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Mandarim
/mɐ̃.da.ˈɾĩ/
Do malaio menteri, do sânscrito mantrin, conselheiro: o apelido português que virou língua
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O grou bordado e a carta de Malaca
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O dicionário Aulete registra mandarim como "alto funcionário da antiga China". A definição acerta o cargo e esconde a origem. Nenhum funcionário chinês jamais se apresentou com essa palavra, e nenhuma das línguas faladas na China a conhecia.
Os funcionários do império chamavam a si mesmos de guan (em chinês, oficial do governo). Mandarim foi o rótulo que estrangeiros colaram neles, e esses estrangeiros eram portugueses recém-chegados à Ásia, que ainda nem tinham pisado em Pequim.
Em 1511, a frota de Afonso de Albuquerque tomou Malaca, o porto que controlava o estreito entre a península Malaia e a ilha de Sumatra. Ali se falava malaio, a língua franca (idioma de troca entre povos diferentes) do comércio da região. Os portugueses aprenderam o vocabulário do porto antes de aprender qualquer palavra chinesa.
Uma das palavras mais úteis era menteri, o ministro ou conselheiro de um sultão. Os comerciantes malaios usavam o termo para qualquer autoridade que cobrasse taxa, desse licença ou prendesse alguém. Os portugueses levaram a palavra na bagagem quando seguiram para o norte, em direção a Cantão.
Na costa chinesa, encontraram homens de túnica bordada que decidiam quem podia desembarcar. Os portugueses não sabiam dizer guan. Sabiam dizer menteri, e o som foi se ajeitando à boca portuguesa até sair mandarim, talvez com um empurrão do verbo mandar, que parecia descrever bem o ofício.
O erro de origem cresceu. Séculos depois, a fala desses funcionários, a língua da corte e da administração, passou a ser chamada de mandarim nas línguas europeias. Hoje o apelido português nomeia o idioma com mais falantes nativos do planeta, segundo o catálogo Ethnologue, do SIL International, em 2024.
A história tem três paradas: a palavra indiana que significava conselho, o porto malaio que a entregou aos portugueses e a língua chinesa que herdou um apelido estrangeiro. A primeira parada fica na Índia antiga, muitos séculos antes das caravelas.
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I A Raiz
O conselheiro que sabia recitar
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A palavra começa no sânscrito, a língua clássica da Índia antiga. Mantrin (conselheiro, ministro) deriva de mantra, que significava conselho, deliberação e também fórmula sagrada recitada. A raiz man, pensar, é parente distante do latim mens (mente) e do português mente.
O conselheiro era, na origem, o homem que guardava o mantra: o plano secreto do rei, discutido em voz baixa. O mesmo termo servia para o verso do ritual religioso, porque as duas tarefas exigiam palavra exata e boca fechada diante de estranhos.
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Mandarim e mantra são a mesma palavra em duas estradas.
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O Arthashastra, tratado indiano de governo atribuído a Kautilya, conselheiro do imperador Chandragupta Maurya no século IV a.C., dedica capítulos inteiros ao conselho de ministros. O texto chama esse grupo de mantriparishad (assembleia dos conselheiros) e recomenda que as reuniões aconteçam em lugar fechado, onde nem pássaros possam ouvir.
A cautela revela o sentido antigo de mantrin. O conselheiro valia pelo segredo que carregava. Um reino com ministros de língua solta perdia guerras antes de começá-las, e o tratado manda vigiar até os gestos de quem participa da reunião.
O sânscrito se espalhou pelo Sudeste Asiático na carona do comércio, o hinduísmo e o budismo, desde o século I. Reinos de Java, Sumatra e da península Malaia adotaram títulos de corte indianos. Mantrin entrou no malaio antigo e virou menteri, com a vogal trocada e o cargo intacto.
As inscrições em pedra do reino de Srivijaya, em Sumatra, datadas do século VII, já misturam malaio e sânscrito nos títulos de funcionários. Quando os portugueses chegaram, menteri tinha quase mil anos de uso no arquipélago e nenhuma lembrança de mantra.
A palavra sobrevive viva no malaio de hoje. Na Malásia, o chefe de governo se chama Perdana Menteri, primeiro-ministro, e cada pasta tem o seu menteri. O título que os portugueses entregaram à China continua valendo em Kuala Lumpur para o cargo original.
O parentesco com mantra explica um detalhe curioso do português. A palavra mantra entrou no nosso vocabulário muito depois, no século XX, pela via da ioga e das religiões orientais. Chegou com o sentido de fórmula repetida, sem nenhum traço de ministro, e ninguém liga uma palavra à outra ao ouvi-las.
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II A Viagem
O porto que trocou as letras
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Malaca era, no começo do século XVI, um dos portos mais movimentados da Ásia. Juncos (navios de vela típicos da China) chegavam com seda e porcelana, barcos de Gujarate traziam tecido indiano, e a pimenta de Sumatra passava pelo mesmo cais.
Tomé Pires, boticário português que viveu em Malaca logo depois da conquista, descreveu o porto na Suma Oriental, escrita entre 1512 e 1515. O livro é um dos primeiros relatos europeus sobre a China feitos com informação recolhida de quem comerciava com ela, e lista mercadorias, rotas e autoridades.
Os relatos portugueses das décadas seguintes já usam mandarim sem explicar a palavra, sinal de que ela circulava na fala dos marinheiros. Fernão Mendes Pinto, aventureiro que andou pela Ásia entre 1537 e 1558, enche a Peregrinação, publicada em 1614, de mandarins que prendem, julgam e cobram.
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O apelido nasceu num cais malaio e desembarcou pronto na China.
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A troca de letras tem explicação provável. Menteri soava estranho ao ouvido português, e mandar estava à mão, com o sentido exato do cargo. Os dicionaristas chamam esse ajuste de etimologia popular: o falante aproxima a palavra estrangeira de outra que já conhece e faz sentido para ele.
O cargo que os portugueses batizaram tinha regras rígidas. O funcionário chinês chegava ao posto pelo keju (exame imperial), uma prova sobre os clássicos de Confúcio que podia exigir anos de estudo. Os aprovados eram divididos em nove graus, identificados por um quadrado bordado no peito da túnica.
Os civis usavam aves no bordado, com o grou para o grau mais alto. Os militares usavam animais de terra, como o tigre e o leopardo. O botão de pedra no alto do chapéu completava a identificação, e qualquer pessoa na rua sabia a patente do homem que passava.
Os jesuítas levaram a palavra para dentro da corte. Matteo Ricci, padre italiano que chegou a Pequim em 1601, escreveu em italiano e latim, mas aprendeu o vocabulário das missões portuguesas de Macau. Pelos relatos dos missionários, mandarim entrou no espanhol, no francês e no inglês ainda no século XVI.
A difusão teve prova escrita no inglês. O Oxford English Dictionary registra mandarin no fim do século XVI, em traduções de relatos ibéricos sobre a China, e aponta o português mandarim como fonte direta, com o malaio menteri por trás.
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