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Esta pauta venceu a urna de 26/09.
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Catamarã
/ka.ta.maˈɾɐ̃/
Do tâmil kattumaram, madeira amarrada: a jangada de troncos que deu nome ao barco de dois cascos
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O kattumaram, jangada da costa de Coromandel
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O Dicionário Houaiss define catamarã como "embarcação de dois cascos paralelos unidos por uma armação". A definição serve para o barco branco que leva turista entre ilhas e falha na origem: o primeiro catamarã não tinha casco nenhum. Era um feixe de troncos amarrados com corda, sem quilha, sem convés e sem cabine.
A palavra veio da costa de Coromandel, o litoral sudeste da Índia, onde hoje ficam Chennai e Pondicherry. Ali o mar quebra forte na praia e não existe porto natural. Barco de tábuas pregadas se despedaçava na arrebentação, e os pescadores resolveram o problema com o que tinham à mão.
Eles cortavam três a cinco troncos de madeira leve, davam forma de proa à peça do meio e prendiam tudo com corda de fibra de coco. Para atravessar as ondas, o pescador ia sentado ou ajoelhado sobre a madeira, com o remo na mão, molhado da cintura para baixo.
Quando chegava à areia, desamarrava os troncos e os deixava secar ao sol, um a um. A madeira encharcada afundaria aos poucos; seca, voltava a boiar. No dia seguinte, a jangada era montada de novo, nó por nó.
Os tâmeis, povo daquela costa, deram ao objeto um nome que descreve exatamente o que ele é. Kattu (amarrar, atar) somado a maram (árvore, madeira) dá kattumaram, madeira amarrada. A palavra não fala de navegar nem de pescar: fala do nó.
Os ingleses ouviram o nome nos séculos XVII e XVIII, quando a Companhia das Índias Orientais se instalou em Madras. Escreveram catamaran, e a palavra seguiu para a Europa em diários de bordo e relatos de viagem.
Lá, mudou de corpo. Os barcos que hoje levam o nome têm dois cascos finos, ligados por uma plataforma, e nenhum tronco amarrado. O nome atravessou o mundo, e a madeira ficou na praia indiana.
O português recebeu a palavra do inglês, já com o sentido novo, e ajeitou a terminação ao nosso ouvido. Para saber como uma jangada de pescador virou nome de iate, é preciso começar pelos dois pedaços da palavra tâmil.
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I A Raiz
Um nó e uma árvore
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O tâmil é uma das línguas mais antigas ainda faladas no mundo, com literatura escrita há mais de 2.000 anos. Pertence à família dravídica (o grupo de línguas do sul da Índia, sem parentesco com o sânscrito), e é a língua do estado de Tamil Nadu, onde fica a costa de Coromandel.
Kattu é o verbo de amarrar. Aparece em palavras do cotidiano tâmil para tudo que se prende com corda ou laço: o fardo, o embrulho, o nó do cabelo. Maram é a árvore viva e também a madeira cortada, sem distinção, como se a língua não separasse o tronco de pé do tronco deitado.
Juntas, as duas partes formam um nome de inventário. Quem diz kattumaram descreve o material e a técnica, do jeito que um carpinteiro descreveria a peça na oficina. A palavra é concreta como o objeto.
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O catamarã original não flutuava por ser barco: flutuava por ser madeira, e só ficava de pé enquanto o nó aguentava.
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A madeira escolhida importava. Os pescadores de Coromandel preferiam árvores de fibra leve, que boiavam bem mesmo molhadas. O tronco do meio era mais comprido e recebia a ponta erguida, que cortava a onda. Os laterais protegiam o pescador e davam largura à jangada.
A corda vinha do coco. A fibra da casca, trançada à mão, resistia à água salgada sem apodrecer depressa. Por esse motivo, a jangada dispensava prego: o metal enferrujaria, e a tábua pregada rasgaria na arrebentação. A amarração cedia um pouco a cada onda e voltava ao lugar.
A grafia da palavra em inglês demorou a firmar. Os primeiros relatos escreveram cattamaran, catamarin e catamaran, cada viajante tentando reproduzir o som que ouvia na praia. O tâmil tem consoantes duplas que o ouvido inglês simplificou, e o tt de kattu virou um t só.
O dicionário Hobson-Jobson, de Henry Yule e Arthur Coke Burnell, publicado em 1886 para registrar as palavras indianas que entraram no inglês, traz o verbete catamaran. Os autores explicam a composição tâmil e descrevem a jangada de troncos atados da costa de Coromandel, ainda em uso no fim do século XIX.
Até hoje, nas praias de Tamil Nadu, pescadores saem ao mar em kattumarams de madeira amarrada, muitos agora com motor de popa. O objeto que deu nome ao iate continua trabalhando na mesma areia de onde a palavra partiu.
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II A Viagem
Da praia de Madras aos dois cascos
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O nome chegou à Inglaterra antes do barco moderno. Quem levou a palavra foram marinheiros, funcionários da Companhia das Índias e viajantes que descreviam a costa indiana para leitores que nunca a veriam. Para eles, catamaran significava jangada de troncos, e mais nada.
O navegador inglês William Dampier, que deu a volta ao mundo três vezes, descreveu jangadas de troncos com esse nome no relato A New Voyage Round the World, de 1697. O livro foi muito lido na Inglaterra e ajudou a espalhar a palavra entre gente que nunca pisou na Índia.
A troca de sentido veio pela navegação no Pacífico. Os navegadores europeus encontraram, nas ilhas da Polinésia, canoas duplas: dois cascos de madeira escavada presos por traves, com uma plataforma no meio. Os havaianos as chamavam wa'a kaulua (canoa dupla, no idioma havaiano). Os ingleses, sem nome melhor, usaram a palavra indiana para o barco polinésio.
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A palavra saiu da Índia para nomear troncos amarrados e foi parar no Pacífico para nomear dois cascos: o que ligava os dois barcos era a amarração.
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Na Europa, o barco de dois cascos já tinha sido tentado. Em 1664, o economista inglês William Petty construiu o Experiment, uma embarcação de casco duplo, e a apresentou à Royal Society. O barco navegou bem nos primeiros testes e se perdeu numa tempestade em 1665. A ideia ficou de lado por mais de dois séculos.
Quem a trouxe de volta foi o construtor americano Nathaniel Herreshoff. Em 1876, ele desenhou o Amaryllis, um catamarã de dois cascos finos, e o inscreveu na regata do Centenário, em Nova York. O Amaryllis venceu os barcos de casco único com folga.
A reação dos clubes foi proibir. O Amaryllis foi desclassificado das regatas seguintes, e os catamarãs passaram décadas fora das competições tradicionais. Só voltaram com força no século XX, quando o desenho de dois cascos se mostrou estável, rápido e difícil de virar.
O português recebeu a palavra nesse ponto da história, já com o sentido de barco de dois cascos. O inglês catamaran ganhou o til no fim e virou catamarã: a sílaba final, que o inglês pronuncia aberta, ganhou o som nasal que o ouvido brasileiro escuta em palavras como irmã e maçã.
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