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O inuktitut pertence à família esquimó-aleúte, que reúne as línguas faladas do Alasca à Groenlândia, passando pelo norte do Canadá. É uma língua polissintética (que monta palavras longas empilhando sufixos numa raiz), e uma frase inteira em português pode caber numa palavra só.
Iglu é uma dessas raízes. Sobre ela, o falante encaixa sufixos de lugar, de tamanho e de posse. A palavra que nomeia a casa serve de base pra dezenas de outras, e todas falam de morar, nenhuma de neve.
A gramática também conta as casas de um jeito que o português não conta. O inuktitut tem três números: singular, dual (exatamente dois) e plural (três ou mais). Uma casa é iglu, duas casas são igluuk e muitas casas são igluit.
O nome da cúpula de neve parte da mesma raiz. Os dicionários de inuktitut registram igluvijaq, também grafado igluvigaq, pro abrigo de blocos de neve. A análise do final da palavra varia entre as fontes, e por esse motivo esta edição não arrisca uma tradução sufixo por sufixo. O ponto firme é a ordem: primeiro vem a casa, depois a casa de neve.
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Em inuktitut, iglu nomeia o ato de morar; o material ganha palavra à parte.
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A casa feita de outro material também tem nome próprio. Qarmaq era a casa de inverno semienterrada, com paredes de pedra e turfa (terra com raízes de capim, cortada em placas) e vigas de osso de baleia. No verão, as famílias trocavam a casa fixa pela tupiq, a tenda de pele de foca ou de caribu.
As línguas vizinhas guardam a mesma raiz com o mesmo sentido largo. No groenlandês, a língua oficial da Groenlândia, casa se diz illu. Em Nuuk, a capital, um prédio de apartamentos é illu, e ninguém pensa em neve ao dizer a palavra.
No inupiaq, a língua dos iñupiat do norte do Alasca, a raiz aparece como iglu, de novo com o sentido de casa. Da Groenlândia ao Alasca, são milhares de quilômetros de costa, e a palavra atravessa todos eles sem mudar de significado.
O mapa do Ártico também carrega a raiz. Igloolik, um povoado de Nunavut numa ilha da bacia de Foxe, tem um nome que os guias locais costumam traduzir como há casas aqui. O lugar foi batizado pelas casas de turfa e pedra encontradas na ilha.
O inuktitut tem escrita própria. No fim do século 19, missionários anglicanos adaptaram pro inuktitut o silabário (sistema de escrita em que cada sinal vale uma sílaba) criado antes pra língua cree. Em Nunavut, a palavra casa aparece nas placas assim: ᐃᒡᓗ.
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O igluvijaq era técnica de poucos grupos. Os inuítes do Ártico central, como os netsilik e os iglulik, entre a baía de Hudson e a ilha de Baffin, construíam cúpulas de neve como casa de inverno. No Alasca, os iñupiat moravam em casas de turfa e quase não erguiam cúpulas.
A ferramenta era a pana, a faca de neve, feita de osso, marfim de morsa e, depois do contato com os europeus, de metal. O construtor escolhia um monte de neve compactado pelo vento, firme o bastante pra sair em blocos sem esfarelar.
Os blocos subiam em espiral, cada fileira inclinada pra dentro, até fechar no alto com um bloco só. A cúpula se sustentava pelo próprio peso. As frestas recebiam neve solta, que endurecia e vedava as juntas.
O desenho de dentro segue a física do calor. A entrada é um túnel cavado abaixo do piso, onde o ar frio, mais pesado, fica preso. A plataforma de dormir, coberta de peles, fica no alto, onde o ar quente se junta. Uma lâmpada de pedra com óleo de foca, a qulliq, iluminava e aquecia o espaço.
O antropólogo alemão Franz Boas passou o inverno de 1883 e 1884 na ilha de Baffin e publicou em 1888 o livro The Central Eskimo (Os esquimós centrais). Os desenhos de cúpulas, túneis e plataformas desse livro levaram a casa de neve às bibliotecas da Europa e dos Estados Unidos.
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A palavra viajou presa à imagem do inverno, e o resto do ano ficou pra trás.
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O cinema terminou o serviço. Em 1922, o americano Robert Flaherty lançou Nanook, o Esquimó, filmado no norte de Quebec. O protagonista foi vivido por um caçador inuíte chamado Allakariallak, e a cena mais famosa mostra a família levantando uma cúpula de neve.
A cúpula do filme tinha truque. Uma casa de neve inteira era escura e pequena demais pra câmera de 1922, então a equipe ergueu uma versão maior, com metade da parede aberta, pra filmar a cena interna com luz natural. O público mundial viu a casa de neve como a casa padrão dos inuítes.
No inglês, igloo já circulava em relatos de viagem do século 19. Depois do filme, a palavra ganhou a escala do cinema e chegou às línguas que importavam palavras do inglês, nas legendas, nas revistas e nos livros escolares. O português recebeu iglu por esse caminho, com o sentido que o viajante e a câmera tinham escolhido.
O nome do povo passou pela mesma estrada. Esquimó veio de uma língua algonquina, falada por vizinhos dos inuítes, e não da língua dos próprios inuítes. O linguista Ives Goddard, do Instituto Smithsonian, ligou em 1984 a palavra a um termo do montagnais que quer dizer quem trança raquetes de neve. A explicação popular, comedor de carne crua, perdeu apoio entre os especialistas.
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