|
|
Jacaré
/ʒa.ka.ˈɾɛ/
Do tupi. Îakaré descrevia o que olha de banda, e o bicho foi batizado pelo jeito de encarar a presa com a cabeça de esguelha
|
Uma curva de rio no fim da tarde
|
| ▼ |
|
"Jacaré: réptil da ordem dos crocodilianos, de focinho largo e couro rugoso" (Houaiss). A entrada descreve o animal com precisão de manual de zoologia e não explica coisa nenhuma do nome. Fica a impressão de que jacaré é apenas o rótulo que alguém pendurou naquele bicho, quando a palavra é uma descrição de comportamento feita por quem passou séculos convivendo com ele nas margens dos rios.
Quem batizou o animal não olhou para o couro. Não olhou para a dentadura, que seria o traço mais fácil de transformar em nome. Olhou para a cabeça, e para o modo como aquela cabeça se posiciona quando o bicho está à espreita.
O jacaré tem os olhos no alto do crânio, quase nos cantos, e não enxerga bem o que está bem na frente do focinho. Para acompanhar alguma coisa na margem, ele vira a cabeça de lado e observa de esguelha. Um animal parado na água, com o corpo apontando numa direção e o olho apontando noutra, parece encarar de banda.
Era exatamente essa a informação que o tupi guardou na palavra. Não a couraça, não o tamanho, não a mordida, e sim um gesto: o de olhar torto. A língua que nomeou o bicho escolheu descrever o que ele fazia com a cabeça, e o nome pegou tão bem que atravessou o oceano, entrou no vocabulário científico europeu e voltou.
A escolha diz algo sobre quem nomeia. Um naturalista de gabinete classifica pelo esqueleto e pela escama. Quem vive na beira do rio classifica pelo que precisa saber para não ser pego, e o que precisava saber era o jeito daquele olho de acompanhar movimento sem que o corpo se mexesse.
O português brasileiro herdou a palavra inteira, com a descrição embutida, e parou de escutar a descrição. Diz jacaré do mesmo jeito que diz mesa, como se fosse som puro sem conteúdo. É som puro só para quem não sabe o que a primeira sílaba carrega.
A história começa numa língua que organizava nomes de animais por gesto observado, não por categoria de bicho.
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
O que a palavra dizia na beira do rio
|
|
O tupi da costa, aquele que os cronistas do século dezesseis chamavam de língua brasílica, era falado numa faixa quase contínua do litoral, do Maranhão a São Vicente. Foi a língua de contato entre europeus e populações indígenas nos primeiros duzentos anos de colônia, e virou a fonte de boa parte do vocabulário natural do português do Brasil.
Nessa língua, îakaré nomeia o animal, e a palavra não é opaca para quem a fala. Ela se decompõe, e a decomposição aponta para a ideia de torto, de desviado, de virado para o lado. O nome descreve uma posição, não uma espécie.
|
jacaré: do tupi îakaré, nome comum dos crocodilianos americanos.
|
|
Antônio Geraldo da Cunha, *Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa*, 1982
|
O tupi nomeava fauna e flora quase sempre por traço observável. Tamanduá guarda a ideia de apanhar com a ponta da língua. Tatu carrega a de corpo duro. Sucuri, jiboia, arara, jabuti, capivara: cada uma dessas palavras é uma frase curta congelada, descrevendo o que o bicho faz, onde vive ou de que se alimenta. Nenhuma delas é etiqueta arbitrária.
Nesse sistema, chamar o crocodiliano de o que olha de banda é uma decisão de observador. Quem passa a vida em canoa aprende que o perigo não está na boca fechada, está no olho que mudou de ângulo. A cabeça girando devagar na superfície é o aviso, e o nome do animal virou o registro desse aviso.
|
Jacaré, o que olha de banda, o que tem o olhar torto.
|
|
Teodoro Sampaio, *O Tupi na Geografia Nacional*, 1901
|
A palavra também carimbou o mapa antes de carimbar o dicionário. Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, guarda a memória de um brejo raso onde os bichos se juntavam. Jacareí, em São Paulo, e Jacarezinho, no Paraná, repetem a mesma raiz com sufixos diferentes. Quando um topônimo se espalha assim, é sinal de que a palavra já era corrente muito antes do primeiro registro escrito.
|
O nome não classifica o animal, descreve o que ele faz com a cabeça. Quem batizou estava na margem, não no gabinete.
|
Vale reparar no que ficou de fora do nome. O couro, a cauda, o tamanho e a mordida eram traços evidentes e nenhum deles entrou. O tupi escolheu o detalhe que separa o animal parado do animal atento, que é a informação útil para quem divide o rio com ele.
|
|
II A Viagem
Como o bicho entrou nos livros da Europa
|
|
Os primeiros europeus a escrever sobre o animal não tinham palavra própria para ele. Crocodilo já existia no vocabulário deles, herdado do grego pelos textos antigos, e servia para o bicho do Nilo. O que apareceu nos rios brasileiros era parecido o bastante para lembrar o crocodilo e diferente o bastante para incomodar quem tentava descrever com rigor.
A saída foi anotar o nome que os moradores usavam. Os relatos de viagem do século dezesseis e dezessete registram a palavra em grafias oscilantes, iacare, jacare, iacaré, sempre acompanhada de uma descrição do focinho largo e do hábito de boiar com os olhos de fora.
|
Iacare: animal anfíbio destas partes, semelhante ao crocodilo do Egito, que se deixa boiar imóvel na água mostrando somente os olhos.
|
|
Georg Marcgrave, *Historia Naturalis Brasiliae*, 1648
|
O caminho do português foi o mais curto possível: a palavra passou da fala indígena para a fala colonial sem tradução, sem adaptação de sentido e quase sem adaptação de som. O jota inicial substituiu o îa do tupi, o acento se fixou na última sílaba, e o resto ficou igual.
Do outro lado da fronteira, a mesma raiz seguiu por outra língua. O espanhol platino diz yacaré, forma que veio do guarani, parente próximo do tupi, e nomeia as espécies do Paraná e do Paraguai. Duas colonizações diferentes chegaram à mesma palavra porque as duas ouviram a mesma família linguística.
|
Duas coroas europeias descreveram o mesmo bicho e nenhuma das duas inventou nome. As duas copiaram o que já se falava na margem.
|
O inglês fez o contrário e o resultado mostra a diferença. Alligator não vem de língua nativa americana: vem do espanhol el lagarto, o lagarto, expressão que os primeiros colonos ouviram e absorveram já grudada com o artigo. É um nome de segunda mão, tomado de outro colonizador, e ele descreve semelhança com um bicho europeu em vez de descrever o animal que estava ali.
A zoologia moderna acabou consagrando a palavra sul-americana em nomenclatura latina. O gênero Caiman e a designação Jacare aparecem na literatura científica desde o século dezenove, e um termo nascido em beira de rio brasileiro passou a circular em artigo acadêmico escrito em qualquer idioma.
|
Muitos nomes de animais brasileiros passaram do tupi ao português sem sofrer alteração de sentido, e daí à nomenclatura científica.
|
|
Frederico G. Edelweiss, *Estudos Tupis e Tupi-Guaranis*, 1969
|
Nenhuma dessas passagens exigiu decisão de academia. A palavra viajou porque era a que estava disponível na boca de quem conhecia o animal, e quem escrevia sobre ele precisava de um nome que os leitores locais reconhecessem.
|
|