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O português de hoje usa crise para quase tudo: crise de choro, crise hídrica, crise conjugal, crise de meia-idade. Em todas, a palavra marca o susto, e quase nunca o desfecho.
O sentido antigo sobrevive em poucos cantos. Na medicina, ainda se diz que o paciente está em estado crítico, que é o estado de quem aguarda a decisão. Na engenharia, ponto crítico continua sendo o lugar em que uma estrutura cede ou aguenta.
Foi para recuperar o lado bom da palavra que o mundo dos negócios adotou uma explicação vinda da China. Em abril de 1959, num discurso em Indianápolis, o senador John F. Kennedy disse que a palavra chinesa para crise se escreve com dois caracteres, um para perigo e outro para oportunidade.
A frase correu palestras e livros de autoajuda por décadas. O sinólogo Victor Mair, professor da Universidade da Pensilvânia, desmontou a explicação num ensaio publicado no site Pinyin.info: a palavra chinesa wēijī (crise) junta wēi (perigo) e jī, que nesse composto quer dizer ponto decisivo, e não oportunidade.
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Lido certo, o chinês concorda com o grego: crise é a hora em que a balança pende.
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O curioso é que o erro de Kennedy afastou o chinês do sentido que ele de fato tem. Wēijī é a fase perigosa em que tudo se decide, a mesma ideia do médico de Tasos contando os dias da febre.
Mair não negou que a crise possa abrir caminho para algo melhor. Negou só que o ideograma diga a frase, e lembrou que quem está em perigo precisa, antes de tudo, de juízo para decidir o passo seguinte.
Reler a palavra com o sentido antigo muda a pergunta que se faz diante dela. Em vez de medir o tamanho do estrago, o grego queria saber que lado ia vencer e em que dia.
Quem quiser testar a palavra no uso diário pode seguir três passos.
1. Na próxima manchete com crise, pergunte qual decisão está pendente e quem vai tomá-la.
2. Procure crise, critério e crivo num dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e veja a raiz de peneirar em cada verbete.
3. Repare quando alguém disser estado crítico: a expressão ainda guarda o sentido de Hipócrates, a espera pelo dia que decide.
Responda este email contando qual crise da sua vida, olhando de hoje, foi, no fundo, uma decisão.
“Qual foi o dia em que a sua última crise se decidiu?”
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