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ED 189
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Mesquinho

/mesˈkiɲu/

Do árabe miskīn, pobre: a classe do Código de Hamurábi virou sinônimo de avareza

Estela de basalto do Código de Hamurábi com escrita cuneiforme

Mesquinho: o pobre da lei babilônica

▼

O Dicionário Houaiss registra mesquinho como “que revela avareza; sovina, somítico”. A definição acerta o uso de hoje e apaga a origem: por mais de três mil anos, a palavra não acusava ninguém de guardar dinheiro, ela descrevia quem quase não tinha.

A pista mais antiga está gravada numa pedra de basalto preto com pouco mais de dois metros de altura. No alto, um relevo mostra o rei Hamurábi, da Babilônia, de pé diante do deus do sol Shamash. Embaixo, em escrita cuneiforme (sinais com feitio de cunha marcados na pedra ou no barro), correm 282 leis.

Hamurábi governou entre 1792 e 1750 a.C., e o código ficou pronto nos últimos anos do reinado. As leis tratam de aluguel de boi, de dique rompido, de herança, de casamento e de dívida.

Muitas delas trazem um preço diferente para o mesmo dano. Quem quebrasse o osso de um homem livre teria o próprio osso quebrado. Quem quebrasse o osso de um muškēnum (um súdito de condição inferior, dependente do palácio) pagava uma mina de prata, cerca de meio quilo do metal.

O cirurgião babilônio também cobrava por tabela. A cura de um olho rendia 10 siclos de prata (o siclo pesava perto de 8 gramas) quando o paciente era homem livre, 5 quando era muškēnum e 2 quando era escravo, pagos pelo dono.

A lei tinha três degraus, e a palavra que hoje vira insulto ocupava o do meio. O muškēnum não era escravo: tinha casa, podia ter escravos e ia ao tribunal. Mas valia menos diante da lei e dependia do rei para viver.

Entre aquela pedra e o português de hoje, a palavra atravessou o aramaico, o hebraico da Bíblia, o árabe do Alcorão e o espanhol da Península Ibérica. Em cada parada mudou de som. O sentido de pobreza seguiu inteiro até a Idade Média.

A virada para a avareza só veio na Europa cristã. O caminho começa na própria pedra, e na pergunta sobre quem era, afinal, esse homem do degrau do meio.

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I  A Raiz

O homem do degrau do meio

A palavra muškēnum aparece no acádio (a língua semítica falada na Mesopotâmia, escrita em cuneiforme) bem antes de Hamurábi. Os assiriólogos ligam a forma ao verbo šukênum, prostrar-se, curvar-se diante de alguém. O muškēnum seria, ao pé da letra, o que se curva.

O código separa três tipos de gente. O awīlum (homem livre de pleno direito) aparece no topo. O wardum (escravo) fica embaixo. No meio está o muškēnum, e as leis 196 a 223 mostram o tamanho exato da distância entre os três.

A lei 198 cobra uma mina de prata por um olho furado ou um osso quebrado de muškēnum. A lei 201 cobra um terço de mina pelo dente arrancado. Para o homem livre, a mesma ofensa pedia a mesma pena no corpo do agressor: olho por olho, dente por dente.

A palavra que hoje acusa o sovina nasceu numa tabela de preços em que o pobre valia menos.

Os estudiosos ainda discutem quem cabia exatamente nessa classe. Uma leitura, defendida pelo assiriólogo Ignace Gelb, vê no muškēnum o trabalhador ligado ao palácio, que recebia terra ou ração do rei em troca de serviço. Outra o vê como homem livre sem posses, sem família poderosa por trás.

As duas leituras concordam no essencial: o muškēnum tinha pouco e dependia de alguém maior. A lei protegia o que era dele, mas com valor reduzido. Um boi roubado de um muškēnum, pela lei 8, era pago em dez vezes o valor; o do templo ou do palácio, em trinta.

Depois da Babilônia, a palavra seguiu viagem pelas línguas vizinhas. No aramaico, a língua franca do Oriente Próximo nos séculos seguintes, virou meskēnā, pobre. Ali já não nomeava uma classe da lei, apenas a condição de quem não tem.

O hebraico recebeu a mesma forma como misken. O livro do Eclesiastes, escrito perto do século 3 a.C., usa a palavra ao contar a história de uma cidade pequena cercada por um rei poderoso:

“Encontrou-se nela um homem pobre e sábio, que livrou a cidade pela sua sabedoria; e ninguém se lembrou daquele homem pobre.” (Eclesiastes 9:15, Bíblia, tradução de João Ferreira de Almeida, 1681)

O texto fecha a cena sem dar a vitória ao pobre. O sábio salva a cidade e some da memória dela. A palavra hebraica já carregava o duplo de pobreza e de esquecimento, sem nenhuma sombra de avareza.

 
 

II  A Viagem

Do Alcorão ao castelhano

O árabe herdou a palavra do aramaico e a fixou como miskīn, o necessitado. No Alcorão, compilado no século 7, ela aparece mais de vinte vezes, quase sempre ao lado da ordem de alimentar e proteger.

A sura 9, versículo 60, lista quem tem direito à zakat (a esmola obrigatória, um dos cinco pilares do islã). Os masākīn, plural de miskīn, aparecem logo no começo da lista, ao lado dos fuqarā (os pobres). Ser miskīn era motivo para receber, nunca para ser acusado.

Em 711, tropas árabes e berberes atravessaram o estreito de Gibraltar e ocuparam quase toda a Península Ibérica. Durante sete séculos, o árabe andaluz (a variante falada em al-Andalus, a Ibéria muçulmana) conviveu com os romances locais, as línguas nascidas do latim.

Milhares de palavras passaram de uma margem para a outra. Do mesmo árabe vieram alface, azeite, almofada e açúcar. Miskīn atravessou com o sentido intacto e virou mezquino no castelhano e mesquinho no galego-português.

“Aconteceu da mísera e mesquinha / Que depois de ser morta foi Rainha.” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto III, estrofe 118, 1572)

Os versos falam de Inês de Castro, a amante do príncipe Dom Pedro, executada em 1355 por ordem do rei Afonso IV, pai dele. Quando subiu ao trono, Pedro declarou que tinha se casado com ela em segredo e a fez rainha depois da execução. Camões chama Inês de mesquinha no sentido antigo: desgraçada, infeliz, digna de pena.

Ninguém, na corte de Camões, leria ali uma acusação de sovinice. Mesquinho ainda era o coitado, o desafortunado, o que a sorte deixou sem nada. O sentido seguia o mesmo do muškēnum, mais de três mil anos depois.

No mesmo período, o italiano tinha meschino e o francês, mesquin, as duas formas vindas do árabe pelo comércio do Mediterrâneo. Andrea da Barberino escreveu perto de 1410 o romance de cavalaria Guerrin Meschino, sobre um órfão de linhagem real criado como escravo, que sai pelo mundo atrás dos pais.

O herói de Barberino é chamado meschino por ser pobre e sem família. Na Itália do século 15, o título soava como O Coitado Guerrino, e o romance foi lido em praças e feiras até o século 19.

 

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III  O Que Fica

Quando o pobre virou sovina

A virada aconteceu devagar, entre os séculos 16 e 18, e seguiu um caminho que os dicionários registram em camadas. Primeiro mesquinho deixou de nomear a pessoa e começou a qualificar os bens dela: casa mesquinha, mesa mesquinha, salário mesquinho.

O passo seguinte foi do pouco para o pequeno. Uma refeição mesquinha era escassa, e daí o adjetivo foi para a medida do gesto. Um presente mesquinho era um presente aquém do que a pessoa podia dar.

Quando a palavra saiu da carteira e entrou no caráter, o pobre virou réu.

O último degrau trocou a falta de dinheiro pela falta de generosidade. Mesquinho virou quem tem e não divide, o avarento, o que conta moedas. No português, o Vocabulário de Rafael Bluteau, publicado entre 1712 e 1728, já registra os dois sentidos lado a lado, o de miserável e o de escasso no gastar.

O francês fez a mesma curva. Mesquin, no século 17, já servia para chamar de pequeno e sem grandeza o espírito de alguém. O espanhol mezquino guarda até hoje os dois lados, e na Andaluzia ainda se ouve o sentido antigo de coitado.

O árabe não fez essa curva. Em grande parte dos países muçulmanos, miskīn segue no uso diário como exclamação de pena, coitadinho, e ninguém o ouve como insulto. A mesma raiz conta duas histórias opostas de um lado e do outro do Mediterrâneo.

O espanhol tem uma palavra vizinha que engana o ouvido: mezquita, mesquita. Ela não tem parentesco com mezquino. Vem do árabe masjid, lugar onde se prostra para rezar, e só se parece com a outra por coincidência de som.

Quem quiser ver as camadas da palavra pode seguir três passos.

1. Abra Os Lusíadas no canto III, estrofe 118, e leia mesquinha no lugar de infeliz: o verso continua de pé.

2. Procure mezquino num dicionário espanhol e conte quantos sentidos ele lista para pobreza e quantos para avareza.

3. Repare em mesquinharia na próxima conversa: a palavra julga o gesto, e a origem dela falava da carteira vazia.

O muškēnum de Hamurábi pagava menos ao cirurgião e recebia menos pelo osso quebrado. A palavra dele viajou do acádio ao português, perdeu o sentido de quem tem pouco e ganhou o de quem dá pouco. A pedra que guardou a primeira forma da palavra também viajou, e para longe da Babilônia.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde está hoje a pedra negra em que o Código de Hamurábi foi gravado?

 
 
 
 
Quiz da edição

Quanto o cirurgião babilônio cobrava pela cura do olho de um muškēnum?

A10 siclos de prata, igual ao homem livre
B5 siclos de prata
C2 siclos de prata, pagos pelo dono
DUma mina de prata

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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