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Girafa

/ʒiˈɾafɐ/

Do árabe zarāfa: o bicho que a Europa chamava de camelo com manchas de leopardo

Girafa num pátio de pedra de Florença ao entardecer

A girafa do sultão em Florença

▼

O Michaelis registra girafa como “mamífero ruminante da África, de pescoço e pernas muito longos”, e a definição acerta o bicho. Ela falha no nome: girafa não diz pescoço, nem perna, nem África. A palavra é árabe e chegou à Europa num tempo em que o animal já tinha outro nome, latino e bem mais descritivo.

Os romanos chamavam a girafa de camelopardalis. O termo junta camelo e pardalis (leopardo, em grego): um camelo pintado como leopardo. Para quem nunca tinha visto o animal, era a descrição mais exata possível, a soma de dois bichos conhecidos.

Durante quase quinze séculos, o latim dos sábios guardou o camelo leopardo. Os bestiários medievais copiavam o nome de livro em livro, quase sempre sem que o copista tivesse visto uma girafa na vida.

O árabe tinha outra solução, mais curta. Zarāfa é o nome que os mercadores do Egito e da Arábia davam ao animal que descia das savanas do Sudão e da Etiópia pelas rotas do Nilo. O sentido original da palavra ainda divide os estudiosos.

Foi o nome curto que venceu. O italiano fez dele giraffa, o espanhol jirafa, o francês girafe, e o português girafa. Hoje camelopardalis sobrevive só em dois lugares: no nome científico do animal e numa constelação do céu do norte.

A troca não aconteceu num gabinete de gramático. Ela dependeu de girafas de carne e osso cruzando o Mediterrâneo, quase sempre como presente de um governante para outro, e de cidades inteiras parando para ver o bicho passar.

A mais famosa dessas viagens saiu do Cairo em 1486. O sultão mameluco Qaitbay mandou uma girafa viva para Lourenço de Médici, o homem mais poderoso de Florença, e a cidade nunca esqueceu a visita.

Antes do sultão, porém, vem a palavra. E a palavra começa na boca dos mercadores árabes, séculos antes de qualquer italiano escrever giraffa.

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I  A Raiz

Um nome curto no Nilo

Zarāfa aparece nos textos árabes desde a Idade Média, em geografias, crônicas e livros sobre animais. O zoólogo egípcio al-Damiri dedicou um verbete à girafa no seu dicionário de bichos, o Hayat al-Hayawan, no século 14.

A origem de zarāfa é disputada. Uma hipótese liga a palavra a uma raiz árabe de andar depressa, outra a um termo de alguma língua africana do vale do Nilo, adaptado pelos mercadores que compravam os animais. Nenhuma das duas tem prova definitiva.

O certo é o trajeto comercial. As girafas vinham da Núbia e da Etiópia, desciam o rio até o Egito e serviam como presente diplomático de alto valor. Os califas do Cairo e de Bagdá trocavam girafas com outros soberanos como hoje se trocam medalhas.

Na corte árabe, uma girafa viva valia como uma embaixada inteira: provava alcance comercial e poder de transporte.

Os romanos tinham visto o animal muito antes. Em 46 a.C., Júlio César exibiu uma girafa nos jogos que celebravam suas vitórias, a primeira registrada em Roma. O naturalista Plínio, o Velho, deixou o testemunho na enciclopédia que escreveu:

“Os ditadores César, nos jogos do circo, mostraram pela primeira vez o camelopardalis.” (Plínio, o Velho, História Natural, livro 8, c. 77 d.C.)

Plínio descreve o bicho com pescoço de cavalo, pés e pernas de boi e cabeça de camelo, coberto de manchas claras sobre fundo vermelho. A descrição juntava pedaços de animais familiares, o mesmo método do nome.

O camelopardalis era uma palavra de quem olhava de longe. Zarāfa era uma palavra de quem negociava o animal todo ano e não precisava compará-lo com nada.

Com a queda de Roma, as girafas sumiram da Europa por mais de mil anos. O nome latino ficou nos livros; o animal ficou no Egito, ao alcance dos sultões e longe dos copistas.

Nesse intervalo, o camelopardalis virou quase uma criatura de fábula. Alguns bestiários medievais o colocavam ao lado do unicórnio e do grifo, com desenhos de um cavalo pintado de pescoço comprido, feitos por ilustradores que só tinham a descrição de Plínio para trabalhar. O nome latino sobrevivia; a imagem do animal ia se deformando de cópia em cópia.

Os frades e os viajantes que visitavam o Cairo na Baixa Idade Média voltavam contando ter visto a zarafa no zoológico do sultão. A palavra árabe começou a circular na Europa antes mesmo do animal.

 
 

II  A Viagem

Um presente para Lourenço

Em 1486, o sultão Qaitbay precisava de aliados. O império mameluco estava em guerra com os otomanos, e Florença tinha bancos, mercadores e diplomatas espalhados pelo Mediterrâneo. Uma embaixada egípcia partiu para a Itália com presentes.

Entre os presentes havia leões, cavalos, tecidos, porcelana, bálsamo e uma girafa. Ela atravessou o mar num navio, desembarcou no porto de Livorno e seguiu a pé até Florença, onde chegou em novembro de 1487.

A cidade parou. O cronista florentino Luca Landucci, boticário que mantinha um diário dos acontecimentos, anotou a chegada da embaixada e do animal estranho, que a população seguia pelas ruas.

Florença tinha banqueiros, pintores e poetas de sobra; uma girafa viva, nunca tinha tido nenhuma.

A girafa passou a morar em Florença. Ia de rua em rua, comia frutas oferecidas pelas janelas dos andares altos e virou assunto em cartas enviadas a outras cortes italianas. Ana de Beaujeu, regente da França, chegou a pedir o animal de presente.

Lourenço não cedeu. A girafa era a prova viva de que o sultão do Cairo tratava com ele como se trata com um rei, e Lourenço de Médici não tinha título de rei.

Os pintores registraram a visita. A girafa aparece nos afrescos da Villa Medici em Poggio a Caiano, pintados décadas depois, e num painel de Piero di Cosimo. Giorgio Vasari também a incluiu numa sala do Palazzo Vecchio no século 16.

Os textos italianos da época oscilavam entre os dois nomes. Os humanistas, que liam Plínio, escreviam camelopardalis. O povo e os mercadores, que ouviam os egípcios, falavam giraffa, adaptação direta de zarāfa.

A grafia com g reflete a pronúncia. O z árabe, ouvido por ouvidos toscanos, virou um som próximo do g de giorno, e o italiano escreveu giraffa com dois efes. O espanhol, que tinha contato direto com o árabe da Península Ibérica, ficou com jirafa; o português, mais tarde, com girafa e um efe só.

A escolha popular venceu. O italiano fixou giraffa, e dali a palavra seguiu para o francês, o espanhol e o português, que a registra a partir do século 16, em relatos de viagem e na literatura dos descobrimentos.

 

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III  O Que Fica

O camelo leopardo no céu

O nome latino não desapareceu de vez. Em 1758, o naturalista sueco Carlos Lineu classificou a girafa como Cervus camelopardalis, um tipo de cervo. A classificação mudou depois, mas o epíteto ficou.

Hoje a espécie se chama Giraffa camelopardalis. O primeiro termo é o árabe que veio pela Itália; o segundo, o latim de Plínio. Os dois nomes que disputaram a Europa terminaram lado a lado na etiqueta científica.

O nome científico da girafa guarda a disputa inteira: a palavra do mercador e a palavra do sábio, uma ao lado da outra.

A outra sobrevivência está no céu. Em 1612, o astrônomo holandês Petrus Plancius desenhou uma constelação entre a Ursa Maior e Cassiopeia e a chamou de Camelopardalis. Ela continua no catálogo oficial da União Astronômica Internacional, com o nome do bicho de Plínio.

O chinês teve sua própria troca. Em 1414, uma girafa da costa africana chegou à corte do imperador Yongle, em Nanquim. Os sábios chineses a identificaram como o qilin, animal mítico de bom augúrio, e o nome ficou: em japonês e coreano, girafa ainda se diz kirin e girin.

Na Europa, a girafa seguinte demorou. Em 1827, o paxá do Egito, Muhammad Ali, mandou uma girafa ao rei Carlos X da França. Ela atravessou o país a pé de Marselha a Paris, e os franceses a chamaram de Belle Africaine.

Em Paris, a moda fez o resto. Penteados altos, tecidos estampados e porcelanas à la girafe tomaram a cidade durante meses. A palavra girafe se espalhou nos jornais e virou comum até em casas que nunca veriam o animal.

A girafa de Paris viveu dezoito anos no Jardim das Plantas e ainda pode ser vista empalhada num museu de La Rochelle. Com ela, o nome árabe deixou de ser curiosidade de viajante e passou a ser a palavra corrente de toda a Europa ocidental, inclusive nos dicionários portugueses do século 19.

Quem quiser encontrar os dois nomes no dia a dia pode fazer três buscas.

1. Procure Giraffa camelopardalis num livro de biologia: o árabe e o latim aparecem juntos na mesma linha.

2. Procure a constelação Camelopardalis num mapa celeste: ela fica perto da Estrela Polar, fraca e sem estrelas brilhantes.

3. Repare em giraffa, jirafa, girafe e girafa: as quatro línguas copiaram o mesmo nome árabe pela ponte italiana.

A palavra saiu das rotas do Nilo, ganhou o povo de Florença com um presente do sultão e empurrou o camelo leopardo para o céu e para a nomenclatura. O bicho de 1486, porém, ficou pouco tempo nas ruas florentinas.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

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