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O português recebeu a cor pelo inglês khaki, no começo do século 20, com a farda e o tecido de algodão que levava o mesmo apelido. Adaptou a grafia e manteve a força na primeira sílaba, como no original: cáqui.
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra as duas formas em verbetes separados. Caqui, oxítona, é a fruta; cáqui, paroxítona e com acento, é a cor e o tecido.
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No papel, as duas palavras se distinguem por um acento; na boca, quase todo brasileiro pronuncia as duas do mesmo jeito.
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A fruta firmou pé no Brasil com os imigrantes japoneses. O navio Kasato Maru chegou a Santos em 1908 com as primeiras famílias, e nas décadas seguintes os pomares de origem japonesa espalharam pelo interior paulista variedades como fuyu e giombo, ao lado da rama forte, a mais vendida nas feiras.
A cor seguiu outro trajeto. Escoteiros, fardas de serviço e as calças de sarja de algodão, que os americanos batizaram de chino, fizeram do cáqui um tom civil. Hoje ele está no catálogo de qualquer loja de roupa, sem lembrança da fronteira afegã.
Na conversa diária, a fruta venceu a disputa de pronúncia. Como caqui laranja era palavra de feira e de cozinha, muita gente começou a dizer calça caqui com a força no fim, e o acento da cor foi sumindo das etiquetas.
O resultado é um par raro no português. Manga (fruta e parte da camisa) e pena (pluma e castigo) também juntam significados sem parentesco, mas caqui junta um termo vindo do Japão e outro vindo do persa, por rotas que nunca se cruzaram.
Quem quiser separar as duas palavras no dia a dia pode fazer três testes.
1. Diga calça cáqui com a força no cá: é a pronúncia de origem, a mesma do inglês khaki.
2. Procure o acento numa etiqueta de roupa: a maior parte das lojas escreve caqui, a grafia da fruta, para nomear a cor.
3. Repare na cor de um caqui maduro: ele é laranja vivo, e a cor cáqui é pardo de barro. As duas nunca foram parecidas.
A fruta saiu de um pomar japonês, passou pelo caderno de um sueco e chegou ao Brasil num navio de imigrantes. A cor saiu da poeira de Peshawar, vestiu o império britânico e chegou às vitrines. Os dois caminhos terminaram na mesma grafia, separados só por um acento que o dicionário guarda e a fala esqueceu.
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