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Crise

/ˈkɾi.zi/

Do grego krisis: a palavra nomeava o dia em que a doença se decidia, e não o desastre

Leito de doente na Grécia antiga com tábua de anotações médicas

Tasos, século 5 a.C.: o médico conta os dias da febre

▼

O Dicionário Houaiss resume a acepção mais usada assim: “crise: situação grave, momento difícil”. A definição descreve o estrago e esquece o verbo. Na origem grega, crise não era o desastre: era a hora de decidir.

Na ilha de Tasos, no norte do mar Egeu, por volta de 410 a.C., um médico anotava doentes de cama em cama. As fichas sobreviveram no livro Epidemias, parte da coleção de textos ligada à escola de Hipócrates.

As anotações são secas. Nome do doente, rua onde morava, dia da febre, cor da urina, se dormiu ou não. Um paciente chamado Filisco, que morava junto ao muro da cidade, caiu de cama com febre alta e não passou do sexto dia.

O médico não registrava só o que via. Contava os dias. Para ele, toda doença aguda caminhava até um ponto em que tomava partido: ou a febre cedia de vez, com suor, sangramento pelo nariz ou urina farta, ou o corpo entregava os pontos.

Esse ponto tinha nome. Os gregos o chamavam de krisis (decisão, julgamento), a mesma palavra que usavam para a sentença de um tribunal. A doença ia a julgamento, e o médico esperava o resultado contando nos dedos.

Os dias também tinham fama. Os textos hipocráticos apontam o quarto, o sétimo, o décimo primeiro, o décimo quarto e o décimo sétimo como os dias em que a decisão costumava chegar. Uma febre que cedia fora deles era suspeita: podia voltar.

Nada nesse vocabulário falava em catástrofe. A crise podia ser a melhor notícia da semana, o dia em que o doente suava, dormia e acordava com fome.

Para entender por que um médico pegou emprestada a palavra do juiz, é preciso voltar ao verbo que está por baixo dela, um verbo de agricultor.

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I  A Raiz

O verbo de peneirar o trigo

Hipócrates de Cós, médico grego nascido por volta de 460 a.C., é o nome que a tradição pôs na capa de cerca de sessenta tratados escritos por vários médicos. Neles, krisis aparece como termo de trabalho, e a palavra já chegava pronta: vinha do verbo krínein (separar, escolher, peneirar).

O agricultor que separava o grão da palha fazia krínein. O juiz que separava o culpado do inocente fazia a mesma operação com gente. Daí krisis ganhou, em Atenas, o sentido de julgamento, e kritḗs (juiz) virou a palavra para quem decide.

O médico só ampliou a imagem. No livro Prognóstico, o autor ensina a prever pelo número de dias se a doença vai se resolver, e a crise é o ponto em que a febre se separa do doente, para um lado ou para o outro.

A crise grega era um corte: o dia em que a doença deixava de ser dúvida.

A família da palavra cresceu no grego. Kritḗrion (meio de julgar) deu critério. Kritikós (capaz de julgar) deu crítico, palavra que no português serve tanto ao estado do paciente quanto ao resenhista de livros.

Hypokritḗs (ator, o que responde em cena) também é parente. No teatro de Atenas, era quem interpretava o texto diante do público. Os cristãos usaram a palavra para quem finge virtude, e o português herdou hipócrita.

A raiz é mais velha que o grego. Os linguistas reconstroem *krei- (peneirar, separar) no indo-europeu, a língua deduzida que deu origem ao grego, ao latim e ao sânscrito. No latim, a mesma raiz virou cernere (separar, distinguir).

De cernere sai uma fileira que o falante de português usa sem suspeitar do parentesco: discernir, decreto, certo, secreto e excremento. Decreto é o que se separa e se fixa; certo é o que já passou pela peneira; secreto é o que foi posto à parte; excremento é o que o corpo separa e põe para fora.

O crivo, a peneira de furos largos, vem do latim cribrum, ligado à mesma raiz. Quem passa uma ideia pelo crivo repete, sem saber, o gesto que deu nome à crise.

O português ainda guarda um eco do verbo grego no prefixo de outra palavra. Hipercrítico é quem julga além da conta, e diacrítico (sinal que separa) é o nome que a gramática dá ao acento e ao til, marcas que distinguem uma letra da outra.

 
 

II  A Viagem

Do leito de Galeno ao balcão do banco

Seis séculos depois de Hipócrates, o médico Galeno de Pérgamo, que atendeu gladiadores e imperadores em Roma, escreveu um tratado inteiro sobre o assunto. O título latino da obra é De diebus decretoriis (Sobre os dias decisivos).

Galeno ligou os dias críticos à Lua. Para ele, o ciclo lunar marcava o compasso do corpo, e o sétimo dia pesava por ser um quarto do mês lunar. A teoria entrou nas escolas de medicina medievais e ficou lá por mais de mil anos.

O latim recebeu crisis do grego sem tradução, como termo técnico. Pelo latim dos médicos, a palavra chegou ao francês crise, registrada em textos de medicina do século 15, e dali ao português.

Durante séculos, o sentido ficou no quarto do doente. Um médico português do século 18 que escrevesse crise falava do dia em que a febre se decidia, sem nenhum tom de tragédia.

A mudança de rumo veio pela política. Em dezembro de 1776, com o exército americano em retirada, o panfletista Thomas Paine publicou The American Crisis (A Crise Americana) e abriu com uma frase que George Washington mandou ler às tropas: “Estes são os tempos que põem à prova a alma dos homens.”

Paine escreveu crise no sentido de Hipócrates: o país estava de cama, à espera do dia que decidiria a febre.

O panfleto não falava de ruína. A guerra estava num ponto em que se decidia, e o texto pedia ao leitor que escolhesse de que lado ficaria quando a decisão chegasse.

O historiador alemão Reinhart Koselleck seguiu a trilha da palavra no verbete Krise, publicado em 1982 no dicionário Geschichtliche Grundbegriffe (Conceitos Históricos Fundamentais). Ele mostrou que, no século 19, crise deixou o leito e foi morar na economia.

A causa foi o pânico bancário. A quebra de Londres em 1825 e as que vieram nas décadas seguintes ganharam o nome de crises comerciais, e os economistas começaram a tratá-las como uma doença que voltava em ciclos.

Karl Marx levou a imagem ao centro da teoria: para ele, a crise fazia parte do funcionamento do capitalismo, e não era acidente. Nesse percurso, o dia da decisão foi se esticando até virar estado, uma crise que dura anos, situação que um médico grego não reconheceria.

No jornal brasileiro do século 19, a palavra já circulava nesse sentido novo. Crise do café, crise do açúcar, crise ministerial: o termo servia para qualquer impasse que travasse o comércio ou o governo, e o leitor entendia sem explicação.

 

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III  O Que Fica

O ideograma que nunca disse oportunidade

O português de hoje usa crise para quase tudo: crise de choro, crise hídrica, crise conjugal, crise de meia-idade. Em todas, a palavra marca o susto, e quase nunca o desfecho.

O sentido antigo sobrevive em poucos cantos. Na medicina, ainda se diz que o paciente está em estado crítico, que é o estado de quem aguarda a decisão. Na engenharia, ponto crítico continua sendo o lugar em que uma estrutura cede ou aguenta.

Foi para recuperar o lado bom da palavra que o mundo dos negócios adotou uma explicação vinda da China. Em abril de 1959, num discurso em Indianápolis, o senador John F. Kennedy disse que a palavra chinesa para crise se escreve com dois caracteres, um para perigo e outro para oportunidade.

A frase correu palestras e livros de autoajuda por décadas. O sinólogo Victor Mair, professor da Universidade da Pensilvânia, desmontou a explicação num ensaio publicado no site Pinyin.info: a palavra chinesa wēijī (crise) junta wēi (perigo) e jī, que nesse composto quer dizer ponto decisivo, e não oportunidade.

Lido certo, o chinês concorda com o grego: crise é a hora em que a balança pende.

O curioso é que o erro de Kennedy afastou o chinês do sentido que ele de fato tem. Wēijī é a fase perigosa em que tudo se decide, a mesma ideia do médico de Tasos contando os dias da febre.

Mair não negou que a crise possa abrir caminho para algo melhor. Negou só que o ideograma diga a frase, e lembrou que quem está em perigo precisa, antes de tudo, de juízo para decidir o passo seguinte.

Reler a palavra com o sentido antigo muda a pergunta que se faz diante dela. Em vez de medir o tamanho do estrago, o grego queria saber que lado ia vencer e em que dia.

Quem quiser testar a palavra no uso diário pode seguir três passos.

1. Na próxima manchete com crise, pergunte qual decisão está pendente e quem vai tomá-la.

2. Procure crise, critério e crivo num dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e veja a raiz de peneirar em cada verbete.

3. Repare quando alguém disser estado crítico: a expressão ainda guarda o sentido de Hipócrates, a espera pelo dia que decide.

Responda este email contando qual crise da sua vida, olhando de hoje, foi, no fundo, uma decisão.

“Qual foi o dia em que a sua última crise se decidiu?”

 
 
 
 
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Quiz da edição

Nos textos hipocráticos, o que a palavra krisis designava?

AO pior momento da doença, sem volta
BO remédio final dado ao paciente
CO dia em que a doença se decidia, pra um lado ou outro
DO nome dado ao médico responsável pelo caso

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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