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Bússola

/ˈbusolɐ/

Do italiano bussola: a caixinha de buxo que guardava a agulha imantada

Bússola antiga num estojo redondo de madeira sobre carta náutica

Bússola: a caixa de buxo da agulha

▼

O Dicionário Houaiss define bússola como “instrumento de orientação cuja agulha imantada aponta para o norte magnético”. A definição descreve a agulha e esquece a peça que deu nome ao conjunto: a caixinha de madeira onde a agulha ficava guardada.

Toda a utilidade do aparelho mora num fio de ferro esfregado numa pedra-ímã (rocha natural que atrai o ferro). Solto sobre a água ou equilibrado num pino, o fio gira até parar sempre na mesma direção, com sol, chuva ou neblina.

Uma agulha dessas, sozinha, não aguenta uma travessia. O vento do convés a desvia, o balanço do casco a derruba do pino e o sal da maresia enferruja o metal em poucas semanas.

Ela precisava de abrigo. O abrigo era um estojo pequeno e redondo, com tampa, torneado numa madeira clara e dura. Dentro, a agulha girava protegida, e o piloto erguia a tampa só para ler o rumo.

Os marinheiros italianos chamaram o conjunto pelo nome do estojo. Disseram bussola, e a palavra seguiu nos porões, nas cartas náuticas e nos tratados até chegar ao português.

Os navegadores portugueses do século 15, que levaram o instrumento até a Índia, quase não usavam essa palavra. Nos roteiros (diários de rota dos pilotos) eles escreviam agulha de marear, nomeando a peça que trabalhava. A língua, com o tempo, preferiu o nome italiano, o da caixa.

Hoje a bússola vive dentro do celular, sem madeira, sem tampa e sem agulha. Um sensor eletrônico mede o campo magnético da Terra e desenha uma seta na tela, e o ícone do aplicativo continua com o nome do estojo.

A palavra guardou o embrulho e deixou o conteúdo sem nome próprio. Para entender essa troca, a história começa numa árvore de jardim e na palavra grega que a nomeava.

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I  A Raiz

A árvore dentro da palavra

O buxo (Buxus sempervirens, arbusto de folha miúda usado em cerca viva de jardim) dá uma madeira amarelada, densa e de veio fino, que quase não racha. Os torneiros da Antiguidade faziam com ela pentes, piões, flautas e caixinhas.

Os gregos chamavam a árvore de pyxos (buxo) e a caixinha feita dela de pyxis (caixa de buxo). Com o tempo, pyxis passou a nomear qualquer recipiente pequeno com tampa, de madeira, marfim ou metal, onde se guardava remédio, joia ou pó de maquiagem.

Os romanos herdaram as duas palavras. Buxus ficou para a planta, e pyxis entrou no latim como nome da caixinha. No latim tardio (o latim falado nos últimos séculos do Império Romano), a forma se misturou com a da árvore e surgiram buxis e buxida, as duas com o sentido de estojo.

Dessa buxida saiu o italiano bossola, depois bussola. O Dizionario etimologico della lingua italiana, de Manlio Cortelazzo e Paolo Zolli, publicado a partir de 1979, liga a palavra a esse latim tardio e registra o sentido antigo de caixinha, muito antes do sentido de instrumento.

O instrumento ganhou o nome do estojo porque o estojo era a parte que se via sobre a mesa do piloto.

A troca tem lógica de bordo. A agulha era um fio fino, quase invisível de longe. A caixa redonda, com a tampa aberta, ocupava o lugar fixo perto do leme, e quem pedia o rumo apontava para ela.

O primeiro marinheiro a usar bussola nesse sentido não deixou nome. Os etimólogos italianos discordam sobre o século exato da passagem, porque os portulanos (manuais de navegação costeira da Idade Média) misturam palavras para a caixa, a agulha e a rosa dos ventos, e poucos chegaram inteiros até hoje.

A família grega rendeu outros parentes no português. A píxide, o vaso com tampa onde a Igreja guarda as hóstias consagradas, vem direto de pyxis, e conserva até hoje a forma da caixinha antiga.

O inglês fez o mesmo caminho por outra porta. A palavra box, caixa, também descende de buxus e pyxis, e o arbusto, em inglês, continua se chamando box.

No português, a árvore ficou buxo, o vaso de igreja ficou píxide e o instrumento de navegação ficou bússola. São três palavras de som diferente para a mesma madeira amarela.

 
 

II  A Viagem

Da corte chinesa ao porto de Amalfi

O ímã chegou ao mar antes do nome. Na China da dinastia Song, o erudito Shen Kuo escreveu em 1088 os Mengxi bitan (Ensaios do Lago dos Sonhos), em que descreve uma agulha esfregada em pedra-ímã que aponta para o sul.

Shen Kuo anotou também um detalhe que os europeus só mediriam séculos depois: a agulha não apontava exatamente para o sul geográfico, desviava um pouco para leste. Os chineses usavam esse aparelho primeiro na geomancia (a arte de orientar casas e túmulos pela paisagem) e só depois nos navios.

Na Europa, o registro mais antigo é de um monge inglês. Alexander Neckam, professor em Paris e depois abade de Cirencester, escreveu perto de 1190 o tratado De naturis rerum (Sobre a natureza das coisas), contando que os marinheiros, com o céu encoberto, tocavam uma agulha no ímã para achar o norte.

Ninguém sabe se a agulha viajou da China pela Rota da Seda, se foi trazida por mercadores árabes pelo Oceano Índico ou se foi inventada de novo no Mediterrâneo. Faltam documentos do caminho entre um registro e outro, e os historiadores da ciência seguem sem resposta.

O passo decisivo para a caixa veio em 1269. Pierre de Maricourt, engenheiro francês conhecido como Petrus Peregrinus, escreveu a Epistola de magnete (Carta sobre o ímã) e descreveu uma agulha presa num eixo dentro de um recipiente com tampa e borda graduada.

A caixa de Peregrinus resolvia os três problemas do convés: o vento não alcançava a agulha, o eixo segurava o balanço e a tampa protegia o metal da maresia. A partir dali, agulha e estojo passaram a viajar como peça única, e o nome de um podia servir para o outro.

Pouco depois, a imagem já era comum entre os poetas. Dante Alighieri usou a agulha para descrever uma voz que o atraía no Paraíso, canto XII da Divina Comédia, escrito perto de 1320:

“fez-me parecer a agulha que se volta para a estrela” (Dante Alighieri, A Divina Comédia, Paraíso, canto XII, c. 1320)

A estrela do verso é a Polar, que marca o norte no céu. Dante não precisou explicar a imagem: os leitores italianos do século 14 já conheciam a agulha que procura o norte.

A cidade de Amalfi, no sul da Itália, guarda uma estátua de Flavio Gioia, apresentado como inventor da bússola. Os historiadores mostraram que Gioia nunca existiu: o nome nasceu de uma leitura errada de uma frase do humanista Flavio Biondo, do século 15, e se fixou em livros escolares.

A agulha dentro da caixa chegou a Portugal pelos pilotos italianos e catalães. Em 1538, Dom João de Castro mediu a variação da agulha, o desvio entre o norte magnético e o norte verdadeiro, ao longo do Roteiro de Lisboa a Goa, o mesmo desvio que Shen Kuo notara na China quatro séculos antes.

 

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III  O Que Fica

Uma constelação chamada estojo

O estojo de buxo subiu ao céu no século 18. O astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille passou 1751 e 1752 no Cabo da Boa Esperança, no sul da África, mapeando quase 10 mil estrelas do hemisfério sul.

Lacaille batizou as constelações novas com instrumentos da ciência do seu tempo: o telescópio, o relógio de pêndulo, o microscópio. Para um grupo de estrelas fracas perto da Via Láctea, escolheu Pyxis Nautica, a bússola náutica.

O nome encurtou para Pyxis e é o oficial até hoje, na lista da União Astronômica Internacional. Quem olha o céu do Brasil numa noite escura de março encontra, em latim e grego, a palavra caixinha pendurada entre as estrelas.

A constelação leva o nome da caixa, e não da agulha, pela mesma troca que os marinheiros italianos fizeram no convés.

Na terra, o português deu à bússola um sentido figurado. Perder a bússola é perder o rumo, e bússola moral é o critério que uma pessoa usa para decidir o certo e o errado quando ninguém está olhando.

O sentido figurado só funciona porque o instrumento resolve um problema simples: dizer para onde fica o norte quando todo o resto some. Neblina, noite sem estrelas e mar sem costa à vista eram as horas em que o piloto abria a tampa.

O celular trocou o estojo por um magnetômetro (sensor eletrônico que mede o campo magnético). Não há madeira, nem tampa, nem pino. Mesmo assim, o aplicativo desenha uma rosa dos ventos redonda, imitando a caixa que guardava a agulha nos navios.

A bússola de mão dos escoteiros e dos guardas florestais conserva o desenho medieval quase inteiro: caixa redonda, tampa articulada, agulha num pino e borda graduada em 360 graus. Só a madeira de buxo saiu de cena, trocada por plástico e alumínio.

Quem quiser ver a palavra trabalhando pode seguir três passos.

1. Procure buxo num jardim público ou numa floricultura e repare na folha pequena e na cerca viva aparada em forma de caixa.

2. Abra um dicionário etimológico no verbete píxide e compare com bússola: repare no pyxis grego nos dois.

3. Num céu escuro de outono no Brasil, abra um mapa de estrelas e encontre Pyxis, logo abaixo da constelação de Hidra.

A madeira amarela do buxo deu nome a uma caixa grega, a um vaso de igreja, a uma palavra inglesa, a uma constelação e ao instrumento que guiou as caravelas. A agulha fazia o trabalho; o estojo ficou com a fama.

 
 
 
 
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