|
|
Ginástica
/ʒiˈnas.tʃi.kɐ/
Do grego. De gymnós, nu, e de gymnásion, o pátio onde se treinava sem roupa
|
O pátio do ginásio ateniense na hora do treino
|
| ▼ |
|
São oito da manhã de segunda e alguém de colete pede que o andar inteiro levante da cadeira. O braço direito cruza o peito, a mão esquerda empurra o cotovelo, e vinte pessoas de crachá contam até dez olhando para o carpete. Oito minutos depois, todo mundo senta de novo. A empresa chama a pausa de ginástica laboral.
A palavra circula em lugares que não conversam entre si. Existe a ginástica artística da Olimpíada, com a trave de dez centímetros de largura. Existe o ginásio poliesportivo do bairro, de arquibancada de concreto. Existe a academia da esquina, que abre às cinco da manhã. E existe a ginástica contábil que o diretor faz para o trimestre fechar.
Nenhuma dessas cenas tem relação com roupa. Todas elas vêm de uma palavra grega que significa exatamente estar sem nenhuma.
Gymnós, em grego, é nu. Não nu no sentido poético de despido de artifícios: nu de pele, sem túnica, sem tanga, sem sandália. O verbo gymnázō quer dizer treinar nu. O gymnásion é o lugar onde se treina nu. A gymnastikḗ é a arte de quem treina assim.
O grego não batizou a prática pelo esforço, pela força nem pela vitória. Batizou pela roupa que ficava na porta. Para um ateniense, a informação decisiva sobre aquele pátio não era o que acontecia lá dentro: era o estado em que se entrava. O nome funcionava como senha de porta, e não como elogio ao músculo de quem passava por ela.
O detalhe some por completo no caminho até o carpete do escritório. A pausa de segunda de manhã é o produto final de uma cadeia de vinte e quatro séculos que começa em azeite, areia e um raspador de bronze.
A Raiz entra no pátio: como era o chão, o que o atleta passava no corpo antes de começar e por que a mistura raspada da pele valia dinheiro.
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
Azeite, areia e raspador de bronze
|
|
O circuito ateniense começava numa sala chamada apodytérion, do verbo apodýō, tirar a roupa. Era o vestiário, e o nome descreve a única coisa obrigatória do prédio inteiro. A túnica ficava num nicho da parede e o corpo seguia sozinho.
A sala seguinte guardava o azeite. O atleta se untava da testa ao tornozelo com óleo de oliva servido de um jarro raso, e o azeite fazia três serviços ao mesmo tempo: fechava o poro contra o frio, protegia a pele do sol e deixava o corpo escorregadio na hora da luta.
Depois vinha o pó. No konistérion, o corpo untado recebia uma camada de areia fina jogada com a mão, e a areia devolvia o atrito que o azeite tinha tirado. Sem o pó, ninguém segurava o adversário. Com o pó, a pele virava lixa morna.
O treino acontecia na palaístra, de pálē, luta, o quadrado de areia socada onde se lutava e se boxeava, e no drómos, a pista reta de corrida. Um cidadão rico, o gymnasíarchos, pagava o azeite e a lenha do banho do próprio bolso.
No fim, o raspador. A stlengís grega, strigilis em latim, é uma lâmina curva de bronze que o atleta passava no braço, na coxa e nas costas para tirar a camada de azeite, areia e suor. Lisipo esculpiu o gesto por volta de 330 antes de Cristo no Apoxiômeno, o homem que se raspa.
A raspa tinha comprador. A mistura recolhida das paredes chamava-se gloiós e era vendida como remédio: Plínio, o Velho, na História Natural, de 77 depois de Cristo, registra o uso da raspa de ginásio como emoliente para inflamação e dor articular.
|
O nome do lugar não fala de esforço, de músculo nem de vitória. Fala de roupa. Gymnásion é o pátio onde se entra sem ela, e a palavra guardou a porta, não o treino.
|
A nudez também não era hábito antigo nem universal. Tucídides, na História da Guerra do Peloponeso, escrita por volta de 400 antes de Cristo, anota que os espartanos foram os primeiros a se exercitar despidos e untados, e que até pouco tempo antes os próprios atletas de Olímpia competiam de tanga.
Pausânias conta a virada com nome e data. Orsipo de Mégara teria perdido a tanga na corrida do estádio em 720 antes de Cristo, venceu assim mesmo, e a partir dali a peça saiu do regulamento.
O pátio não servia só ao corpo. Três dos maiores ginásios de Atenas emprestaram o nome à história do pensamento: a Academia, o Liceu e o Cinosarges. Platão ensinava no primeiro, Aristóteles no segundo.
Platão trata o par como programa de educação. Na República, de cerca de 375 antes de Cristo, ele divide a formação do cidadão em duas metades, a gymnastikḗ para o corpo e a mousikḗ para a alma, e insiste que quem treina só uma das duas sai torto.
|
|
II A Viagem
O ginásio que virou sala de aula
|
|
Roma copiou o prédio e torceu o nariz para a regra. Gymnasium e palaestra entraram no latim direto do grego, sem tradução, e as termas imperiais construíram versões maiores do pátio ateniense.
O incômodo romano com o corpo despido ficou registrado em verso. Cícero, nas Tusculanas, de 45 antes de Cristo, cita o poeta Ênio para resumir o que a elite da cidade pensava do costume importado.
|
O princípio da vergonha é despir o corpo diante dos concidadãos.
Ênio, citado por Cícero nas Tusculanas, 45 a.C.
|
O prédio acabou junto com o mundo que o sustentava. Com o decreto de Teodósio que encerrou os jogos antigos, em 393, e com a moral cristã tomando conta das cidades, o pátio fechou. A palavra sobreviveu no único lugar onde ninguém se despe: dentro dos livros.
Mil anos depois, os humanistas reabriram o termo com outro sentido. Como o ginásio grego era onde Platão e Aristóteles ensinavam, o nome pareceu perfeito para batizar a escola de latim e grego do Renascimento. Johannes Sturm fundou a dele em Estrasburgo, em 1538, e o modelo pegou na Europa central.
A escolha durou. Na Alemanha de hoje, Gymnasium é o colégio que prepara para a universidade, e ninguém pensa em barra fixa ao ouvir a palavra. Na Holanda, na Suécia e na Dinamarca, o gymnasium é o ensino médio.
O português copiou o alemão no século XX. A Reforma Capanema, de 1942, organizou o secundário brasileiro em curso ginasial de quatro anos e curso colegial de três, e para entrar havia uma prova temida, o exame de admissão.
A Lei 5.692, de 1971, apagou a divisão. Primário e ginásio viraram primeiro grau, e a palavra perdeu o cargo. Ficou na boca de quem estudou antes da reforma, na frase "fiz o ginásio", que hoje precisa de tradução para qualquer pessoa com menos de cinquenta anos.
O inglês ficou com o corpo. Gymnasium atravessou o Atlântico como o salão de exercício do clube, e o século XIX cortou a palavra pela metade: virou gym. O mesmo empréstimo hoje significa colégio em Berlim e sala de peso em Chicago.
A linha do corpo tem pai com nome e livro. Johann GutsMuths publicou Gymnastik für die Jugend em 1793 e transformou a palavra grega em método com série, repetição e aparelho.
Friedrich Ludwig Jahn preferiu não usar o grego. Em 1811 ele abriu o primeiro campo de treino ao ar livre em Hasenheide, Berlim, e batizou a prática com uma palavra alemã, Turnen. As barras paralelas e o cavalo com alças saíram desse pátio.
A versão que chegou ao escritório é sueca. Per Henrik Ling montou em Estocolmo, em 1813, um instituto central de ginástica, e o método dele trocava a força bruta por movimento articulado e série curta. A ginástica sueca virou aula de escola, treino militar e, por fim, pausa de fábrica.
|
|