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O ímã chegou ao mar antes do nome. Na China da dinastia Song, o erudito Shen Kuo escreveu em 1088 os Mengxi bitan (Ensaios do Lago dos Sonhos), em que descreve uma agulha esfregada em pedra-ímã que aponta para o sul.
Shen Kuo anotou também um detalhe que os europeus só mediriam séculos depois: a agulha não apontava exatamente para o sul geográfico, desviava um pouco para leste. Os chineses usavam esse aparelho primeiro na geomancia (a arte de orientar casas e túmulos pela paisagem) e só depois nos navios.
Na Europa, o registro mais antigo é de um monge inglês. Alexander Neckam, professor em Paris e depois abade de Cirencester, escreveu perto de 1190 o tratado De naturis rerum (Sobre a natureza das coisas), contando que os marinheiros, com o céu encoberto, tocavam uma agulha no ímã para achar o norte.
Ninguém sabe se a agulha viajou da China pela Rota da Seda, se foi trazida por mercadores árabes pelo Oceano Índico ou se foi inventada de novo no Mediterrâneo. Faltam documentos do caminho entre um registro e outro, e os historiadores da ciência seguem sem resposta.
O passo decisivo para a caixa veio em 1269. Pierre de Maricourt, engenheiro francês conhecido como Petrus Peregrinus, escreveu a Epistola de magnete (Carta sobre o ímã) e descreveu uma agulha presa num eixo dentro de um recipiente com tampa e borda graduada.
A caixa de Peregrinus resolvia os três problemas do convés: o vento não alcançava a agulha, o eixo segurava o balanço e a tampa protegia o metal da maresia. A partir dali, agulha e estojo passaram a viajar como peça única, e o nome de um podia servir para o outro.
Pouco depois, a imagem já era comum entre os poetas. Dante Alighieri usou a agulha para descrever uma voz que o atraía no Paraíso, canto XII da Divina Comédia, escrito perto de 1320:
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“fez-me parecer a agulha que se volta para a estrela” (Dante Alighieri, A Divina Comédia, Paraíso, canto XII, c. 1320)
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A estrela do verso é a Polar, que marca o norte no céu. Dante não precisou explicar a imagem: os leitores italianos do século 14 já conheciam a agulha que procura o norte.
A cidade de Amalfi, no sul da Itália, guarda uma estátua de Flavio Gioia, apresentado como inventor da bússola. Os historiadores mostraram que Gioia nunca existiu: o nome nasceu de uma leitura errada de uma frase do humanista Flavio Biondo, do século 15, e se fixou em livros escolares.
A agulha dentro da caixa chegou a Portugal pelos pilotos italianos e catalães. Em 1538, Dom João de Castro mediu a variação da agulha, o desvio entre o norte magnético e o norte verdadeiro, ao longo do Roteiro de Lisboa a Goa, o mesmo desvio que Shen Kuo notara na China quatro séculos antes.
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