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Caqui

/kaˈki/

Do japonês kaki e do urdu khākī: a fruta do pomar e a cor da poeira moram na mesma grafia

Caquis maduros ao lado de uma velha farda cáqui

Caqui: a fruta laranja e a cor de poeira

▼

O dicionário Michaelis registra caqui como “fruto alaranjado, de polpa mole e adocicada”, e a definição serve para a fruta laranja das bancas de abril. Ela falha na etiqueta de uma calça de sarja: ali, caqui quer dizer cor de barro seco, e essa cor não descende de árvore nenhuma.

São duas palavras diferentes ocupando uma grafia só. Os gramáticos chamam o caso de homônimo (palavra igual na forma e sem parentesco na origem), e caqui é dos exemplos mais distantes do português: as duas pontas nasceram em lados opostos da Ásia.

A fruta vem do japonês kaki, termo antigo com que os camponeses do arquipélago chamam a árvore e o fruto. O Japão herdou o cultivo da China, onde a planta é nativa, e fez dela o pomar de quintal mais comum do país.

A cor vem do urdu khākī (da cor da poeira), adjetivo tirado do persa khāk (pó, terra). No século 19, um regimento britânico na fronteira noroeste da Índia tingiu a farda nesse tom para sumir na paisagem seca, e o resto do exército do império copiou a ideia.

Uma das palavras chegou ao português pela botânica e pelos imigrantes; a outra, pela farda e pela moda. Entraram por portas separadas e acabaram vizinhas no dicionário, divididas por um acento que quase ninguém escreve: a cor se grafa cáqui, com a força na primeira sílaba.

Na fala, a confusão fica completa. O feirante grita caqui, o lojista anuncia calça caqui, os dois puxam a força para a última sílaba, e nenhum deles desconfia de estar usando duas palavras.

O caminho de cada metade tem data, lugar e responsável. A fruta entrou na ciência europeia pelas mãos de um médico sueco preso numa ilha artificial; a cor entrou no uniforme pelas mãos de um tenente escocês acampado num forte de fronteira.

A primeira rota começa no porto de Nagasaki, com um botânico que precisou da licença dos holandeses para pisar no Japão.

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I  A Raiz

Um pomar visto de Dejima

Em 1775, o sueco Carl Peter Thunberg, aluno do naturalista Carlos Lineu, desembarcou em Dejima como médico da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Dejima era uma ilha artificial desenhada como um leque no porto de Nagasaki, e o único ponto do Japão onde europeus podiam morar.

Os holandeses viviam ali quase presos. Thunberg só saiu da ilha em 1776, quando acompanhou a embaixada anual da companhia até Edo (a atual Tóquio). No trajeto, colheu folhas, sementes e ramos de tudo o que encontrou, inclusive de uma árvore carregada de frutos laranja que os japoneses chamavam de kaki.

De volta à Europa, ele descreveu a espécie em 1780 como Diospyros kaki. O primeiro termo é grego: dios (de Zeus, divino) e pyros (trigo, grão), algo como “o grão dos deuses”, gênero que Lineu já usava para outras árvores da mesma família. O segundo, o epíteto (a parte que identifica a espécie), Thunberg copiou da boca dos japoneses.

A obra que reuniu a coleta saiu em 1784, a Flora Japonica, e pôs a palavra kaki em latim científico. Dali ela passou ao francês, que até hoje chama a fruta de kaki, e ao português, que trocou o k por qu e deixou o acento na última sílaba.

A fruta brasileira carrega no rótulo o sobrenome japonês que um sueco anotou em 1776.

No Japão, kaki tem uma vizinha incômoda. A mesma sequência de sons nomeia também a ostra; a escrita separa as duas com ideogramas diferentes (柿 para a fruta, 牡蠣 para o molusco) e a fala separa pela entonação. O japonês tem, em casa, um caso parecido com o do português.

Os japoneses dividem a fruta em dois grupos. O shibugaki (caqui travoso) tem tanino demais e amarra a boca se for comido verde; o amagaki (caqui doce) pode ser mordido ainda firme. Do primeiro sai o hoshigaki, o caqui descascado e pendurado ao vento até secar e açucarar por fora.

O inglês ficou de fora da rota japonesa. Chama a fruta de persimmon, palavra emprestada de uma língua indígena da Virgínia, o powhatan, e registrada pelo capitão inglês John Smith como “putchamins” em 1612, ao descrever uma espécie americana aparentada.

Assim, a mesma árvore ganhou três batismos: kaki no Japão, persimmon no inglês e caqui no português. Só o terceiro esbarrou numa palavra estrangeira de outra família.

 
 

II  A Viagem

A poeira de Peshawar

A segunda metade começa no persa khāk, pó e terra seca. O sufixo -ī transforma substantivo em adjetivo, e khākī ganhou o sentido de “da cor do pó”. O urdu e o hindi, línguas do norte da Índia que receberam milhares de palavras persas na corte mogol, guardaram o adjetivo.

Em dezembro de 1846, o tenente escocês Harry Lumsden formou em Peshawar, na fronteira noroeste da Índia britânica, o Corpo de Guias (uma tropa de batedores a cavalo e a pé). Lumsden vestiu seus homens de algodão tingido num tom de barro, para que sumissem nas encostas secas da região.

O vermelho das fardas britânicas fazia do soldado um alvo visível a quilômetros. A tropa de Lumsden, vestida da cor da paisagem, ganhou fama de aparecer onde ninguém esperava, e o apelido da farda veio do urdu dos próprios soldados: khākī.

Durante a revolta indiana de 1857, outras unidades fizeram o mesmo às pressas. Relatos da época contam de soldados tingindo o uniforme branco com chá, lama e casca de árvore, com resultados de cor muito irregular de um batalhão para outro.

Os britânicos levaram a palavra para casa. O glossário de termos anglo-indianos dos orientalistas Henry Yule e Arthur Coke Burnell registrou o verbete assim:

“KHAKEE, adj. Hind. from Pers. khāk, ‘dust’; hence ‘dust-coloured,’ ‘drab.’” (Henry Yule e Arthur Coke Burnell, Hobson-Jobson, 1886)

A tradução do verbete: “adjetivo hindustâni, do persa khāk, ‘pó’; daí ‘cor de pó’, ‘pardo’”. A grafia inglesa ainda oscilava, e só no século 20 o inglês fixou khaki.

A guerra na África do Sul contra os bôeres, entre 1899 e 1902, completou a troca. Os atiradores bôeres miravam o vermelho com facilidade, e em 1902 o Exército britânico adotou a farda cáqui para o serviço em qualquer lugar do império, inclusive na Inglaterra.

A cor saiu do quartel e entrou na política. Em 1900, a eleição geral britânica, disputada em pleno conflito sul-africano, ficou conhecida como khaki election (eleição cáqui), porque o governo conservador pediu votos apoiado no entusiasmo pela guerra.

Na Primeira Guerra Mundial, o tom já vestia milhões de soldados de vários países. O adjetivo urdu que descrevia a poeira de Peshawar virou a cor oficial do combate moderno.

 

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III  O Que Fica

Um acento separa as duas

O português recebeu a cor pelo inglês khaki, no começo do século 20, com a farda e o tecido de algodão que levava o mesmo apelido. Adaptou a grafia e manteve a força na primeira sílaba, como no original: cáqui.

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra as duas formas em verbetes separados. Caqui, oxítona, é a fruta; cáqui, paroxítona e com acento, é a cor e o tecido.

No papel, as duas palavras se distinguem por um acento; na boca, quase todo brasileiro pronuncia as duas do mesmo jeito.

A fruta firmou pé no Brasil com os imigrantes japoneses. O navio Kasato Maru chegou a Santos em 1908 com as primeiras famílias, e nas décadas seguintes os pomares de origem japonesa espalharam pelo interior paulista variedades como fuyu e giombo, ao lado da rama forte, a mais vendida nas feiras.

A cor seguiu outro trajeto. Escoteiros, fardas de serviço e as calças de sarja de algodão, que os americanos batizaram de chino, fizeram do cáqui um tom civil. Hoje ele está no catálogo de qualquer loja de roupa, sem lembrança da fronteira afegã.

Na conversa diária, a fruta venceu a disputa de pronúncia. Como caqui laranja era palavra de feira e de cozinha, muita gente começou a dizer calça caqui com a força no fim, e o acento da cor foi sumindo das etiquetas.

O resultado é um par raro no português. Manga (fruta e parte da camisa) e pena (pluma e castigo) também juntam significados sem parentesco, mas caqui junta um termo vindo do Japão e outro vindo do persa, por rotas que nunca se cruzaram.

Quem quiser separar as duas palavras no dia a dia pode fazer três testes.

1. Diga calça cáqui com a força no cá: é a pronúncia de origem, a mesma do inglês khaki.

2. Procure o acento numa etiqueta de roupa: a maior parte das lojas escreve caqui, a grafia da fruta, para nomear a cor.

3. Repare na cor de um caqui maduro: ele é laranja vivo, e a cor cáqui é pardo de barro. As duas nunca foram parecidas.

A fruta saiu de um pomar japonês, passou pelo caderno de um sueco e chegou ao Brasil num navio de imigrantes. A cor saiu da poeira de Peshawar, vestiu o império britânico e chegou às vitrines. Os dois caminhos terminaram na mesma grafia, separados só por um acento que o dicionário guarda e a fala esqueceu.

 
 
 
 
Quiz da edição

Em que ano o tenente escocês Harry Lumsden formou o Corpo de Guias em Peshawar e tingiu os uniformes de algodão na cor do barro?

A1899
B1857
C1846
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