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A palavra muškēnum aparece no acádio (a língua semítica falada na Mesopotâmia, escrita em cuneiforme) bem antes de Hamurábi. Os assiriólogos ligam a forma ao verbo šukênum, prostrar-se, curvar-se diante de alguém. O muškēnum seria, ao pé da letra, o que se curva.
O código separa três tipos de gente. O awīlum (homem livre de pleno direito) aparece no topo. O wardum (escravo) fica embaixo. No meio está o muškēnum, e as leis 196 a 223 mostram o tamanho exato da distância entre os três.
A lei 198 cobra uma mina de prata por um olho furado ou um osso quebrado de muškēnum. A lei 201 cobra um terço de mina pelo dente arrancado. Para o homem livre, a mesma ofensa pedia a mesma pena no corpo do agressor: olho por olho, dente por dente.
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A palavra que hoje acusa o sovina nasceu numa tabela de preços em que o pobre valia menos.
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Os estudiosos ainda discutem quem cabia exatamente nessa classe. Uma leitura, defendida pelo assiriólogo Ignace Gelb, vê no muškēnum o trabalhador ligado ao palácio, que recebia terra ou ração do rei em troca de serviço. Outra o vê como homem livre sem posses, sem família poderosa por trás.
As duas leituras concordam no essencial: o muškēnum tinha pouco e dependia de alguém maior. A lei protegia o que era dele, mas com valor reduzido. Um boi roubado de um muškēnum, pela lei 8, era pago em dez vezes o valor; o do templo ou do palácio, em trinta.
Depois da Babilônia, a palavra seguiu viagem pelas línguas vizinhas. No aramaico, a língua franca do Oriente Próximo nos séculos seguintes, virou meskēnā, pobre. Ali já não nomeava uma classe da lei, apenas a condição de quem não tem.
O hebraico recebeu a mesma forma como misken. O livro do Eclesiastes, escrito perto do século 3 a.C., usa a palavra ao contar a história de uma cidade pequena cercada por um rei poderoso:
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“Encontrou-se nela um homem pobre e sábio, que livrou a cidade pela sua sabedoria; e ninguém se lembrou daquele homem pobre.” (Eclesiastes 9:15, Bíblia, tradução de João Ferreira de Almeida, 1681)
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O texto fecha a cena sem dar a vitória ao pobre. O sábio salva a cidade e some da memória dela. A palavra hebraica já carregava o duplo de pobreza e de esquecimento, sem nenhuma sombra de avareza.
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O árabe herdou a palavra do aramaico e a fixou como miskīn, o necessitado. No Alcorão, compilado no século 7, ela aparece mais de vinte vezes, quase sempre ao lado da ordem de alimentar e proteger.
A sura 9, versículo 60, lista quem tem direito à zakat (a esmola obrigatória, um dos cinco pilares do islã). Os masākīn, plural de miskīn, aparecem logo no começo da lista, ao lado dos fuqarā (os pobres). Ser miskīn era motivo para receber, nunca para ser acusado.
Em 711, tropas árabes e berberes atravessaram o estreito de Gibraltar e ocuparam quase toda a Península Ibérica. Durante sete séculos, o árabe andaluz (a variante falada em al-Andalus, a Ibéria muçulmana) conviveu com os romances locais, as línguas nascidas do latim.
Milhares de palavras passaram de uma margem para a outra. Do mesmo árabe vieram alface, azeite, almofada e açúcar. Miskīn atravessou com o sentido intacto e virou mezquino no castelhano e mesquinho no galego-português.
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“Aconteceu da mísera e mesquinha / Que depois de ser morta foi Rainha.” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto III, estrofe 118, 1572)
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Os versos falam de Inês de Castro, a amante do príncipe Dom Pedro, executada em 1355 por ordem do rei Afonso IV, pai dele. Quando subiu ao trono, Pedro declarou que tinha se casado com ela em segredo e a fez rainha depois da execução. Camões chama Inês de mesquinha no sentido antigo: desgraçada, infeliz, digna de pena.
Ninguém, na corte de Camões, leria ali uma acusação de sovinice. Mesquinho ainda era o coitado, o desafortunado, o que a sorte deixou sem nada. O sentido seguia o mesmo do muškēnum, mais de três mil anos depois.
No mesmo período, o italiano tinha meschino e o francês, mesquin, as duas formas vindas do árabe pelo comércio do Mediterrâneo. Andrea da Barberino escreveu perto de 1410 o romance de cavalaria Guerrin Meschino, sobre um órfão de linhagem real criado como escravo, que sai pelo mundo atrás dos pais.
O herói de Barberino é chamado meschino por ser pobre e sem família. Na Itália do século 15, o título soava como O Coitado Guerrino, e o romance foi lido em praças e feiras até o século 19.
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