|
Em 1697, uma tipografia de Lisboa imprimiu a Arte da Lingua de Angola (arte era o nome que se dava à gramática na época). O autor, o jesuíta Pedro Dias, não morava em Angola. Escreveu o livro em Salvador, na Bahia, onde a língua que ele descrevia corria nas ruas, nos engenhos e nas senzalas.
A língua era o quimbundo, dos ambundos, povo do antigo reino do Ndongo, na região de Luanda. Pedro Dias escrevia pros padres que precisavam confessar e ensinar a doutrina aos africanos escravizados trazidos dali. A obra foi a segunda gramática impressa de uma língua banta. A primeira, Regulae quaedam (Algumas Regras), de 1659, descrevia o quicongo, língua do reino vizinho do Congo.
O molde latino
O modelo do livro era o latim. Pedro Dias seguiu a gramática latina do também jesuíta Manuel Álvares, adotada nos colégios da Companhia de Jesus desde o século 16. O molde servia mal num ponto central: o latim marca o plural na terminação, e o quimbundo, no começo.
Em latim, vespa vira vespae; em português, vespa vira vespas. O quimbundo faz o caminho contrário. Divide os substantivos em classes nominais (grupos de palavras que trocam o começo pra mudar de número), e cada classe tem um prefixo pro singular e outro pro plural.
A vespa mora na classe que leva ri- no singular e ma- no plural. Uma vespa é rimbondo. Muitas são marimbondo. O ma- entra na frente da palavra inteira, como um artigo colado que só dissesse “várias”.
|
No quimbundo, o plural chega antes da vespa.
|
A língua no próprio nome
O sistema aparece até na palavra que designa o idioma. Quimbundo é a forma portuguesa de kimbundu, e ki- é o prefixo que as línguas bantas usam pra nomear idiomas. Kimbundu é a língua dos mbundu; kikongo, a dos kongo; kiswahili, o suaíli falado na costa leste da África.
Qualquer gramática do quimbundo tem de ensinar a mesma lição de partida: nessa língua, o começo da palavra muda conforme o número, e o fim fica parado. Pra quem vinha do latim, a lição exigia ler a palavra ao contrário.
Os soldados, os comerciantes e os senhores de engenho que aprendiam o quimbundo de ouvido não tinham gramática nenhuma. Ouviam a palavra como ela soava e guardavam o pacote inteiro, prefixo incluído.
Foi esse ouvido sem regra que levou marimbondo ao português, já no plural e sem aviso.
|
|
Em 1576, Paulo Dias de Novais fundou a vila de São Paulo da Assunção de Loanda, a atual Luanda. O porto virou um dos maiores pontos de embarque de africanos escravizados do Atlântico. O banco de dados Slave Voyages, que reúne os registros das viagens do tráfico, aponta a África Centro-Ocidental, região de Angola e do Congo, como a principal origem dos africanos desembarcados no Brasil.
Com as pessoas veio a língua. Nos séculos 17 e 18, o quimbundo circulava em Salvador, no Recife e nos engenhos do Recôncavo baiano, falado entre africanos de origens diferentes e aprendido de ouvido por quem convivia com eles.
Vespa raramente aparece sozinha. Anda em enxame, pendurada num ninho de papel no beiral do telhado, e quem aponta pra ela aponta pra muitas. A forma mais ouvida seria a do plural, marimbondo, e foi ela que ficou; o singular rimbondo não entrou no português de uso comum. Nenhum documento registra o momento da troca: a explicação do enxame é dedução, e nada escrito na época confirma ou desmente.
O mesmo caminho aparece em miçanga. O Priberam aponta como origem provável o quimbundo misanga, plural de musanga, uma conta de vidro. Conta de colar também não anda sozinha: vem às dezenas, enfiada no fio, e o português guardou o plural como singular.
Com o plural de fábrica disfarçado, o português fez o que faz com qualquer substantivo terminado em vogal: pôs um -s no fim. Marimbondos leva duas marcas de plural, uma de cada continente. Na fala, o m do meio às vezes cai, e o Priberam registra maribondo como “o mesmo que marimbondo”.
Plural em cima de plural
O português repetiu a dose na palavra que batiza a família inteira. Banto vem, segundo o Priberam, de ba-, prefixo de plural, mais ntu, homem: bantu quer dizer as pessoas. O linguista alemão Wilhelm Bleek usou o termo pra batizar o grupo de línguas na Comparative Grammar of South African Languages (Gramática Comparada das Línguas da África do Sul), de 1862. Quem escreve “os bantos” soma um -s a uma palavra que já era plural.
|
O português pluralizou uma palavra que já chegava no plural.
|
O inglês tem o caso mais famoso. Em inglês antigo, criança era cild, e crianças, cildru. No inglês médio (o falado entre os séculos 12 e 15), os falantes acrescentaram o -en, outra marca de plural da época, a mesma de oxen (bois). O plural virou childeren e, depois, children (crianças), com dois plurais empilhados.
O movimento contrário também acontece. O inglês pease, ervilha, era singular, mas soava como plural; no século 17, os falantes cortaram o s e inventaram pea, uma ervilha só. Marimbondo seguiu a mão oposta: era plural, soou singular e ganhou mais um plural.
|