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ED 171

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Canja

/ˈkɐ̃.ʒɐ/

Do malaiala kanji, a água em que o arroz cozinhou: caldo de doente que virou sinônimo de fácil

Tigela de caldo de arroz sobre mesa de madeira escura

A canja, caldo de doente na costa do Malabar

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Nasceu do comentário

“Logo no início me lembrei da nossa canja, panaceia dos fracos: restaura e devolve as forças.”

Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 18/08, na edição Restaurante.

O Dicionário Houaiss define canja como "caldo de galinha com arroz". A definição descreve o prato que chega à mesa brasileira e erra a origem pela metade: a canja nasceu sem galinha, do outro lado do mundo, como a água turva que sobra na panela depois que o arroz cozinha.

Uma leitora escreveu à casa sobre a palavra restaurante, que vem do francês restaurer (restaurar, devolver as forças). Lembrou que, na casa dela, quem restaurava o doente era a canja. A lembrança acertou mais do que parece.

O restaurante nasceu em Paris, no século XVIII, como loja de caldos vendidos a quem estava fraco. Primeiro era remédio, depois virou lugar de comer. A canja fez a mesma viagem, de remédio a prato, só que partiu da Índia e chegou ao português pelo mar.

Na costa do Malabar, no sudoeste da Índia, o arroz cozido em muita água deixava um caldo branco e ralo. Quem estava com febre, diarreia ou fraqueza tomava esse caldo em pequenas porções, porque o estômago aceitava o que recusava no prato cheio.

Os portugueses que chegaram àquela costa no começo do século XVI viram o caldo nas casas, nos hospitais e nos navios. Um médico português que vivia em Goa anotou o nome local, explicou para que servia e mandou o livro para a gráfica.

A palavra, então, embarcou nas naus da carreira da Índia, a rota anual entre Lisboa e Goa. Viajou com o arroz, com a pimenta e com os marinheiros que tinham adoecido na travessia. Em Portugal, ganhou a galinha que não tinha na origem.

No Brasil, ganhou mais um sentido. A canja virou comida de resguardo, o repouso da mulher depois do parto, e ficou tão associada ao que é leve que passou a nomear a tarefa sem esforço: quando alguém diz "é canja", está dizendo que a prova foi fácil.

Para entender como um caldo de arroz virou elogio à facilidade, é preciso voltar ao livro de um médico em Goa e ao nome que ele ouviu dos cozinheiros do Malabar.

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I  A Raiz

A água branca do arroz

Garcia de Orta, médico português nascido em Castelo de Vide em 1501, pela data mais aceita, é quem põe a canja no papel. Filho de judeus convertidos à força, estudou em Salamanca e Alcalá, na Espanha, e embarcou para a Índia em 1534. Instalou-se em Goa, onde atendeu vice-reis, sultões e gente comum até o fim da vida, em 1568.

Em 1563, publicou em Goa os Colóquios dos simples e drogas e cousas medicinais da Índia. Simples, na linguagem dos boticários, eram as plantas usadas sem mistura como remédio. O livro é um diálogo entre o próprio Orta e um médico recém-chegado, Ruano, que pergunta sobre cada planta, especiaria e doença do Oriente.

Foi um dos primeiros livros impressos na Índia por europeus. Abre com um poema de Luís de Camões, uma ode ao vice-rei Francisco Coutinho, que costuma ser apontada como o primeiro texto do poeta a sair impresso, nove anos antes de Os Lusíadas.

Antes de virar prato, a canja foi receita: o caldo que um médico prescrevia quando o doente não conseguia comer.

Nos Colóquios, Orta descreve a cólera, que os locais chamavam morxi, e o tratamento dado aos doentes. Entre os cuidados, aparece a água do arroz cozido, que ele registra com o nome ouvido em Goa, canje. O caldo repunha o líquido que a doença tirava do corpo e era fácil de digerir.

O nome que Orta ouviu vem do malaiala, a língua do Malabar, e tem parentes no tâmil, falado mais ao sul. Nas duas línguas, kañji (o caldo de arroz) nomeia o arroz cozido até desmanchar, com a água em que ferveu. Até hoje, em Querala, o estado indiano onde se fala malaiala, kanji é comida de doente e de café da manhã simples.

O português antigo escreveu canje, canje de arroz e só depois canja. A terminação em a acomodou a palavra ao molde dos substantivos femininos da língua, como aconteceu com muitas palavras orientais que chegaram pelo mar.

Orta morreu em 1568, e a história dele não terminou ali. Em 1580, a Inquisição de Goa desenterrou os restos do médico, condenado depois de morto por judaísmo, e os queimou. O livro sobreviveu à fogueira: o botânico flamengo Carolus Clusius já o tinha traduzido para o latim em 1567, e a obra correu a Europa.

 
 

II  A Viagem

Das naus de Goa à panela portuguesa

A canja chegou a Lisboa como palavra de bordo. As naus da carreira da Índia levavam de seis meses a um ano para ir e voltar, e o arroz era a comida que aguentava a viagem. Caldo de arroz para marinheiro doente fazia parte da rotina da enfermaria do navio.

Em Portugal, o caldo encontrou a galinha. A cozinha portuguesa já dava caldo de galinha a quem estava fraco, e os dois remédios se juntaram na mesma panela: o arroz da Índia, a ave do quintal e o nome do Malabar. A mistura ficou com o nome oriental.

O inglês recebeu a mesma palavra por outro caminho. Congee (caldo de arroz, em inglês) entrou na língua pelos comerciantes que disputavam os portos indianos com os portugueses. Henry Yule e Arthur Coke Burnell registram a palavra no Hobson-Jobson, o dicionário do inglês anglo-indiano publicado em 1886, e anotam que ela chegou ao inglês pelo português.

A mesma água de arroz virou canja em Lisboa e congee em Londres: duas línguas aprenderam a palavra com os cozinheiros do Malabar.

Na Ásia, o caldo seguiu com outros nomes. Os chineses o chamam zhou, os japoneses okayu, os filipinos lugaw. Todos descrevem o mesmo preparo: arroz cozido em muita água até ficar mole, servido a crianças, idosos e convalescentes. Os portugueses encontraram o prato pronto em cada porto e ficaram com o nome ouvido em Goa.

No Brasil colonial, a canja chegou com os portugueses e encontrou uma função definida: o resguardo. A mulher que acabava de parir passava cerca de 40 dias de repouso, e a dieta desse período tinha galinha no centro. Canja era a primeira comida que a parturiente recebia, e a galinha para o resguardo era presente comum de vizinhas e parentes.

Conta a tradição que Dom Pedro II, que governou o Brasil de 1840 a 1889, tomava canja com frequência, inclusive nos intervalos de sessões e cerimônias. A história aparece em crônicas e biografias populares, sem documento que diga com que frequência nem em quais ocasiões, e o relato fica como anedota. O que ela registra com segurança é a fama do prato como comida leve de quem precisava de forças.

 

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III  O Que Fica

De remédio de resguardo a prova fácil

O sentido figurado nasceu da leveza. Um prato que qualquer estômago aceita virou imagem de tarefa que qualquer pessoa resolve. Dizer "é canja" passou a significar que a tarefa é fácil, que não exige esforço nem preparo.

O Houaiss registra essa acepção como brasileirismo informal. O uso figurado ficou no português do Brasil: em Portugal, canja segue sendo sobretudo o caldo, e o elogio à facilidade soa como expressão brasileira.

A língua tem outros casos parecidos, em que a comida vira medida de esforço. O inglês diz piece of cake (pedaço de bolo) para o que é fácil, e o português brasileiro também fala em sopa no mel. A canja entrou nesse grupo com uma vantagem: além de gostosa, era remédio.

A canja começou curando doente e terminou elogiando prova fácil: nas duas pontas, a palavra promete que o esforço será pequeno.

A palavra restaurante, que lembrou a leitora, faz caminho parecido. Em Paris, na década de 1760, um comerciante chamado Mathurin Roze de Chantoiseau passou a vender bouillons restaurants (caldos que restauram as forças) a quem estava fraco, segundo o relato que a historiadora Rebecca Spang reconstrói em The Invention of the Restaurant, de 2000. O caldo deu nome à loja, e a loja virou o lugar onde se come fora.

Canja e restaurante começaram como remédio, e as duas trocaram de sentido pelo caminho. A diferença está na rota: restaurante saiu da França, e canja saiu da Índia nas naus portuguesas, levada por um médico, por marinheiros doentes e pelas mulheres que cozinhavam a galinha do resguardo.

Quem quiser encontrar outras palavras que chegaram pela rota da Índia pode seguir três passos.

1. Procure o que vinha nas naus. Manga, do malaiala māṅṅa (o fruto da mangueira), e bambu, que os portugueses registraram na Índia, entraram no português com a carga.

2. Olhe a terminação. Muitas palavras orientais ganharam um a final para caber no molde dos femininos portugueses, como canja e manga.

3. Confira a origem no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2001, que registra a etimologia no fim de cada verbete e indica quando a palavra veio do malaiala, do tâmil ou do malaio.

Responda este email contando qual prato devolvia as forças na sua casa quando alguém ficava doente.

"Qual comida da sua família ainda tem cheiro de cuidado?"

 
 
 
 
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Quem registrou pela primeira vez o nome canje, antecessor de canja, num livro impresso, e em que cidade?

ACarolus Clusius, em Leiden
BHenry Yule, em Londres
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DLuís de Camões, em Lisboa

Resultado da última edição: 5 de 6 acertaram.

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