|
|
Divã
/di.ˈvɐ̃/
Do persa. dīvān era o registro escrito e depois a sala onde o conselho otomano sentava em bancos rentes à parede, e o nome da sala desceu pro móvel do consultório
|
A sala do conselho otomano sob a abóbada
|
| ▼ |
|
No palácio de Topkapı, em Istambul, existe uma sala pequena de cúpula baixa que os turcos chamam de Kubbealtı, o lugar sob a abóbada. Ali o grão-vizir e os demais vizires se reuniam em dias marcados da semana para ouvir petições de camponeses, distribuir cargos, arbitrar disputas de província e decidir se haveria campanha militar na primavera seguinte.
O mobiliário da sala diz quase tudo sobre como aquele governo funcionava. Não havia mesa comprida no meio, não havia cadeira de espaldar alto, não havia cabeceira. Havia um banco estofado que corria rente às paredes, coberto de tapete e de almofada, e os homens que mandavam num império de três continentes decidiam sentados de pernas cruzadas nesse banco, com escrivães agachados no chão anotando cada despacho.
Acima do assento do grão-vizir havia uma janela gradeada com treliça dourada. Atrás dela o sultão podia estar escutando, e ninguém na sala sabia se ele estava ou não. A arquitetura inteira daquele cômodo foi desenhada para que o poder fosse ouvido sem ser visto, e a palavra que nomeava a reunião nomeava também o cômodo, o corpo de conselheiros e o banco onde eles sentavam.
Três séculos depois e a dois mil quilômetros de distância, numa rua tranquila de Viena, um médico de barba curta recebia pacientes num consultório entulhado de estatuetas egípcias. Encostado na parede havia um móvel baixo coberto por um tapete iraniano de lã grossa, e sobre ele o paciente se deitava para falar de sonho, de infância e de desejo enquanto o médico permanecia fora do campo de visão.
Ninguém em Viena tinha ido a Topkapı, ninguém ali falava turco ou persa, e mesmo assim aquele móvel carregava o nome exato do banco do conselho otomano. A palavra atravessou a Ásia, a burocracia islâmica, a diplomacia veneziana e a moda de salão parisiense antes de chegar ao português para nomear o lugar onde brasileiro deita para falar de si.
A Raiz começa muito antes de qualquer móvel, num caderno de contas manuseado por escriba, num tempo em que a palavra ainda não tinha assento nenhum.
Continue lendo ↓
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
O caderno antes do móvel
|
|
O ponto de partida documentado fica no persa médio, a língua do império sassânida, onde a forma dēwān nomeava algo bem pouco confortável: um conjunto de folhas escritas guardadas juntas, um arquivo, um registro. Nada de sala, nada de assento, nada de conselho. A palavra era um objeto de papel e couro, e sua função era guardar informação que o Estado não podia esquecer.
A raiz por trás dela puxa para o próprio ato de escrever. Os estudiosos ligam dēwān ao elemento antigo dip ou dib, escrita, documento, o mesmo que aparece no persa antigo dipi das inscrições reais de Dario, termo que os persas tinham tomado emprestado das burocracias da Mesopotâmia, de onde vinha a tradição de anotar imposto em tabuleta de argila.
A genealogia explica o resto. A palavra nasce colada à contabilidade do poder, à lista de quem deve o que a quem, e todos os sentidos posteriores seguem a lógica administrativa embutida na origem.
|
Antes de significar assento, a palavra significava papel. Toda a carreira do termo é a história de um documento que foi ganhando móveis em volta.
|
O salto seguinte veio com a expansão islâmica. Ao organizar a administração do califado no século sete, os árabes adotaram a palavra na forma dīwān e a aplicaram ao registro fiscal e militar, a lista dos soldados que recebiam pensão do Estado, a folha de pagamento do exército da conquista. O registro cresceu, ganhou funcionários encarregados de mantê-lo, e a palavra escorregou do caderno para a repartição que cuidava do caderno.
Uma vez que a palavra passou a nomear a repartição, o caminho ficou aberto para nomear também a sala em que a repartição trabalhava, depois o corpo de homens que se reunia naquela sala, e por fim o assento em que os homens se acomodavam durante a reunião. Cada etapa é um deslize curtíssimo de sentido, do tipo que a língua faz sem pedir licença.
|
Divan, do turco divan, tomado ao persa dīvān, registro, depois conselho de Estado e, por extensão, a sala e o assento em que ele se reunia.
Alain Rey, Dictionnaire historique de la langue française, 1992
|
Há um ramo lateral que costuma surpreender quem esbarra nele. Como o dīwān também era a coleção organizada de folhas, a palavra passou a nomear a obra reunida de um poeta, o volume que junta toda a produção de um autor em ordem alfabética de rima. O Divã de Hafez, compilado na Pérsia do século quatorze, é uma das obras mais lidas em língua persa até hoje, e o nome do livro é o mesmo nome da repartição de impostos.
O caso mostra como uma palavra de burocracia vira palavra de poesia sem trocar de forma. O que une o arquivo fiscal e o livro de poemas é a ideia de folhas reunidas com método, e o contexto resolve a ambiguidade sozinho.
|
|
II A Viagem
Da alfândega otomana ao salão francês
|
|
Foi o turco otomano que empurrou a palavra para dentro da Europa. O conselho de governo do sultão se chamava Divan-ı Hümayun, o Divã Imperial, e era a instância mais alta do império, onde o grão-vizir despachava em nome do soberano diante de embaixadores, requerentes e escrivães.
Diplomatas venezianos, genoveses e franceses passaram décadas negociando naquela sala e voltaram para casa contando o que tinham visto. Nos relatos do século dezesseis a palavra divano aparece em italiano com o sentido de conselho turco, uma instituição estrangeira que o leitor europeu conhecia de ouvir falar, do mesmo jeito que conhecia o sultão e o janízaro.
Junto do relato veio o detalhe do mobiliário, porque a sala impressionava pela ausência de cadeira. O europeu acostumado a banco alto de madeira achava exótico o arranjo de assentos baixos cobertos de almofada rente à parede, e passou a chamar o móvel pelo nome da sala onde o encontrou.
|
A palavra chegou ao Ocidente como notícia de política estrangeira e ficou como item de decoração.
|
No século dezoito a Europa entrou numa febre de gosto oriental, com biombo, quimono, tapete e cachimbo virando marca de sofisticação nos salões de Paris e de Londres. O móvel baixo e estofado, sem braço e sem espaldar, encaixou perfeitamente naquela moda e se espalhou pelas casas ricas com o nome turco a tiracolo, agora significando apenas o assento, sem qualquer memória do conselho.
O português recebeu a palavra por essa porta francesa e a adaptou à própria fonética, trocando o final nasal por ã e fixando a grafia divã, com acento no fim, plural divãs. A forma diva sem acento, homógrafa da cantora, nunca vingou, e o til acabou virando a assinatura visual do empréstimo.
|
Divã, do fr. divan, este do turco divan, e este do persa dīvān, sala de reuniões do conselho de Estado; móvel para repouso, espécie de sofá sem braços nem encosto.
Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982
|
A mesma raiz produziu um parente que quase ninguém reconhece na rua. O dīwān enquanto repartição alfandegária, o posto onde se registrava mercadoria e se cobrava taxa de entrada, virou dogana em italiano, douane em francês e aduana em espanhol e em português, palavra que continua estampada em placa de porto e de aeroporto.
Duas palavras nossas, portanto, descendem do mesmo caderno persa e ocupam extremos opostos da vida. Uma nomeia o balcão em que um fiscal abre a mala do viajante e a outra nomeia o móvel em que uma pessoa se deita para relaxar, e as duas guardam, no fundo, a lembrança de um registro escrito e da sala em que ele era guardado.
A literatura alemã acrescentou outro fio à trama. Em 1819 saiu na Alemanha uma coleção de poemas inspirada na poesia persa, intitulada Divã do Ocidente e do Oriente, escolha que devolvia à palavra o sentido antigo de livro reunido justo quando o resto da Europa já a usava só para móvel de sala.
|
|