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Esquilo
/is.ˈki.lu/
Do grego. Skíouros junta skiá, sombra, e ourá, cauda: o bicho que se abriga na sombra do próprio rabo
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Esquilo à sombra da própria cauda
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Nasceu do comentário
“Estou estudando grego, e a palavra hoje é diferente para cão: skilos. Uma curiosidade é que a palavra soa como esquilo.”
Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 16/08, na edição Cínico.
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O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa resolve o verbete em uma linha: esquilo é a designação comum a mamíferos roedores da família dos ciurídeos (o grupo dos esquilos e seus parentes), de cauda longa e peluda. A definição acerta o animal e erra a hierarquia. Trata a cauda como detalhe de descrição, quando foi ela que batizou o bicho.
Quem cunhou a palavra olhou primeiro para a cauda e só depois para o resto. Um esquilo sentado num galho, sob sol forte, levanta o rabo em arco por cima das costas e da cabeça. O pelo fica entre o corpo e a luz. O animal carrega consigo um toldo portátil, e os gregos antigos chamaram o bicho por esse toldo.
A palavra que eles usaram tinha duas peças coladas, uma para a sombra e outra para a cauda. Ela atravessou o latim, ganhou um diminutivo na boca do povo e chegou ao português, ao francês e ao inglês com formas tão diferentes que ninguém as reconhece como irmãs à primeira vista. Esquilo, écureuil e squirrel são a mesma palavra gasta de três jeitos.
Há um segundo animal nessa história, e ele entra por engano. O grego falado hoje em Atenas chama o cachorro de skýlos, palavra que soa quase igual a esquilo para um ouvido brasileiro. A proximidade é tão forte que parece pedir um parentesco escondido, alguma rota em que o cão e o roedor tivessem dividido a mesma raiz.
Não dividiram. As duas palavras vêm de troncos separados, e a semelhança de som é um acaso que a história das duas línguas explica sem mistério. O cão tem uma genealogia própria, que passa por Diógenes e pelos filósofos que moravam na rua, e o esquilo tem outra, que passa por um toldo de pelo levantado contra o sol do Mediterrâneo.
Quem levantou a dúvida foi um leitor que estuda grego, e a pergunta dele tinha duas pontas que merecem resposta separada.
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I A Raiz
Uma sombra carregada nas costas
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Em 16 de agosto, depois de ler sobre a origem da palavra cínico, um leitor que estuda grego escreveu a esta newsletter com duas observações. A primeira: o cão do grego de hoje se diz skýlos, e não mais kýon, a forma dos textos antigos. A segunda: skýlos lembrava muito esquilo, e ele queria saber se havia ligação entre as duas palavras.
A resposta começa pelo esquilo, porque a palavra dele se desmonta com facilidade. Em grego antigo o bicho era skíouros, composto de skiá (sombra) e ourá (cauda). Traduzido peça por peça, fica o sombra-cauda, o animal que se cobre com a sombra do próprio rabo.
As duas peças deixaram rastro no português por vias eruditas. Skiá está em esciografia, a arte de desenhar sombras e projetá-las em planta de arquitetura. Ourá está em anuro, o nome científico dos sapos e rãs, bichos sem cauda na fase adulta, e está também em cinosura, a cauda do cão, antigo apelido grego da Ursa Menor.
O naturalista romano que mais escreveu sobre animais registrou o mesmo hábito que o nome grego descreve. Plínio, o Velho, conta que o esquilo sabe se proteger do tempo e usa o rabo como abrigo.
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Os esquilos pressentem a tempestade e fecham a toca pelo lado de onde o vento vai soprar; a cauda, mais peluda que o resto, lhes serve de cobertura.
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Plínio, o Velho, História Natural, 77
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O latim tomou a palavra grega emprestada e a escreveu sciurus. Na fala do povo, porém, ninguém dizia sciurus. Os romanos comuns gostavam de diminutivos (formas que acrescentam a ideia de pequeno ou de carinho), e o bicho virou scuriolus, algo como esquilinho. Foi essa forma de rua, e não a erudita, que sobreviveu.
Do scuriolus saiu o francês antigo escurel, que se tornou écureuil. O normando levou a palavra para a Inglaterra, onde ela chegou como esquirel no século XIV e se reduziu a squirrel. O português ganhou o e de apoio que a língua põe antes de todo sc inicial, como em escola e escudo, e fechou em esquilo.
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O esquilo não ganhou nome pelo que come nem pelo lugar onde mora. Ganhou pelo que faz com a cauda quando o sol aperta.
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A imagem grega tem base no comportamento real. Biólogos que estudam o esquilo-terrestre do Cabo, espécie do deserto do Kalahari, na África austral, descrevem o animal erguendo a cauda aberta como guarda-sol enquanto procura comida nas horas mais quentes. Quem inventou a palavra skíouros ficou sem registro, porque ela já aparece pronta nos autores gregos, sem nenhuma explicação ao lado, mas a cena que ela guarda pode ser vista em qualquer praça com árvores.
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II A Viagem
Dois cães no mesmo idioma
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O cão do grego antigo era kýon. A palavra rendeu kynikós, que quer dizer canino, próprio de cão, e é dela que vem cínico. O apelido grudou em Diógenes de Sinope, filósofo do século IV a.C. que dormia num grande jarro de barro em Atenas, comia em público e desprezava as convenções. Os atenienses o chamavam de cão, e ele aceitou o insulto como programa de vida.
Kýon não sumiu da língua, mas saiu da conversa. Para falar do bicho no dia a dia, os gregos passaram a usar outra palavra, skýlax, que nos textos antigos designava o filhote de cão, e por extensão a cria de outros animais. A troca aconteceu devagar, pelos séculos do grego bizantino, até que o filhote tomou o lugar do adulto.
Homero já usava skýlax no sentido de cachorrinho recém-nascido. Na Odisseia, ao descrever o monstro Cila, que vigiava um estreito de mar, o poeta compara a voz dela ao ganido de um filhote.
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A voz dela não é maior que a de um cachorrinho recém-nascido, mas ela própria é um monstro terrível.
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Homero, Odisseia, canto XII, século VIII a.C.
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De skýlax nasceram as formas modernas skýlos e skylí, as duas usadas hoje na Grécia para qualquer cão, filhote ou velho. O kýon clássico ficou reservado aos compostos eruditos e aos termos técnicos, como a palavra kynologia, a ciência que estuda raças de cães, que o português importou como cinologia.
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A palavra do filhote cresceu e virou a palavra do cão adulto. O grego fez com o cachorro a mesma operação que o português fez.
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O português tem um caso gêmeo em casa. Cachorro, nos textos antigos da península, nomeava a cria de vários animais, do cão ao leão e ao lobo, e no espanhol da Espanha ainda hoje cachorro pode ser o filhote de qualquer mamífero. No Brasil, a palavra da cria engoliu o adulto, e cão ficou para a linguagem mais formal ou para os ditados.
As duas línguas seguiram o mesmo caminho por conta própria. Palavras de carinho, usadas com animais pequenos que moram dentro de casa, têm mais uso diário do que palavras técnicas, e o uso diário decide qual forma sobrevive. O kýon de Diógenes e o cão do português culto guardaram o prestígio. O skýlos e o cachorro ficaram com a rua.
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