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No Brasil colonial, a riqueza dos portugueses estava na terra. O rei distribuía sesmarias (grandes lotes de terra cedidos a quem prometesse cultivá-los), e cada lote cultivado era, ao mesmo tempo, a fazenda do dono: seus bens, seu gado, sua plantação.
O sentido de patrimônio colou no lugar físico. Fazenda deixou de querer dizer só o que alguém tinha e virou a propriedade rural inteira, com sede, curral, roça, engenho, capela e senzala (o alojamento dos escravizados).
Na zona do açúcar, o nordestino dizia engenho. No sertão do gado, no Sul e, a partir do século 19, no café do Vale do Paraíba e de São Paulo, a palavra dominante era fazenda. O dono virou fazendeiro, título que carregava poder político na vila mais próxima.
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A palavra que nomeava o dinheiro do rei acabou nomeando o chão onde o dinheiro da colônia brotava.
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No centro dessas propriedades ficava a casa-grande. O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre transformou o par casa-grande e senzala no título do livro de 1933 sobre a formação do Brasil, e a fazenda virou também um retrato da sociedade escravista que a sustentava.
A mesma passagem aconteceu na América espanhola. No México, a hacienda era a grande propriedade com sede, igreja e trabalhadores presos por dívida ao hacendado (o fazendeiro). A Revolução Mexicana, iniciada em 1910, teve a divisão dessas terras entre as bandeiras principais.
O português do Brasil guardou os três sentidos lado a lado. Fazenda é a propriedade rural, o tecido vendido a metro e o dinheiro público. O de Portugal usa bem menos o rural, e por lá quinta e herdade ocupam esse espaço.
A palavra atravessou ainda a abolição de 1888 e a chegada dos imigrantes italianos e japoneses às lavouras de café. O colono substituiu o escravizado, a casa-grande seguiu no alto do morro, e a placa na porteira continuou dizendo fazenda.
Quem quiser ver a lista de tarefas dentro da palavra pode fazer três testes.
1. Leia agenda, legenda e fazenda em voz baixa e repare na terminação -nda, a marca latina do que ainda precisa acontecer.
2. Procure numa nota fiscal ou num boleto de imposto a expressão Fazenda Pública: é a mesma palavra da propriedade rural, no uso do cofre.
3. Pergunte numa loja de tecidos pelo preço da fazenda: o vendedor entende de primeira, e o sentido de mercadoria de 1500 aparece no balcão.
A facienda começou como lista de tarefas de um administrador romano, virou os bens de uma família ibérica, subiu ao cofre da Coroa e desceu ao campo da colônia. No Brasil, ela continua dividida entre Brasília e a porteira, e as duas metades ainda tratam da mesma pendência: cuidar do patrimônio de alguém.
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