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Clichê
/kli.ˈʃe/
Do francês. Clicher imitava o estalo da matriz sobre o metal fundido, e a chapa nascida dali imprimia a mesma página sem recompor uma linha
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Chapa de chumbo fundida sobre molde de papel
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"Clichê: ideia, expressão ou imagem muito repetida, desgastada pelo uso" (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001). A entrada descreve o desgaste e apaga a oficina. Clichê começou como objeto de metal, pesado, da espessura de um dedo, guardado em prateleira de tipografia francesa. E o nome não veio de nenhuma ideia gasta: veio de um barulho.
A impressão com tipos móveis tinha um problema de custo. Cada página era montada letra por letra em peças de chumbo, e assim que a tiragem terminava o compositor precisava desmanchar a página e devolver cada peça à sua divisória, porque o acervo de tipos da oficina era pequeno e caro. Reimprimir um livro popular significava pagar de novo, do zero, o trabalho de composição inteiro.
A saída foi tirar um molde da página já montada e fundir nele uma chapa inteiriça de liga de chumbo. A página deixava de ser um mosaico de peças soltas e virava um bloco só, que podia voltar à prensa quantas vezes o editor quisesse, sempre devolvendo o mesmo texto, sem recompor uma linha. O molde saía do relevo das letras como um carimbo ao contrário, e o metal derretido, despejado sobre ele, copiava cada sulco antes de esfriar.
O verbo que os tipógrafos de Paris usavam para essa operação era clicher, formado sobre cliquer, estalar, fazer clique. O molde descia sobre o metal ainda líquido e produzia um estalo seco, e foi esse estalo que nomeou o processo. Clichê é, ao pé da letra, o barulho que o molde fez ao encostar no chumbo.
A palavra guardou, portanto, um gesto mecânico de repetição barata, e não um julgamento estético. Quem chama uma frase de clichê está dizendo, sem saber, que ela já veio fundida em chapa.
Antes do estalo existem duas palavras gregas, um ourives escocês arruinado e um impressor parisiense que transformou a ideia de página congelada em negócio de preço baixo.
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I A Raiz
O estalo que batizou a chapa
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Firmin Didot, impressor e tipógrafo francês da casa Didot, batizou o processo em 1795 com um nome de origem grega: stéréotypie, de stereós, sólido, firme, e týpos, a marca deixada por uma pancada. Tipo sólido, página inteira de metal, oposta à página armada com peças soltas que voltavam à caixa depois da tiragem. A palavra estereótipo nasceu ali, dentro de uma fundição, descrevendo uma placa.
A ideia já tinha sido tentada antes, e fracassado. William Ged, ourives de Edimburgo, desenvolveu na década de 1720 um método de fundir chapas a partir de moldes de gesso e conseguiu imprimir por esse processo uma edição do historiador latino Salústio para a Universidade de Cambridge. Os compositores da oficina onde a experiência rodou danificaram as chapas durante o trabalho, o negócio de Ged não se sustentou, e o método ficou parado por cerca de setenta anos. O motivo da sabotagem era direto: a chapa eliminava a recomposição, e a recomposição era o pão dos compositores.
Didot resolveu o lado comercial, que tinha derrubado Ged. A partir de 1798 a casa dele publicou edições estereotipadas de autores latinos como Virgílio e Horácio, vendidas a preço baixo justamente porque a composição estava paga uma vez só e a chapa ficava guardada esperando a próxima tiragem.
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A chapa não guardava a ideia. Guardava a forma exata de uma página já pensada, para que ninguém precisasse pensá-la de novo.
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O molde de gesso, porém, era rígido e frágil. Em 1829 o francês Claude Genoux patenteou o flan, um molde de papelão úmido prensado sobre a página composta, que secava mantendo o relevo das letras. O flan era leve, podia ser enviado pelo correio e, principalmente, podia ser curvado antes da fundição, o que permitiu chapas em forma de meia-lua para os cilindros das prensas rotativas que os jornais adotaram no século dezenove.
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clichê: do francês cliché, particípio passado de clicher, estereotipar.
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Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982
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A forma da palavra explica o resto. Clichê é particípio passado virado substantivo, aquilo que foi clicado, exatamente como recorte é aquilo que foi recortado. O francês criou o verbo imitando o som e depois transformou o resultado do som em nome do objeto.
A oficina passou a viver de prateleira. Jornais guardavam chapas de cabeçalho, de anúncio fixo e de tabela que se repetia todo dia, e casas editoras guardavam a obra inteira em metal, empilhada por título. Bastava buscar a chapa, prender na prensa e rodar. Nenhuma decisão nova, nenhum tipógrafo lendo o texto de novo.
Foi esse hábito de prateleira, e não a crítica literária, que colocou a palavra no caminho de sair da tipografia e entrar em outros dois ofícios.
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II A Viagem
Da fundição para o negativo e para a crítica
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O primeiro ofício a tomar a palavra emprestada foi a fotografia. Os fotógrafos franceses do século dezenove chamavam de cliché a placa de vidro do negativo, pela mesma lógica da tipografia: uma matriz única da qual se tiram cópias idênticas quantas vezes se quiser. O português brasileiro herdou a imagem por outro caminho e passou a dizer chapa, que sobrevive intacta na expressão bater uma chapa, usada tanto para retrato quanto para radiografia.
O segundo foi a crítica literária francesa, na segunda metade do mesmo século. Chamar de cliché a frase pronta que o escritor encaixa sem pensar era uma acusação técnica, quase profissional: você não compôs este trecho, você pegou a chapa da prateleira. Gustave Flaubert passou décadas colecionando essas frases num inventário sarcástico de lugares-comuns burgueses, o Dictionnaire des idées reçues, ou Dicionário das ideias feitas, publicado postumamente em 1913, onde cada verbete registra o que a conversa educada da época obrigava a dizer sobre cada assunto.
O irmão grego da palavra fez a mesma travessia e foi mais longe. Walter Lippmann, jornalista norte-americano, pegou stereotype na oficina gráfica e aplicou o termo às imagens fixas que uma pessoa carrega sobre grupos inteiros de gente, no livro Public Opinion, de 1922.
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As imagens dentro da nossa cabeça.
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Walter Lippmann, Public Opinion, 1922
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A metáfora vingou porque a mecânica era honesta. Estereótipo e clichê descrevem a mesma economia mental: um molde pronto poupa o trabalho de olhar. O inglês tomou cliché do francês no fim do século dezenove e manteve até o acento agudo, coisa rara na língua. O português de Portugal escreve cliché, com e final aberto; o Brasil acomodou clichê, com circunflexo, na pronúncia que já usava.
Enquanto a palavra se espalhava, o objeto sumia. O linotipo de Ottmar Mergenthaler, apresentado em 1886, passou a fundir linhas inteiras de chumbo sob demanda e tirou boa parte da vantagem da chapa guardada. No século vinte a fotocomposição e o offset substituíram o relevo de metal por filme e por chapa fina de alumínio, e as prateleiras de estereótipos das redações foram vendidas como sucata de chumbo.
Nenhum leitor de jornal percebeu a troca, e nenhum falante devolveu a palavra. Em português, por volta de meados do século vinte, clichê já aparecia em texto corrente com o sentido figurado como se fosse o único, e a chapa de metal sobrevivia apenas no vocabulário de quem trabalhava em gráfica.
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