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Marimbondo

/ma.ɾĩˈbõ.du/

Do quimbundo ma- + rimbondo: um plural angolano que o português pluralizou de novo

Ninho de vespas sob o beiral de uma casa colonial na Bahia, com uma mulher apontando o enxame

O enxame no beiral de uma casa da Bahia colonial

▼

O Priberam define marimbondo assim: “designação dada a vários insetos himenópteros não reconhecidos como abelhas ou formigas, cujas fêmeas são munidas de um ferrão” (himenóptero é o inseto de asas finas como membrana, o grupo das vespas, abelhas e formigas). A definição descreve um bicho. A palavra, na língua que a deu, descrevia um bando.

No pé do mesmo verbete, a origem aponta o quimbundo, uma língua banta (da grande família de línguas da África Central e Austral) falada em Angola, e junta um prefixo (pedaço que se cola no começo de outra palavra) a um substantivo: “quimbundo ma-, prefixo plural + rimbondo, vespa”. Somadas as partes, marimbondo quer dizer vespas, no plural, desde antes de atravessar o oceano.

Quem fala português nunca tratou a palavra desse jeito. Diz “um marimbondo” pra um inseto só e, quando são muitos, acrescenta o -s do plural: marimbondos. A palavra carrega duas marcas de plural, uma em cada ponta. A da frente fala quimbundo; a de trás fala português.

Ninguém errou no caminho. Toda língua que toma palavra emprestada leva a forma que ouve e deixa pra trás a gramática que vinha junto. O português ouviu marimbondo e entendeu nome de bicho, enquanto o quimbundo dizia vespas. Com o árabe, o português já tinha feito parecido: quem diz “o algodão” usa dois artigos, o “o” do português e o al- do árabe, que também quer dizer “o” e veio grudado em qutn, algodão.

O dicionário acerta o inseto e erra a contagem. A definição fala em “vários insetos” porque o nome cobre muitas espécies, e nenhuma linha avisa que a própria palavra já chegou plural. Quem consulta o verbete precisa ligar sozinho a definição do alto e a origem do rodapé.

A distância entre as duas linhas tem explicação, e ela começa num livro. A primeira gramática do quimbundo ensinou como uma língua faz o plural pela frente da palavra, e foi escrita numa cidade brasileira.

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I  A Raiz

O plural na frente

Em 1697, uma tipografia de Lisboa imprimiu a Arte da Lingua de Angola (arte era o nome que se dava à gramática na época). O autor, o jesuíta Pedro Dias, não morava em Angola. Escreveu o livro em Salvador, na Bahia, onde a língua que ele descrevia corria nas ruas, nos engenhos e nas senzalas.

A língua era o quimbundo, dos ambundos, povo do antigo reino do Ndongo, na região de Luanda. Pedro Dias escrevia pros padres que precisavam confessar e ensinar a doutrina aos africanos escravizados trazidos dali. A obra foi a segunda gramática impressa de uma língua banta. A primeira, Regulae quaedam (Algumas Regras), de 1659, descrevia o quicongo, língua do reino vizinho do Congo.

O molde latino

O modelo do livro era o latim. Pedro Dias seguiu a gramática latina do também jesuíta Manuel Álvares, adotada nos colégios da Companhia de Jesus desde o século 16. O molde servia mal num ponto central: o latim marca o plural na terminação, e o quimbundo, no começo.

Em latim, vespa vira vespae; em português, vespa vira vespas. O quimbundo faz o caminho contrário. Divide os substantivos em classes nominais (grupos de palavras que trocam o começo pra mudar de número), e cada classe tem um prefixo pro singular e outro pro plural.

A vespa mora na classe que leva ri- no singular e ma- no plural. Uma vespa é rimbondo. Muitas são marimbondo. O ma- entra na frente da palavra inteira, como um artigo colado que só dissesse “várias”.

No quimbundo, o plural chega antes da vespa.

A língua no próprio nome

O sistema aparece até na palavra que designa o idioma. Quimbundo é a forma portuguesa de kimbundu, e ki- é o prefixo que as línguas bantas usam pra nomear idiomas. Kimbundu é a língua dos mbundu; kikongo, a dos kongo; kiswahili, o suaíli falado na costa leste da África.

Qualquer gramática do quimbundo tem de ensinar a mesma lição de partida: nessa língua, o começo da palavra muda conforme o número, e o fim fica parado. Pra quem vinha do latim, a lição exigia ler a palavra ao contrário.

Os soldados, os comerciantes e os senhores de engenho que aprendiam o quimbundo de ouvido não tinham gramática nenhuma. Ouviam a palavra como ela soava e guardavam o pacote inteiro, prefixo incluído.

Foi esse ouvido sem regra que levou marimbondo ao português, já no plural e sem aviso.

 
 

II  A Viagem

Do enxame ao singular

Em 1576, Paulo Dias de Novais fundou a vila de São Paulo da Assunção de Loanda, a atual Luanda. O porto virou um dos maiores pontos de embarque de africanos escravizados do Atlântico. O banco de dados Slave Voyages, que reúne os registros das viagens do tráfico, aponta a África Centro-Ocidental, região de Angola e do Congo, como a principal origem dos africanos desembarcados no Brasil.

Com as pessoas veio a língua. Nos séculos 17 e 18, o quimbundo circulava em Salvador, no Recife e nos engenhos do Recôncavo baiano, falado entre africanos de origens diferentes e aprendido de ouvido por quem convivia com eles.

Vespa raramente aparece sozinha. Anda em enxame, pendurada num ninho de papel no beiral do telhado, e quem aponta pra ela aponta pra muitas. A forma mais ouvida seria a do plural, marimbondo, e foi ela que ficou; o singular rimbondo não entrou no português de uso comum. Nenhum documento registra o momento da troca: a explicação do enxame é dedução, e nada escrito na época confirma ou desmente.

O mesmo caminho aparece em miçanga. O Priberam aponta como origem provável o quimbundo misanga, plural de musanga, uma conta de vidro. Conta de colar também não anda sozinha: vem às dezenas, enfiada no fio, e o português guardou o plural como singular.

Com o plural de fábrica disfarçado, o português fez o que faz com qualquer substantivo terminado em vogal: pôs um -s no fim. Marimbondos leva duas marcas de plural, uma de cada continente. Na fala, o m do meio às vezes cai, e o Priberam registra maribondo como “o mesmo que marimbondo”.

Plural em cima de plural

O português repetiu a dose na palavra que batiza a família inteira. Banto vem, segundo o Priberam, de ba-, prefixo de plural, mais ntu, homem: bantu quer dizer as pessoas. O linguista alemão Wilhelm Bleek usou o termo pra batizar o grupo de línguas na Comparative Grammar of South African Languages (Gramática Comparada das Línguas da África do Sul), de 1862. Quem escreve “os bantos” soma um -s a uma palavra que já era plural.

O português pluralizou uma palavra que já chegava no plural.

O inglês tem o caso mais famoso. Em inglês antigo, criança era cild, e crianças, cildru. No inglês médio (o falado entre os séculos 12 e 15), os falantes acrescentaram o -en, outra marca de plural da época, a mesma de oxen (bois). O plural virou childeren e, depois, children (crianças), com dois plurais empilhados.

O movimento contrário também acontece. O inglês pease, ervilha, era singular, mas soava como plural; no século 17, os falantes cortaram o s e inventaram pea, uma ervilha só. Marimbondo seguiu a mão oposta: era plural, soou singular e ganhou mais um plural.

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III  O Que Fica

Três nomes pra uma vespa

No Brasil, o inseto do ferrão responde por três nomes de três continentes. Vespa vem do latim vespa, pela Europa. Caba vem do tupi kawa (vespa), a língua dos povos tupis da costa quando os portugueses chegaram. Marimbondo vem do quimbundo, da África.

O Priberam dá a caba e a marimbondo a mesma definição, letra por letra, e marca caba como palavra da Amazônia. O nome indígena chegou primeiro e ficou numa região; o nome africano se espalhou pelo país e virou o de todo dia.

No verbete de marimbondo, a etiqueta é dupla: Angola e Brasil. A palavra segue viva no português angolano, do lado do oceano onde nasceu, e lá também ganha o -s no plural. O português de Luanda soma as duas marcas, igual ao de Salvador.

O plural dentro do composto

A palavra virou base de nomes novos, todos tratando marimbondo como singular. O Priberam registra marimbondo-caçador e define pinga-fogo como “espécie de marimbondo grande”.

No plural do composto, o português marca o número três vezes. Marimbondos-caçadores leva o ma- angolano, o -s de marimbondos e o -es de caçadores. Nenhum falante sente o primeiro.

A fala de todo dia guardou a imagem do enxame. Mexer em casa de marimbondo (o ninho) é provocar quem vai reagir em bando. A expressão funciona porque o bicho nunca vem sozinho, o mesmo detalhe que, pela dedução do enxame, levou o plural ao português.

Quem diz marimbondos fala quimbundo no começo e português no fim.

Os prefixos que ficaram

Marimbondo não guarda o único prefixo do quimbundo escondido no vocabulário brasileiro. Três seguem dentro de palavras de uso diário, pelas origens que o Priberam registra:

1. ki-: quitanda vem de kitanda, feira, e quilombo vem de kilombo, acampamento. O mesmo ki- abre o nome da própria língua.

2. mu-: moleque vem de muleke, menino. O mu- é o começo típico dos nomes de pessoa no singular.

3. ma-: marimbondo, o plural que o português aprendeu como singular.

Outras palavras vieram do quimbundo sem prefixo à vista. Caçula vem de kasule, o último filho; fubá vem de fuba, farinha. Todas entraram pela mesma porta, a da convivência, e nenhuma trouxe a gramática junto.

A definição do Priberam acerta o inseto e conta mal. Fala em vários insetos por causa das espécies e esquece que a palavra já dizia vespas antes de pisar no Brasil. Quem fala marimbondos usa duas gramáticas numa palavra só, uma angolana e uma portuguesa.

Na sua cidade, o bicho do ferrão é marimbondo, caba ou vespa?

 
 
 
 
Quiz da edição

Pedro Dias escreveu a gramática do quimbundo impressa em 1697. Em qual cidade ele morava quando escreveu o livro?

ALuanda
BLisboa
CSalvador
DRecife

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