|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
Vampiro venceu a urna de 02/10. Sai em 08/10.
|
Gótico
/ˈɡɔ.t͡ʃi.ku/
Do latim tardio gothicus, dos godos: o insulto do Renascimento que virou nome de catedral
|
A catedral que nenhum godo chegou a ver
|
| ▼ |
|
Nasceu do comentário
“Palavras que hoje usamos como ofensa foram criadas a partir de ofensas.”
Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 16/08, na edição Cínico.
|
O Dicionário Houaiss abre o verbete assim: "gótico: relativo aos godos". A definição está certa e falha no principal, porque nenhum godo ergueu uma catedral gótica. Quando a primeira foi desenhada, na França do século XII, o último reino godo tinha caído havia mais de quatrocentos anos.
Os godos eram um povo germânico que desceu do norte da Europa até as fronteiras do Império Romano. Em 24 de agosto de 410, os visigodos, comandados pelo rei Alarico, entraram em Roma pela Porta Salária e saquearam a cidade durante três dias. Fazia quase oito séculos que Roma não caía nas mãos de um exército estrangeiro.
O saque virou símbolo. Para os romanos, e mais tarde para os humanistas italianos (os estudiosos que redescobriram os textos da Antiguidade), godo passou a significar o bárbaro que destrói o que não entende. O nome de um povo virou adjetivo de desprezo.
Mil anos depois, os artistas de Florença e de Roma voltavam às colunas e às proporções dos templos antigos. Olhavam para as catedrais francesas e alemãs, com arcos pontudos, torres finas e vitrais altos, e enxergavam o oposto do que admiravam.
Em 1550, o pintor e arquiteto Giorgio Vasari publicou Le Vite (As Vidas), uma coleção de biografias de artistas italianos. Na introdução, condenou aquele jeito de construir e atribuiu a invenção dele aos godos. Era um xingamento: chamar uma igreja de gótica equivalia a chamá-la de obra de bárbaro.
Os homens que levantaram aquelas igrejas nunca usaram a palavra. Para eles, o estilo tinha outro nome, opus francigenum (obra francesa), porque nasceu em volta de Paris e se espalhou pela Europa a partir dali.
Um leitor escreveu à casa notando que muitas palavras que hoje usamos como ofensa nasceram de ofensas antigas. Gótico faz o caminho contrário: começou como insulto e terminou como nome de honra, gravado em catedral, em romance, em letra de jornal e em roupa preta.
Para entender como um povo virou xingamento, e o xingamento virou elogio, é preciso começar pelos próprios godos e pelo nome que eles davam a si mesmos.
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
O povo que virou adjetivo
|
|
Os godos se chamavam Gutans, na língua germânica que falavam, o gótico. O sentido do nome é discutido: parte dos linguistas o liga a uma raiz germânica de derramar, verter, mas a ligação nunca foi provada, e ninguém sabe ao certo o que os próprios godos ouviam nele.
Os romanos escreveram o nome como Gothi. Do plural latino saiu o adjetivo gothicus (dos godos), registrado no latim tardio, o latim dos últimos séculos do Império. Imperador que vencia os godos ganhava o título de Gothicus como troféu: Cláudio II o recebeu depois de derrotá-los na batalha de Naísso, nos Bálcãs, em 268.
O povo se dividiu em dois ramos. Os visigodos (godos do oeste) saquearam Roma e fundaram um reino na Península Ibérica, com capital em Toledo, que durou até a invasão muçulmana de 711. Os ostrogodos (godos do leste), sob o rei Teodorico, governaram a Itália de 493 a 553.
Os romanos os chamavam de bárbaros, mas eles não eram iletrados. No século IV, o bispo godo Úlfilas criou um alfabeto próprio para traduzir a Bíblia para o gótico. Uma cópia do século VI, o Codex Argenteus (Códice de Prata), escrita com tinta prateada sobre pergaminho tingido de púrpura, está guardada na biblioteca da Universidade de Uppsala, na Suécia.
|
O primeiro sentido de gótico foi uma nacionalidade. A palavra levou mil anos para virar ofensa e mais trezentos para virar estilo.
|
A língua desapareceu aos poucos. O último registro dela vem da Crimeia: na década de 1560, o diplomata flamengo Ogier Ghiselin de Busbecq, embaixador em Constantinopla, conversou com dois homens que ainda falavam um dialeto gótico e anotou cerca de oitenta palavras numa carta. Depois disso, ninguém mais ouviu a língua.
O nome do povo, no entanto, ganhou duas vidas opostas. Na Itália, godo era sinônimo de destruidor. Na Espanha, a nobreza se gabava de descender dos reis visigodos, e a expressão ser de los godos (ser dos godos) queria dizer ter sangue antigo e ilustre.
Nas Ilhas Canárias, a palavra seguiu outro rumo: godo virou apelido de desdém para o espanhol vindo da península, usado até hoje pelos ilhéus. A mesma palavra servia para elogiar o avô fidalgo e para provocar o vizinho forasteiro.
Quando Vasari escreveu, portanto, a palavra já carregava um juízo. Bastava colar o povo do saque de 410 num estilo de arquitetura para condenar o estilo inteiro, sem precisar de argumento.
|
|
II A Viagem
De insulto florentino a elogio inglês
|
|
Vasari não escreveu exatamente gótico. Em Le Vite, de 1550, ele chama o estilo de maniera tedesca (maneira alemã) e diz, com todas as letras, quem o inventou.
|
"Essa maneira foi inventada pelos godos." Giorgio Vasari, Le Vite, 1550.
|
Na mesma passagem, Vasari descreve aquelas construções como monstruosas e bárbaras, cheias de ornamentos amontoados e sem ordem. Para um florentino que media tudo pela proporção dos templos romanos, o arco pontudo era um defeito de quem não sabia fazer arco redondo.
O adjetivo gótico firmou-se como rótulo do estilo no século seguinte, em italiano, francês e inglês. Em 1669, o dramaturgo francês Molière, no poema La Gloire du Val-de-Grâce (A Glória do Val-de-Grâce), falou do "gosto insosso dos ornamentos góticos" e os chamou de monstros de séculos ignorantes.
O elogio começou na Inglaterra. Em 1749, o escritor Horace Walpole, filho do primeiro-ministro Robert Walpole, comprou uma casa em Twickenham, perto de Londres, e passou décadas reformando-a com torres, ameias e janelas pontudas. Batizou o lugar de Strawberry Hill.
Em 1764, Walpole publicou O Castelo de Otranto, um romance com castelo medieval, passagem secreta, elmo gigante caindo do céu e retrato que sai da moldura. Na segunda edição, de 1765, acrescentou ao título o subtítulo A Gothic Story (Uma história gótica). Nascia o gênero que daria Frankenstein, de Mary Shelley, em 1818, e Drácula, de Bram Stoker, em 1897.
Na Alemanha, o jovem Goethe visitou a catedral de Estrasburgo e, em 1772, publicou o ensaio Von deutscher Baukunst (Da arquitetura alemã). Contou que chegou esperando um monstro confuso, porque assim lhe ensinaram a ver o gótico, e saiu tomado pela beleza da fachada.
O século XIX completou a troca. Em 1831, Victor Hugo publicou Notre-Dame de Paris, e o romance ajudou a convencer o governo francês a restaurar a catedral, que estava em ruína. Em Londres, depois do incêndio de 1834, o Parlamento foi reconstruído em estilo gótico pelos arquitetos Charles Barry e Augustus Pugin.
Em 1853, o crítico inglês John Ruskin publicou, no livro The Stones of Venice (As Pedras de Veneza), o capítulo The Nature of Gothic (A Natureza do Gótico). Ruskin elogiava justamente a irregularidade que Vasari condenava: cada pedra mostrava a mão livre do operário que a talhou.
|
|