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A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 142

Divã

/di.ˈvɐ̃/

Do persa. dīvān era o registro escrito e depois a sala onde o conselho otomano sentava em bancos rentes à parede, e o nome da sala desceu pro móvel do consultório

Etimologia de Divã

A sala do conselho otomano sob a abóbada

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No palácio de Topkapı, em Istambul, existe uma sala pequena de cúpula baixa que os turcos chamam de Kubbealtı, o lugar sob a abóbada. Ali o grão-vizir e os demais vizires se reuniam em dias marcados da semana para ouvir petições de camponeses, distribuir cargos, arbitrar disputas de província e decidir se haveria campanha militar na primavera seguinte.

O mobiliário da sala diz quase tudo sobre como aquele governo funcionava. Não havia mesa comprida no meio, não havia cadeira de espaldar alto, não havia cabeceira. Havia um banco estofado que corria rente às paredes, coberto de tapete e de almofada, e os homens que mandavam num império de três continentes decidiam sentados de pernas cruzadas nesse banco, com escrivães agachados no chão anotando cada despacho.

Acima do assento do grão-vizir havia uma janela gradeada com treliça dourada. Atrás dela o sultão podia estar escutando, e ninguém na sala sabia se ele estava ou não. A arquitetura inteira daquele cômodo foi desenhada para que o poder fosse ouvido sem ser visto, e a palavra que nomeava a reunião nomeava também o cômodo, o corpo de conselheiros e o banco onde eles sentavam.

Três séculos depois e a dois mil quilômetros de distância, numa rua tranquila de Viena, um médico de barba curta recebia pacientes num consultório entulhado de estatuetas egípcias. Encostado na parede havia um móvel baixo coberto por um tapete iraniano de lã grossa, e sobre ele o paciente se deitava para falar de sonho, de infância e de desejo enquanto o médico permanecia fora do campo de visão.

Ninguém em Viena tinha ido a Topkapı, ninguém ali falava turco ou persa, e mesmo assim aquele móvel carregava o nome exato do banco do conselho otomano. A palavra atravessou a Ásia, a burocracia islâmica, a diplomacia veneziana e a moda de salão parisiense antes de chegar ao português para nomear o lugar onde brasileiro deita para falar de si.

A Raiz começa muito antes de qualquer móvel, num caderno de contas manuseado por escriba, num tempo em que a palavra ainda não tinha assento nenhum.

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I  A Raiz

O caderno antes do móvel

O ponto de partida documentado fica no persa médio, a língua do império sassânida, onde a forma dēwān nomeava algo bem pouco confortável: um conjunto de folhas escritas guardadas juntas, um arquivo, um registro. Nada de sala, nada de assento, nada de conselho. A palavra era um objeto de papel e couro, e sua função era guardar informação que o Estado não podia esquecer.

A raiz por trás dela puxa para o próprio ato de escrever. Os estudiosos ligam dēwān ao elemento antigo dip ou dib, escrita, documento, o mesmo que aparece no persa antigo dipi das inscrições reais de Dario, termo que os persas tinham tomado emprestado das burocracias da Mesopotâmia, de onde vinha a tradição de anotar imposto em tabuleta de argila.

A genealogia explica o resto. A palavra nasce colada à contabilidade do poder, à lista de quem deve o que a quem, e todos os sentidos posteriores seguem a lógica administrativa embutida na origem.

Antes de significar assento, a palavra significava papel. Toda a carreira do termo é a história de um documento que foi ganhando móveis em volta.

O salto seguinte veio com a expansão islâmica. Ao organizar a administração do califado no século sete, os árabes adotaram a palavra na forma dīwān e a aplicaram ao registro fiscal e militar, a lista dos soldados que recebiam pensão do Estado, a folha de pagamento do exército da conquista. O registro cresceu, ganhou funcionários encarregados de mantê-lo, e a palavra escorregou do caderno para a repartição que cuidava do caderno.

Uma vez que a palavra passou a nomear a repartição, o caminho ficou aberto para nomear também a sala em que a repartição trabalhava, depois o corpo de homens que se reunia naquela sala, e por fim o assento em que os homens se acomodavam durante a reunião. Cada etapa é um deslize curtíssimo de sentido, do tipo que a língua faz sem pedir licença.

Divan, do turco divan, tomado ao persa dīvān, registro, depois conselho de Estado e, por extensão, a sala e o assento em que ele se reunia.

Alain Rey, Dictionnaire historique de la langue française, 1992

Há um ramo lateral que costuma surpreender quem esbarra nele. Como o dīwān também era a coleção organizada de folhas, a palavra passou a nomear a obra reunida de um poeta, o volume que junta toda a produção de um autor em ordem alfabética de rima. O Divã de Hafez, compilado na Pérsia do século quatorze, é uma das obras mais lidas em língua persa até hoje, e o nome do livro é o mesmo nome da repartição de impostos.

O caso mostra como uma palavra de burocracia vira palavra de poesia sem trocar de forma. O que une o arquivo fiscal e o livro de poemas é a ideia de folhas reunidas com método, e o contexto resolve a ambiguidade sozinho.

 
 

II  A Viagem

Da alfândega otomana ao salão francês

Foi o turco otomano que empurrou a palavra para dentro da Europa. O conselho de governo do sultão se chamava Divan-ı Hümayun, o Divã Imperial, e era a instância mais alta do império, onde o grão-vizir despachava em nome do soberano diante de embaixadores, requerentes e escrivães.

Diplomatas venezianos, genoveses e franceses passaram décadas negociando naquela sala e voltaram para casa contando o que tinham visto. Nos relatos do século dezesseis a palavra divano aparece em italiano com o sentido de conselho turco, uma instituição estrangeira que o leitor europeu conhecia de ouvir falar, do mesmo jeito que conhecia o sultão e o janízaro.

Junto do relato veio o detalhe do mobiliário, porque a sala impressionava pela ausência de cadeira. O europeu acostumado a banco alto de madeira achava exótico o arranjo de assentos baixos cobertos de almofada rente à parede, e passou a chamar o móvel pelo nome da sala onde o encontrou.

A palavra chegou ao Ocidente como notícia de política estrangeira e ficou como item de decoração.

No século dezoito a Europa entrou numa febre de gosto oriental, com biombo, quimono, tapete e cachimbo virando marca de sofisticação nos salões de Paris e de Londres. O móvel baixo e estofado, sem braço e sem espaldar, encaixou perfeitamente naquela moda e se espalhou pelas casas ricas com o nome turco a tiracolo, agora significando apenas o assento, sem qualquer memória do conselho.

O português recebeu a palavra por essa porta francesa e a adaptou à própria fonética, trocando o final nasal por ã e fixando a grafia divã, com acento no fim, plural divãs. A forma diva sem acento, homógrafa da cantora, nunca vingou, e o til acabou virando a assinatura visual do empréstimo.

Divã, do fr. divan, este do turco divan, e este do persa dīvān, sala de reuniões do conselho de Estado; móvel para repouso, espécie de sofá sem braços nem encosto.

Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982

A mesma raiz produziu um parente que quase ninguém reconhece na rua. O dīwān enquanto repartição alfandegária, o posto onde se registrava mercadoria e se cobrava taxa de entrada, virou dogana em italiano, douane em francês e aduana em espanhol e em português, palavra que continua estampada em placa de porto e de aeroporto.

Duas palavras nossas, portanto, descendem do mesmo caderno persa e ocupam extremos opostos da vida. Uma nomeia o balcão em que um fiscal abre a mala do viajante e a outra nomeia o móvel em que uma pessoa se deita para relaxar, e as duas guardam, no fundo, a lembrança de um registro escrito e da sala em que ele era guardado.

A literatura alemã acrescentou outro fio à trama. Em 1819 saiu na Alemanha uma coleção de poemas inspirada na poesia persa, intitulada Divã do Ocidente e do Oriente, escolha que devolvia à palavra o sentido antigo de livro reunido justo quando o resto da Europa já a usava só para móvel de sala.

 
 

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III  O Que Fica

O móvel que herdou a sala

O empurrão final para o uso brasileiro veio do consultório. Em 1890 uma paciente agradecida presenteou o médico vienense com um móvel baixo daquele tipo, que foi coberto com um tapete persa de tribo nômade e ficou encostado na parede do consultório da rua Berggasse durante quase cinquenta anos, atravessando a fundação inteira da psicanálise.

A escolha de deitar o paciente tinha razão técnica declarada. Livre do rosto do interlocutor, o falante se solta, associa com menos censura e não fica ajustando o próprio relato à reação que lê na expressão do outro, enquanto o analista, fora do campo de visão, escuta sem ser lido.

Insisto em fazer o doente deitar num sofá enquanto me sento atrás dele, fora do seu campo visual.

Sigmund Freud, Ratschläge für den Arzt bei der psychoanalytischen Behandlung, 1912

Foi assim que um móvel de salão virou instrumento clínico e depois símbolo cultural. Cinema, charge e piada de novela fixaram a imagem do paciente deitado e do analista de caderneta atrás, e a palavra ganhou em português um sentido figurado que nenhum dicionário persa previa.

Levar alguém pro divã deixou de significar mobília e passou a significar exame minucioso de motivo escondido.

O uso metafórico hoje é mais comum que o literal. Colocar um time no divã, colocar a economia no divã, colocar um personagem no divã: em nenhum desses casos existe móvel envolvido, e a expressão pede a análise demorada do que está por baixo do comportamento visível.

A trajetória inteira cabe numa fila curta de sentidos, e vale enfileirar. Folha escrita, arquivo, repartição fiscal, sala da repartição, conselho que se reúne na sala, banco encostado na parede da sala, móvel europeu inspirado no banco, móvel do consultório e, por fim, procedimento de investigação psicológica sem móvel nenhum.

Nenhum desses saltos foi grande. Cada um é uma metonímia comum, do tipo que fazemos ao chamar o prato pelo ingrediente ou o time pela cidade, e a distância entre a primeira e a última acepção só impressiona porque a corrente aparece inteira de uma vez.

O que a palavra carrega até hoje é a ideia de um lugar onde se examina caso por caso. O vizir em Topkapı ouvia a petição do camponês e decidia, o analista em Viena ouvia o sonho do paciente e interpretava, e nos dois cenários alguém num banco encostado na parede era pesado com atenção.

Quantos móveis da sua casa carregam o nome de uma sala de governo que deixou de existir?

 
 
 
 
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Segundo o texto, no persa médio (sassânida), o que a palavra dēwān designava originalmente?

AA sala onde o conselho otomano se reunia
BUm conjunto de folhas escritas guardadas juntas, um arquivo
CO assento coberto de almofada dos vizires
DO corpo de conselheiros do sultão

Resultado da última edição: 57% acertaram.

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