espécimes coletados por alunos, e as refeições em comum serviam de método de trabalho.
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As Musas não davam inspiração. Davam memória, que era o bem mais caro num mundo onde tudo precisava ser decorado ou copiado à mão.
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Teofrasto, sucessor de Aristóteles na direção do Liceu, deixou o terreno e os livros em testamento aos colegas, com instrução de manter o recinto sagrado funcionando. Um aluno dele, o ateniense Demétrio de Falero, governou Atenas por dez anos, caiu, fugiu e chegou a Alexandria por volta de 297 a.C. Foi ele quem apresentou a Ptolomeu I Sóter o modelo do Liceu, ampliado ao tamanho do orçamento de um reino inteiro.
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II A Viagem
Do santuário do rei ao gabinete de maravilhas
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Estrabão, geógrafo grego que visitou Alexandria e escreveu a Geografia por volta do ano 20 d.C., deixou a única descrição detalhada do prédio que sobreviveu. Ele lista três peças de arquitetura: o perípato, passeio coberto onde se caminhava conversando, a exedra, sala de bancos curvos para a aula, e o sissítio, o grande refeitório onde os estudiosos comiam juntos todo dia.
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O Mouseîon faz parte do palácio, tem um passeio, uma sala de bancos e uma casa grande onde fica o refeitório comum dos homens de letras. Esse grupo tem bens em comum e um sacerdote encarregado do Mouseîon, antes indicado pelos reis.
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Estrabão, Geografia, livro XVII, por volta de 20 d.C.
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Ptolomeu II Filadelfo herdou a máquina do pai e aumentou o orçamento. Passaram pela folha de pagamento nomes que o mundo ainda usa: Euclides organizou a geometria nos Elementos, Eratóstenes calculou a circunferência da Terra medindo sombras em duas cidades do Egito, Calímaco montou o catálogo dos rolos da Biblioteca em cento e vinte volumes. Nenhum deles dava aula pública nem recebia visita de curioso, porque a função era pesquisar e escrever.
A queda veio pelo caixa. Em 145 a.C., Ptolomeu VIII expulsou de Alexandria os intelectuais que apoiaram o lado perdedor de uma briga de sucessão, e os salários deixaram de ser garantidos. A instituição ainda aparece em registros romanos, com privilégios concedidos a membros, mas o prédio some da documentação por volta do século III d.C. Arqueólogo nenhum localizou até hoje as ruínas do Mouseîon: a área do antigo bairro real está sob o mar e sob a cidade moderna, e sem escavação não se sabe sequer onde exatamente ficava.
A palavra sobreviveu ao prédio dentro do latim. Museum, para o romano culto, passou a nomear o cômodo de estudo, o retiro no campo onde se lia e escrevia longe da cidade. Foi nesse sentido, de gabinete erudito, que a Renascença italiana pegou o termo de volta.
O italiano Paolo Giovio, bispo e historiador, chamou de Museo a villa que construiu na margem do lago de Como por volta de 1537, com uma galeria montada para abrigar mais de quatrocentos retratos de homens ilustres que ele colecionava. A coleção entrava em catálogo, os retratos ganhavam legenda escrita, e amigos visitavam mediante convite. O nome antigo voltou colado a um acervo pela primeira vez.
O século XVI encheu a Europa desses gabinetes particulares, chamados na Alemanha de Wunderkammer, o quarto das maravilhas, onde chifre de narval, moeda romana, tatu empalhado e relógio mecânico dividiam a mesma prateleira. Faltava a peça final: abrir a porta para quem não fosse amigo do dono.
Quem abriu foi Oxford. Elias Ashmole, advogado e colecionador inglês, doou à universidade em 1677 o acervo que herdara dos jardineiros John Tradescant, pai e filho, com plantas, armas, moedas e objetos trazidos das Américas. A universidade ergueu um prédio próprio na Broad Street e inaugurou o Ashmolean Museum em 1683, com entrada cobrada por pessoa e aberta a qualquer visitante que pagasse a taxa. O sentido moderno da palavra tem endereço e ano.
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