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Jubileu

/ʒubiˈlew/

Do hebraico yobel: o chifre de carneiro soprado para abrir o ano do perdão

Chifre de carneiro sobre muro de pedra em colina seca

Jubileu: o chifre do ano do perdão

▼

O Dicionário Houaiss define jubileu como “quinquagésimo aniversário” de um casamento, de uma instituição ou de um cargo. A definição acerta o número de anos e apaga o som: antes de virar festa, jubileu era o toque de um chifre de carneiro.

Em hebraico, a palavra é yobel (carneiro e, por extensão, o chifre do carneiro). O chifre, esvaziado e furado na ponta, servia de trombeta, e o som dele anunciava um ano diferente de todos os outros.

A regra está no Levítico, terceiro livro da Bíblia, no capítulo 25. O texto manda contar sete semanas de anos, sete vezes sete, o que dá 49. No décimo dia do sétimo mês, o chifre devia soar pela terra inteira, e o ano seguinte, o quinquagésimo, seria santo.

Nesse ano, quem tinha vendido o campo por dívida recebia o campo de volta. Quem tinha se vendido como servo voltava livre para a família. A terra descansava sem plantio, e o povo comia do que nascia sozinho. Cada família recuperava o lote herdado dos antepassados, do jeito que estava antes da venda.

O motivo vem escrito no mesmo capítulo. A terra não podia ser vendida para sempre, diz o texto, porque pertencia a Deus, e os israelitas viviam nela como estrangeiros e moradores de passagem.

Por esse raciocínio, vender um campo era, na prática, alugar as colheitas até o próximo toque do chifre. O Levítico manda calcular o preço pelos anos que faltavam: perto do jubileu, o terreno valia pouco; logo depois dele, valia muito.

Do chifre ao aniversário de casamento, a palavra passou por tradutores gregos em Alexandria, por um monge em Belém e por um papa que encheu Roma de peregrinos. Cada um deixou uma marca no sentido.

A viagem começa no deserto, onde o carneiro deu nome ao instrumento.

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I  A Raiz

O carneiro que virou trombeta

A resposta de ontem

Qual jornalista de Salvador batizou o gênero de axé music em 1987?

Foi Hagamenon Brito, crítico de música do jornal A Tarde, de Salvador. Ele usou axé music numa coluna de 1987, em tom de deboche, para falar da mistura de frevo, ijexá e pop das bandas baianas. As bandas e as gravadoras adotaram o rótulo, e o próprio Hagamenon contou depois em entrevistas como o apelido virou nome de gênero.

No hebraico bíblico, o instrumento de chifre tem dois nomes. Shofar (trombeta de chifre) é o nome geral; yobel aparece quando o texto quer lembrar o animal de onde o chifre saiu.

A pista mais antiga do sentido animal está no Talmude (a compilação de leis e debates dos rabinos, fechada entre os séculos 5 e 6). No tratado Rosh Hashaná, o rabino Akiva conta que, numa viagem à Arábia, ouviu os moradores chamarem o carneiro de yuvla.

O chifre aparece em duas cenas fortes da Bíblia. No Êxodo, capítulo 19, o povo só pode subir o monte Sinai quando o yobel soar longamente. No livro de Josué, capítulo 6, sete sacerdotes tocam sete trombetas de chifre de carneiro durante sete dias em volta das muralhas de Jericó.

O nome da festa saiu do animal, passou pelo instrumento e chegou ao ano inteiro.

No Levítico, o chifre empresta o nome ao calendário. O ano anunciado pelo som passa a se chamar ele próprio yobel, e a palavra fica presa ao perdão das dívidas.

O versículo central do capítulo está no número 10. Na tradução de João Ferreira de Almeida, publicada no século 17: “Santificareis o ano quinquagésimo e apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores.”

A palavra hebraica traduzida por liberdade é deror (soltura, alforria). Ela tem parente no acádio, a língua da Babilônia: andurarum (libertação), o nome dos decretos com que os reis babilônios apagavam dívidas e soltavam devedores presos.

O decreto mais completo que sobreviveu é o do rei Ammisaduqa, da Babilônia, do século 17 antes de Cristo. Ele perdoava dívidas de grão e libertava famílias vendidas por inadimplência, mas só quando o rei decidia, sem calendário fixo.

O Levítico tirou a decisão das mãos do rei e a pôs no relógio. A cada 50 anos, sem depender da boa vontade de ninguém, o chifre soaria.

Resta saber se soou. Nenhum contrato, crônica ou inscrição do antigo Israel mostra uma terra devolvida num ano de jubileu. O Talmude, no tratado Arakhin, afirma que a lei deixou de valer quando as tribos de Rúben e Gade foram levadas para o exílio pelos assírios, no século 8 antes de Cristo.

Os historiadores ainda discutem se o jubileu foi cumprido algum dia ou se ficou no texto como ideal. Sem documento da época, a pergunta segue sem resposta, e a palavra sobreviveu à lei.

 
 

II  A Viagem

Do grego ao júbilo latino

A primeira tradução da Bíblia hebraica foi a Septuaginta (a versão grega feita por judeus de Alexandria, no Egito, a partir do século 3 antes de Cristo). Os tradutores não copiaram o som de yobel.

No capítulo 25 do Levítico, eles escreveram aphesis (soltura, perdão). O carneiro e o chifre sumiram, e ficou só o efeito da lei: a dívida solta, o servo liberado.

O caminho até o português passou por outra tradução. No fim do século 4, Jerônimo, monge que vivia em Belém, traduziu a Bíblia para o latim. A versão dele ganhou o nome de Vulgata (a edição comum, de uso geral) e virou o texto oficial da Igreja no Ocidente.

Jerônimo fez o contrário dos gregos. Manteve o som hebraico e escreveu annus iubilaeus (o ano do jubileu). A forma latina, porém, carregou uma mistura que ele talvez nem tenha planejado.

O latim já tinha iubilum (o grito dos pastores no campo) e o verbo iubilare (soltar gritos de alegria). O ouvido latino aproximou yobel de iubilum, e o ano do chifre virou o ano do grito alegre.

Jerônimo copiou o som do hebraico, e o latim ouviu alegria onde havia um carneiro.

A aproximação deixou duas famílias de palavras no português. De iubilum vieram júbilo e jubilar, alegria pura. De iubilaeus veio jubileu, o ano especial. As duas se cruzam até hoje no dicionário.

Em 1300, o papa Bonifácio VIII deu à palavra um uso cristão. Na bula (documento oficial do papa) Antiquorum habet fida relatio, de 22 de fevereiro, ele prometeu indulgência plenária (perdão de todas as penas devidas pelos pecados) a quem visitasse as basílicas de São Pedro e São Paulo, em Roma.

Roma lotou. Dante Alighieri, na Divina Comédia (escrita no começo do século 14), compara uma cena do Inferno à ponte do castelo de Santo Ângelo naquele ano: os peregrinos andavam em duas filas, uma indo para São Pedro, outra voltando.

Bonifácio queria um ano santo a cada 100 anos. Clemente VI baixou o intervalo para 50 em 1350, de volta ao número do Levítico. O papa Paulo II fixou 25 anos em 1470, para que cada geração visse ao menos um.

O ritual da Porta Santa, aberta só nos anos de jubileu, veio com Alexandre VI, no ano santo de 1500. O último ano santo comum, convocado por Francisco com o lema Peregrinos de Esperança, teve a porta de São Pedro aberta na véspera do Natal de 2024.

 

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III  O Que Fica

Do ano santo ao professor jubilado

Fora da Igreja, o número 50 foi o que ficou. Jubileu passou a nomear qualquer aniversário redondo, e o português acrescentou metais para medir o tempo: jubileu de prata aos 25 anos, de ouro aos 50, de diamante aos 60.

A moda veio da Inglaterra. A rainha Vitória celebrou o Jubileu de Ouro em 1887 e o de Diamante em 1897, com desfiles em Londres, e a imprensa espalhou os nomes pelo mundo.

No português, a palavra ganhou ainda um sentido de trabalho. Em Portugal, jubilar um professor é aposentá-lo com honra, e professor jubilado é quem deixou a cátedra depois de uma carreira longa.

O Brasil virou o sentido do avesso. Nas universidades brasileiras, jubilar um aluno é desligá-lo por ter estourado o prazo máximo do curso. A palavra que soltava o servo passou a soltar o estudante atrasado, sem festa nenhuma.

Do servo libertado ao aluno desligado, jubilar guardou a ideia de soltar alguém.

O sentido de libertação também atravessou o Atlântico em inglês. O sino da sede do governo da Pensilvânia, fundido em 1752, traz gravado o versículo 10 do Levítico: proclamar liberdade em toda a terra.

Nos anos 1830, os abolicionistas americanos adotaram o sino como símbolo e lhe deram o nome que ficou, Liberty Bell (sino da liberdade). O versículo do jubileu virou bandeira contra a escravidão.

A ideia original, a do perdão de dívidas, voltou em 1996 com a campanha Jubileu 2000, nascida no Reino Unido. Igrejas e organizações pediram o cancelamento das dívidas dos países mais pobres até a virada do milênio. Em 1999, na reunião do G8 em Colônia, na Alemanha, os países mais ricos ampliaram o programa de alívio dessas dívidas.

O chifre também continua soando. O shofar toca no Rosh Hashaná (o ano-novo judaico) e no encerramento do Yom Kippur (o dia do perdão), a mesma data em que o Levítico mandava anunciar o jubileu.

Quem quiser refazer a viagem da palavra pode seguir três passos.

1. Leia o capítulo 25 do Levítico e marque os versículos 10 e 23, o da liberdade e o da terra que não se vende para sempre.

2. Procure uma gravação de shofar e escute o toque longo, chamado tekiá, o mesmo som que abria o ano do jubileu.

3. Abra um dicionário no verbete júbilo e compare com jubileu: uma vem do grito latino, a outra do carneiro hebraico.

O chifre de carneiro do Levítico virou trombeta, calendário, ano santo, aniversário de casamento e aposentadoria de professor. A lei talvez nunca tenha devolvido terra alguma, mas o nome dela atravessou três línguas e ainda marca o tempo a cada 25 ou 50 anos.

 
 
★ RARO

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