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Mapa

/ˈma.pɐ/

Do latim mappa: o pano de mesa romano que deu nome ao desenho do mundo

Mapa medieval do mundo pintado em pergaminho numa catedral

Mappa mundi: o mundo inteiro num pano

▼

O Dicionário Houaiss abre o verbete assim: “mapa: representação gráfica, em superfície plana, da Terra ou de parte dela”. A definição descreve o desenho e esquece o suporte. Para os romanos, mappa não era desenho nenhum: era o pano que se estendia na mesa ou se levava na mão para limpar os dedos.

Em latim, mappa queria dizer guardanapo ou toalha pequena. O convidado de um jantar romano levava a própria mappa de casa e, terminada a refeição, embrulhava nela as sobras para comer depois.

O poeta Marcial, que escreveu os Epigramas no fim do século 1, zomba de um conviva chamado Ceciliano, que varria para o guardanapo encharcado cada prato que chegava à mesa. Ali, a mappa é sacola de sobras, sem traço de geografia.

A pista mais curiosa sobre a palavra veio de Quintiliano, professor de retórica nascido na Hispânia, a península onde hoje ficam Portugal e Espanha. No primeiro livro da Institutio Oratoria (A formação do orador), escrita nos anos 90, ele lista termos que o latim tomou de outros povos e atribui mappa aos cartagineses.

Cartago, no atual território da Tunísia, falava púnico, língua semítica (da mesma família do hebraico) levada ao norte da África pelos colonos fenícios que fundaram a cidade. Roma arrasou Cartago em 146 a.C., e a palavra do pano sobreviveu à cidade.

Mais de mil anos depois, monges e copistas da Europa chamaram de mappa mundi (o pano do mundo) os grandes desenhos da Terra conhecida. Muitos foram pintados em pele de animal, e não em tecido. O nome do pano, porém, já tinha grudado no objeto.

O verbete guarda o resultado e apaga o caminho. Quem batizou o mapa foi o suporte, estendido e plano, e não a mão que desenhava sobre ele.

Para ver como um guardanapo chegou às paredes das catedrais, o percurso começa no maior circo de Roma, onde um pano jogado ao chão dava a largada das corridas.

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I  A Raiz

O pano que soltava os cavalos

O Circo Máximo, em Roma, recebia corridas de quadrigas (carros puxados por quatro cavalos) diante de uma multidão sentada nas arquibancadas. A largada dependia de um gesto só, feito pelo magistrado que pagava e presidia os jogos.

Do camarote, ele erguia uma mappa branca e a deixava cair na pista. Quando o pano tocava a areia, as portas das baias se abriam e os carros saíam. O guardanapo do jantar, nas mãos de quem mandava, virava sinal público.

É por esse uso que Quintiliano escreve que mappa era nome conhecido também no circo. A frase dele é o único testemunho antigo sobre a origem da palavra:

“Os cartagineses reivindicam mappa, nome usado também no circo.” (Quintiliano, Institutio Oratoria, livro 1, c. 95, em tradução livre)

O escritor Cassiodoro, ministro do rei ostrogodo Teodorico na Itália, contou uma origem lendária para o costume nas Variae (Cartas variadas), reunidas em 537. Segundo ele, Nero ainda comia quando o povo começou a se impacientar com a demora das corridas, e o imperador jogou pela janela o guardanapo que tinha na mão, como ordem de largada.

Em Roma, um pano caindo na areia valia o tiro de largada.

O gesto ganhou prestígio com o tempo. Nos dípticos consulares (pares de placas de marfim que os cônsules davam de presente ao assumir o cargo), dos séculos 5 e 6, o cônsul aparece sentado no trono e de braço erguido, segurando a mappa que vai abrir os jogos.

Resta a origem púnica. Nenhum texto em púnico com a palavra chegou até hoje: os livros de Cartago se perderam com a cidade, e a língua sobrevive quase só em inscrições de pedra. Sem esses textos, não se sabe qual era a forma original nem o que ela significava em Cartago.

O Dictionnaire étymologique de la langue latine (Dicionário etimológico da língua latina), de Alfred Ernout e Antoine Meillet, de 1932, registra mappa como empréstimo estrangeiro e cita Quintiliano como fonte. Os etimologistas aceitam a palavra do professor romano porque não existe outra pista para pôr no lugar.

 
 

II  A Viagem

Do guardanapo à pele de bezerro

Na Idade Média, os clérigos que desenhavam a Terra conhecida chamaram o resultado de mappa mundi. O mundo cabia num pano retangular, e o nome latino do pano servia para a peça inteira, mesmo quando a superfície era pergaminho.

O exemplar mais famoso que sobreviveu está na catedral de Hereford, na Inglaterra. Foi desenhado perto de 1300 numa única pele de bezerro, com 1,59 metro de altura por 1,34 de largura, e mostra a Terra como um círculo cercado de oceano.

Jerusalém ocupa o centro do círculo. O leste fica no alto, onde o desenho põe o Paraíso, com Adão e Eva. O mapa junta cidades, rios, animais e cenas da Bíblia num só plano, e serve mais para contar a história do mundo do que para guiar viagem.

O alto do mapa medieval apontava para o nascente, e daí vem o verbo orientar.

O verbo orientar nasceu desse costume. Oriente vem do latim oriens (o que nasce), o lado onde o sol aparece. Orientar um mapa queria dizer pôr o leste no topo, e só depois a palavra passou a significar achar a direção certa.

Outro mappa mundi teve fim pior. O de Ebstorf, no norte da Alemanha, media perto de 3,6 metros de lado e foi pintado em 30 peles de cabra costuradas. Os bombardeios dos Aliados sobre Hanôver, em 1943, destruíram o original. O que se vê hoje é reconstrução feita a partir de fotografias antigas.

O de Hereford sobreviveu porque ficou séculos guardado na própria catedral, preso a uma moldura de madeira, longe das guerras do continente. Ninguém sabe quem o desenhou com certeza: uma legenda no canto pede orações por Ricardo de Haldingham, também chamado Ricardo de Bello, e os historiadores aceitam o nome sem saber se ele foi o autor, o encomendante ou os dois.

O de Hereford quase saiu da catedral por outro caminho. Em 1988, o cabido (o conselho de padres que administra a catedral) anunciou que poria o mapa à venda, e o anúncio virou notícia em toda a Inglaterra.

Enquanto os monges desenhavam o mundo da fé, os navegadores usavam outra palavra. A carta de marear portuguesa vinha do latim charta (folha de papiro), e as cartas náuticas do Mediterrâneo marcavam costas e portos sem nenhum Paraíso no topo.

O português ficou com as duas palavras e separou o serviço delas. Carta virou o termo técnico de quem navega, e mapa ficou com o desenho geral da terra, do país, da cidade. Os dicionários etimológicos registram mapa em português a partir do século 16.

 

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III  O Que Fica

Toalha, napkin e avental

A mesma mappa latina seguiu outro caminho no francês. Ali, o m inicial virou n e a palavra se tornou nappe (toalha de mesa), que continua em uso nas mesas da França.

O inglês tomou o diminutivo. Da nappe francesa saiu napkin, o guardanapo, com o sufixo -kin (pequeno). Da palavra vizinha naperon, toalhinha, saiu napron, o pano amarrado na frente do corpo de quem cozinha.

Depois veio um erro de ouvido. A napron soava igual a an apron, e os falantes de inglês passaram a separar o artigo no lugar errado. Desde o século 15 o avental se escreve apron, sem o n que veio da mappa.

O guardanapo e o avental do inglês são primos do mapa português.

Há uma ponta sem explicação. Mappa era feminina em latim, e o português diz o mapa, no masculino, assim como o espanhol diz el mapa. Os dicionários registram a troca, mas nenhum documento antigo mostra como e quando o gênero mudou.

No português de todo dia, o mapa saiu do papel. Mapa astral, mapa da mina, mapa genético e sumir do mapa usam a palavra para qualquer retrato organizado de um território, de um céu ou de um corpo.

O pano, porém, ficou de pé em outro lugar. Mapas de parede, de escola e de quartel ainda são impressos em lona ou em tecido para aguentar dobra e uso, o que devolve ao objeto a matéria que lhe deu nome.

A palavra também passou por outras línguas da Europa. O italiano diz mappa, o alemão diz Mappe para a pasta de guardar papéis, e o espanhol, como o português, guardou mapa para o desenho. Em cada língua a mappa ficou com uma tarefa diferente, sempre ligada a uma superfície plana.

Quem quiser ver a família da mappa por conta própria pode seguir três passos.

1. Abra um dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, no verbete mapa e confira a remissão ao latim mappa.

2. Procure a imagem do mappa mundi de Hereford no site da catedral e ache Jerusalém no centro e o Paraíso no alto.

3. Pegue um guardanapo de pano, estenda na mesa e desenhe o caminho de casa até o trabalho: é o gesto que deu nome ao objeto.

O pano de Cartago atravessou o circo, os mosteiros e as mesas da Europa e chegou ao português como desenho do mundo. Hoje o mapa de Hereford continua pendurado na catedral, e a venda de 1988 nunca saiu.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que a catedral de Hereford tentou vender o seu mappa mundi em 1988?

 
 
 
 
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