In partnership with

A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 165

Inflação

/ĩ.fla.ˈsɐ̃w̃/

Do latim. Inflatio, de inflare, soprar para dentro: o inchaço do corpo antes do inchaço do dinheiro

Moedas romanas de prata e de bronze sobre a mesa, com tabela de preços em pedra ao fundo

Denários de prata e antoninianos sem brilho

▼

Nasceu do comentário

“O escriba podia ter dito que, já naquela época, havia algo parecido com o que chamamos de inflação.”

Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 20/08, na edição Dinheiro.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define inflação, no verbete de economia, como "aumento continuado e generalizado dos preços". A definição acerta o supermercado e apaga o corpo. Por quase dois mil anos, a palavra descreveu uma barriga estufada.

Um leitor escreveu em agosto, depois de ler um texto desta casa sobre a palavra dinheiro. Deu nota 4 e deixou uma cobrança curta: faltou dizer que a Antiguidade já conhecia algo parecido com a inflação. Ele tinha razão, e a resposta rende uma edição inteira.

O latim inflatio vem do verbo inflare, formado por in (para dentro) e flare (soprar). Inflar um odre, uma bexiga de porco ou uma vela de barco era o uso comum do verbo. O substantivo foi parar nos textos de medicina, onde nomeava o inchaço, os gases e a barriga que cresce sem ter comido mais.

Os romanos viveram o fenômeno econômico sem nunca ligar a palavra a ele. Sob o imperador Augusto, o denário (a moeda de prata do dia a dia) era quase prata pura. Três séculos depois, a moeda que circulava no lugar dele tinha menos de 5% de prata e um banho fino por fora.

Os preços acompanharam a moeda. Em 301, o imperador Diocleciano mandou gravar em pedra uma tabela com o preço máximo de mais de mil mercadorias e serviços, do trigo ao salário do barbeiro. Ninguém em Roma chamou aquela crise de inflatio. Para eles, a moeda estava ruim, e ponto.

O sentido que hoje aparece no noticiário nasceu longe do latim, no inglês dos Estados Unidos do século XIX, quando bancos e depois o governo encheram a praça de papel-moeda. A metáfora é exata: dinheiro soprado para dentro da economia, que incha sem crescer.

A história tem três paradas: o sopro latino, a moeda romana que perdeu a prata e o papel americano que finalmente deu nome ao inchaço. A primeira parada começa num tratado de Cícero sobre sonhos e feijões.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Raiz

O sopro que inchava a barriga

Marco Túlio Cícero, orador e político romano, usa a palavra no tratado De Divinatione (Sobre a adivinhação), escrito em 44 a.C. Ele explica por que os seguidores de Pitágoras evitavam feijão antes de dormir: o alimento provoca grande inflatio, e o corpo estufado atrapalharia os sonhos que, segundo eles, traziam a verdade.

Os pitagóricos proibiam o feijão porque esse alimento produz grande inchaço, contrário à tranquilidade da mente que busca a verdade.

Marco Túlio Cícero, De Divinatione, livro I, 62, 44 a.C.

A cena resume o sentido original. Inflatio era um efeito físico, medido pelo desconforto, e nada tinha a ver com moedas. O verbo inflare servia para tudo que se enche de ar: o músico inflava as bochechas na flauta, o vento inflava a vela, o orgulhoso inflava o peito.

O último uso abriu uma porta. Os autores latinos já diziam que um discurso vaidoso era inflatus (inchado, empolado), cheio de palavras e vazio de conteúdo. O inchaço deixou de ser só do corpo e passou a ser um defeito de estilo: volume sem substância.

A inflação da moeda herdou do latim a ideia de volume sem substância.

Plínio, o Velho, naturalista romano, usa inflatio na História Natural, concluída em 77 d.C., para descrever inchaços tratados com ervas e cataplasmas (emplastros quentes aplicados sobre a pele). Os médicos medievais mantiveram o termo nos tratados em latim. O português e o inglês receberam a palavra por essa via erudita, ainda como vocabulário de consultório.

Em inglês, inflation aparece desde o século XIV com o sentido de inchaço e, logo depois, de orgulho vazio. Em português, inflação e inflamação eram vizinhas nos livros de medicina, mas não são parentes: inflamação vem de flamma (chama), o calor da ferida, e inflação vem de flare, o sopro.

A família portuguesa do sopro ficou numerosa. Está em inflar, em insuflar (soprar para dentro, também no sentido de incitar), em flato e em flatulência. Os feijões de Cícero e o índice de preços do noticiário descendem do mesmo verbo.

 
 

II  A Viagem

A moeda que perdeu a prata

O denário romano começou forte. Sob Augusto, que governou de 27 a.C. a 14 d.C., cada moeda tinha perto de 4 gramas de prata quase pura. Era uma moeda que valia pelo metal: o comerciante sabia o que tinha na mão.

O primeiro corte veio com Nero, em 64 d.C. O imperador reduziu o peso do denário e baixou a pureza para perto de 90%. A diferença era pequena na mão e grande no tesouro: com a mesma prata, o Estado cunhava mais moedas e pagava mais soldados.

Os sucessores repetiram o truque. Em 215, Caracala criou o antoniniano (moeda de prata que valia dois denários), mas com prata para um denário e meio. No reinado de Galieno, na década de 260, o antoniniano tinha menos de 5% de prata e recebia só um banho claro por fora, que saía com o uso.

Quem cunha moeda com menos metal sopra a economia por dentro.

Os preços subiram na mesma proporção em que a moeda se esvaziava. O papiro egípcio, que guardou contratos e recibos da época, mostra o trigo custando algumas dracmas no século I e centenas delas no fim do século III. O comerciante reagia ao metal: moeda pior, preço maior.

Diocleciano tentou conter a alta por decreto. O Édito Máximo, chamado em latim Edictum de Pretiis Rerum Venalium (Édito sobre os preços das mercadorias à venda), saiu em 301 e fixou teto para mais de mil itens, da carne de porco ao frete marítimo. O texto previa pena capital para quem vendesse acima da tabela.

Fragmentos do édito foram encontrados gravados em pedra em mais de trinta cidades, quase todas na metade oriental do império. O mais extenso está em Afrodísias, na atual Turquia. O preâmbulo, escrito pelo próprio governo, acusa os comerciantes de ganância e nunca menciona a moeda enfraquecida.

O efeito foi descrito por Lactâncio, escritor cristão que viveu sob Diocleciano, no livro Sobre a morte dos perseguidores, escrito por volta de 315.

Por mercadorias pequenas e baratas muito sangue foi derramado, e com medo nada mais aparecia à venda, e a carestia ficou muito pior, até que a lei, por pura necessidade, foi abandonada.

Lactâncio, De Mortibus Persecutorum, 7, c. 315

O tabelamento falhou, e as mercadorias sumiram das bancas. Constantino resolveu o problema pelo outro lado: em 309, criou o sólido (moeda de ouro com peso fixo), que manteve o valor por sete séculos. Roma acertou a moeda sem ter criado uma palavra para o que tinha dado errado.

 

Quem banca a edição de hoje

Here’s Why Experts Say to Ditch Your Old Cutting Boards

Before you prep another meal, here’s what you need to know:

  • Plastic boards shed microplastic particles into your food with every cut.

  • Wooden boards trap moisture and food residue, the perfect breeding ground for hidden bacteria and toxic mold that transfers to your food.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Fica

O papel que deu nome ao inchaço

A palavra encontrou o dinheiro nos Estados Unidos. Nos anos 1830, centenas de bancos estaduais emitiam as próprias cédulas, muito acima do ouro e da prata que tinham em caixa. Os críticos começaram a falar em inflation of the currency (inchaço da moeda circulante): papel demais para a riqueza que existia.

O uso ganhou o país na Guerra Civil. Em 1862, o Congresso aprovou a Lei de Curso Legal, que autorizou o governo federal a emitir os greenbacks (notas verdes sem lastro em ouro) para pagar a guerra. Os preços do Norte subiram sem parar até 1865, e inflation passou a designar a alta que vinha do papel. As notas ganharam o apelido pela tinta verde do verso, e greenback segue até hoje como gíria para o dólar.

O mesmo verbo que Cícero usou para feijão serviu ao Congresso americano para cédula.

O sentido foi se alargando. No começo, inflação era a causa: a quantidade de dinheiro que crescia. No século XX, a palavra passou a nomear o efeito, a alta geral dos preços, e é essa a acepção que o Houaiss registra. A família ganhou deflação, a queda dos preços, e estagflação, preço alto com economia parada, termo usado por Iain Macleod, ministro britânico, num discurso no Parlamento em 1965.

O português importou o sentido econômico do inglês e do francês e o aplicou a um vocabulário que o Brasil conheceu de perto. Segundo o IBGE, o índice oficial de preços ao consumidor fechou 1993 em 2.477%. Os preços eram remarcados várias vezes por mês, e a palavra hiperinflação entrou na conversa de feira.

Nos supermercados, o funcionário passava pelas gôndolas com a etiquetadora manual remarcando preços de manhã e à tarde. A cena virou o retrato da hiperinflação para uma geração inteira de brasileiros, e a palavra que já tinha sido barriga virou rotina de corredor.

O Plano Real, lançado em 1994, atacou o problema pela moeda, como Constantino fizera em Roma. Criou uma unidade de conta estável, a URV (Unidade Real de Valor), e só depois trocou o dinheiro. Em 1995, o mesmo índice do IBGE ficou abaixo de 23%.

A etimologia devolve ao noticiário a imagem que o sentido econômico escondeu. Inflação é um corpo que cresce de ar: a nota que dobra de número e não compra mais pão. O leitor que cobrou a Antiguidade tinha razão duas vezes, porque Roma viveu o inchaço e a palavra latina já trazia o diagnóstico.

Responda este email contando qual preço do seu dia a dia você lembra de ter visto subir mais rápido do que o salário.

"Quantas palavras de economia são, no fundo, palavras do corpo?"

 
 
 
 
Casa da Mãe Joana. Oito origens, uma por dia, no ebook e no app. Quero o ebook + app.

Quero o ebook + app →

 
Quiz da edição

Segundo o texto, no tratado De Divinatione, Cícero explica que os pitagóricos evitavam qual alimento antes de dormir, por causar inflatio?

ACarne
BFeijão
CVinho
DPão

Resultado da última edição: 3 de 5 acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

📜📜📜📜📜  ótima 📜📜📜📜  boa 📜📜📜  ok 📜📜  ruim 📜  péssima
 
Escolha a edição de sábado

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A mais votada sai no sábado, 03/10.

Voto aberto até 27/09, 15h30

A Mesquinho →
B Tabu →
C Vampiro →
D Catamarã →
 
 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

What’s the secret to staying ahead of the curve in the world of AI? Information. 

Luckily, you can join 2,000,000+ early adopters reading The Rundown AI — the free newsletter that makes you smarter on AI with just a 5-minute read per day.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
Recomendação de Newsletter
Gráfico do Dia

Gráfico do Dia

Um gráfico incrível por dia e todo o contexto que ele carrega, em apenas cinco minutos. No seu email todo dia às 08:08.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Indique essa newsletter para um amigo

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
Edição de Colecionador do mês
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook Casa da Mãe Joana
ebook Casa da Mãe Joana

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}

{{vip_linha | }}

 
Clímax da temporada

Maratona dos 7 dias finais

◆◆2627282930

Dia 3 de 7 · a temporada de setembro fecha 30/09

{{maratona_dias | 0}}
dias feitos
{{maratona_faltam | 6}}
pra fechar

Presença por clique, voto ou quiz. Sem folga na maratona: o seguro do mês cobre 1 dia.

Acompanhar minha ofensiva →

 
Amanhã nesta news

ED 166 · amanhã às 12:12

Mandarim foi apelido dado por marinheiros portugueses

Nenhum funcionário chinês se chamava assim, e a palavra acabou batizando a língua mais falada da China

 

Toda palavra e um fossil. Ad fontes.

A ORIGEM DAS PALAVRAS

Você fala 30 mil palavras por dia e não sabe de onde veio nenhuma

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos