|
|
Cemitério
/se.miˈtɛ.ɾju/
Do grego. De koimētḗrion, o dormitório, o quarto onde se passa a noite
|
A lâmpada de barro no corredor de tufo
|
| ▼ |
|
O portão de ferro abre às sete da manhã. Na guarita, um mapa plastificado divide o terreno em quadras numeradas, com letra para cada rua interna e uma seta apontando a capela. Um funcionário arrasta a mangueira entre os canteiros. Do lado de fora, na banca de flores, duas mulheres negociam o preço do vaso de crisântemo.
Acima do portão, em letras de metal recortado, está a palavra que ninguém lê com atenção porque todo mundo já sabe o que ela quer dizer. Cemitério. Em grego, a palavra quer dizer dormitório.
Não é licença de poeta nem invenção de tradutor devoto. Koimētḗrion era palavra de casa no grego antigo: o quarto onde se passa a noite, o alojamento de hóspedes, o cômodo com as camas encostadas na parede. Servia para descrever mobília, não sepultura.
O grego tinha nome próprio para terreno de sepultura, e tinha mais de um. Havia o táphos, a cova aberta na terra. Havia a nekrópolis, a cidade dos que já partiram, nome que um geógrafo antigo usou para o subúrbio funerário de Alexandria. Roma tinha os seus: sepulcrum, tumulus, o columbarium de nichos empilhados como pombal.
Nenhum dos termos disponíveis dizia o que uma comunidade recém-formada queria dizer. Todos tratavam o lugar como ponto final, e ela precisava de um nome que tratasse o lugar como intervalo.
Essa comunidade era pequena, perseguida e sem prestígio, e mesmo assim recusou o vocabulário pronto para chamar o próprio terreno de quarto de dormir. A escolha era doutrinária antes de ser poética: para aquela gente, quem estava ali embaixo não tinha partido, tinha se deitado.
O apelido interno de um grupo minoritário virou o termo oficial de dezoito séculos de urbanismo. Está na placa da prefeitura, no contrato do plano funerário, no nome do bairro, na conversa de quem combina de levar flor no domingo.
A Raiz começa no verbo que uma mãe grega usava para dizer que tinha posto a criança para dormir, e no sufixo seco que transforma qualquer verbo em endereço.
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
O verbo grego que servia para ninar
|
|
A palavra se desmonta em duas peças. A primeira é koimáō, verbo de uso doméstico: pôr para dormir, deitar, acalmar até o sono chegar. Na voz média, koimáomai, o sujeito faz a coisa consigo mesmo e se deita para dormir.
A segunda peça é o sufixo tḗrion, que no grego constrói lugar de função. De akroáomai, ouvir, sai akroatḗrion, a sala onde se escuta. De dikázō, julgar, sai dikastḗrion, o tribunal.
Somadas, as duas peças entregam uma definição quase administrativa: lugar onde se dorme. É a mesma lógica do latim dormitorium, formado sobre dormire com o sufixo de lugar colado atrás.
A raiz é mais antiga que o grego. Os comparatistas reconstroem o indo-europeu ḱei, deitar-se, repousar, ocupar um lugar e ficar nele. Dela saem keîmai, eu jazo, e koítē, o leito.
A mesma raiz atravessou outras línguas com resultados que ninguém costuma juntar na mesma frase. No latim virou cīvis, aquele que tem casa fixa numa comunidade, e dali saíram cidade, cidadão e civil. No germânico virou haimaz, que deu o home inglês e o Heim alemão.
|
Cemitério, cidade e home são primos de sangue. No fundo dos três existe a mesma ideia: o lugar onde alguém se deita e fica.
|
Do mesmo verbo sai ainda koímēsis, o ato de adormecer, palavra que a igreja grega guarda até hoje para a passagem de Maria. O calendário chama a data de Dormição, e o latim traduziu ao pé da letra, dormitio.
O uso do sono para descrever o fim não nasceu com o cristianismo. Homero já dizia, do guerreiro caído no campo de batalha, que ele dormiu um sono de bronze. A imagem estava disponível na língua havia séculos.
|
Assim ele caiu ali e dormiu um sono de bronze.
Homero, Ilíada, canto XI, século VIII a.C.
|
A diferença está no que cada um fazia com a imagem. Para o poeta grego, o sono de bronze é sono do qual não se levanta. Um fim, apenas dito com delicadeza.
Para a comunidade cristã do século I, a mesma palavra passou a carregar prazo. Os textos mais antigos do grupo tratam o enterrado como alguém que adormeceu e vai ser acordado.
No evangelho de João, diante do túmulo de Lázaro, a frase segue exatamente esse desenho: nosso amigo adormeceu, e eu vou até lá para despertá-lo. O verbo é o mesmo que descreve a criança posta no berço.
Um vocabulário assim exige endereço à altura. Quem descreve o enterro como pernoite não pode chamar o terreno de cidade dos que já partiram.
|
|
II A Viagem
O nome que Roma proibiu e depois devolveu
|
|
No começo, a comunidade cristã de Roma enterrava os seus em terreno de família, cedido por quem tinha propriedade.
No fim do século II a coisa se organiza. O bispo Zeferino entrega a um diácono chamado Calisto a administração do terreno da Via Ápia, o primeiro campo de sepultura comum da igreja de Roma. O nome pegou e ficou: Cemitério de Calisto.
O detalhe está registrado por um contemporâneo que não gostava nem do bispo nem do diácono. Hipólito escreve, por volta de 230, que Zeferino pôs Calisto sobre o koimētḗrion, e a palavra aparece ali com sentido já técnico.
A escolha vocabular tinha consequência prática. Quem administra dormitório administra hóspede, não despojo. O terreno virou propriedade coletiva, com registro, zelador e regra de quem entra.
Em 257 o imperador Valeriano manda proibir as reuniões dos cristãos. Em Cartago, o procônsul lê a ordem em voz alta diante do bispo Cipriano, e a ordem precisa nomear, uma por uma, as coisas proibidas.
|
E, ademais, proibimos que se façam assembleias em quaisquer lugares e que entrem nos cemitérios.
Atas Proconsulares de Cipriano, 257 d.C.
|
A frase é preciosa para quem estuda a palavra. Para proibir a entrada em alguma coisa, a chancelaria imperial precisou escrever o nome dela em latim oficial, e escreveu coemeteria. O termo de uso interno de um grupo virou vocabulário de decreto.
|
O cemitério entra na papelada do Império Romano dentro de uma ordem de proibição. Foi preciso proibir para deixar o nome registrado.
|
Três anos depois a ordem se inverte. Galiano manda devolver aos cristãos os lugares de culto e, em rescrito separado, os terrenos que eles chamam de cemitérios. Eusébio copiou o texto na história eclesiástica que escreveu no século IV.
Do latim de igreja a palavra desceu para as línguas vizinhas sem mudar de sentido. O francês antigo fez cimetière, o castelhano fez cementerio, o italiano fez cimitero, e o inglês pegou emprestado do francês no século XIV.
O português recebeu a forma erudita, direto do latim eclesiástico, e a palavra chegou com o desenho do original quase intacto. Palavra que entra pela escrita sofre menos desgaste do que palavra que entra pela boca.
Nem todo mundo aceitou o empréstimo. O alemão preferiu construir com material próprio e ficou com Friedhof, o pátio cercado, do antigo vrīthof, o terreno protegido por cerca. Ali o nome guarda o muro, não o sono.
A palavra deu o último salto na França napoleônica. Um decreto de 1804 proibiu o enterro dentro das igrejas e mandou abrir terrenos fora dos muros, e o Père-Lachaise virou modelo de cemitério ajardinado, com aleia, banco e árvore.
A partir dali o assunto sai da paróquia e entra na prefeitura. A palavra grega de quarto de dormir passou a ocupar linha de planta urbana e rubrica de orçamento municipal.
|
|