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Furacão

/fu.ɾaˈsɐ̃w̃/

Do taíno hurakán: o vento que gira em volta de si

Figura taína de pedra com braços em espiral diante do mar em tempestade

O cemí taíno dos braços em espiral

▼

O Houaiss define assim: “furacão: ciclone tropical de grande intensidade”. A definição mede a força e cala a origem: antes de virar termo de meteorologia, furacão foi o nome que um povo do Caribe dava a um vento sagrado, e chegou à Europa porque nenhuma língua de lá sabia nomear aquela tempestade.

Os marinheiros de Colombo conheciam tempestade, temporal, borrasca. O Mediterrâneo e o Atlântico Norte davam vento forte de sobra. Nenhuma dessas palavras descrevia o que encontraram nas ilhas: um vento que girava, parava de repente e voltava soprando do lado oposto.

Em 1495, uma dessas tempestades atingiu a ilha de Hispaniola, onde hoje ficam o Haiti e a República Dominicana. Navios ancorados na baía de La Isabela, o primeiro povoado espanhol da América, foram ao fundo. Os europeus tinham visto o fenômeno e não tinham nome pra ele.

Os taínos tinham. Era o povo que vivia nas Grandes Antilhas quando as caravelas chegaram, de Cuba a Porto Rico, falando uma língua da família aruaque. Pra eles, aquele vento se chamava hurakán.

Os espanhóis copiaram a palavra do jeito que ouviram. Nos primeiros registros ela aparece como furacán, com f, porque o começo da palavra soava como um sopro, e o escrivão anotava o som mais próximo que conhecia.

A palavra seguiu as frotas. Em poucas décadas estava nos relatos de viagem, nas cartas dos pilotos e nos portos da Península Ibérica. O português recebeu a forma com f e a ajustou ao próprio ouvido: furacão.

Hoje a palavra serve pra qualquer tempestade giratória do Atlântico, e também pra criança que entra na sala e desarruma tudo. Quem usa raramente sabe que repete o nome de um ser que os taínos temiam e respeitavam.

Pra entender por que um vento ganhou nome de divindade, é preciso olhar pras ilhas antes da chegada dos europeus.

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I  A Raiz

O vento que tinha rosto

Os taínos não deixaram escrita. O que se sabe da língua deles chegou por três caminhos: os cronistas espanhóis, as palavras que sobreviveram no espanhol e os objetos de pedra, madeira e cerâmica encontrados nas ilhas.

Algumas dessas palavras circulam até hoje. Canoa, tabaco, savana, hamaca e barbacoa entraram no espanhol pela boca dos taínos. Furacão pertence à mesma leva, a primeira onda de palavras americanas a atravessar o oceano.

Na religião taína, os seres sagrados se chamavam cemís. Eram figuras de pedra, madeira ou algodão guardadas nas casas, consultadas pelos caciques e alimentadas com oferendas.

O frei Ramón Pané, que viveu entre os taínos por volta de 1496 a pedido de Colombo, registrou o nome de Guabancex, a senhora dos ventos e das águas. Quando se irritava, ela mandava dois auxiliares: um juntava as águas no vale, o outro soprava o vento que derrubava as casas.

O vento destruidor desse cortejo é o que os relatos posteriores chamam de hurakán. A palavra designava a força e o fenômeno ao mesmo tempo, sem a separação que o europeu fazia entre o céu e quem manda nele.

A figura dos dois braços

As figuras de cerâmica associadas a esse culto mostram uma cabeça com dois braços curvos, um voltado pra cima e outro pra baixo, desenhando uma espiral em volta do rosto.

O desenho chama atenção porque descreve o movimento do vento em torno de um centro. Os taínos viviam no caminho das tempestades, ano após ano, e observavam o padrão de perto.

O etnólogo cubano Fernando Ortiz defendeu essa leitura no livro El huracán: su mitología y sus símbolos, de 1947. Pra ele, os braços em espiral eram a imagem do giro do ciclone, feita por quem via o fenômeno de dentro.

A ciência europeia só descreveu a rotação no século 19. O americano William Redfield percorreu a Nova Inglaterra depois da tempestade de setembro de 1821 e notou que as árvores tinham tombado em direções que, juntas, formavam um círculo.

Os taínos desenharam a espiral do furacão três séculos antes de a ciência europeia medir o giro.

Há quem ligue hurakán a Huracán, o deus maia k'iche' do Popol Vuh, o coração do céu que manda o dilúvio sobre os primeiros homens. A semelhança é forte e o vínculo ainda divide os estudiosos: pode ser parentesco, contato entre povos ou coincidência.

O caminho da palavra europeia não depende dessa disputa. Ela entrou pelo taíno das Antilhas, na boca dos marinheiros que estavam lá quando o vento girou.

 
 

II  A Viagem

De Hispaniola aos portos de Lisboa

O primeiro a pôr a palavra num livro foi o italiano Pedro Mártir de Anglería, cronista da corte espanhola. Nas Décadas do Novo Mundo, escritas em latim e publicadas a partir de 1511, ele fala dos furacanes, as tempestades que os nativos chamavam assim.

Gonzalo Fernández de Oviedo, que passou anos nas ilhas, foi mais preciso na Historia general y natural de las Indias, de 1535: “huracán, en lengua desta isla, quiere decir propiamente tormenta o tempestad muy excesiva”.

Oviedo não traduziu a palavra por outra espanhola. Explicou. O espanhol tinha tormenta, mas tormenta servia pra qualquer chuva forte no mar. Hurakán nomeava uma tempestade de outra espécie, e a palavra nativa foi mantida porque a espanhola não alcançava.

A prova do custo veio cedo. Em 1502, na quarta viagem, Colombo avisou o governador de Hispaniola, Nicolás de Ovando, que uma tempestade se aproximava e pediu abrigo no porto. Ovando negou e mandou a frota do ouro zarpar pra Espanha.

Cerca de 20 navios foram ao fundo na passagem entre as ilhas. Colombo, protegido numa enseada, perdeu menos. Quem sabia ler o céu das Antilhas tinha aprendido com quem morava ali.

O f que virou h

As grafias do século 16 variam muito: furacán, furacano, huracán, haracán. A oscilação mostra o embaraço dos escrivães diante de um som estrangeiro, um sopro no começo da palavra.

No espanhol daquele tempo, o f inicial do latim estava virando h aspirado: facere tinha dado fazer e caminhava pra hacer. Um som de sopro podia ser escrito com f ou com h. Com o tempo o espanhol fixou huracán.

O português conservou o f latino em fazer, farinha e ferro, e ficou com a forma antiga: furacão. A terminação espanhola em -án virou -ão, como capitán virou capitão.

Os navegadores portugueses já tinham tufão, palavra que trouxeram dos mares do Oriente, de origem disputada entre o árabe e o chinês. Mesmo assim, o Atlântico ganhou nome próprio: a tempestade das Antilhas chegou com a etiqueta de quem a conhecia.

A Europa tinha palavra pra tempestade forte e nenhuma pra tempestade que gira.

Do espanhol, a palavra seguiu pelas línguas marítimas da Europa: hurricane no inglês, ouragan no francês, orkaan no holandês, Orkan no alemão. A palavra de um povo sem escrita entrou em todos os idiomas que mandavam navios ao Caribe.

 

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III  O Que Fica

A tempestade dentro de casa

Hoje a meteorologia usa furacão num sentido técnico: ciclone tropical do Atlântico Norte ou do Pacífico Nordeste com ventos sustentados de pelo menos 119 km/h. No Pacífico ocidental, o mesmo fenômeno se chama tufão; no Índico, ciclone.

A divisão é geográfica, não física. A tempestade é a mesma, e o nome depende do mar onde ela nasce. O furacão guarda, na própria definição, o mapa da viagem: é o nome do Caribe para o vento que gira.

Em 1971, o engenheiro Herbert Saffir e o meteorologista Robert Simpson criaram a escala que divide os furacões em cinco categorias pela velocidade do vento. A palavra taína ganhou números.

O Brasil quase não conhece o fenômeno. Em março de 2004, o Catarina atingiu o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, o primeiro furacão registrado no Atlântico Sul, e os meteorologistas discutiram por semanas se o nome cabia.

O furacão em pessoa

Fora da meteorologia, a palavra voltou a ter rosto. “Aquela menina é um furacão” descreve alguém que chega, gira, muda tudo de lugar e vai embora. O sentido figurado devolve à palavra a cara de gente que ela tinha nas figuras de cerâmica.

O uso não é exclusivo do português. O inglês chama de hurricane o lutador que avança sem parar, e o espanhol diz que alguém entrou como un huracán. Em todas as línguas, a metáfora pede o mesmo movimento: força que roda em volta de um centro.

A palavra saiu do altar taíno, passou pela meteorologia e voltou a ter rosto.

Furacão deixou três usos no português de hoje:

1. Furacão técnico, o ciclone tropical do Atlântico, medido em categorias.

2. Furacão figurado, a pessoa que muda o ambiente por onde passa.

3. Furacão de origem, o nome de um ser sagrado de um povo do Caribe.

O primeiro uso é o dos boletins do tempo. O segundo é o seu, quando você descreve alguém que não para quieto. O terceiro quase sumiu, e sustenta os outros dois.

O Houaiss acerta ao chamar furacão de ciclone de grande intensidade. O que o verbete deixa de fora é o primeiro dono da palavra: um povo das Antilhas que viu o vento girar, deu a ele um rosto e emprestou o nome à Europa inteira.

Quem é o furacão da sua vida, a pessoa que entra e muda tudo de lugar?

 
 
 
 
Quiz da edição

Em 1502, na quarta viagem de Colombo, o que aconteceu quando ele pediu abrigo ao governador Nicolás de Ovando antes de uma tempestade no Caribe?

AOvando concedeu abrigo no porto e a frota inteira escapou sem perdas
BOvando exigiu que Colombo liderasse a frota rumo à Espanha antes da tempestade
COvando negou abrigo e mandou a frota do ouro zarpar; cerca de 20 navios afundaram
DOvando negou abrigo, mas apenas Colombo perdeu seus navios na tempestade

Resultado da última edição: 43% acertaram.

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