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Inflação
/ĩ.fla.ˈsɐ̃w̃/
Do latim. Inflatio, de inflare, soprar para dentro: o inchaço do corpo antes do inchaço do dinheiro
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Denários de prata e antoninianos sem brilho
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Nasceu do comentário
“O escriba podia ter dito que, já naquela época, havia algo parecido com o que chamamos de inflação.”
Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 20/08, na edição Dinheiro.
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O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define inflação, no verbete de economia, como "aumento continuado e generalizado dos preços". A definição acerta o supermercado e apaga o corpo. Por quase dois mil anos, a palavra descreveu uma barriga estufada.
Um leitor escreveu em agosto, depois de ler um texto desta casa sobre a palavra dinheiro. Deu nota 4 e deixou uma cobrança curta: faltou dizer que a Antiguidade já conhecia algo parecido com a inflação. Ele tinha razão, e a resposta rende uma edição inteira.
O latim inflatio vem do verbo inflare, formado por in (para dentro) e flare (soprar). Inflar um odre, uma bexiga de porco ou uma vela de barco era o uso comum do verbo. O substantivo foi parar nos textos de medicina, onde nomeava o inchaço, os gases e a barriga que cresce sem ter comido mais.
Os romanos viveram o fenômeno econômico sem nunca ligar a palavra a ele. Sob o imperador Augusto, o denário (a moeda de prata do dia a dia) era quase prata pura. Três séculos depois, a moeda que circulava no lugar dele tinha menos de 5% de prata e um banho fino por fora.
Os preços acompanharam a moeda. Em 301, o imperador Diocleciano mandou gravar em pedra uma tabela com o preço máximo de mais de mil mercadorias e serviços, do trigo ao salário do barbeiro. Ninguém em Roma chamou aquela crise de inflatio. Para eles, a moeda estava ruim, e ponto.
O sentido que hoje aparece no noticiário nasceu longe do latim, no inglês dos Estados Unidos do século XIX, quando bancos e depois o governo encheram a praça de papel-moeda. A metáfora é exata: dinheiro soprado para dentro da economia, que incha sem crescer.
A história tem três paradas: o sopro latino, a moeda romana que perdeu a prata e o papel americano que finalmente deu nome ao inchaço. A primeira parada começa num tratado de Cícero sobre sonhos e feijões.
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I A Raiz
O sopro que inchava a barriga
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Marco Túlio Cícero, orador e político romano, usa a palavra no tratado De Divinatione (Sobre a adivinhação), escrito em 44 a.C. Ele explica por que os seguidores de Pitágoras evitavam feijão antes de dormir: o alimento provoca grande inflatio, e o corpo estufado atrapalharia os sonhos que, segundo eles, traziam a verdade.
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Os pitagóricos proibiam o feijão porque esse alimento produz grande inchaço, contrário à tranquilidade da mente que busca a verdade.
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Marco Túlio Cícero, De Divinatione, livro I, 62, 44 a.C.
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A cena resume o sentido original. Inflatio era um efeito físico, medido pelo desconforto, e nada tinha a ver com moedas. O verbo inflare servia para tudo que se enche de ar: o músico inflava as bochechas na flauta, o vento inflava a vela, o orgulhoso inflava o peito.
O último uso abriu uma porta. Os autores latinos já diziam que um discurso vaidoso era inflatus (inchado, empolado), cheio de palavras e vazio de conteúdo. O inchaço deixou de ser só do corpo e passou a ser um defeito de estilo: volume sem substância.
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A inflação da moeda herdou do latim a ideia de volume sem substância.
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Plínio, o Velho, naturalista romano, usa inflatio na História Natural, concluída em 77 d.C., para descrever inchaços tratados com ervas e cataplasmas (emplastros quentes aplicados sobre a pele). Os médicos medievais mantiveram o termo nos tratados em latim. O português e o inglês receberam a palavra por essa via erudita, ainda como vocabulário de consultório.
Em inglês, inflation aparece desde o século XIV com o sentido de inchaço e, logo depois, de orgulho vazio. Em português, inflação e inflamação eram vizinhas nos livros de medicina, mas não são parentes: inflamação vem de flamma (chama), o calor da ferida, e inflação vem de flare, o sopro.
A família portuguesa do sopro ficou numerosa. Está em inflar, em insuflar (soprar para dentro, também no sentido de incitar), em flato e em flatulência. Os feijões de Cícero e o índice de preços do noticiário descendem do mesmo verbo.
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II A Viagem
A moeda que perdeu a prata
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O denário romano começou forte. Sob Augusto, que governou de 27 a.C. a 14 d.C., cada moeda tinha perto de 4 gramas de prata quase pura. Era uma moeda que valia pelo metal: o comerciante sabia o que tinha na mão.
O primeiro corte veio com Nero, em 64 d.C. O imperador reduziu o peso do denário e baixou a pureza para perto de 90%. A diferença era pequena na mão e grande no tesouro: com a mesma prata, o Estado cunhava mais moedas e pagava mais soldados.
Os sucessores repetiram o truque. Em 215, Caracala criou o antoniniano (moeda de prata que valia dois denários), mas com prata para um denário e meio. No reinado de Galieno, na década de 260, o antoniniano tinha menos de 5% de prata e recebia só um banho claro por fora, que saía com o uso.
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Quem cunha moeda com menos metal sopra a economia por dentro.
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Os preços subiram na mesma proporção em que a moeda se esvaziava. O papiro egípcio, que guardou contratos e recibos da época, mostra o trigo custando algumas dracmas no século I e centenas delas no fim do século III. O comerciante reagia ao metal: moeda pior, preço maior.
Diocleciano tentou conter a alta por decreto. O Édito Máximo, chamado em latim Edictum de Pretiis Rerum Venalium (Édito sobre os preços das mercadorias à venda), saiu em 301 e fixou teto para mais de mil itens, da carne de porco ao frete marítimo. O texto previa pena capital para quem vendesse acima da tabela.
Fragmentos do édito foram encontrados gravados em pedra em mais de trinta cidades, quase todas na metade oriental do império. O mais extenso está em Afrodísias, na atual Turquia. O preâmbulo, escrito pelo próprio governo, acusa os comerciantes de ganância e nunca menciona a moeda enfraquecida.
O efeito foi descrito por Lactâncio, escritor cristão que viveu sob Diocleciano, no livro Sobre a morte dos perseguidores, escrito por volta de 315.
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Por mercadorias pequenas e baratas muito sangue foi derramado, e com medo nada mais aparecia à venda, e a carestia ficou muito pior, até que a lei, por pura necessidade, foi abandonada.
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Lactâncio, De Mortibus Persecutorum, 7, c. 315
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O tabelamento falhou, e as mercadorias sumiram das bancas. Constantino resolveu o problema pelo outro lado: em 309, criou o sólido (moeda de ouro com peso fixo), que manteve o valor por sete séculos. Roma acertou a moeda sem ter criado uma palavra para o que tinha dado errado.
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