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Fevereiro

/fe.veˈɾej.ɾu/

Do latim februa: o mês da purificação romana fechava o ano e ficou com a sobra de dias

Calendário romano em pedra ao lado de tiras de couro

Roma antiga: o mês da limpeza fechava o ano

▼

O Dicionário Houaiss define assim: “fevereiro: segundo mês do ano civil, com 28 dias, ou 29 nos anos bissextos”. A definição acerta a posição de hoje e erra a de origem. Durante séculos, fevereiro foi o último mês do ano romano, e os 28 dias vêm justamente desse lugar no fim da fila.

O calendário que a tradição atribui a Rômulo, o fundador lendário de Roma, tinha dez meses. Começava em março, mês de Marte, deus da guerra, e terminava em dezembro. O inverno ficava fora da conta, como um intervalo sem nome.

Os rastros desse começo continuam no calendário de qualquer cozinha brasileira. Setembro vem de septem, sete. Outubro vem de octo, oito. Novembro, de novem, nove. Dezembro, de decem, dez. Os números só fecham se março for o mês um.

Hoje setembro é o nono mês e carrega o sete no nome. Ninguém corrigiu a etiqueta quando a ordem mudou, e o português herdou a contradição intacta.

Fevereiro entrou depois, junto com janeiro, para cobrir o buraco do inverno. Entrou como último, encarregado de encerrar o ano, e o nome dele diz qual era a tarefa: limpar a casa antes de recomeçar.

A palavra latina era februarius, o mês das februa. Februa eram os instrumentos e os ritos de purificação, tudo aquilo que servia para tirar a mancha de uma pessoa, de uma casa ou de uma cidade inteira.

Do latim ao português, o caminho foi regular. O b entre vogais virou v, como em caballus, que deu cavalo. A terminação arius virou eiro, como em primarius, que deu primeiro. Februarius virou fevereiro sem nenhum desvio fora da regra.

O espanhol fez a mesma conta e chegou a febrero. O francês chegou a février. O inglês pegou o latim mais tarde, pela escrita, e guardou o r duplo de february que quase ninguém pronuncia.

A pergunta que sobra é o que os romanos limpavam em fevereiro, e com quê. A resposta passa por uma caverna no monte Palatino, por tiras de couro de cabra e por um poeta exilado que anotou tudo em verso.

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I  A Raiz

O mês das tiras de couro

No meio de fevereiro, em 15 de fevereiro, Roma celebrava as Lupercais. A festa começava na gruta do Lupercal, ao pé do monte Palatino, onde a lenda dizia que uma loba tinha amamentado Rômulo e Remo.

Os sacerdotes da festa, chamados lupercos, sacrificavam cabras e um cão. Com o couro das cabras cortavam tiras, e com elas saíam correndo seminus em volta do Palatino, batendo em quem encontrassem pelo caminho.

As tiras tinham nome próprio: februa. O golpe não era castigo. Era purificação. Quem levava a chicotada ficava limpo, e as mulheres se punham no caminho dos lupercos porque o toque do couro, dizia a crença, ajudava a engravidar.

O poeta Ovídio registrou a palavra e a explicação. Nos Fastos, poema sobre o calendário romano escrito por volta do ano 8, ele abre o livro dedicado a fevereiro com a origem do nome:

“Os pais romanos chamaram de februa os instrumentos de purificação.” (Ovídio, Fastos, livro II, por volta do ano 8)

Ovídio dá exemplos. Os sacerdotes pediam lã ao rei e ao chefe dos sacerdotes, e essa lã se chamava februa. Ramos de pinheiro usados para limpar a casa também. Qualquer objeto que tirava a impureza de algo levava o mesmo nome.

Fevereiro não leva nome de deus nem de imperador: leva o nome de um material de limpeza.

O verbo vinha da mesma raiz. Februare queria dizer purificar, e o dia 15, o das Lupercais, era chamado dies februatus, o dia purificado. O mês inteiro girava em torno desse gesto de tirar a sujeira acumulada.

Alguns autores antigos falam de um deus chamado Februus, ligado aos mortos e às purificações. O escritor Macróbio, nas Saturnais, no século 5, liga o nome do mês a esse deus. Os estudiosos modernos tendem a ver Februus como uma personificação inventada depois, a partir da palavra, e não o contrário.

A faxina de fevereiro também incluía os mortos. Entre 13 e 21 de fevereiro aconteciam as Parentálias, dias em que as famílias levavam flores, sal, pão e vinho aos túmulos dos antepassados. Os templos ficavam fechados e os casamentos, suspensos.

O mês fazia sentido no fim do ano. Antes de março, mês de Marte e da volta das campanhas militares, a cidade acertava as contas com os mortos e se lavava das impurezas do ano que terminava.

 
 

II  A Viagem

O último da fila de Numa

A tradição atribui a reforma do calendário ao segundo rei de Roma, Numa Pompílio, que teria governado entre 715 e 673 a.C. O calendário de dez meses somava 304 dias e deixava cerca de 60 dias de inverno sem nome.

Numa acrescentou dois meses para cobrir o vão. Janeiro, de Jano, deus das portas e dos começos. Fevereiro, das februa. Os dois entraram no fim da fila, depois de dezembro.

A conta precisava chegar perto do ano lunar, de cerca de 354 dias. Numa, segundo a tradição, tinha um problema com números pares: os romanos achavam que eles traziam azar. Daí os meses ganharam 29 ou 31 dias.

A soma, porém, não fechava só com números ímpares. Doze meses ímpares dão um total par, e o rei precisava de 355 dias. Um mês teria de ficar com um número par de dias, e o escolhido foi fevereiro, com 28.

Fevereiro ficou com o número de azar porque já era o mês dos mortos e da limpeza, o lugar onde o azar fazia menos estrago.

Macróbio conta essa explicação nas Saturnais. A lógica era simples para um romano: um mês dedicado aos rituais dos mortos podia absorver o mau agouro de um número par sem contaminar o resto do ano.

O ano de 355 dias ainda ficava curto diante do Sol. Para corrigir a diferença, os sacerdotes enfiavam, de tempos em tempos, um mês extra chamado Mercedônio. E esse mês extra entrava justamente em fevereiro, depois do dia 23, cortando o mês ao meio.

O dia 23 era o das Terminálias, a festa de Término, deus dos marcos de fronteira. A escolha tinha sentido: o fim do ano religioso era o ponto natural para encaixar dias de sobra.

O sistema dependia da boa vontade dos sacerdotes, e eles usavam o mês extra como arma política. Esticavam o ano quando um aliado estava no poder e encurtavam quando era um adversário. No tempo de Júlio César, o calendário estava cerca de três meses atrasado em relação às estações.

Em algum momento, janeiro passou à frente. Os cônsules romanos começaram a tomar posse em 1º de janeiro a partir de 153 a.C., e o ano civil passou a contar dali. Fevereiro deixou de ser o último e virou o segundo, mas levou consigo a sobra de dias e o lugar dos acertos.

 

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III  O Que Fica

O dia que nasce em dobro

Em 46 a.C., Júlio César resolveu a bagunça com a ajuda do astrônomo Sosígenes, de Alexandria. O calendário juliano adotou o ano solar de 365 dias e um quarto, e o mês extra dos sacerdotes deixou de existir.

Os meses ganharam dias para chegar aos 365. Fevereiro ficou com 28 e recebeu uma tarefa nova: guardar o dia a mais que aparece a cada quatro anos, o dia que corrige o quarto de dia acumulado.

O nome desse ajuste também saiu de fevereiro. Os romanos contavam os dias para trás a partir das calendas, o primeiro dia do mês seguinte. O dia 24 de fevereiro era o sexto dia antes das calendas de março, ante diem sextum Kalendas Martias.

No ano do ajuste, esse sexto dia era contado duas vezes. O dia dobrado se chamava bis sextus, o sexto repetido. Daí vem bissexto, a palavra que o português usa até hoje para o ano de 366 dias.

O ano bissexto carrega no nome a contagem romana de fevereiro, feita de trás para a frente a partir de março.

O conjunto resolveu o calendário por mais de 1.600 anos. Em 1582, o papa Gregório XIII cortou dez dias e ajustou a regra dos bissextos, porque o ano juliano ainda sobrava cerca de 11 minutos por ano. O dia extra continuou em fevereiro.

Circula uma história de que Augusto teria tirado um dia de fevereiro para dar a agosto, mês com o nome dele, e assim empatar com julho, de Júlio César. A história aparece num autor do século 13, Johannes de Sacrobosco, e não tem apoio nas fontes romanas. Fevereiro já tinha 28 dias antes de Augusto nascer.

O que fica, então, é uma palavra que guarda três camadas. A primeira é o ritual de purificação das februa. A segunda é a posição de último mês, que fez dele o depósito dos dias de sobra. A terceira é o bissexto, a correção que só cabia no fim da fila.

O português guardou as três sem perceber. Quem diz fevereiro repete o nome de uma tira de couro de cabra. Quem diz bissexto conta um dia de trás para a frente, como um sacerdote romano.

Quem quiser ver essas camadas no próprio calendário pode seguir três passos.

1. Olhe os nomes de setembro a dezembro e some dois a cada número escondido no latim: sete, oito, nove e dez viram nove, dez, onze e doze.

2. Num ano bissexto, lembre que o dia que os romanos dobravam era o 24 de fevereiro, não o 29.

3. Procure fevereiro num dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e veja a remissão ao latim februarius.

Responda este email contando qual nome de mês mais surpreendeu você.

“Que outra palavra do seu dia a dia guarda um ritual que ninguém mais faz?”

 
 
 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, por que Numa Pompílio escolheu justamente fevereiro para ficar com o único número par de dias do calendário?

APorque era o mês dedicado ao deus Término e às fronteiras
BPorque era o último mês do ano e sobrava menos dias pra distribuir
CPorque já era o mês dos mortos e da purificação, e podia absorver o azar sem contaminar o resto do ano
DPorque Júlio César exigiu um ajuste par para fechar o calendário solar

Resultado da última edição: 83% acertaram.

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