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Zarāfa aparece nos textos árabes desde a Idade Média, em geografias, crônicas e livros sobre animais. O zoólogo egípcio al-Damiri dedicou um verbete à girafa no seu dicionário de bichos, o Hayat al-Hayawan, no século 14.
A origem de zarāfa é disputada. Uma hipótese liga a palavra a uma raiz árabe de andar depressa, outra a um termo de alguma língua africana do vale do Nilo, adaptado pelos mercadores que compravam os animais. Nenhuma das duas tem prova definitiva.
O certo é o trajeto comercial. As girafas vinham da Núbia e da Etiópia, desciam o rio até o Egito e serviam como presente diplomático de alto valor. Os califas do Cairo e de Bagdá trocavam girafas com outros soberanos como hoje se trocam medalhas.
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Na corte árabe, uma girafa viva valia como uma embaixada inteira: provava alcance comercial e poder de transporte.
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Os romanos tinham visto o animal muito antes. Em 46 a.C., Júlio César exibiu uma girafa nos jogos que celebravam suas vitórias, a primeira registrada em Roma. O naturalista Plínio, o Velho, deixou o testemunho na enciclopédia que escreveu:
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“Os ditadores César, nos jogos do circo, mostraram pela primeira vez o camelopardalis.” (Plínio, o Velho, História Natural, livro 8, c. 77 d.C.)
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Plínio descreve o bicho com pescoço de cavalo, pés e pernas de boi e cabeça de camelo, coberto de manchas claras sobre fundo vermelho. A descrição juntava pedaços de animais familiares, o mesmo método do nome.
O camelopardalis era uma palavra de quem olhava de longe. Zarāfa era uma palavra de quem negociava o animal todo ano e não precisava compará-lo com nada.
Com a queda de Roma, as girafas sumiram da Europa por mais de mil anos. O nome latino ficou nos livros; o animal ficou no Egito, ao alcance dos sultões e longe dos copistas.
Nesse intervalo, o camelopardalis virou quase uma criatura de fábula. Alguns bestiários medievais o colocavam ao lado do unicórnio e do grifo, com desenhos de um cavalo pintado de pescoço comprido, feitos por ilustradores que só tinham a descrição de Plínio para trabalhar. O nome latino sobrevivia; a imagem do animal ia se deformando de cópia em cópia.
Os frades e os viajantes que visitavam o Cairo na Baixa Idade Média voltavam contando ter visto a zarafa no zoológico do sultão. A palavra árabe começou a circular na Europa antes mesmo do animal.
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Em 1486, o sultão Qaitbay precisava de aliados. O império mameluco estava em guerra com os otomanos, e Florença tinha bancos, mercadores e diplomatas espalhados pelo Mediterrâneo. Uma embaixada egípcia partiu para a Itália com presentes.
Entre os presentes havia leões, cavalos, tecidos, porcelana, bálsamo e uma girafa. Ela atravessou o mar num navio, desembarcou no porto de Livorno e seguiu a pé até Florença, onde chegou em novembro de 1487.
A cidade parou. O cronista florentino Luca Landucci, boticário que mantinha um diário dos acontecimentos, anotou a chegada da embaixada e do animal estranho, que a população seguia pelas ruas.
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Florença tinha banqueiros, pintores e poetas de sobra; uma girafa viva, nunca tinha tido nenhuma.
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A girafa passou a morar em Florença. Ia de rua em rua, comia frutas oferecidas pelas janelas dos andares altos e virou assunto em cartas enviadas a outras cortes italianas. Ana de Beaujeu, regente da França, chegou a pedir o animal de presente.
Lourenço não cedeu. A girafa era a prova viva de que o sultão do Cairo tratava com ele como se trata com um rei, e Lourenço de Médici não tinha título de rei.
Os pintores registraram a visita. A girafa aparece nos afrescos da Villa Medici em Poggio a Caiano, pintados décadas depois, e num painel de Piero di Cosimo. Giorgio Vasari também a incluiu numa sala do Palazzo Vecchio no século 16.
Os textos italianos da época oscilavam entre os dois nomes. Os humanistas, que liam Plínio, escreviam camelopardalis. O povo e os mercadores, que ouviam os egípcios, falavam giraffa, adaptação direta de zarāfa.
A grafia com g reflete a pronúncia. O z árabe, ouvido por ouvidos toscanos, virou um som próximo do g de giorno, e o italiano escreveu giraffa com dois efes. O espanhol, que tinha contato direto com o árabe da Península Ibérica, ficou com jirafa; o português, mais tarde, com girafa e um efe só.
A escolha popular venceu. O italiano fixou giraffa, e dali a palavra seguiu para o francês, o espanhol e o português, que a registra a partir do século 16, em relatos de viagem e na literatura dos descobrimentos.
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