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Em 46 a.C., Júlio César resolveu a bagunça com a ajuda do astrônomo Sosígenes, de Alexandria. O calendário juliano adotou o ano solar de 365 dias e um quarto, e o mês extra dos sacerdotes deixou de existir.
Os meses ganharam dias para chegar aos 365. Fevereiro ficou com 28 e recebeu uma tarefa nova: guardar o dia a mais que aparece a cada quatro anos, o dia que corrige o quarto de dia acumulado.
O nome desse ajuste também saiu de fevereiro. Os romanos contavam os dias para trás a partir das calendas, o primeiro dia do mês seguinte. O dia 24 de fevereiro era o sexto dia antes das calendas de março, ante diem sextum Kalendas Martias.
No ano do ajuste, esse sexto dia era contado duas vezes. O dia dobrado se chamava bis sextus, o sexto repetido. Daí vem bissexto, a palavra que o português usa até hoje para o ano de 366 dias.
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O ano bissexto carrega no nome a contagem romana de fevereiro, feita de trás para a frente a partir de março.
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O conjunto resolveu o calendário por mais de 1.600 anos. Em 1582, o papa Gregório XIII cortou dez dias e ajustou a regra dos bissextos, porque o ano juliano ainda sobrava cerca de 11 minutos por ano. O dia extra continuou em fevereiro.
Circula uma história de que Augusto teria tirado um dia de fevereiro para dar a agosto, mês com o nome dele, e assim empatar com julho, de Júlio César. A história aparece num autor do século 13, Johannes de Sacrobosco, e não tem apoio nas fontes romanas. Fevereiro já tinha 28 dias antes de Augusto nascer.
O que fica, então, é uma palavra que guarda três camadas. A primeira é o ritual de purificação das februa. A segunda é a posição de último mês, que fez dele o depósito dos dias de sobra. A terceira é o bissexto, a correção que só cabia no fim da fila.
O português guardou as três sem perceber. Quem diz fevereiro repete o nome de uma tira de couro de cabra. Quem diz bissexto conta um dia de trás para a frente, como um sacerdote romano.
Quem quiser ver essas camadas no próprio calendário pode seguir três passos.
1. Olhe os nomes de setembro a dezembro e some dois a cada número escondido no latim: sete, oito, nove e dez viram nove, dez, onze e doze.
2. Num ano bissexto, lembre que o dia que os romanos dobravam era o 24 de fevereiro, não o 29.
3. Procure fevereiro num dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e veja a remissão ao latim februarius.
Responda este email contando qual nome de mês mais surpreendeu você.
“Que outra palavra do seu dia a dia guarda um ritual que ninguém mais faz?”
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