|
|
Chauvinismo
/ʃo.vi.ˈniz.mu/
Do francês. O soldado Nicolas Chauvin virou piada de teatro em 1831 e deu nome ao patriotismo cego, sem que ninguém provasse que ele existiu
|
O palco parisiense onde o nome virou piada
|
| ▼ |
|
Em março de 1831, um teatro de bulevar em Paris estreou uma peça ligeira, dessas que ninguém guardava para a posteridade. Chamava-se La Cocarde tricolore, foi escrita pelos irmãos Cogniard, misturava canção, farsa e cenário pintado, e tratava da campanha francesa na Argélia com a leveza de quem quer plateia cheia e não prêmio de crítica.
No meio do elenco havia um recruta de nome comum, Chauvin, encarregado de dizer as bobagens patrióticas que faziam a sala rir. A fala que ficou é curta e vale por um retrato inteiro: sou francês, sou Chauvin, e por isso bato no egípcio. Não há argumento ali, não há causa exposta, há apenas a certeza de que pertencer a um lado basta para justificar a pancada.
A piada tinha alvo preciso e a plateia sabia qual era. A França de 1831 estava cheia de veteranos do império dispensados com meio soldo, homens que envelheciam contando a mesma campanha na mesma mesa de taverna, convencidos de que o mundo tinha perdido o rumo no dia em que o imperador saiu de cena. O tipo era reconhecível na rua, na estampa barata e na canção de rua.
O que ninguém no teatro imaginava é que o nome do personagem sobreviveria à peça. La Cocarde tricolore saiu de cartaz, os irmãos Cogniard escreveram dezenas de outras coisas hoje esquecidas, e mesmo assim Chauvin virou substantivo comum, entrou em dicionário, atravessou fronteira e chegou ao português para nomear uma postura que existia muito antes de qualquer francês subir naquele palco.
Mais estranho ainda é o que acontece quando se procura o homem por trás do nome. A biografia circula pronta em enciclopédia e em jornal desde o século dezenove, com data de nascimento, número de ferimentos e até o valor da recompensa que ele teria recebido das mãos de Napoleão. Nenhum desses detalhes resiste a uma visita ao arquivo.
A Raiz vai atrás desse soldado, do que a lenda diz sobre ele e do pouco que o registro escrito confirma.
Continue lendo ↓
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
O soldado que ninguém achou
|
|
A versão corrente da história é sempre a mesma e chega bem contada. Nicolas Chauvin teria nascido em Rochefort, no litoral atlântico francês, teria se alistado ainda adolescente nos exércitos da República, teria seguido Napoleão em campanha após campanha e teria acumulado dezessete ferimentos, um dedo perdido, o ombro deformado e a testa marcada.
O desfecho da lenda é o detalhe que cola na memória. O imperador em pessoa teria reconhecido a devoção do soldado, entregando a ele um sabre de honra, uma fita vermelha e uma pensão modesta, e Chauvin teria passado o resto da vida repetindo o nome do benfeitor diante de quem quisesse ouvir, muito depois de o império ter acabado.
Nada disso aparece onde deveria aparecer. Os registros militares franceses do período são detalhados, listam recrutas por departamento, anotam ferimento, promoção e pensão, e o pesquisador que procura um Nicolas Chauvin de Rochefort com essa folha de serviço volta de mãos vazias.
|
A biografia mais citada do personagem é feita de elementos que qualquer veterano do império poderia reivindicar. Nenhum deles aponta para um homem específico.
|
O trabalho mais completo sobre o assunto é do historiador francês Gérard de Puymège, que foi atrás do soldado documento por documento e concluiu que o Chauvin biográfico é construção posterior à peça, montada por jornalistas e enciclopedistas que precisavam explicar de onde vinha uma palavra já em uso.
|
Chauvin, soldado de Napoleão, personagem provavelmente lendário, cuja existência histórica nenhum documento estabelece.
Gérard de Puymège, Chauvin, le soldat-laboureur, 1993
|
O nome ajuda a entender por que o personagem convence. Chauvin é sobrenome banal na França, presente em toda a metade oeste do país, formado a partir do latim calvinus, derivado de calvus, careca, o mesmo radical que produziu o sobrenome de João Calvino e a palavra calvície em português.
Um sobrenome comum é justamente o que um autor de vaudeville escolhe quando quer que a plateia veja um tipo social e não um indivíduo. O recruta chamado Chauvin funciona como o compadre chamado Silva funcionaria numa comédia brasileira: o nome não identifica ninguém e por isso serve para representar todo mundo.
Há ainda um antecedente de palco que reforça a leitura. O soldado veterano ingênuo e vaidoso já circulava em canção e em caricatura antes de 1831, e o desenhista Nicolas Toussaint Charlet vinha publicando havia anos estampas com granadeiros nostálgicos que diziam quase as mesmas frases. O personagem estava pronto e apenas ganhou um nome.
|
|
II A Viagem
Do palco parisiense ao dicionário
|
|
A palavra nasceu antes da biografia e essa inversão explica o resto da história. Primeiro veio o personagem, depois veio o adjetivo aplicado a quem se parecia com ele, depois veio o substantivo abstrato, e só então veio a necessidade de contar quem teria sido o homem original.
O caminho morfológico é regular no francês. De um nome próprio se tira chauviniste, aquele que age como Chauvin, e do adjetivo se tira chauvinisme, a disposição que o adjetivo descreve, exatamente como a língua fez com bonapartisme e com dezenas de outros nomes próprios transformados em corrente de opinião.
O terreno estava preparado para a palavra pegar. A França dos anos 1830 e 1840 vivia uma febre de memória napoleônica, com o retorno solene dos restos do imperador em 1840, livros de campanha vendendo aos milhares e uma nostalgia militar que a imprensa republicana achava perigosa e ridícula na mesma medida.
|
A palavra circulou porque a França precisava de um apelido para o vizinho que confundia amor ao país com vontade de brigar com o país do lado.
|
Foi essa imprensa que fixou o sentido. Chamar alguém de chauvinista era acusá-lo de patriotismo barulhento e sem discernimento, de preferir a bandeira ao argumento, e o rótulo era eficiente porque vinha embrulhado numa piada de teatro que todo leitor de Paris conhecia.
|
Chauvinisme, 1843, derivado de Chauvin, nome de um soldado do Primeiro Império popularizado por uma comédia dos irmãos Cogniard em 1831, tipo do patriota exaltado e ingênuo.
Alain Rey, Dictionnaire historique de la langue française, 1992
|
A exportação foi rápida e seguiu a rota de sempre. O inglês registra chauvinism a partir das décadas de 1860 e 1870, tratando o termo como galicismo transparente, e o alemão, o italiano, o espanhol e o português recebem a forma quase sem adaptação, apenas trocando a terminação para encaixar na própria gramática.
No português a grafia hesitou por um tempo entre chauvinismo e chovinismo, a segunda tentando reproduzir a pronúncia francesa com letras nossas, e a primeira acabou vencendo por fidelidade ao original escrito, com o falante brasileiro pronunciando o começo como em chuva e o meio como em vinho.
O russo deu ao termo a carreira política mais longa. A expressão que se traduz como chauvinismo de grande potência entrou no vocabulário bolchevique para acusar a arrogância russa diante das nacionalidades menores do império, e o rótulo virou peça de disputa interna, usado por Lênin contra aliados e depois contra adversários por décadas.
Em cada uma dessas línguas a palavra chegou já pronta para o insulto. Ninguém jamais se apresentou espontaneamente como chauvinista, do mesmo jeito que ninguém se apresenta como fanático: o termo existe para descrever o outro, e essa assimetria é parte da definição.
|
|