In partnership with

A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 203
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores.

Fulano

/fuˈlɐ.nu/

Do árabe fulān: o nome de quem não tem nome

Pergaminho de contrato medieval com espaço vazio para um nome

O contrato com o espaço do nome em branco

▼

O Houaiss define assim: “fulano: designação vaga de pessoa indeterminada ou cujo nome não se quer dizer”. A definição descreve o uso e cala a origem: fulano foi, durante séculos, uma ferramenta de escritório, a palavra que o escriba punha no lugar exato onde um nome ainda ia entrar.

A ferramenta nasceu no árabe. Fulān quer dizer “tal pessoa”, “um certo alguém”. Não é apelido nem insulto. É uma lacuna com forma de palavra, um espaço reservado pra quem não importa naquele momento da frase.

O árabe clássico usava fulān com naturalidade. Os gramáticos davam exemplos com ele, os juristas montavam casos hipotéticos com ele, os professores de direito ensinavam contratos com ele: fulān vende a fulān uma casa por tanto.

O recurso era prático. Quem escreve um modelo de documento não sabe ainda quem vai assinar. Precisa de uma peça móvel, um nome falso, curto, reconhecível, sem dono.

Quando os exércitos árabes e berberes atravessaram o estreito de Gibraltar em 711, levaram a língua, a lei e os escribas. Por mais de sete séculos, partes da Península Ibérica foram governadas, tributadas e registradas em árabe.

Os cristãos dos reinos do norte e os moçárabes, cristãos que viviam sob governo muçulmano, negociavam com esse mundo todos os dias. Compravam terra, pagavam dívidas, faziam partilhas. E os papéis desses negócios chegavam com a lacuna pronta.

Fulān entrou no castelhano como fulano e no galego-português como foão. O sufixo ganhou o -o das palavras masculinas da Ibéria e virou nome de gente, com feminino próprio: fulana.

Hoje a palavra ainda faz o mesmo trabalho do escriba. Quando você diz “um fulano me ligou”, guarda o nome no bolso e entrega só a lacuna. A diferença é o tom: a ferramenta neutra do contrato ganhou uma pitada de desprezo no caminho.

Pra entender como uma lacuna jurídica virou o nome de quem não merece nome, é preciso voltar à escrivaninha do notário árabe.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

Why Overseas Producers Can't Undercut Atlas Salt, Even for Free

Cities are already running short on road salt, and winter hasn't even started. Some supply bids are going unanswered, prices have nearly doubled in parts of the market, and the backup plan is two weeks away by boat. Here's why Atlas Salt (TSXV: SALT | OTCQX: SALQF) can get salt to the people who need it most, faster and cheaper than anyone shipping from overseas: 

• Three days by ship to Boston, not fourteen

• Shallow deposit that's cheaper and faster to mine

• Projected C$188M a year in free cash flow

• Export Development Canada interested in lending C$150M

• Early supply deal with top U.S. salt distributor

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  A Raiz

A lacuna com forma de nome

Fulān pertence a uma família de palavras árabes que servem pra apontar sem nomear. Ao lado dele, o árabe tinha fulāna, a forma feminina, e ainda expressões como fulān ibn fulān, “fulano filho de fulano”, quando era preciso preencher também o nome do pai.

A estrutura do nome árabe pedia esse cuidado. Uma pessoa era identificada pelo nome próprio e pela linhagem. Um modelo de documento precisava de lacunas pras duas partes, e fulān cobria as duas.

A palavra aparece já no texto mais lido da língua árabe. No Alcorão, na surata 25, versículo 28, o arrependido do Dia do Juízo lamenta: “Ai de mim! Quem me dera não ter tomado fulano por amigo”.

O versículo não diz quem era o mau amigo. A lacuna faz o trabalho de generalizar: qualquer leitor coloca ali o próprio fulano. É o mesmo recurso do modelo de contrato, aplicado à moral.

A escrivaninha do jurista

O lugar onde fulān mais trabalhava era o direito. Os juristas muçulmanos escreviam manuais de formulários, os chamados livros de shurūṭ (condições), com modelos prontos de venda, casamento, alforria e testamento.

Cada modelo trazia as partes como fulān. O notário copiava a fórmula, trocava a lacuna pelo nome real e o papel estava pronto. Na Córdoba do século 10, capital do califado de al-Andalus, esse ofício movimentava a cidade.

Os formulários tinham regra fixa. A parte que vende aparecia primeiro, a que compra depois, e as testemunhas no fim, todas como fulān até o dia da assinatura. Um aprendiz de notário decorava dezenas desses modelos antes de redigir o primeiro papel pra um cliente.

O escriba não escrevia fulān por desprezo: escrevia porque o nome ainda não tinha chegado.

A palavra também circulava fora dos contratos. Os gramáticos árabes montavam frases de exemplo com fulān, e os relatos da tradição religiosa citavam como fulān a testemunha cujo nome não interessava ao ensinamento.

A palavra árabe tinha uma vantagem sobre as alternativas latinas. O latim jurídico usava expressões como quidam, “um certo”, ou repetia o termo genérico homo, “homem”. Nenhuma delas tinha cara de nome próprio. Fulān tinha: soava como gente.

Essa sonoridade de nome foi decisiva pro futuro da palavra. Um pronome indefinido vira gramática. Um nome falso vira personagem.

Os falantes de outras línguas ouviam fulān e entendiam uma pessoa. A palavra não pedia explicação gramatical, bastava o contexto pra mostrar o lugar que ela guardava.

 
 

II  A Viagem

Dos contratos à rua

Na Península Ibérica medieval, o árabe era a língua do poder em al-Andalus e a língua técnica de muitos ofícios, da agricultura à administração. O português e o castelhano receberam centenas de palavras por esse contato: alface, armazém, alfândega, aldeia.

Fulano veio pelo mesmo caminho, mas por uma porta diferente. Não nomeava objeto nem instituição. Nomeava a ausência de alguém, e chegou pelos papéis, onde a ausência era rotina.

Os documentos notariais cristãos da Idade Média também precisavam de lacunas. Os formulários circulavam, eram copiados, traduzidos, adaptados. A forma fulano aparece nos textos castelhanos do século 13, e o galego-português antigo usava a forma foão.

O caminho exato de cada documento não está registrado em detalhe. Os dicionários etimológicos apontam a origem árabe e a entrada medieval, mas não identificam o primeiro papel português a trazer a forma fulano.

Fulano, beltrano e sicrano

O português não se contentou com um fulano só. Quando a frase precisa de três pessoas indeterminadas, aparecem beltrano e sicrano, formando o trio que todo brasileiro conhece.

Beltrano tem origem mais clara: vem do nome próprio Beltrão, forma ibérica do germânico Bertrand. Era um nome comum o bastante pra servir de exemplo. Sicrano tem origem incerta, e os dicionários registram a palavra sem fechar a etimologia.

O espanhol montou a sua própria fila: fulano, mengano, zutano e perengano. Mengano também vem do árabe, provavelmente de man kān, “quem quer que seja”. Duas das lacunas do espanhol têm raiz árabe.

Fulano veio da escrivaninha; beltrano veio de um nome de batismo; sicrano ninguém sabe de onde veio.

A fórmula portuguesa mais conhecida ainda carrega o eco do formulário: fulano de tal. O “de tal” ocupa o lugar do sobrenome, como o ibn fulān ocupava o do pai. A estrutura do documento árabe sobreviveu em duas palavras portuguesas.

Até hoje a fórmula serve à burocracia. Manuais de redação oficial, exemplos de preenchimento e modelos de petição usam “Fulano de Tal” onde o nome real vai entrar, com a mesma função de mil anos atrás.

A cena se repete no balcão de qualquer repartição: o cartaz com o exemplo de preenchimento traz Fulano de Tal no campo do nome, nascido em tal data, morador de tal rua.

A palavra atravessou o Atlântico com os portugueses e os espanhóis. No Brasil e na América hispânica, fulano entrou na fala do dia a dia, longe dos cartórios, e começou a ganhar outro tom.

 

Quem banca a edição de hoje

Master Claude AI (Free Guide)

The professionals pulling ahead aren't working more. They're using Claude.

Our free guide will show you how to:

  • Configure Claude to be the perfect assistant

  • Master AI-powered content creation

  • Transform complex data into actionable strategies

  • Harness Claude’s full potential

Transform your workflow with AI and stay ahead of the curve with this comprehensive guide to using Claude at work.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Fica

O nome de quem você evita

Na rua, a lacuna mudou de função. No contrato, fulano esperava um nome. Na conversa, fulano esconde um nome que quem fala conhece e prefere não dizer.

A troca é pequena e muda tudo. “Fulano de Tal assina abaixo” é neutro. “Lá vem o fulano” já tem uma avaliação embutida: aquela pessoa não merece nem ser nomeada.

O português ainda criou usos que o árabe não tinha. “Um fulano qualquer” é alguém sem importância. “Fulano, beltrano e sicrano” é todo mundo e ninguém ao mesmo tempo, a multidão anônima de quem dá opinião sem rosto.

A escolha diz algo sobre quem fala. Usar fulano no lugar do nome é um jeito educado de rebaixar alguém sem acusar ninguém: a pessoa some da frase e o ouvinte entende o recado.

O peso do feminino

O feminino seguiu um caminho mais duro. Fulana, em vários registros populares do português e do espanhol, ganhou sentido pejorativo pra mulher, e no espanhol fulana chegou a ser sinônimo de prostituta.

O dicionário da Real Academia Espanhola registra esse sentido como uso coloquial. É um exemplo de como uma lacuna neutra recebe o preconceito de quem a usa: a palavra não mudou de forma, mudou de dono.

A palavra do escriba continua fazendo o mesmo gesto: guardar o nome. Mudou o motivo de guardar.

Fulano deixou três usos no português de hoje:

1. Fulano lacuna, o nome falso dos modelos de documento, na fórmula fulano de tal.

2. Fulano qualquer, a pessoa indeterminada, sem importância pra frase.

3. Fulano evitado, a pessoa conhecida cujo nome quem fala prefere não pronunciar.

O primeiro uso é o do escriba de Córdoba. O terceiro é o seu, quando você conta uma história e diz “o fulano lá do trabalho” em vez do nome. Mil anos separam os dois, e o gesto é o mesmo: deixar o espaço em branco.

O Houaiss acerta ao chamar fulano de designação vaga. O que o verbete deixa de fora é o ofício de origem: a palavra que hoje serve pra desdenhar de alguém nasceu como a ferramenta mais neutra de um cartório árabe.

Quem é o fulano da sua vida, a pessoa cujo nome você troca por uma lacuna quando conta a história?

 
 
 
 
Quiz da edição

No espanhol, fulano tem companhia numa fila de quatro lacunas para pessoa indeterminada. Segundo o texto, qual das outras três também vem do árabe?

AZutano
BMengano
CPerengano
DSicrano

Resultado da última edição: 80% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

📜📜📜📜📜  ótima 📜📜📜📜  boa 📜📜📜  ok 📜📜  ruim 📜  péssima
 
Escolha a edição de sexta

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A mais votada sai na sexta, 06/11.

Voto aberto até 04/11, 15h30

A Agogô →
B Tarifa →
C Branco →
D Brasil →
 
Recomendação de Newsletter
Fábula do Dia

Fábula do Dia

A história resumida e a moral que fica, prontas pra ler em voz alta, em cinco minutos. No seu email todo dia às 19:19.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →

{{vip_linha | }}

 

Toda palavra e um fossil. Ad fontes.

A ORIGEM DAS PALAVRAS

Você fala 30 mil palavras por dia e não sabe de onde veio nenhuma

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter
📚 Leia o acervo completo