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Fanático
/fa.ˈna.ti.ku/
Do latim. Fanaticus era quem servia no fanum, o templo, e a imprensa esportiva americana encurtou o termo até sobrar a sílaba que hoje se usa para torcida
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Templo romano vazio depois da procissão
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"Fanático: que ou aquele que demonstra zelo excessivo por uma causa, religião ou doutrina" (Houaiss). A entrada acerta o comportamento e apaga o endereço. Em latim, fanaticus começou como adjetivo de lugar de trabalho: dizia de quem servia dentro do fanum, palavra latina para templo ou recinto sagrado, e não trazia julgamento nenhum embutido.
O peso veio do tipo de culto que o termo acabou nomeando. Os romanos aplicaram fanaticus principalmente aos sacerdotes de Cibele, a Grande Mãe vinda da Ásia Menor, que percorriam a rua em procissão ao som de tambor e prato de bronze, giravam até perder a fala e se feriam com lâmina diante do santuário. O adjetivo de função virou, na prática, um retrato de comportamento.
Roma tinha problema com aquele culto e resolveu por lei. O Senado autorizou o templo e a festa da deusa, e ao mesmo tempo proibiu cidadão romano de entrar no sacerdócio dela, o que deixou o rito nas mãos de estrangeiros e produziu uma palavra de duas faces: oficial no calendário, suspeita na conversa.
Desse desconforto saiu o uso que a língua guardou. Autor latino que quisesse dizer que alguém raciocinava fora de si usava fanaticus sem precisar mencionar templo, e o termo passou a funcionar como diagnóstico de estado mental, não como cargo. A partir daí o sentido religioso foi se soltando da pedra, atravessou o inglês do século dezessete aplicado a grupos protestantes dissidentes, e chegou ao século dezenove disponível para qualquer devoção intensa, inclusive as que não envolvem divindade alguma.
A última etapa aconteceu em redação de jornal, com objetivo comercial e nenhuma intenção etimológica. O resultado é a sílaba curta que hoje aparece em clube de futebol, em show e em lançamento de celular, sem que ninguém enxergue o santuário embutido nela.
Vale começar pela raiz que veio antes do adjetivo, porque ela ainda circula em outra palavra do português que o falante usa todo dia sem desconfiar do parentesco.
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I A Raiz
O servidor do templo que entrava em transe
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A raiz é fanum, substantivo latino que significa templo, santuário, terreno consagrado a uma divindade. A palavra nomeava o espaço demarcado por rito, com limite físico conhecido de todos, e é dela que sai o adjetivo fanaticus, formado com o mesmo sufixo que produz relativo a, pertencente a.
O parentesco mais útil está do outro lado do muro. De fanum saiu também profanus, formado pela preposição pro, diante de, mais fanum: quem ficava diante do templo, do lado de fora. O português herdou o par inteiro, e hoje usa profano para o que não é sagrado sem lembrar que a palavra descreve uma posição no terreno, não um julgamento moral.
Dentro desse recinto trabalhavam os galli, nome latino dos sacerdotes de Cibele, a deusa que os romanos chamavam de Magna Mater, a Grande Mãe. A imagem dela chegou a Roma em 204 a.C., trazida de Pessinunte, na atual Turquia, em forma de pedra escura, durante a guerra contra Aníbal, por recomendação de uma consulta aos livros sibilinos.
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Foi decidido que Públio Cornélio Cipião fosse a Óstia ao encontro da deusa, com todas as matronas.
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Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro XXIX, século I a.C.
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Tito Lívio conta a recepção como ato de Estado, com cônsul, matronas e procissão até o Palatino. Roma aceitou a deusa por cálculo militar e descobriu depois que havia importado junto um rito estranho ao padrão local de sacrifício sóbrio e fórmula fixa.
O rito dos galli funcionava pelo excesso deliberado. A procissão de março saía com tambor, flauta frígia e prato de bronze, os sacerdotes giravam até a exaustão, profetizavam em estado alterado e se cortavam com faca ou caco de cerâmica, e a autolesão fazia parte do calendário, não do acidente.
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Chega o coro delirante da Grande Mãe, e com ele o gigantesco meio-homem.
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Juvenal, Sátiras, sátira VI, século II
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Juvenal escreve como satirista que despreza o culto, e o desprezo dele registra o que interessa aqui: para o cidadão comum, o sacerdote do templo virou sinônimo de descontrole.
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Fanaticus nasceu como endereço profissional e virou laudo de comportamento sem trocar uma letra.
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A lei ajudou a fixar a suspeita. O Senado permitiu o templo e os jogos da deusa e barrou o cidadão romano do sacerdócio, reservado a estrangeiros e restrito a dias marcados do calendário. Culto autorizado e socialmente interditado produz palavra com desconfiança no próprio som.
Cícero usa o termo já solto do prédio, dentro de uma discussão sobre adivinhação e estados de exaltação. Para ele, existe uma classe de fala inspirada que não merece crédito, e o adjetivo serve para marcá-la.
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Não devemos dar ouvidos a esses adivinhos, nem aos sonhos, nem aos delírios dos fanáticos.
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Cícero, De divinatione, livro II, 44 a.C.
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O latim entrega a palavra já com o defeito instalado: guarda o templo na raiz, guarda o transe no uso corrente e larga o cargo pelo caminho. Falta acompanhar como esse pacote saiu de Roma e foi parar num panfleto político inglês, longe de qualquer altar de Cibele.
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II A Viagem
Da procissão de março ao panfleto inglês
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O latim eclesiástico manteve o termo vivo por um motivo prático: ele nomeava bem o que a Igreja queria condenar. Escritores cristãos aplicaram fanaticus ao culto pagão inteiro, e o adjetivo passou a marcar a religião do outro, a que se pratica com grito e dança.
O francês registra fanatique no século dezesseis, e o inglês adota fanatic no mesmo período, sempre no campo religioso. Nas duas línguas o termo funciona como acusação: descreve quem afirma receber inspiração direta da divindade e por isso dispensa a autoridade da instituição, o que era, naquele momento, o centro da briga entre confissões cristãs.
A palavra ganha musculatura política na Inglaterra do século dezessete. Depois da guerra civil e da restauração da monarquia em 1660, fanatics virou o rótulo usado pela imprensa e pelo poder para os grupos protestantes fora da Igreja anglicana, como quacres, batistas e congregacionalistas, e a acusação servia de base para lei de exclusão de cargo público.
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Que ninguém ouse chamar de fanáticos os que agem por consciência, quando o próprio acusador age por interesse.
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Roger Williams, The Bloudy Tenent of Persecution, 1644
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Roger Williams escrevia da colônia de Rhode Island, que ele fundou justamente como refúgio de dissidentes, e o argumento dele mostra que a palavra já era arma de disputa pública, não descrição neutra de temperamento.
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Quando um termo religioso vira rótulo de adversário, ele perde o altar e ganha o tribunal.
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O século dezoito completa a saída do campo sagrado. Iluministas franceses usam fanatisme para atacar a perseguição religiosa em geral, e o termo passa a designar qualquer certeza que autoriza violência, independentemente de fé. Voltaire publica em 1736 a peça Le fanatisme, ou Mahomet le prophète, e o título trata o fanatismo como problema político, não como pecado.
Com o campo religioso já frouxo, o adjetivo ficou disponível para tudo. No século dezenove aparece em texto sobre política, sobre arte e sobre hábito privado, sempre com a mesma estrutura interna: adesão que não aceita medida. O português recebe fanático por via erudita nesse período, e o dicionário registra o sentido religioso e o sentido figurado lado a lado.
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fanático: do latim fanaticus, inspirado, delirante, próprio dos sacerdotes de um templo, de fanum, templo.
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Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982
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A entrada de Cunha guarda as duas camadas na mesma linha, o delírio e o templo, e é um bom retrato do estado da palavra ao entrar no século vinte: culta, pesada, usada para condenar convicção alheia.
Faltava o passo que ninguém planejou. Enquanto o termo servia a discussão política na Europa, uma indústria nova do outro lado do Atlântico precisava de uma palavra curta para o sujeito que pagava ingresso todo domingo, e escolheu justamente a que vinha carregada de templo.
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