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Iglu

/iˈɡlu/

Do inuktitut iglu: casa, qualquer casa

Casas de madeira na neve e uma cúpula de blocos de neve

Casa de madeira e cúpula de neve no Ártico

▼

O Houaiss define iglu como “habitação esquimó, de forma abobadada, construída com blocos de neve ou de gelo”. A definição acerta o desenho e erra a palavra. Na língua de quem levanta essas cúpulas, iglu não fala de neve nem de gelo: quer dizer casa.

A língua é o inuktitut, falada pelos inuítes no norte do Canadá, sobretudo no território de Nunavut. Ali, iglu serve pra casa de qualquer material. A casa de madeira pré-fabricada, com aquecedor a óleo e antena no telhado, é um iglu. A escola, a casa do vizinho e a casa de pedra dos avós também são.

Pra cúpula de neve, o inuktitut tem palavra própria: igluvijaq. É o abrigo erguido durante uma viagem de caça, com blocos cortados da neve dura, e deixado pra trás quando a caçada acaba.

No Brasil, iglu tem um sentido só. É a casa redonda e branca do desenho animado, quase sempre com um pinguim ao lado da porta, embora o pinguim viva no polo sul e o iglu pertença ao norte. A imagem chegou inteira; o sentido da palavra chegou pela metade.

O encolhimento aconteceu no caminho. Os exploradores europeus e americanos que cruzaram o Ártico no século 19 viram famílias morando em cúpulas de neve no inverno, perguntaram o nome e ouviram casa. Anotaram iglu como nome da cúpula.

O viajante chegava no inverno, quando a família estava longe da casa fixa, no gelo do mar, caçando foca nos buracos de respiro. A cúpula de neve era a casa daquela estação e daquele lugar, e foi a única que o estrangeiro viu.

O inglês fixou a grafia igloo, e o português recebeu a palavra já estreitada. Ninguém mentiu na troca: o inuíte disse casa, e o viajante entendeu a casa diante dele.

Pra medir o tamanho do encolhimento, é preciso começar pela palavra na boca de quem a criou, e pela gramática que a sustenta.

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I  A Raiz

Uma casa, duas casas, muitas casas

O inuktitut pertence à família esquimó-aleúte, que reúne as línguas faladas do Alasca à Groenlândia, passando pelo norte do Canadá. É uma língua polissintética (que monta palavras longas empilhando sufixos numa raiz), e uma frase inteira em português pode caber numa palavra só.

Iglu é uma dessas raízes. Sobre ela, o falante encaixa sufixos de lugar, de tamanho e de posse. A palavra que nomeia a casa serve de base pra dezenas de outras, e todas falam de morar, nenhuma de neve.

A gramática também conta as casas de um jeito que o português não conta. O inuktitut tem três números: singular, dual (exatamente dois) e plural (três ou mais). Uma casa é iglu, duas casas são igluuk e muitas casas são igluit.

O nome da cúpula de neve parte da mesma raiz. Os dicionários de inuktitut registram igluvijaq, também grafado igluvigaq, pro abrigo de blocos de neve. A análise do final da palavra varia entre as fontes, e por esse motivo esta edição não arrisca uma tradução sufixo por sufixo. O ponto firme é a ordem: primeiro vem a casa, depois a casa de neve.

Em inuktitut, iglu nomeia o ato de morar; o material ganha palavra à parte.

A casa feita de outro material também tem nome próprio. Qarmaq era a casa de inverno semienterrada, com paredes de pedra e turfa (terra com raízes de capim, cortada em placas) e vigas de osso de baleia. No verão, as famílias trocavam a casa fixa pela tupiq, a tenda de pele de foca ou de caribu.

As línguas vizinhas guardam a mesma raiz com o mesmo sentido largo. No groenlandês, a língua oficial da Groenlândia, casa se diz illu. Em Nuuk, a capital, um prédio de apartamentos é illu, e ninguém pensa em neve ao dizer a palavra.

No inupiaq, a língua dos iñupiat do norte do Alasca, a raiz aparece como iglu, de novo com o sentido de casa. Da Groenlândia ao Alasca, são milhares de quilômetros de costa, e a palavra atravessa todos eles sem mudar de significado.

O mapa do Ártico também carrega a raiz. Igloolik, um povoado de Nunavut numa ilha da bacia de Foxe, tem um nome que os guias locais costumam traduzir como há casas aqui. O lugar foi batizado pelas casas de turfa e pedra encontradas na ilha.

O inuktitut tem escrita própria. No fim do século 19, missionários anglicanos adaptaram pro inuktitut o silabário (sistema de escrita em que cada sinal vale uma sílaba) criado antes pra língua cree. Em Nunavut, a palavra casa aparece nas placas assim: ᐃᒡᓗ.

 
 

II  A Viagem

Da faca de neve ao cinema

O igluvijaq era técnica de poucos grupos. Os inuítes do Ártico central, como os netsilik e os iglulik, entre a baía de Hudson e a ilha de Baffin, construíam cúpulas de neve como casa de inverno. No Alasca, os iñupiat moravam em casas de turfa e quase não erguiam cúpulas.

A ferramenta era a pana, a faca de neve, feita de osso, marfim de morsa e, depois do contato com os europeus, de metal. O construtor escolhia um monte de neve compactado pelo vento, firme o bastante pra sair em blocos sem esfarelar.

Os blocos subiam em espiral, cada fileira inclinada pra dentro, até fechar no alto com um bloco só. A cúpula se sustentava pelo próprio peso. As frestas recebiam neve solta, que endurecia e vedava as juntas.

O desenho de dentro segue a física do calor. A entrada é um túnel cavado abaixo do piso, onde o ar frio, mais pesado, fica preso. A plataforma de dormir, coberta de peles, fica no alto, onde o ar quente se junta. Uma lâmpada de pedra com óleo de foca, a qulliq, iluminava e aquecia o espaço.

O antropólogo alemão Franz Boas passou o inverno de 1883 e 1884 na ilha de Baffin e publicou em 1888 o livro The Central Eskimo (Os esquimós centrais). Os desenhos de cúpulas, túneis e plataformas desse livro levaram a casa de neve às bibliotecas da Europa e dos Estados Unidos.

A palavra viajou presa à imagem do inverno, e o resto do ano ficou pra trás.

O cinema terminou o serviço. Em 1922, o americano Robert Flaherty lançou Nanook, o Esquimó, filmado no norte de Quebec. O protagonista foi vivido por um caçador inuíte chamado Allakariallak, e a cena mais famosa mostra a família levantando uma cúpula de neve.

A cúpula do filme tinha truque. Uma casa de neve inteira era escura e pequena demais pra câmera de 1922, então a equipe ergueu uma versão maior, com metade da parede aberta, pra filmar a cena interna com luz natural. O público mundial viu a casa de neve como a casa padrão dos inuítes.

No inglês, igloo já circulava em relatos de viagem do século 19. Depois do filme, a palavra ganhou a escala do cinema e chegou às línguas que importavam palavras do inglês, nas legendas, nas revistas e nos livros escolares. O português recebeu iglu por esse caminho, com o sentido que o viajante e a câmera tinham escolhido.

O nome do povo passou pela mesma estrada. Esquimó veio de uma língua algonquina, falada por vizinhos dos inuítes, e não da língua dos próprios inuítes. O linguista Ives Goddard, do Instituto Smithsonian, ligou em 1984 a palavra a um termo do montagnais que quer dizer quem trança raquetes de neve. A explicação popular, comedor de carne crua, perdeu apoio entre os especialistas.

 

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III  O Que Fica

O que a casa de madeira guarda

Hoje, quase todos os inuítes do Canadá moram em casas de madeira. A maior parte delas foi erguida pelo governo canadense a partir dos anos 1950, quando as famílias foram reunidas em povoados fixos. Em inuktitut, essas casas são iglu, como sempre foram.

O igluvijaq segue vivo como técnica de viagem. Caçadores ainda levantam cúpulas quando uma tempestade os pega longe do povoado, e escolas e programas culturais de Nunavut ensinam o corte dos blocos aos jovens.

Quem aprende a técnica aprende também o vocabulário dela: o nome da faca, o nome do bloco que fecha a cúpula, o nome da plataforma de dormir. A língua guarda o ofício junto com a casa, e as duas palavras, iglu e igluvijaq, seguem lado a lado na fala de Nunavut.

O nome do povo também mudou de mãos. Em 1977, a Conferência Circumpolar Inuíte, reunida em Barrow, no Alasca, adotou inuit como nome oficial dos povos da região. Inuit é o plural de inuk, pessoa: os inuítes são as pessoas.

Pra quem fala inuktitut, a casa de tijolo da sua rua também é um iglu.

O português não ficou só com o iglu. Três palavras dos povos do Ártico chegaram por aqui pelo inglês e pelo francês:

• Iglu: a cúpula de neve, de iglu, casa.

• Caiaque: o barco estreito, do inuíte qajaq.

• Anoraque: o casaco com capuz, do groenlandês annoraaq.

Das três, só o caiaque manteve o sentido inteiro. O anoraque de náilon das lojas ainda é um casaco com capuz, como o de pele de foca. O iglu perdeu a maior parte: dos muitos tipos de casa que a palavra cobria, o português guardou um.

O dicionário pode ganhar a acepção que falta. Junto da cúpula, iglu também é, na origem, qualquer casa, e igluvijaq é a palavra exata pra de neve.

Em Igloolik, a casa de madeira pintada de azul atende pela mesma palavra que o desenho animado põe ao lado do pinguim.

 
 
 
 
Quiz da edição

No inuktitut, a língua dos inuítes, o que a palavra iglu realmente nomeia?

AA cúpula de neve erguida numa expedição de caça
BA tenda de pele de foca usada no verão
CQualquer casa, seja de madeira, pedra ou neve
DA casa semienterrada de pedra e turfa do inverno

Resultado da última edição: 40% acertaram.

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