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O português do Brasil ficou com três nomes para a carne salgada e seca. No Sul, charque; no Sudeste, carne-seca; no Nordeste, jabá. A origem de jabá é incerta: há quem proponha uma raiz tupi, mas nenhum dicionário etimológico a confirma.
Existe ainda a carne de sol, que não é a mesma peça. Leva pouco sal e seca por pouco tempo, à sombra ou ao vento, e dura menos. O charque leva sal grosso em camadas e seca por dias, o que permite guardá-lo fora da geladeira.
A charqueada deixou rastros na mesa gaúcha. O arroz de carreteiro nasceu com os carreteiros (condutores de carreta de boi), que levavam charque nas viagens longas pelo pampa e o cozinhavam com arroz no fogo de chão, a mesma lógica das caravanas de lhama.
Pelotas guardou outro rastro, segundo a tradição local. Os navios que levavam charque para o Nordeste voltavam carregados de açúcar, e o açúcar farto ajudou a criar a doçaria pelotense, hoje reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan, desde 2018.
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A palavra saiu dos Andes, passou pelo inglês e voltou ao Brasil com outro sotaque.
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A volta tem data recente. A indústria brasileira passou a vender, a partir dos anos 1990, um produto chamado jerked beef: carne bovina salgada, curada e embalada a vácuo. O nome inglês, filho do espanhol charqui, entrou no rótulo brasileiro junto com o charque.
Os dois produtos convivem na prateleira e têm regras de fabricação diferentes no regulamento de inspeção do Ministério da Agricultura. Na prática, o comprador encontra no mesmo supermercado o neto inglês e o neto gaúcho da mesma palavra quíchua.
O que se perdeu foi o frio. O ch'arki andino secava na geada da cordilheira; o charque de Pelotas depende do sal; o jerky industrial sai de estufa. A palavra atravessou as três técnicas sem trocar de som, e o apóstrofo quíchua foi a única peça deixada pelo caminho.
Quem quiser ver a família do charque na própria cozinha pode seguir três passos.
1. Leia o rótulo da carne salgada no mercado: charque, carne-seca e jerked beef são categorias diferentes, com teor de sal e umidade próprios.
2. Deixe um pedaço de charque de molho na água fria por uma noite e troque a água duas vezes: o sal sai, a fibra reidrata e a carne recupera parte do volume.
3. Procure charque num dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e confira a remissão ao espanhol charqui e ao quíchua.
Responda este email contando qual nome a carne seca tem na sua cidade.
“Que outra comida de todo dia guarda no nome uma língua indígena dos Andes?”
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