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Fazenda

/faˈzẽdɐ/

Do latim facienda, as tarefas a fazer: a pendência virou cofre público e terra com casa-grande

Livro de contas sobre a mesa da varanda de uma fazenda colonial

Fazenda: do livro de contas ao cafezal

▼

O Houaiss define fazenda como “grande propriedade rural, de lavoura ou de criação de gado”. A definição descreve a porteira, o pasto e a casa-grande, e deixa de fora o sentido que a palavra trazia antes de ganhar chão: fazenda quer dizer tarefa pendente.

A forma latina por trás dela é facienda, do verbo facere (fazer). Traduzida ao pé da letra, significa “as que devem ser feitas”. Um romano que escrevesse facienda num papel estava anotando pendências, do mesmo jeito que hoje se anota uma lista no canto da agenda.

A lista de pendências de quem administra uma casa fala de dinheiro quase sempre: pagar o ferreiro, cobrar o arrendatário, vender o vinho, guardar o trigo. Na Península Ibérica da Idade Média, a palavra escorregou da tarefa para aquilo que a tarefa movimentava, os bens, os haveres, a riqueza de alguém.

Dali ela subiu ao palácio. A fazenda do rei era o patrimônio da Coroa, e os funcionários que cuidavam dela formaram, séculos depois, a pasta que o Brasil chama de Ministério da Fazenda.

E desceu também ao campo. Na colônia portuguesa da América, a riqueza estava na terra, e a palavra acompanhou o dinheiro até a porteira. Fazenda virou o lugar com sede, curral, roça e gente trabalhando para um dono, quase sempre gente escravizada.

Uma palavra só cobre, assim, o cofre público de Brasília e a propriedade com casa-grande no interior de Minas. Os dois sentidos parecem não ter parentesco nenhum, e descendem do mesmo gerundivo latino.

A primeira parada dessa rota fica na gramática de Roma, numa forma verbal que o português quase perdeu e que ainda sobrevive escondida em meia dúzia de palavras do dia a dia.

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I  A Raiz

Uma lista de tarefas em latim

A resposta de ontem

Em que ano um decreto russo escreveu vodca pela primeira vez?

Em 1751. Um decreto da imperatriz Isabel da Rússia (Elizaveta Petrovna), de 8 de junho daquele ano, regulou quem podia ter alambiques de vodca e usou a palavra num papel oficial do Estado. Até ali, os documentos russos chamavam o destilado de vinho de pão; a aguinha das farmácias polonesas chegava, enfim, à lei.

O latim tinha uma forma verbal chamada gerundivo (adjetivo tirado do verbo, com ideia de obrigação). Terminava em -ndus, -nda, -ndum e dizia o que precisava acontecer. Facere virava faciendus, “o que deve ser feito”.

No plural neutro, o gerundivo ganhava final -a: facienda, “as tarefas a fazer”. Os romanos usavam a forma solta, como substantivo, para falar de obrigações, negócios e assuntos ainda abertos.

O português guarda irmãs da fazenda que fazem a mesma conta. Agenda vem de agere (agir) e quer dizer “o que deve ser tratado”. Legenda, de legere (ler), é “o que deve ser lido”. Oferenda é “o que deve ser oferecido”, e memorando, “o que deve ser lembrado”.

Agenda, legenda e fazenda são três listas de obrigações que o latim deixou no nosso vocabulário.

O passo seguinte foi um tropeço de gramática. O neutro plural do latim terminava em -a, igual ao feminino singular, e os falantes das províncias começaram a ouvir uma palavra feminina só. Folia (as folhas) deu folha; ligna (as lenhas) deu lenha; facienda deu uma fazenda, no singular.

O som também mudou no caminho. O c entre vogais do latim amoleceu até virar z, como facere virou fazer e dicere virou dizer. O i da sílaba do meio caiu, e facienda chegou ao galego-português dos séculos 12 e 13 como fazenda.

O castelhano fez o mesmo percurso por outra trilha. Lá o f do começo virou h, como em hacer (fazer) e hijo (filho), e a palavra saiu hacienda. O italiano guardou faccenda, que até hoje quer dizer afazer, assunto, tarefa doméstica.

Os documentos medievais ibéricos mostram o deslizamento. Fazenda aparece primeiro como negócio e assunto (“tratar da sua fazenda”), depois como os bens de uma pessoa. Quem perdia a fazenda perdia o que tinha, fosse casa, gado, dinheiro ou pano guardado no baú.

Nenhum desses passos foi decidido por alguém. A troca de sentido aconteceu aos poucos, na boca de escrivães, tabeliães e mercadores, que usavam a palavra para o que tinham diante de si: contratos, inventários, heranças e dívidas a cobrar.

O pano, aliás, ficou. Fazenda ainda nomeia o tecido vendido a metro, e as lojas de fazendas do século 19 eram armarinhos de corte e costura. O tecido era a mercadoria mais comum no balcão do comerciante, e o nome dos bens em geral grudou nele.

 
 

II  A Viagem

Do cofre da Coroa ao ministério

Em Portugal, a fazenda do rei virou instituição antes de virar prédio. As Ordenações Manuelinas, código de leis publicado por Dom Manuel I a partir de 1512, já regulavam os vedores da fazenda (os fiscais do patrimônio real), encarregados de cobrar rendas e pagar as despesas do reino.

A expressão Fazenda Real cobria tudo o que pertencia à Coroa: impostos, alfândegas, minas, terras sem dono e os quintos (a quinta parte) do ouro tirado no Brasil. Para o administrador do reino, a lista de tarefas e o tesouro eram a mesma pasta.

Em 1761, o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro de Dom José I, criou em Lisboa o Erário Régio (o tesouro do rei). A ideia era juntar num só caixa as contas que viviam espalhadas por dezenas de repartições, cada uma com seu livro e seu escrivão.

Quando a família real fugiu de Napoleão e desembarcou no Rio, em 1808, Dom João mandou criar aqui um Erário Régio igual ao de Lisboa. A colônia ganhou cofre próprio, e a fazenda do rei ganhou endereço no Brasil, com contadores, escrivães e um tesoureiro-mor nomeado pela Coroa.

Com a Independência, o rei saiu da frase e a nação entrou no lugar dele. A primeira Constituição do país amarrou a palavra à nova ordem:

“A Receita e Despesa da Fazenda Nacional será encarregada a um Tribunal, debaixo do nome de Tesouro Nacional.” (Constituição Política do Império do Brasil, artigo 170, 1824)

Fazenda Nacional, Fazenda Pública, Ministério da Fazenda: o Estado brasileiro herdou a pasta inteira, com a palavra antiga na porta. Os portugueses mantêm o mesmo uso, e os espanhóis têm o seu Ministerio de Hacienda.

O nome resistiu até a reformas recentes. Em 2019, o governo Jair Bolsonaro fundiu a pasta no Ministério da Economia. Em 2023, o governo Luiz Inácio Lula da Silva desfez a fusão, e o Ministério da Fazenda voltou à Esplanada com a grafia de sempre.

A palavra também ganhou expressões próprias no caminho. Fazer fazenda, no português antigo, era enriquecer. E quem gastava sem conta, diziam os moralistas da época, desbaratava a fazenda, isto é, jogava fora o patrimônio da família.

O procurador da Fazenda Nacional, o fiscal da Receita e o contribuinte que paga o imposto de renda seguem tratando, sem perceber, da facienda romana. A pendência ainda está na lista; só mudou de mãos.

 

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III  O Que Fica

A casa-grande no meio do pasto

No Brasil colonial, a riqueza dos portugueses estava na terra. O rei distribuía sesmarias (grandes lotes de terra cedidos a quem prometesse cultivá-los), e cada lote cultivado era, ao mesmo tempo, a fazenda do dono: seus bens, seu gado, sua plantação.

O sentido de patrimônio colou no lugar físico. Fazenda deixou de querer dizer só o que alguém tinha e virou a propriedade rural inteira, com sede, curral, roça, engenho, capela e senzala (o alojamento dos escravizados).

Na zona do açúcar, o nordestino dizia engenho. No sertão do gado, no Sul e, a partir do século 19, no café do Vale do Paraíba e de São Paulo, a palavra dominante era fazenda. O dono virou fazendeiro, título que carregava poder político na vila mais próxima.

A palavra que nomeava o dinheiro do rei acabou nomeando o chão onde o dinheiro da colônia brotava.

No centro dessas propriedades ficava a casa-grande. O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre transformou o par casa-grande e senzala no título do livro de 1933 sobre a formação do Brasil, e a fazenda virou também um retrato da sociedade escravista que a sustentava.

A mesma passagem aconteceu na América espanhola. No México, a hacienda era a grande propriedade com sede, igreja e trabalhadores presos por dívida ao hacendado (o fazendeiro). A Revolução Mexicana, iniciada em 1910, teve a divisão dessas terras entre as bandeiras principais.

O português do Brasil guardou os três sentidos lado a lado. Fazenda é a propriedade rural, o tecido vendido a metro e o dinheiro público. O de Portugal usa bem menos o rural, e por lá quinta e herdade ocupam esse espaço.

A palavra atravessou ainda a abolição de 1888 e a chegada dos imigrantes italianos e japoneses às lavouras de café. O colono substituiu o escravizado, a casa-grande seguiu no alto do morro, e a placa na porteira continuou dizendo fazenda.

Quem quiser ver a lista de tarefas dentro da palavra pode fazer três testes.

1. Leia agenda, legenda e fazenda em voz baixa e repare na terminação -nda, a marca latina do que ainda precisa acontecer.

2. Procure numa nota fiscal ou num boleto de imposto a expressão Fazenda Pública: é a mesma palavra da propriedade rural, no uso do cofre.

3. Pergunte numa loja de tecidos pelo preço da fazenda: o vendedor entende de primeira, e o sentido de mercadoria de 1500 aparece no balcão.

A facienda começou como lista de tarefas de um administrador romano, virou os bens de uma família ibérica, subiu ao cofre da Coroa e desceu ao campo da colônia. No Brasil, ela continua dividida entre Brasília e a porteira, e as duas metades ainda tratam da mesma pendência: cuidar do patrimônio de alguém.

 
 
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