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Cínico
/ˈsi.ni.ku/
Do grego. De kynikós, canino, o apelido de cachorro que Atenas colou nos discípulos de Antístenes
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O pote de barro onde Diógenes fez casa
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O comentário aparece três segundos depois do vídeo institucional. A empresa fala em cuidado com o planeta, alguém digita uma frase curta terminada em cínico, e ninguém no meio da conversa pede explicação.
A palavra faz um trabalho pesado no português de hoje. Serve para o político que promete o que sabe que não vai cumprir, para a empresa que anuncia a doação no mesmo mês do corte, para o amigo que garante que ninguém ajuda ninguém de graça.
Em todos os casos, o acusado é quem enxerga interesse por trás de qualquer gesto e não se envergonha de dizer em voz alta. O dicionário registra dois sentidos, e os dois pesam: o descarado e o descrente da boa intenção alheia.
A acusação é barata e chega rápido. Basta duvidar da intenção de alguém para a palavra estar pronta, e ela sai com a mesma facilidade no grupo da família e na reunião de diretoria.
O que o uso moderno apagou é que a palavra começou nomeando gente do time contrário. O primeiro sujeito chamado assim dormia num pote de barro na praça, recusava moeda, herança e cargo, e comia o que lhe davam na rua.
Ele não achava que todo mundo tinha preço. Achava que quase nada valia o preço que a cidade cobrava, e passou a vida provando o argumento em público, com Atenas inteira olhando de perto.
A palavra também não saiu de escola, de conceito nem de tratado. Saiu de um animal. Quem colou o nome nesses filósofos escolheu o bicho que anda solto pela rua, come no chão, dorme onde cai e late para quem passa.
O insulto era claro, e os insultados gostaram. Em vez de recusar o apelido, responderam com ele na boca, andaram com ele pela cidade por mais de um século e o levaram até a pedra do túmulo.
A Raiz começa num ginásio fora dos muros de Atenas, aberto a quem a cidade não considerava ateniense de verdade, e numa história de sacrifício atrapalhado por um cachorro.
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I A Raiz
O cachorro que roubou o sacrifício
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Em grego, cachorro é kýōn. A forma que serve de base para os derivados é kynós, e dela saiu o adjetivo kynikós: canino, próprio de cachorro, do jeito de um cachorro.
A palavra é das mais antigas que se consegue rastrear. Tem prima no sânscrito śván, no latim canis, no alemão Hund e no inglês hound, todas descendentes da mesma raiz, que já nomeava o bicho antes da escrita existir.
O nosso cão veio pelo ramo latino, gasto pela boca de quem falou latim todo dia. O ramo grego chegou ao português por outro caminho, o dos livros, e quase sempre em palavra de especialista.
O bicho ficou até dentro da sua boca. O dente pontudo entre o incisivo e o pré-molar se chama canino porque os romanos o batizaram de dente de cão, e os gregos faziam a mesma conta com kynódous.
Fora da muralha leste de Atenas havia um ginásio consagrado a Héracles com nome de bicho: Kynosarges. O nome junta kýōn e argós, e os antigos o liam como cão branco, ou cão veloz.
A cidade explicava o nome com uma história de sacrifício interrompido. Um cachorro apareceu no meio do rito, arrancou do altar a parte da vítima e saiu correndo, e o oráculo mandou erguer o santuário no ponto exato onde o animal largou a carne.
O Kynosarges não era ginásio de qualquer um. Era o terreno dos nóthoi, os filhos de mãe estrangeira, que a lei de cidadania deixava de fora do registro dos atenienses plenos e, com ele, dos ginásios do centro.
Héracles não estava ali por acaso. Filho de mãe mortal, admitido entre os deuses só depois de uma vida de trabalho pesado, ele era o padroeiro exato daquela plateia e virou o herói de referência da escola que ia nascer.
Antístenes ensinava ali. Tinha sido aluno de Sócrates, ficou ao lado dele até o último dia, e a mãe trácia bastava para mandá-lo conversar e treinar do lado de fora dos muros, no terreno de nome canino.
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A virtude basta para a felicidade, e nada mais é preciso além da força de um Sócrates.
Antístenes, em Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro VI, século III d.C.
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O apelido do próprio Antístenes já vinha do bicho. Os antigos o chamavam de Haplokýōn, o cão puro, o cão sem disfarce, e o nome pegou antes de existir qualquer escola batizada com nome de animal.
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Duas explicações para o apelido correm juntas desde a Antiguidade: o ginásio com nome de cachorro, e o modo de viver que fazia o filósofo parecer um.
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A segunda explicação é a que os antigos repetiam mais, e ela não fala de endereço. Fala do discípulo que levou a lição de Antístenes ao extremo e passou a morar na rua, à vista de todo mundo, sem porta para fechar.
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II A Viagem
O apelido que virou brasão
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Diógenes chegou a Atenas expulso de Sínope, cidade grega da costa do mar Negro. O pai cuidava da casa da moeda de lá, os dois se meteram numa adulteração das peças e o caso terminou em exílio.
Ele adotou o episódio como programa de vida. O lema que os antigos lhe atribuem, parakharáttein tò nómisma, quer dizer desfigurar a moeda, e ele o aplicava ao dinheiro e às regras: marcar por cima do valor que a cidade tinha cunhado.
Na prática, morava na praça. Fez casa dentro de um píthos, o pote de cerâmica alto como um homem em que se guardava grão e vinho, desses que ficavam meio enterrados no chão do depósito.
O barril das versões modernas é erro de tradução. Barril de aduelas e arcos de metal é invenção que a Europa só espalha séculos depois, e não havia um único deles na Atenas do século IV a.C.
O guarda-roupa era o mesmo dos cães de rua: um manto de lã dobrado, uma sacola de couro para a comida do dia e um cajado. Comia no chão da praça, dormia onde desse e falava com quem passasse.
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O Cão chamava as tabernas de refeitórios da Ática.
Aristóteles, Retórica, livro III, c. 335 a.C.
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Aristóteles escrevia em Atenas enquanto Diógenes vivia, e usava o apelido sem explicar nada. O Cão, com artigo e sem sobrenome, já bastava para o leitor saber de quem se falava.
Perguntado por que o chamavam assim, Diógenes respondeu com a lista de comportamentos, no registro que Diógenes Laércio deixou: faço festa em quem me dá, ladro em quem me nega e mordo os canalhas.
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O xingamento virou assinatura. Chamado de cachorro para ser diminuído, o filósofo respondeu descrevendo, com orgulho, exatamente o cachorro que ele era.
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Platão, que discutia com ele, resumiu o vizinho numa frase que ficou: Sócrates enlouquecido. Diógenes retribuía desmontando as definições do outro em plena praça, uma vez com uma galinha depenada na mão.
O emblema seguiu até o fim. Sobre o túmulo dele, em Corinto, os antigos contam que puseram um cachorro esculpido em mármore de Paros, para quem passasse entender de quem era a sepultura.
A escola durou. Crates de Tebas vendeu a fortuna da família para viver do mesmo jeito, e Zenão de Cítio, que virou aluno de Crates, fundou depois a escola do Pórtico, a estoica, com a mesma raiz de vocabulário.
Roma copiou o nome com a letra do grego, e escreveu cynicus. Cícero tratou a doutrina como caso encerrado, escreveu que ela devia ser inteiramente rejeitada por ser inimiga do pudor, e mesmo assim o nome seguiu circulando em latim.
O português recebeu a palavra pela porta da escrita, copiada do livro latino, sem o desgaste da conversa de todo dia. Chegou com o esqueleto quase intacto e com o sentido ainda preso à turma de Diógenes.
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