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Higiene
/i.ʒi.ˈe.ni/
Do grego, via francês. Hygieia era a deusa da saúde conservada, e a França do século XVIII fez do culto dela política de esgoto e banho
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Altar de Hygieia com a taça e a serpente
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"Higiene: conjunto de conhecimentos e técnicas que visam a preservar a saúde" (Houaiss). A entrada descreve bem o que a palavra faz hoje, e deixa de fora o fato mais estranho do percurso: antes de nomear técnica, o termo nomeava uma pessoa divina, com altar de pedra, oferenda de cevada e sacerdote encarregado do culto.
Hygieia era filha de Asclépio na religião grega, e a função dela dentro da família era bem delimitada. Asclépio atendia quem já havia adoecido, e por isso recebia o doente no santuário, o sonho de cura e o exvoto em forma do órgão que doía. A filha cuidava da saúde que ainda estava de pé.
A divisão de trabalho tem consequência prática no vocabulário. Um grego que quisesse sarar pedia a Asclépio; um grego que quisesse continuar são pedia a Hygieia, e o verbo da prece mudava junto com a divindade. Conservar e restaurar eram dois pedidos diferentes, feitos em altares diferentes, dentro do mesmo recinto sagrado.
Do nome da filha saiu uma expressão técnica que a medicina grega usava sem nenhum sentido religioso: hygieinē tékhnē, a arte de manter-se são. Era o ramo que tratava de sono, comida, exercício, ar e banho, separado da cirurgia e da farmácia, e foi esse ramo que atravessou o latim médico e chegou ao francês.
A virada decisiva veio muito depois, na França do século dezoito, quando médicos pegaram a palavra hygiène e a empurraram do corpo individual para a cidade inteira. Dali saíram os relatórios sobre esgoto, ar de fábrica, cemitério dentro da cidade e banho público, e a palavra deixou de falar da rotina de um homem para falar de obra pública.
Hoje, o termo está colado em rótulo de produto e em cartaz de banheiro, bem longe da pedra do altar. Vale começar pelo adjetivo grego que veio antes da deusa, porque é nele que aparece a ideia que a palavra nunca perdeu de vez.
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I A Raiz
A filha de Asclépio que tinha altar próprio
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O ponto de partida é um adjetivo comum do grego antigo: hygiḗs, que significa são, inteiro, em bom estado. Servia para pessoa sem doença, para raciocínio bem construído e até para madeira sem apodrecimento, sempre na ideia de algo que se mantém íntegro em vez de algo que foi remendado.
O grego costumava transformar qualidade abstrata em figura divina, e foi o que aconteceu aqui. De hygiḗs veio o substantivo hygíeia, a saúde, e a saúde personificada virou Hygieia, nome próprio de uma deusa que aparece em inscrição, em estátua e em poema lírico a partir do século cinco antes de Cristo.
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Hygieia, a mais venerada das bem-aventuradas, contigo eu queira morar pelo resto da vida.
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Arífron de Sícion, Peã a Hygieia, século IV a.C.
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O poema de Arífron não pede cura. Pede convivência prolongada com a saúde, o que é um pedido de outra natureza, e o texto circulou tanto em banquete ateniense que virou referência literária, citada séculos depois por autores que discutiam o que um homem deveria desejar primeiro.
O culto tinha endereço. Na acrópole de Atenas, a deusa aparecia colada a Atena, sob o epíteto Atena Hygieia, e Pausânias registra a estátua dela no alto do recinto, nomeando quem a esculpiu.
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Há uma estátua de Atena Hygieia, que Pirro, filho de Praxíteles, fez.
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Pausânias, Descrição da Grécia, livro I, século II
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No grande santuário de Epidauro, a presença dela era ainda mais institucional. As inscrições de prece e de agradecimento encontradas no local nomeiam Asclépio e Hygieia juntos, e o calendário de festas previa oferenda para os dois, com sacerdote responsável pelo rito e taxa cobrada de quem entrava para passar a noite no recinto.
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O grego não rezava pela saúde em geral: rezava para uma deusa com nome, endereço e dia de festa marcado no calendário.
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A imagem consagrada dela saiu desse culto e sobreviveu por um caminho inesperado. Hygieia era representada alimentando uma serpente que bebia de uma taça rasa, e essa taça com serpente virou símbolo de farmácia na Europa a partir do século dezoito, usada até hoje em fachada de estabelecimento que vende remédio.
A palavra, portanto, nasce de um par bem separado na cabeça do grego. Asclépio responde pela intervenção quando o corpo falha, e a filha responde pela manutenção enquanto o corpo funciona. Quem hoje diz que prevenção e tratamento são especialidades distintas está repetindo, sem saber, uma arquitetura religiosa de dois mil e quinhentos anos.
Falta explicar como um nome de deusa escapou do santuário e entrou no vocabulário técnico de médico que não acreditava em nenhum deus grego.
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II A Viagem
Da arte de manter-se são ao esgoto de Paris
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A saída do santuário aconteceu dentro da própria medicina grega, que tratava o termo como categoria profissional. Os textos do corpo hipocrático separavam o cuidado com o doente do cuidado com o são, e para o segundo usavam o adjetivo hygieinós, saudável, aplicado a regime de comida, sono, ginástica e exposição ao ar.
Galeno organizou esse material em livro e deu a ele um título que diz a função inteira. A obra grega que o latim conheceu como De sanitate tuenda, ou seja, sobre a conservação da saúde, tratava de banho, massagem, vinho, caminhada e descanso, e serviu de manual por mais de mil anos nas escolas de medicina do Mediterrâneo e do mundo árabe.
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O corpo do homem são precisa de um cuidado próprio, que não é o cuidado do corpo doente.
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Galeno, De sanitate tuenda, livro I, século II
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O latim medieval guardou o termo como hygieina, um ramo do conhecimento médico, e foi nessa forma de especialidade escolar que ele chegou ao francês. O francês hygiène aparece em texto médico no século dezoito, e entra nos dicionários gerais da língua como parte da medicina dedicada à conservação da saúde, sem nenhuma referência à mitologia.
A transformação que interessa veio em seguida, e foi institucional. Em 1794, na reforma do ensino médico francês, a Escola de Saúde de Paris criou uma cadeira específica de higiene, ocupada por Jean-Noël Hallé, o que tirou a palavra do título de livro antigo e colocou dentro da grade de formação de médico.
Uma cadeira universitária produz relatório, e relatório produz política. Em 1829 nasceu em Paris a revista Annales d'hygiène publique et de médecine légale, que publicava levantamento de água, de esgoto, de ofício insalubre e de mortalidade por bairro, e reuniu em torno dela um grupo de médicos que passou a ser chamado de higienistas.
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A palavra saiu do regime de um homem e foi aplicada ao encanamento de uma cidade inteira.
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Alexandre Parent-Duchâtelet, um dos nomes centrais dessa revista, desceu literalmente aos esgotos de Paris para descrever o trabalho de quem os limpava e as condições do sistema, e publicou o resultado nos anos 1820. A palavra, com ele, passou a nomear inspeção de galeria, de matadouro e de cemitério.
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hygiène: partie de la médecine qui traite de la conservation de la santé.
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Émile Littré, Dictionnaire de la langue française, 1873
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Littré ainda define o termo pela medicina, não pelo sabonete, o que mostra onde estava o centro do sentido no fim do século dezenove. A entrada trata de ramo de saber, e quem lia o dicionário entendia que higiene era assunto de médico e de administrador público, não de prateleira de loja.
O português recebeu a palavra por essa via francesa, ao longo do século dezenove, junto com o pacote inteiro de ideias. Vieram a cadeira de higiene nas faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, vieram os regulamentos sanitários das câmaras municipais, e veio o adjetivo higiênico, que logo passou a qualificar objeto, hábito e depois produto vendido em vidro.
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