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Encosto
/ẽ.ˈkos.tu/
Do latim costa, a costela e o flanco: a palavra que pôs as costas na cadeira
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O encosto, a costela que virou móvel
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Nasceu do comentário
“Uma palavra me incitou a pensar tanto em qual objeto traz o objetivo de dar apoio a uma parte do nosso corpo. Não consegui encontrar, ainda.”
Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 27/08, na edição Almofada.
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O dicionário Houaiss define encosto como a "parte de um assento em que se apoiam as costas". A definição acerta na cadeira e esconde o corpo que mora dentro da palavra. Encosto tem costas no meio, e as costas, antes de virarem costas, eram uma costela.
Em 27 de agosto, um leitor desta casa tinha acabado de descobrir que almofada vem do árabe khadd (bochecha), porque é nela que se deita o rosto. Gostou tanto que saiu pela casa procurando outro objeto batizado pela parte do corpo que ele apoia. No comentário que deixou, contou que ainda não tinha achado nenhum.
Ele estava sentado em cima da resposta. A cadeira em que se lê um email tem encosto, e encosto é o móvel dizendo, em português, onde vão as costas. Se a cadeira for antiga, de igreja ou de sala de jantar, o encosto alto ganha outro nome, espaldar, e o espaldar leva outro pedaço do corpo escondido. A cama tem cabeceira. A janela tem peitoril.
O leitor procurava um exemplo, e a língua guardava uma coleção. O português aprendeu cedo a batizar a mobília pelo corpo que ela recebe, e fez o mesmo com o mar, com o morro e com a beira da estrada, que não apoiam corpo nenhum e mesmo assim carregam o nome de uma costela.
A palavra também não ficou parada dentro de casa. O verbo que ela gerou sai à rua todos os dias: o motorista encosta o carro, a mãe encosta a porta do quarto, o colega fica encostado no emprego, e a vizinha desconfia de um encosto quando a semana pesa demais.
O caminho começa num osso. Para entender por que a costela virou as costas, e as costas viraram a cadeira, é preciso voltar ao latim falado em Roma e ao verbo que o português montou em cima dele.
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I A Raiz
A costela que virou costas
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Encosto nasce do latim costa. Para os romanos, costa era a costela, cada um dos ossos curvos que fecham o peito, e por extensão o lado do corpo, o flanco que as costelas protegem. Aulo Cornélio Celso, que escreveu o tratado De Medicina no século I, chama as costelas de costae.
O português herdou a palavra e a dividiu em duas. Costela saiu do diminutivo costella (a pequena costa) e ficou com o osso. Costa ficou com o lado, e no plural, as costas, passou a nomear a parte de trás do tronco inteiro, onde as costelas se juntam à coluna.
A troca de sentido tem lógica de anatomia. Quem apalpa as próprias costas sente as costelas por baixo da pele, e o plural juntou os ossos num lugar só. Dizer que alguém tem costas largas, na origem, é dizer que tem muita costela.
Encostar veio depois, montado com o prefixo en- (pôr em, colocar sobre). Encostar é pôr as costas em algo: na parede, no batente, no ombro de alguém. O filólogo português José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de 1952, deriva o verbo de costa, e o encosto é o lugar onde esse gesto acontece.
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Encosto é um gesto que virou objeto: o móvel guarda o nome do movimento de quem senta.
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O mesmo flanco saiu do corpo e foi parar na geografia. Para um navegador, a costa é o lado da terra que se vê do barco, o flanco do continente. Encosta é o flanco do morro, a parte inclinada do terreno. O costado é o lado do navio, e acostar, na linguagem do porto, é encostar o costado no cais.
A estrada também ganhou costela. Acostamento, a faixa à direita da pista, vem do mesmo acostar: é o lugar onde o carro se encosta na lateral da rodovia para sair do fluxo. O Código de Trânsito Brasileiro, de 1997, define o acostamento como a parte da via reservada à parada de emergência, à margem da pista de rolamento. A lei trocou a costela pelo asfalto e manteve o verbo do navio.
Nenhum desses lugares tem osso. O mar, o morro e a estrada receberam um nome de anatomia porque alguém olhou para eles como quem olha um corpo deitado, com frente, costas e lados.
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II A Viagem
Os móveis com nome de corpo
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A cadeira é o móvel mais anatômico da casa. Tem assento, braços, pés e encosto, e cada peça recebeu o nome da parte do corpo que sustenta ou imita. O encosto recebe as costas, os braços recebem os braços, os pés tocam o chão como os nossos.
Quando o encosto sobe e fica alto, rígido, de madeira entalhada, ganha outro nome: espaldar. A palavra chegou pelo espanhol espalda (as costas, os ombros), que vem do latim spatula, a pequena pá. No latim tardio, spatula passou a nomear a omoplata (o osso achatado do ombro), por causa do formato de pá.
O mesmo osso deu espádua, que o português usa para o ombro, e espátula, que voltou a ser pá na cozinha e no ateliê. O espaldar da cadeira de igreja é o lugar onde se apoiam os ombros, e a barra de ginástica presa na parede, também chamada espaldar, foi feita para as costas de quem se alonga.
A cama resolveu o problema pela cabeça. Cabeceira é a peça da cama onde fica a cabeça de quem dorme, e o nome sai de cabeça com o sufixo -eira (o lugar de). O mesmo sufixo nomeia a cabeceira da mesa, onde senta quem preside, e a cabeceira do rio, onde ele nasce.
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A língua não inventou nomes para os móveis: emprestou o corpo de quem ia usá-los.
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A janela entrou na lista pelo peito. Peitoril é a borda de baixo da janela, na altura em que uma pessoa em pé apoia o peito para olhar a rua. Parapeito, a mureta das varandas e das pontes, veio do italiano parapetto, o que protege o peito.
Na lista entram ainda a joelheira, a cotoveleira, a ombreira e a tornozeleira, que se prendem ao corpo e levam o nome do lugar que protegem. O leitor que buscava um parente da almofada tinha meia dúzia deles dentro de casa, e o mais provável estava atrás dele enquanto escrevia.
A almofada segue o mesmo caminho por outra língua. Em árabe, khadd é a bochecha, e al-mukhadda era o lugar onde se deita a bochecha. O espanhol ficou com almohada, o português com almofada, e o objeto seguiu nomeado pelo rosto que recebe.
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