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Caatinga
/ka.a.ˈtʃĩ.ɡɐ/
Do tupi ka'a tinga, mata branca: o nome que o sertão ganhou na estação seca
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A mata branca do sertão na estiagem
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O dicionário Houaiss define caatinga como "vegetação típica do Nordeste brasileiro, de arbustos e árvores baixas, muitas delas espinhosas". A definição acerta nas plantas e deixa de fora a cor. Quem batizou essa mata não falava português, e o nome que escolheu descreve o que o olho enxerga na seca.
Caatinga vem do tupi. Ka'a quer dizer mata, folha, erva. Tinga quer dizer branco. Juntas, as duas palavras formam mata branca, e a tradução intriga quem conhece o sertão só por fotografia de estação chuvosa, com tudo verde.
A explicação está no calendário. Durante a estiagem, que ocupa a maior parte do ano em boa parte do semiárido, as árvores derrubam as folhas para não perder água pela transpiração. Sobram os galhos nus, de casca clara, cinzenta, quase prateada sob o sol. O chão de terra clara reflete a luz e reforça o efeito. De longe, o mato inteiro parece desbotado.
O nome registra, portanto, um retrato tirado na estação seca. Os povos indígenas do Nordeste chamavam a mata pela aparência que ela exibia na maior parte dos meses, e os portugueses que chegaram depois adotaram a palavra sem traduzir. Cronistas, vaqueiros e padres missionários escreveram caatinga em cartas e relatórios durante três séculos, e nenhum termo europeu conseguiu tomar o lugar dela na boca de quem vivia no sertão.
Há um detalhe que a imagem esconde. Mata branca não quer dizer mata morta. Basta uma semana de chuva para os mesmos galhos se cobrirem de folhas, e a paisagem que parecia cinza fica verde em poucos dias. O nome guarda metade da história, e a outra metade aparece quando se olha para as plantas uma a uma.
Para entender como ka'a e tinga se juntaram, primeiro é preciso conhecer a língua que deu nome a meio Brasil e o jeito com que ela montava palavras.
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I A Raiz
Duas palavras da língua da costa
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O tupi antigo era a língua dos tupinambás, dos tupiniquins e de outros povos que ocupavam quase todo o litoral brasileiro no século XVI. Os jesuítas aprenderam essa língua para pregar aos indígenas, e o padre José de Anchieta publicou em Coimbra, em 1595, a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil.
A língua formava nomes por justaposição (colar uma palavra na outra, sem preposição no meio). O substantivo vinha primeiro e a qualidade vinha depois. Ka'a seguido de tinga dá mata branca, na mesma ordem em que o português diria.
O apóstrofo de ka'a marca uma oclusiva glotal (uma pequena parada de ar na garganta, no meio da palavra). Os portugueses ouviam a pausa e escreviam as duas vogais separadas, caa. Daí a grafia com dois as, que o dicionário conserva até agora.
Ka'a é uma das raízes mais produtivas do tupi. Capim vem de ka'a com pi'i (fino), a folha delgada. Capoeira vem de ka'a com puera (o que já foi), o mato ralo que cresce onde a floresta original foi derrubada. Caipora vem de ka'a com pora (morador), o habitante do mato, a entidade que protege os bichos.
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Em tupi, a mesma palavra servia para a folha e para a floresta inteira.
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Tinga também se espalhou pelo mapa. Itinga junta y (água) com tinga e quer dizer água branca; é nome de rio e de cidade no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Jacutinga junta jacu, a ave, com tinga, e nomeia uma espécie de plumagem escura e crista branca. Guaratinguetá, no interior paulista, costuma ser lido como o lugar de muitas garças brancas.
O engenheiro baiano Teodoro Sampaio reuniu centenas desses nomes em O Tupi na Geografia Nacional, publicado em 1901. O livro mostrou que boa parte dos rios, serras e cidades do Brasil carrega uma descrição de paisagem, e caatinga entrou na lista com o sentido de mato branco.
Na fala do sertão, a pausa da garganta sumiu e a palavra encolheu para catinga. As duas formas convivem nos textos antigos. O português registra ainda uma segunda catinga, com o sentido de cheiro forte e desagradável. A origem dessa segunda palavra é discutida: alguns autores a ligam ao tupi, outros a outras fontes, e faltam documentos antigos que mostrem a passagem. O que se sabe é que nenhuma prova a liga à mata branca.
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II A Viagem
Do viajante ao mapa do botânico
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Os primeiros europeus que atravessaram o sertão descreveram as plantas pelos nomes que ouviam dos indígenas. O colono português Gabriel Soares de Sousa, no Tratado Descritivo do Brasil, de 1587, falou de uma árvore que chamou de ambu, cujas raízes os índios cavavam para beber a água guardada nelas durante a seca. É o umbuzeiro, e o nome tupi chegou ao português quase intacto.
A mata inteira recebeu o mesmo tratamento. Os portugueses não tinham palavra para uma floresta que perde a folha no calor, porque na Europa as folhas caem no frio. Adotaram caatinga porque a palavra já descrevia o fenômeno que eles viam pela primeira vez.
No século XIX, a ciência tentou dar outro nome à paisagem. O botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, que percorreu o Brasil entre 1817 e 1820, dividiu o país em províncias vegetais batizadas com nomes de ninfas gregas. A caatinga virou Hamadryades (as ninfas que vivem dentro das árvores), e o mapa com essa divisão saiu na Flora Brasiliensis, em 1858.
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O latim do botânico ficou no livro; o tupi do sertanejo ficou no mapa.
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Nenhum vaqueiro chamou a mata de Hamadryades. A palavra de Martius sobreviveu nos manuais de botânica, e caatinga continuou na boca de quem morava lá.
Quem levou a palavra para a literatura nacional foi o engenheiro e jornalista Euclides da Cunha. Em 1897, ele cobriu a Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo. Cinco anos depois publicou Os Sertões, em que dedicou capítulos inteiros à terra, ao clima e às plantas da região.
No livro, Euclides descreve a caatinga como um obstáculo para as tropas do governo, que se enroscavam nos espinhos e ficavam sem água, enquanto os sertanejos conheciam cada planta que dava sombra, fruta ou líquido. Dali saiu a frase que o Brasil decorou: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte." (Euclides da Cunha, Os Sertões, 1902).
Em 1938, Graciliano Ramos publicou Vidas Secas, e a caatinga ganhou uma família. Fabiano, a mulher Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia atravessam a mata branca fugindo da estiagem. O romance fixou no leitor urbano a imagem que o nome tupi já carregava havia séculos: galhos cinzentos, chão rachado, céu sem nuvem.
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