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O primeiro a pôr a palavra num livro foi o italiano Pedro Mártir de Anglería, cronista da corte espanhola. Nas Décadas do Novo Mundo, escritas em latim e publicadas a partir de 1511, ele fala dos furacanes, as tempestades que os nativos chamavam assim.
Gonzalo Fernández de Oviedo, que passou anos nas ilhas, foi mais preciso na Historia general y natural de las Indias, de 1535: “huracán, en lengua desta isla, quiere decir propiamente tormenta o tempestad muy excesiva”.
Oviedo não traduziu a palavra por outra espanhola. Explicou. O espanhol tinha tormenta, mas tormenta servia pra qualquer chuva forte no mar. Hurakán nomeava uma tempestade de outra espécie, e a palavra nativa foi mantida porque a espanhola não alcançava.
A prova do custo veio cedo. Em 1502, na quarta viagem, Colombo avisou o governador de Hispaniola, Nicolás de Ovando, que uma tempestade se aproximava e pediu abrigo no porto. Ovando negou e mandou a frota do ouro zarpar pra Espanha.
Cerca de 20 navios foram ao fundo na passagem entre as ilhas. Colombo, protegido numa enseada, perdeu menos. Quem sabia ler o céu das Antilhas tinha aprendido com quem morava ali.
O f que virou h
As grafias do século 16 variam muito: furacán, furacano, huracán, haracán. A oscilação mostra o embaraço dos escrivães diante de um som estrangeiro, um sopro no começo da palavra.
No espanhol daquele tempo, o f inicial do latim estava virando h aspirado: facere tinha dado fazer e caminhava pra hacer. Um som de sopro podia ser escrito com f ou com h. Com o tempo o espanhol fixou huracán.
O português conservou o f latino em fazer, farinha e ferro, e ficou com a forma antiga: furacão. A terminação espanhola em -án virou -ão, como capitán virou capitão.
Os navegadores portugueses já tinham tufão, palavra que trouxeram dos mares do Oriente, de origem disputada entre o árabe e o chinês. Mesmo assim, o Atlântico ganhou nome próprio: a tempestade das Antilhas chegou com a etiqueta de quem a conhecia.
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A Europa tinha palavra pra tempestade forte e nenhuma pra tempestade que gira.
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Do espanhol, a palavra seguiu pelas línguas marítimas da Europa: hurricane no inglês, ouragan no francês, orkaan no holandês, Orkan no alemão. A palavra de um povo sem escrita entrou em todos os idiomas que mandavam navios ao Caribe.
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