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Jeans
/ˈdʒĩjs/
Do italiano. Gênova virou Gênes no francês e jeans no inglês, enquanto o pano da calça veio do serge de Nîmes, encurtado em denim
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Fardos de algodão no cais de um porto
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"Jeans: calça de brim, geralmente azul" (Houaiss). A entrada resolve a roupa e deixa de fora a informação mais esquisita da palavra: jeans não nasceu descrevendo calça nenhuma. Nasceu descrevendo procedência, do mesmo jeito que um queijo carrega no rótulo o vale onde foi curado, e a procedência era uma cidade portuária italiana que nunca costurou a calça que leva o nome dela.
Antes de virar roupa, jeans era nome de pano. Um algodão grosso, de trama cerrada e barata, que mercadores ingleses compravam de comerciantes genoveses nos séculos dezesseis e dezessete. Servia para saco de carga, para vela, para uniforme de gente que trabalhava com as mãos. Ninguém comprava um jeans, comprava-se um tecido feito em Gênova.
O inglês, porém, não ouviu Gênova. Ouviu a forma francesa do topônimo, Gênes, que era como o porto aparecia nos registros de comércio do continente, e o francês era a língua franca do papel mercantil. Gênes atravessou o Canal da Mancha, encurtou na boca inglesa e virou jean, com o plural comercial jeans grudado no tecido antes de grudar na roupa.
Aqui aparece a parte que o dicionário não conta. O pano da calça azul moderna não é o de Gênova. É outro, tecido no sul da França, na cidade de Nîmes, uma sarja de algodão que os franceses vendiam sob a descrição serge de Nîmes. Comprimida pela pronúncia inglesa, a expressão inteira virou uma palavra só: denim.
O resultado é uma roupa com duas certidões europeias sobrepostas. O nome vem de um porto italiano, o pano vem de uma cidade francesa, e nenhum dos dois lugares tem qualquer participação no que o mundo passou a chamar de calça americana. A costura, o rebite e a fama vieram depois, do outro lado do Atlântico.
Existe ainda um detalhe que quase todo falante de português repete sem reparar. A calça é uma só e a palavra é plural, e o plural não veio do fato de a calça ter duas pernas. Veio do jeito como o comércio inglês contava fardo de tecido.
A história começa num cais do Mediterrâneo, com um pano barato que ninguém achava digno de nome próprio.
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I A Raiz
O pano que se vendia pelo porto de saída
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Gênova era, na virada do século dezesseis, um dos maiores centros financeiros e portuários da Europa. Exportava crédito, seda, veludo e, no fundo da lista, um algodão ordinário de urdidura resistente que servia para o que precisava aguentar sol, sal e atrito. Era o tecido dos que carregavam fardo, não dos que assinavam contrato.
O comércio da época identificava mercadoria pela origem, porque a origem funcionava como garantia de qualidade. Cambraia veio de Cambrai, damasco de Damasco, musselina de Mossul, tule de Tulle. Nomear tecido pelo lugar era o sistema de certificação disponível antes da etiqueta, do registro e da marca.
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jean: a kind of twilled cotton cloth, named from Genoa, Italy.
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Walter W. Skeat, An Etymological Dictionary of the English Language, 1882
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O caminho da palavra até o inglês passou pelo francês por motivo prático. Nos livros de alfândega e nas cartas de crédito que circulavam entre Londres, Anvers e Lyon, a cidade italiana aparecia escrita como Gênes. O comprador inglês lia Gênes, dizia jean, e registrava a compra assim. A grafia do porto ficou fossilizada numa palavra que já não parece nome de lugar.
A forma plural apareceu cedo e por motivo comercial. O tecido era listado por peça de fardo, no plural, e a lista de mercadoria trazia jeans do mesmo modo que trazia canvas e fustians. Quando a palavra migrou do pano para a roupa feita com ele, o plural veio de carona e ficou. O português importou a palavra inteira, com o esse do comércio inglês do século dezessete embutido.
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O plural de jeans não conta as pernas da calça. Conta as peças do fardo que saíam do cais de Gênova.
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Vale reparar no que a palavra não descreve. Não descreve cor, não descreve corte, não descreve a costura reforçada nem o rebite metálico. Descreve um endereço. É o tipo de nome que só funciona enquanto todo mundo sabe onde fica o lugar, e ele sobrevive justamente quando as pessoas param de saber.
Um marinheiro genovês do século dezessete usava calça daquele pano, e é dessa imagem que vem a lenda de que os jeans nasceram no mar. A lenda inverte a ordem dos fatos. O tecido nasceu ali, a calça moderna não. Entre o algodão do cais e a calça de cinco bolsos existem trezentos anos e um oceano.
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II A Viagem
De Nîmes ao rebite de cobre da Califórnia
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Nîmes, no Languedoc, tinha uma indústria têxtil antiga e uma sarja própria, tecida com fios de cor diferente na urdidura e na trama. É esse cruzamento que dá o efeito de um pano azul por fora e claro por dentro, e é ele que faz a calça desbotar em linhas e não em manchas.
O produto era vendido pela descrição do que era e de onde vinha: serge de Nîmes, sarja de Nîmes. Três palavras que o mercado inglês não tinha paciência de repetir. Sarja virou irrelevante, a preposição sumiu, e o que restou foi a última parte, comprimida em duas sílabas.
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denim: contração de serge de Nîmes, sarja fabricada originalmente em Nîmes, na França.
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Oxford English Dictionary, 2ª edição, 1989
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A partir daí, jeans e denim passam a nomear objetos diferentes que a conversa cotidiana embaralha. Denim é o tecido, com sua construção específica de sarja tingida de índigo. Jeans é a roupa. Em inglês a distinção continua nítida no vocabulário técnico da indústria; em português os dois termos entraram juntos e brigam pelo mesmo espaço.
O encontro entre a palavra italiana e o pano francês aconteceu em San Francisco. Um comerciante de secos e molhados que abastecia mineradores vendia pano resistente para calça de trabalho. Um alfaiate de Reno, cliente dele, tinha resolvido um problema recorrente: o bolso rasgava no ponto onde o peso da ferramenta puxava a costura, e ele começou a travar esse ponto com rebite de metal.
A patente do reforço foi registrada nos Estados Unidos em 1873, em nome de Levi Strauss e Jacob W. Davis, sob o número 139.121, com o título de melhoria na fixação de aberturas de bolso. O documento não fala de moda nem de estilo. Fala de costura que arrebenta e de como impedir que arrebente.
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Improvement in fastening pocket-openings.
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Levi Strauss e Jacob W. Davis, United States Patent 139.121, 1873
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A patente que criou a calça mais copiada do planeta não descreve uma roupa. Descreve um conserto para bolso que rasga.
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Nas décadas seguintes, a peça saiu da mina e entrou na fazenda, na ferrovia e na fábrica. Quem trabalhava de macacão azul comprava pelo preço e pela durabilidade, e a calça continuou sendo equipamento até o cinema americano do meio do século pendurar nela um significado que ela não tinha: juventude, estrada e desobediência.
Foi nesse pacote de imagem que a palavra chegou ao Brasil. Não veio pelo comércio de tecido, veio pela tela e pela vitrine, já pronunciada à moda inglesa e já significando roupa em vez de pano. O falante brasileiro recebeu um topônimo italiano deformado pelo francês, encaixado no inglês e entregue por Hollywood, sem nenhuma das etapas visíveis.
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